A  abrir

O  SILÊNCIO  DE  PAULO

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Não nos faltam desde já orientações nem calendário de efemérides para a celebração do Ano Paulino, felizmente proclamado por S.S. Bento XVI. O decisivo, porém, será deixar-nos contagiar pelo ardor do Apóstolo das Gentes no seu amor a Jesus e às almas, assim como aumentar a nossa devoção a S. Paulo, vivida na Igreja desde sempre, como o testemunham tantos «ex-votos» dos primeiríssimos cristãos.

Das suas palavras de fogo, já reconhecidas na segunda Epístola de S. Pedro como pertencentes à Sagrada Escritura, extrair-se-ão neste Ano novas profundidades e novas luzes, a partir da luz que o envolveu na estrada de Damasco, mas é provável que passe despercebido o período obscuro de Tarso, após a sua conversão. E, no entanto, esse «buraco negro» da sua biografia pesa tanto ou mais do que o fecundo e extensíssimo apostolado que desenvolveu ao longo de todo o império romano.

Para o Apóstolo, a descoberta surpreendente de Cristo vivo foi simultânea com a descoberta da Igreja – «Eu sou Jesus, a Quem tu persegues» – e do sentido da sua existência, dentro da Igreja, obedecendo à Igreja, «servindo sempre a Igreja como ela quer ser servida», para usarmos uma conhecida expressão de S. Josemaria. «Senhor, que queres que eu faça?», foi a pergunta imediata do grande convertido. «Levanta-te, entra na cidade, e lá te dirão o que deves fazer», responde-lhe Jesus. Faz o que te disser a Igreja.

Que desejava a Igreja, senão que se baptizasse e anunciasse o Evangelho, a começar por aqueles que a perseguiam? Assim ele o fez em Damasco, onde os irmãos na fé o livraram de morte certa, e depois em Jerusalém, até que, perante a agitação produzida pela sua pregação e novas ameaças de morte, resolveram refugiá-lo em Tarso, sua terra natal. E o Senhor confirmou a decisão dos Apóstolos: «Sai o mais depressa possível de Jerusalém, porque não receberão o testemunho que dás de Mim (...) Vai, porque te enviarei a nações longínquas». E Saulo obedece, «enterra-se» em Tarso, cala-se, desaparece.

Quando, anos mais tarde, Barnabé precisa dele, tem de «procurá-lo» em Tarso. E, quando o «descobre», leva-o consigo. Ele obedece sempre. É hora de sair à luz? De anunciar de novo Cristo? Pois seja. E aquele que se calou durante anos, nunca mais deixará de falar de Jesus.

 

Conta-se de Josefina Bakhita, que, já próxima do fim da vida, e imobilizada numa cadeira de rodas habitualmente colocada perto do Sacrário, foi visitada por um Cardeal, que lhe perguntou: – «Que está fazendo, irmã?» – «O mesmo que Vossa Eminência: a vontade de Deus».

 

É tão importante falar como calar-nos. Quem não sabe «desaparecer» em serviço da Igreja, não serve para evangelizar. Quem segue a «sua consciência», sem a formar na fé, na oração, no amor e na obediência à Igreja, não segue uma consciência cristã. Anuncia-se a si mesmo, não a Cristo. Quem prefere as suas convicções às da Igreja, não fala, com certeza, em nome dela. Quem não confere as suas opiniões com a doutrina da Igreja, não tem sequer opiniões católicas, mas diversa crença. Só crê em si.

O silêncio de Paulo em Tarso não é um silêncio qualquer; é um silêncio de fogo, de amor, de humildade, de serviço à Igreja. A «esterilidade apostólica» de Paulo em Tarso é só aparente: «Se o grão de trigo que cai na terra não morre», se não germina oculta e interiormente, «fica só». Que bem entendia o Apóstolo as palavras e o exemplo de Jesus! «Mas, se morre, produz muito fruto».

 

A experiência é de todos os tempos. E os exemplos podiam multiplicar-se, como o daquele pároco que parecia mudo. Tímido com os paroquianos, só o viam na igreja, nas suas rezas ou escondido no confessionário... – «Não é que eu não estimasse o senhor prior – desculpava-se alguém do elogio que estava tecendo ao novo pároco que lhe sucedeu –, mas a verdade é que, desde que o senhor padre chegou cá, a paróquia é outra! Tudo se animou!» – «Pois olhe: também eu julgava que isto estava morto... E estava vivo! Eu não fiz nada, sabe? Foi só mexer nas brasas, e é o que se vê. Eu suponho que tudo se deve a ele, talvez por andar sempre a rondar o Sacrário...»

 

«Fides ex auditu»: é preciso falar. A evangelização é palavra que anuncia o Verbo feito Homem, mas a boca deve falar da abundância do coração; sem intimidade com Ele, soa a falso. Contudo, até disso se serve o Espírito Santo para comunicar a fé. Portanto, ainda que nos sintamos vazios de amor, não deixemos de cumprir a nossa missão «profética». Não era nas suas qualidades oratórias que confiava Paulo, mas na graça poderosa do Senhor. E no silêncio da oração é que o aprendeu, e a alegrar-se até dos falsos apóstolos que anunciavam Cristo por espírito de rivalidade. Deus nos livre de tão baixa intenção! Mas, se a nossa fraqueza espiritual nos é patente, digamos pelo menos aquela jaculatória de um sacerdote sempre que ia pregar: – «Senhor! Eles não têm culpa de eu ser como sou!»

 

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial