DOCUMENTAÇÃO

JOSEPH RATZINGER

 

JESUS DE NAZARÉ

Excerto do Prefácio

 

 

Está prevista para a primavera deste ano a publicação do primeiro volume da obra que o Cardeal Joseph Ratzinger estava a preparar desde antes da sua eleição para Romano Pontífice, e que terá o título de «Jesus de Nazaré. Do Baptismo no Jordão à Transfiguração». Como o Papa diz, não é um acto do magistério pontifício, mas um estudo teológico e espiritual. A Libreria Editrice Vaticana, que tem os direitos sobre todos os escritos do Papa, cedeu à Casa Editorial Rizzoli os direitos de tradução, difusão e comercialização da obra em todo o mundo (a edição original em alemão fica a cargo da editora Herder). Apresentamos alguns trechos do Prefácio do Autor, disponibilizados por Rizolli.

 

 

Ao livro sobre Jesus, do qual apresento ao público agora a primeira parte, cheguei após um longo caminho interior. Nos tempos da minha juventude - nos anos trinta e quarenta - foram publicados uma série de livros apaixonantes sobre Jesus. Recordo apenas o nome de alguns autores: Karl Adam, Romano Guardini, Franz Michel Willam, Giovanni Papini, Jean Daniel-Rops. Em todos estes livros, a imagem de Jesus Cristo era delineada a partir dos Evangelhos: como viveu na Terra e como, embora sendo plenamente homem, levou ao mesmo tempo aos homens Deus, com o qual, como Filho, era uma coisa só. Assim, através do homem Jesus, Deus tornou-se visível, e a partir de Deus pôde ver-se a imagem do homem justo.

A partir dos anos cinquenta, a situação mudou. O distanciamento entre o «Jesus histórico» e o «Cristo da fé» tornou-se cada vez maior: afastaram-se um do outro à vista desarmada. Mas que significado pode ter a fé em Jesus Cristo, em Jesus Filho do Deus vivo, se depois o homem Jesus era tão diferente de como o apresentavam os evangelistas e de como o anuncia a Igreja a partir dos Evangelhos?

Os progressos da investigação histórico-crítica levaram a distinções cada vez mais subtis entre os diversos estratos da tradição. Por trás deles, a figura de Jesus, sobre a qual se apoia a fé, tornou-se cada vez mais incerta, tomou contornos cada vez menos definidos.

Ao mesmo tempo, as reconstruções deste Jesus, que devia ser buscado a partir das tradições dos evangelistas e suas fontes, tornaram-se cada vez mais contraditórias: desde o revolucionário inimigo dos romanos que se opunha ao poder constituído e naturalmente fracassa, ao manso moralista que tudo permite e inexplicavelmente acaba por causar a sua própria ruína. Quem ler um certo número destas reconstruções pode constatar rapidamente que elas são mais fotografias dos autores e dos seus ideais do que o verdadeiro questionamento de uma imagem que se tornou confusa. Entretanto, ia crescendo a desconfiança em relação a estas imagens de Jesus, e a própria figura de Jesus ia-se afastando cada vez mais de nós.

De qualquer modo, todas estas tentativas deixaram atrás de si, como denominador comum, a impressão de que sabemos muito pouco de seguro sobre Jesus, e que só mais tarde a fé na sua divindade plasmou a sua imagem. Esta impressão, entretanto, penetrou profundamente na consciência comum da cristandade. Semelhante situação é dramática para a fé, porque torna incerto o seu autêntico ponto de referência: a amizade íntima com Jesus, de quem tudo depende, corre o risco de cair no vazio. [...]

 

Senti a necessidade de dar aos leitores estas indicações de carácter metodológico porque elas determinam o caminho de minha interpretação da figura de Jesus no Novo Testamento. Pelo que se refere à minha apresentação de Jesus, isto significa antes de mais que eu tenho confiança nos Evangelhos. Naturalmente, dou por descontado quanto o Concílio e a moderna exegese dizem sobre os géneros literários, sobre a intencionalidade das afirmações, sobre o contexto comunitário dos Evangelhos e as suas palavras neste contexto vivo. Embora aceitando tudo isto, na medida em que me era possível, quis fazer a tentativa de apresentar o Jesus dos Evangelhos como o verdadeiro Jesus, como o «Jesus histórico» no verdadeiro sentido da expressão.

Estou convencido - e espero que também o leitor possa ver - que esta figura é muito mais lógica e, do ponto de vista histórico, também mais compreensível do que as reconstruções que pudemos encontrar nas últimas décadas. Eu creio que precisamente este Jesus - o dos Evangelhos - é uma figura historicamente sensata e convincente. Somente se aconteceu algo extraordinário, se a figura e as palavras de Jesus superaram radicalmente todas as esperanças e as expectativas da época, se explicam a Crucifixão e sua eficácia.

Aproximadamente vinte anos depois da morte de Jesus, encontramos já plenamente desenvolvida no grande hino a Cristo que é a Carta aos Filipenses (Fil 2, 6-8) uma cristologia, na qual se diz de Jesus que era igual a Deus, mas despojou-se a si próprio, fez-se homem, humilhou-se até à morte na cruz, e que a ele compete a homenagem da criação, a adoração que no profeta Isaías (Is 45, 23) Deus proclamou ser devida só a Ele.

A investigação crítica faz com razão a pergunta: o que aconteceu nestes vinte anos desde a Crucifixão de Jesus? Como se chegou a esta Cristologia?

A acção de formações comunitárias anónimas, das quais se procura encontrar os expoentes, na realidade não explica nada. Como é possível que agrupamentos desconhecidos pudessem ser tão criativos, convincentes até ao ponto de se imporem? Não é mais lógico, também do ponto de vista histórico, que a grandeza se coloque no início e que a figura de Jesus fizesse na prática saltar todas as categorias disponíveis e assim poder ser compreendida só a partir do mistério de Deus?

Naturalmente, crer que sendo mesmo homem Ele fosse Deus e o deu a conhecer servindo-se das parábolas e de um modo cada vez mais claro, vai muito além das possibilidades do método histórico. Pelo contrário, se a partir desta convicção de fé se lêem os textos com o método histórico e a sua abertura para aquilo que é maior, eles abrem-se para mostrar um caminho e uma figura que são dignos de fé. Também se esclarece a disputa presente em muitos lugares nos escritos do Novo Testamento em torno da figura de Jesus e, apesar de todas as diversidades, chega-se ao profundo acordo com estes escritos.

É claro que, com esta visão da figura de Jesus, eu vou muito além daquilo que diz, por exemplo, Schnackenburg em representação de uma boa parte da exegese contemporânea. Espero, porém, que o leitor compreenda que este livro não foi escrito contra a exegese moderna, mas com grande reconhecimento pelo muito que ela nos deu e continua a dar-nos.

Fez-nos conhecer uma grande quantidade de fontes e de concepções através das quais a figura de Jesus pode tornar-se presente com uma vivacidade e uma profundidade que há poucas décadas não podíamos nem sequer imaginar. Eu apenas procurei ir além da mera interpretação histórico-crítica, aplicando os novos critérios metodológicos que nos permitem uma interpretação propriamente teológica da Bíblia e que naturalmente requerem fé, sem por isso querer e poder renunciar à seriedade histórica. Certamente, não é necessário dizer expressamente que este livro não é em absoluto um acto magisterial, mas unicamente a expressão de minha investigação pessoal do «rosto do Senhor» (Sl 27, 8). Por conseguinte, quem quer que seja tem liberdade para me contradizer. Só peço às leitoras e aos leitores uma antecipação de simpatia, sem a qual não existe compreensão possível.

Como disse no começo do Prefácio, o caminho interior para este livro foi longo. Pude começar a trabalhar nele durante as férias de 2003. Em Agosto de 2004 dei forma definitiva aos capítulos 1 a 4. Depois da minha eleição para a sede episcopal de Roma, utilizei todos os momentos livres para levá-lo adiante. Dado que não sei quanto tempo e quantas forças me serão concedidas ainda, decidi publicar agora como primeira parte do livro os primeiros dez capítulos, que vão do baptismo no Jordão até à confissão de Pedro e à Transfiguração.

 

Roma, festa de S. Jerónimo, 30 de Setembro de 2006

 


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