OPINIÃO

O CELIBATO SACERDOTAL



Alfonso Carrasco*

Faculdade de Teologia São Dâmaso (Madrid)



Se o celibato ou «continência perfeita e perpétua pelo reino dos céus» não é exigido «pela natureza do sacerdócio», tem no entanto com ele «uma grande congruência». É um carisma, um dom particular de Deus, sem o qual a Igreja latina não autoriza a ordenação sagrada, considerando-a como estando estreitamente ligado a ele. Portanto, retomando as palavras do Concílio (Presbyterorum ordinis, 16), o celibato é «ao mesmo tempo sinal e estímulo da caridade pastoral» e «uma fonte singular de fecundidade espiritual no mundo». Ele representa um sinal profético do Reino de Deus no mundo.

Nesta perspectiva, o celibato deve ser compreendido principalmente como uma resposta ao amor pleno e total de que Jesus Cristo deu testemunho entregando-se aos homens, retribuído por um amor que, por graça e vocação particulares, se esforça também neste aspecto por seguir as pegadas do Senhor.

O celibato é, portanto, antes de mais nada um sinal do amor do Senhor e da novidade do Reino que Ele tornou presente; dá testemunho da presença de Jesus, da nova realidade de humanidade e amor que Ele manifestou ao mundo e que faz com que cada cristão possa ter uma relação gratuita e desprendida com as coisas, e uma relação casta e virginal com as pessoas.

O celibato tem, pois, um valor profético próprio, como nova forma do dom esponsal de si no amor que anuncia à Igreja e ao mundo a presença do Reino e o amor do Senhor, o único capaz de renovar e redimir todas as coisas.

Tornando presente na Igreja a obra salvífica de Cristo, através do celibato o sacerdote manifesta, de uma forma particularmente apropriada à sua missão própria, o amor vivido pessoalmente por Jesus Cristo no sacrifício da Cruz e no abandono à vontade do Pai para a salvação de todos os homens, fundamento de todo o sacerdócio. A vida de celibato do sacerdote torna-se assim uma manifestação do amor pelo qual Cristo realiza a obra da Redenção, um amor que Ele oferece e pede a todos os fiéis, segundo diversos modos, com vista à sua salvação.

Eis porque o celibato sacerdotal é um sinal eminente do primado da caridade, sem o qual tudo o que é cristão perderia o seu significado, e sem o qual a palavra profética dirigida a cada membro da Igreja seria vazia de sentido: a caridade de Cristo deve penetrar até ao fundo da alma e do corpo modelando-os totalmente, incluindo as relações afectivas pessoais.

Mas o celibato é também, para o sacerdote, um sinal e um estímulo da caridade. Ele conserva a memória do seu encontro pessoal com o amor do Senhor e da sua resposta livre e pessoal, e dá testemunho de que a missão sacerdotal não poderia reduzir-se a um exercício formal de práticas impessoais e mecânicas, mas que ela é, pelo contrário, na sua própria raiz, um gesto pessoal e livre do dom de si no amor.

O celibato é, pois, para o sacerdote um sinal da caridade de Cristo, recebida e retribuída, e um constante impulso para viver a sua missão como acto livre de fé e de amor pelo Senhor e de serviço humilde por Ele, consagrando-se totalmente ao bem de todos os homens, a fim de que resplandeçam na sua vida a verdade e a caridade manifestadas por Cristo, e eles possam assim alcançar a salvação.

Por este meio, o Senhor faz participar o sacerdote daquela misteriosa fecundidade própria da verdadeira caridade concedida por Deus. Esta fecundidade, presente na marca que o Criador deixou em todas as manifestações de amor, culmina no gesto pessoal e livre de caridade vivida no seguimento de Cristo, cujos frutos são confiados ao Espírito de Deus. O sacerdote que vive o celibato manifesta, assim, uma dimensão essencial e profunda da paternidade, que não é só algo físico, pois a verdadeira fecundidade e o verdadeiro destino do homem consistem na participação – por dom divino – na geração daqueles que foram chamados a ser filhos de Deus.



**Videoconferência mundial organizada pela Congregação para o Clero sobre o tema O sacerdócio ministerial, em 27-VI-03, tomada da página na Internet da Congregação: www.clerus.org.


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