OPINIÃO

A BELEZA DOS SANTOS

E A MORTIFICAÇÃO CORPORAL *

 

 

Pablo Martí Del Moral

 

(continuação)

A beleza da pessoa

Passemos ao segundo ponto. Parece-me que o outro motivo fundamental da mortificação corporal é o adorno do corpo, ou se quisermos, o corpo como adorno. Com duas precisões. Falamos de adorno não no sentido de algo bonito mas supérfluo, mas como algo essencial ou transcendental, quer dizer, como beleza. Por outro lado, sublinhamos que a beleza do corpo exprime e é parte da beleza da pessoa. Daí que sempre seja uma beleza individual e singular, própria de cada pessoa, que foge da uniformidade e da uniformização de critérios gerais.

Ora bem, para conseguir a beleza do corpo ou no corpo, também é precisa a mortificação corporal. Sem dúvida, o corpo «danone» consegue-se tomando muitos iogurtes, mas ao mesmo tempo deixando de tomar muitas outras coisas, boas e saborosas, que atraem a atenção e o gosto, mas às quais é preciso responder com um exigente «não».

Por vezes, a beleza estética requer uma mortificação corporal mais específica. Aqui aparece o campo das operações cirúrgicas, sem dúvida violentas e invasoras mas de aceitáveis resultados nalgumas ocasiões, estilo lipo-sucção, esticamentos faciais, nariz, etc. De novo temos uma mortificação do corpo, mas por um motivo que transcende e supera o sacrifício: a beleza do corpo.

Neste âmbito entra também todo o tema das exigências da moda, em relação à incomodidade (determinados saltos nos sapatos não são o melhor nem para o pé nem para o caminhante, mas a beleza justifica essa mortificação), ao frio ou ao calor; ou do costume (não se pode esquecer o choro de uma miudinha ao abrir-lhe um buraquinho nas orelhas). Neste contexto, talvez um ponto especial merece o adorno do corpo mediante o piercing, a tatuagem, etc.

 

Para o cristão, o adorno do corpo - o corpo como adorno e manifestação da pessoa - é fundamental. Esse adorno manifesta-se no sorriso, no esforço às vezes heróico pelo outro (entre os esposos ou entre amigos; o pai ou a mãe pelos seus filhos), no compartilhar a pobreza do pobre e a enfermidade do enfermo, etc. Como se vê, é um adorno da pessoa, manifestado de modos visíveis (o que sempre se chamou obras de misericórdia corporais). Mas como se trata de um corpo animado pelo espírito, pela alma, na unidade da pessoa, o adorno também é espiritual: o adorno do corpo pobre ou enfermo é o amor solidário desse corpo, dessa pessoa.

Principalmente neste sentido de adorno e beleza espiritual do corpo, tem sido entendida a mortificação corporal do cristão. Também directamente relacionada com a Paixão de Jesus. Trata-se de adornar o corpo em correspondência a Jesus Cristo Crucificado. O emprego tradicional na Igreja de práticas de penitencia corporal, como o cilicio ou - no caso que nos ocupa - as disciplinas, vai unido a esse adornar o corpo espiritualmente com os sofrimentos e as chagas de Cristo, compartilhando no nosso corpo as dores de Jesus.

Para compreender isto, é preciso tentar entender o sacrifício de Cristo. Só assim pode haver tolerância e respeito para com o cristão. Provavelmente, para a nossa sociedade, este é o aspecto da mortificação corporal que mais custa compreender. Talvez porque as disciplinas ou o cilicio se vêem como castigo ao corpo.

Cristo sofre uma violência brutal por parte dos soldados e do povo. A prisão, os insultos, a flagelação, a coroa de espinhos, o caminho da cruz e a crucifixão. Mas esta descrição não explica quase nada da realidade profunda que aí está a acontecer.

A realidade que acontece é que Cristo transforma a violência brutal da humanidade ao longo da Historia no amor total de Deus e dos homens. Cristo não sofre sem mais a violência de um condenado a morte, mas Ele, que é dono da sua vida, oferece-a, e oferece-a por amor à humanidade, aos pecadores, aos marginalizados, aos pobres. Por isso, o Crucificado adorna: exprime através do seu corpo mortificado a coroa do amor desinteressado e total por Deus e pelos outros.

Cristo sofre porque quer, e quer porque com o seu sofrimento une-se a cada pessoa que sofre, acompanha-a, sustenta-a, dá-lhe esperança. No se pode pedir ao cristão que renuncie à cruz («o sinal do cristão é a santa cruz»), nem que renuncie ao crucifixo.

O sofrimento do cristão - e, dentro dele, a mortificação corporal - é a manifestação de uma realidade mais profunda: a sua solidariedade e cercania com o sofrimento de todos os homens e de cada homem ao longo da História e de sua vida. Não é um castigo ao corpo, como se este fosse mau ou desprezível, mas tudo o contrário. É um adorno do corpo que faz mais bela a pessoa, já que exprime na sua carne o amor solidário e a união com Cristo e com a humanidade sofredora, necessitada, marginalizada, esquecida.

Não é obrigatório ter um corpo «danone», nem andar à moda embora seja incómoda, nem levar um piercing ou fazer-se tatuar, como também não é obrigatório utilizar a mortificação corporal do cilício ou das disciplinas.

Também estes não são os únicos meios para adornar o corpo. Mas - são uns meios, utilizados por muitos hoje como ontem, que deram provas da sua eficácia para chegar a uma particular beleza. Aí temos sobre tudo o exemplo de Cristo e de tantos mártires. E também o exemplo da vida e obra de tantos santos. Não é fácil dedicar a vida a Deus e aos outros demais, antes e por cima do que pode apetecer ao próprio eu: cuidar e viver com os mais pobres entre os pobres, não só um dia, mas um dia e outro, a vida inteira; etc.

Por que estigmatizar alguém ou julgar a priori, com um certo grau de intolerância? Antes, tratemos de compreender as razões que pode ter cada um para viver e actuar à sua maneira. Entre todos, procurando cada um ser melhor pessoalmente, faremos uma civilização e um mundo melhor.

 

 

 

 

 

 



*  Oferecemos aos nossos leitores a primeira parte do artigo proporcionado pela Associação Almudí, de Valência (Espanha): www.almudi.org.

Subtítulo da Redacção da CL.


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