Santíssimo Corpo e Sangue e Cristo

10 de Junho de 2004


Solenidade


RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Da Flor da Farinha os Alimentou, M. Carneiro, NRMS 37

Salmo 80,17

Antífona de entrada: O Senhor alimentou o seu povo com a flor da farinha e saciou-o com o mel do rochedo.


Diz-se o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


O grandioso mistério da santíssima Eucaristia pode ser olhado sob diferentes ângulos. Podemos meditar na Eucaristia vendo Nela o cumprimento das promessas da antiga aliança ou o penhor da glória futura; podemos também ver Nela um sinal do desejo que Deus tem do homem indo ao ponto de querer cear com ele ou a actualização do sacrifício da Cruz. Mas a festa de hoje sublinha sobretudo a presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, essa presença tão real como outrora na Cruz ou em Belém ou glorioso no céu.


Oração colecta: Senhor Jesus Cristo, que neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão, concedei-nos a graça de venerar de tal modo os mistérios do vosso Corpo e Sangue que sintamos continuamente os frutos da vossa redenção.



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: O sacrifício de Melquisedec que ofereceu pão e vinho foi sempre visto pelos padres da Igreja como sendo uma prefiguração do sacrifício de Cristo que se oferece a si próprio nas espécies de pão e vinho.


Génesis 14, 18-20

Naqueles dias, 18Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho. Era sacerdote do Deus Altíssimo 19e abençoou Abraão, dizendo: «Abençoado seja Abraão pelo Deus Altíssimo, criador do céu e da terra. 20Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou nas tuas mãos os teus inimigos». E Abraão deu-lhe a dízima de tudo.


«Melquisedec», rei-sacerdote de «Salém», isto é, Jerusalém. Salém significa paz (xalom); Jerusalém (Yeruxaláyim) significa «fundação de paz»; era a capital dos Jebuseus que David conquistou. Após a expedição de Abraão contra os quatro reis orientais que tinham saqueado a zona do Mar Morto, a Pentápole, Abraão e os seus homens armados tinham chegado vitoriosos (v. 16), mas exaustos. O rei de Jerusalém, reconhecido pelo perigo que Abraão afastara das suas vizinhanças, veio ao seu encontro com abastecimentos de pão e vinho para restabelecer as forças das tropas cansadas. Abraão, agradecido por tal atitude, decide recompensar Melquisedec com o dízimo de todos os despojos que trazia da expedição guerreira. A tradição patrística e a Liturgia, viram na oferta de pão e vinho uma figura do Sacrifício Eucarístico; no Cânone Romano pede-se a Deus que aceite o Sacrifício da Missa como aceitou o sacrifício de Melquisedec. Mas podemos perguntar: esta oferta foi um verdadeiro sacrifício, ou um simples auxílio às tropas cansadas? Se é certo que o verbo hebraico, «trouxe», não pertence ao vocabulário sacrifícial, também é certo que Melquisedec era sacerdote e foi nesta condição que «trouxe pão e vinho», sendo coerente que tivesse sido oferecido antes em sacrifício, talvez em acção de graças da vitória obtida. Pelo Salmo 109 (110) e por Hbr 7, sabemos que Melquisedec é uma figura de Cristo. Também Jesus – o anti-tipo de Melquisedec – alimenta os seus soldados, cansados na batalha contra os inimigos do Reino, com o pão e o vinho eucarístico, o seu Corpo e Sangue oferecido em sacrifício; por isso a Igreja reza: «da robur, fer auxilium»(dá-nos força, traz-nos auxílio).


Salmo Responsorial Sl 109 (110), 1-4 (R. 4bc)


Monição: Jesus Cristo é sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec e a Ele pertencem para sempre a realeza e o poder.


Refrão: O Senhor é sacerdote para sempre.


Ou: Tu és sacerdote para sempre,

segundo a ordem de Melquisedec.


Disse o Senhor ao meu Senhor:

«Senta-te à minha direita,

até que Eu faça de teus inimigos escabelo de teus pés.


O Senhor estenderá de Sião

o ceptro do teu poder

e tu dominarás no meio dos teus inimigos.


A ti pertence a realeza desde o dia em que nasceste

nos esplendores da santidade,

antes da aurora, como orvalho, Eu te gerei».


O Senhor jurou e não Se arrependerá:

«Tu és sacerdote para sempre,

segundo a ordem de Melquisedec».


Segunda Leitura


Monição: A Eucaristia não é algo que a Igreja inventa mas sim que recebe directamente do Senhor e que por sua vez transmite fielmente e imutavelmente. Também nós, como o apóstolo, devemos transmitir às gerações futuras aquilo que recebemos dos nossos pais na fé até que o Senhor venha.


1 Coríntios 11, 23-26

Irmãos: 23Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, 24partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». 25Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». 26Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.


Temos aqui o relato da última Ceia, o mais antigo dos quatro que aparecem no N. T., escrito apenas uns 25 anos após o acontecimento. São Paulo diz que isto mesmo já o tinha pregado aos cristãos (v. 23) uns quatro anos atrás, durante os 18 meses em que evangelizou a cidade de Corinto, por ocasião da sua segunda viagem.

23 «Recebi do Senhor»: O original grego (com o uso da preposição apó e não pará) deixa ver que S. Paulo recebeu esta doutrina pela tradição que remonta ao Senhor e não directamente dele, por meio de alguma revelação, como alguém poderia pensar. «Na noite em que ia ser entregue»: Celebramos hoje uma dupla entrega do Senhor, a sua entrega às mãos dos seus inimigos, para a morrer pelos nossos pecados e nos ganhar a vida divina, e a entrega no Sacramento da SS. Eucaristia, como alimento desta mesma vida divina. Para o seu amor infinito, é pouco dar-se todo uma só vez por todos; quer dar-se todo a cada um de nós todas as vezes que nos disponhamos a recebê-lo!

24 «Isto é o Meu Corpo»: A expressão de Jesus é categórica e terminante, sem deixar lugar a mal entendidos. Não diz «aqui está o meu corpo», nem «isto simboliza o meu corpo», mas sim: «isto é o meu corpo», como se dissesse «este pão já não é pão, mas é o meu corpo». Todas as tentativas heréticas de entender estas palavras num sentido meramente simbólico, fazem violência ao texto e não têm seriedade. É certo que o verbo «ser» também pode ter o sentido de «ser como», «significar», mas isto é só quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê facilmente como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como é que o pode significar. Atenda-se a que Jesus, com a palavra isto não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; portanto não tem sentido dizer que, com a fracção do pão, o Senhor queria representar o despedaçar do seu corpo por uma morte violenta (o corpo entregue); Jesus não podia querer dizer tal coisa, pois, se o quisesse dizer, havia de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era um gesto usual do chefe da mesa em todas as refeições, não sendo possível ver um outro sentido; por outro lado, o beber do cálice já não se podia prestar a um tal sentido.

Os Apóstolos vieram a entender as palavras de Jesus no seu verdadeiro realismo, como aparecem no discurso do Pão da Vida (Jo 6, 51-58). Se Jesus não quisesse dar este sentido realista às suas palavras, também os seus discípulos e a primitiva Igreja não lho podiam dar, porque beber o sangue era algo sumamente escandaloso para gente criada no judaísmo, que ia ao ponto de proibir a comida de animais não sangrados. Se S. Paulo não entendesse estas palavras de Jesus num sentido realista, não teria podido afirmar no v. 27 (omitido na leitura de hoje): «quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor»; e no v. 29 fala de «distinguir o corpo do Senhor».

Paulo VI, na encíclica Misterium fidei, rejeitou as explicações teológicas (transignificação e transfinalização) que não respeitem suficientemente o realismo da presença real: «Mas para que, ninguém entenda erroneamente este modo de presença, que supera leis da natureza e constitui o maior dos milagres no seu género, é preciso seguir com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Pois bem, esta voz, que é um eco perene da voz de Cristo, assegura-nos que Cristo se torna presente neste Sacramento pela conversão de toda a substância do pão no seu corpo e de toda a substância no vinho no seu sangue; conversão admirável e singular à qual a Igreja justamente e com propriedade chama transubstanciação» (atenda-se a que aqui a noção de substância não é a da Física ou da Química, mas a da Metafísica).

24-25 «Fazei isto em memória de Mim»: Com estas palavras, Jesus Cristo entrega aos Apóstolos (e aos seus sucessores) o poder ministerial de celebrar o Mistério Eucarístico; por isso, Quinta-Feira Santa é o dia do sacerdócio e dos sacerdotes.

25 «A Nova Aliança com o meu Sangue»: Jesus compara o seu sangue, que vai derramar na cruz, ao sangue do sacrifício da Aliança do Sinai (cf. Ex 24, 8), como sendo o novo sacrifício com que se ratifica a Nova Aliança de Deus com a Humanidade, aliança anunciada pelos profetas (Jer 31, 31-33). Na Ceia temos o mesmo sacrifício do Calvário antecipado sacramentalmente através das palavras do próprio Jesus. Na Missa temos igualmente o mesmo sacrifício da Cruz renovado e representado sacramentalmente através da dupla consagração feita pelo sacerdote que actua na pessoa e em nome de Cristo, sendo Ele o mesmo oferente principal, a mesma vítima e sendo os merecimentos os mesmos do único Sacrifício redentor a serem aplicados, Sacrifício oferecido de uma vez para sempre (efápax: cf. Hebr 9, 25-28; 10, 10.18).

26 «Anunciareis a Morte do Senhor»: No altar já não se derrama o sangue de Cristo, como na Cruz, mas oferece-se, de modo incruento, o mesmo sacrifício, renovando e representando sacramentalmente o mistério da mesma Morte que se deu no Calvário.


Aclamação ao Evangelho Jo 6, 51


Monição: Jesus é pão vivo para a vida eterna. Jesus é palavra de Deus que dá a vida.


Aleluia


Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor.

Quem comer deste pão viverá eternamente.


Cântico: Az. Oliveira, NRMS 36



Evangelho


São Lucas 9, 11b-17

Naquele tempo, 11estava Jesus a falar à multidão sobre o reino de Deus e a curar aqueles que necessitavam. 12O dia começava a declinar. Então os Doze aproximaram-se e disseram-Lhe: «Manda embora a multidão para ir procurar pousada e alimento às aldeias e casais mais próximos, pois aqui estamos num local deserto». 13Disse-lhes Jesus: «Dai-lhes vós de comer». Mas eles responderam: «Não temos senão cinco pães e dois peixes... Só se formos nós mesmos comprar comida para todo este povo». 14Eram de facto uns cinco mil homens. Disse Jesus aos discípulos: «Mandai-os sentar por grupos de cinquenta». 15Assim fizeram e todos se sentaram. 16Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou sobre eles a bênção. Depois partiu-os e deu-os aos discípulos, para eles os distribuírem pela multidão. 17Todos comeram e ficaram saciados; e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram.


Há uma profunda relação entre este milagre e a instituição da Eucaristia. A própria descrição dos gestos de Jesus ao fazer o milagre sugere os seus gestos na Ceia: «abençoou», «partiu», «deu aos discípulos». Com este milagre, é prefigurado o prodígio da Eucaristia e os Apóstolos são preparados para receberem tão grande dom e o distribuírem aos fiéis: para eles os servirem à multidão (v. 16). A linguagem do relato deixa ver fortes ressonâncias litúrgicas, provenientes certamente da vida das primitivas comunidades, que celebravam a Eucaristia. O IV Evangelho conserva-nos a promessa do Pão da Vida no discurso eucarístico (Jo 6, 32-58), na sequência deste mesmo milagre. Lucas não refere a 2.ª multiplicação dos pães, que se insere na chamada grande omissão de Lucas relativamente a Marcos, que lhe terá servido de fonte (Mc 6, 45 – 8, 26); por outro lado Lucas costuma omitir relatos paralelos, para não se alongar sem necessidade.

13 «Dai-lhes vós de comer.» Jesus sabia o que ia fazer, como sublinha o relato muito mais pormenorizado de S. João; e disse isto para os pôr à prova (Jo 6, 6), isto é, para ver até que ponto os seus Apóstolos estavam capacitados para confiar na omnipotência divina que Jesus lhes tinha vindo a mostrar com tantos milagres já realizados.


Sugestões para a Homilia


O Corpo o Sangue do Senhor que são, para todos nós cristãos, a presença real, quase sensível e patente aos nossos olhos da pessoa de Jesus. Depois da sua vinda para o meio de nós no Natal, depois de nos ter dado a mensagem salvadora de Deus, depois de ter passado pelo Calvário, pela sua Paixão, Morte e Ressurreição, quis continuar e ficar no meio de nós, até ao fim dos séculos como Ele quis, sob as aparências do pão e do vinho. No meio de nós, nos nossos altares, em cada eucaristia e depois, como prolongamento do altar, em cada um dos nossos sacrários de toda a terra.

Para entendermos e compreendermos sempre melhor esta presença eucarística de Jesus no meio de nós, ouvimos a palavra de Deus que hoje escuta toda a Igreja, em toda a terra, no mundo inteiro.

Na primeira leitura do Livro do Génesis fala-nos o Senhor da figura misteriosa do sacerdote Melquisedec que foi ao encontro de Abraão no regresso de uma luta e combate vitorioso, em favor do povo de Deus. Diz-nos o texto sagrado que esse sacerdote «trouxe pão e vinho pois era sacerdote do Altíssimo e abençoou Abraão». Seguiu-se uma oferta a Deus, em acção de graças, pela vitória de Abraão, nosso Pai na Fé.

A Igreja e a própria Bíblia viu sempre, nesta oferta de Melquisedec, a primeira alusão bíblica à Eucaristia que viria a deixar-nos Jesus Cristo na última Ceia.

A Eucaristia, com a oferta a Deus em cada dia do pão e do vinho é, antes de mais, o prolongamento na história, do que fez o próprio Jesus Cristo, pela primeira vez, em Quinta-Feira Santa. Como único sacerdote do Altíssimo por excelência, Jesus Cristo, apresentou a Deus então e, pelas mãos do sacerdote, apresenta agora em cada altar esse pão e esse vinho. No pão e no vinho Jesus quis ficar com todos os seus sofrimentos, a sua paixão e a sua morte, como acção de graças por tudo o que o próprio Deus fez e está a fazer dia a dia, em nosso favor até ao fim dos séculos. A Eucaristia é sempre, de facto, a grande oração de acção de graças de cada dia e sobretudo de cada Domingo, na nossa missa dominical em que vamos tomando parte.

Na segunda leitura da Carta de S. Paulo aos Coríntios é S. Paulo que nos mostra Jesus a dar-nos a Eucaristia que também aqui estamos hoje e neste momento a celebrar: «Meus irmãos: Eu próprio recebi do Senhor o que por minha vez vos transmiti: O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e deu graças; depois partiu-o e disse: Isto é o meu Corpo que é para vós. Fazei isto em memória de mim».

Temos efectivamente a Eucaristia, como presença real de Jesus, debaixo das aparências do pão e do vinho, só e unicamente porque Jesus, à maneira de Melquisedec, em Quinta-Feira, como ouvimos, nos trouxe o pão e o vinho dos quais Ele se quis servir para ficar connosco ate ao fim dos séculos. Quis fazê-lo Ele pelo ministério dos sacerdotes: «Fazei isto em memória de mim». É o mesmo que dizer tomai-me presente no mundo até que Eu venha, no fim dos séculos.

A Eucaristia, com o sacerdócio, e por eles a presença de Jesus no mundo, são o grande dom de Deus que hoje aqui estamos a celebrar neste momento.

No Evangelho, Jesus aparece-nos a dar de comer a cinco mil pessoas esfomeadas no deserto. Fê-lo com a ordem terminante dada aos seus apóstolos: «Dai-lhes de comer».

A Eucaristia que aqui estamos a celebrar é esse dom de Jesus para todos poderem comer desse pão sagrado, onde está Ele connosco para acabar assim com todas as fomes do mundo. Para acabar com todas essas fomes e também com a fome do pão nosso de cada dia. Quis Ele ficar connosco na Eucaristia, em forma de pão que se reparte, para que ao recebê-lo assim, vamos todos daqui e de cada Eucaristia dispostos a abrir as nossas mãos e repartir o pão a todos aqueles que têm fome, saciando-os com aquele pão que não nos faz falta e ele é, de facto, de todos aqueles que têm fome.


Fala o Santo Padre


«No Pão e no Vinho consagrados permanece connosco o mesmo Jesus dos Evangelhos, que os discípulos encontraram e seguiram, que viram crucificado e ressuscitado».

1. «Ecce panis Angelorum / factus cibus viatorum: / vere panis filiorum Eis o pão dos Anjos, / feito pão dos peregrinos, / verdadeiro pão dos filhos» (Sequência).

Hoje a Igreja mostra ao mundo o Corpus Domini o Corpo de Cristo. E convida-nos a adorá-Lo: Venite adoremus Vinde, adoremos!

O olhar dos crentes concentra-se no Sacramento, em que Cristo se deu totalmente a si mesmo: Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Por isso foi sempre considerado o mais Santo: o «Santíssimo Sacramento», memorial vivo do Sacrifício redentor.

Voltamos, na solenidade do Corpus Domini, àquela «Quinta-feira» a que todos chamamos «santa», na qual o Redentor celebrou a sua última Páscoa com os discípulos: foi a Última Ceia, cumprimento da ceia pascal hebraica e inauguração do rito eucarístico.

Por isso a Igreja, desde há séculos, escolheu uma quinta-feira para a solenidade do Corpus Domini, festa de adoração, de contemplação e de exaltação. Festa em que o Povo de Deus se reúne à volta do tesouro mais precioso herdado de Cristo, o Sacramento da sua própria Presença, e O louva, canta e leva em procissão pelas ruas da cidade.

2. «Lauda, Sion, Salvatorem!» (Sequência).

A nova Sião, a Jerusalém espiritual, em que se reúnem os filhos de Deus de todos os povos, línguas e culturas, louva o Salvador com hinos e cânticos. Com efeito, são inexauríveis a admiração e o reconhecimento pelo dom recebido. Este dom «é maior do que qualquer louvor, não existe um cântico que seja digno» (ibid.).

Eis um mistério sublime e inefável. Mistério perante o qual permanecemos estupefactos e silenciosos, em atitude de contemplação profunda e extasiada.

3. «Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui Adoremos, prostrados, este sacramento tão grande».

Na Sagrada Eucaristia está realmente presente Cristo, morto e ressuscitado por nós.

No Pão e no Vinho consagrados permanece connosco o mesmo Jesus dos Evangelhos, que os discípulos encontraram e seguiram, que viram crucificado e ressuscitado, cujas chagas Tomé tocou, prostrando-se em adoração e exclamando: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28; cf. ibid., 17, 20).

No Sacramento do altar é oferecida à nossa amorosa contemplação toda a profundidade do mistério de Cristo, o Verbo e a carne, a glória divina e a sua morada entre os homens. Perante Ele, não podemos duvidar de que Deus está «connosco», que assumiu em Jesus Cristo todas as dimensões humanas, excepto o pecado, despojando-se da sua glória para com ela nos revestir a nós (cf. ibid., 21, 23).

No seu Corpo e no seu Sangue manifesta-se o rosto invisível de Cristo, Filho de Deus, na modalidade mais simples e ao mesmo tempo mais nobre possível neste mundo. Aos homens de todos os tempos que, perplexos, pedem: «Queremos ver Jesus» (Jo 12, 21), a Comunidade eclesial responde repetindo o gesto que o próprio Senhor realizou para os discípulos de Emaús: parte o pão. Então, ao partir o pão, abrem-se os olhos de quem o procura com coração sincero. Na Eucaristia o olhar do coração reconhece Jesus e o seu inconfundível amor que se dá «até ao fim» (Jo 13, 1). E n'Ele, naquele seu gesto, reconhece o Rosto de Deus!

4. «Ecce panis Angelorum... vere panis filiorum Eis o pão dos Anjos... verdadeiro pão dos filhos».

Deste pão nos alimentamos para nos tornarmos testemunhas autênticas do Evangelho. Precisamos deste pão para crescer no amor, condição indispensável para reconhecer o rosto de Cristo no rosto dos irmãos. [...]

5. «Todos comeram e ficaram saciados» (Lc 9, 17). Através das palavras do Evangelho, que há pouco escutámos, chega até nós o eco de uma festa que, desde há dois mil anos, não tem fim. Festa do povo a caminho no êxodo do mundo, alimentado por Cristo, verdadeiro Pão de salvação.

No final da Santa Missa também nós nos poremos a caminho no centro de Roma, levando o Corpo de Cristo escondido nos corações e bem visível no ostensório. Acompanharemos o Pão de vida imortal pelas ruas da Cidade. Adorá-lo-emos e à sua volta reunir-se-á a Igreja, ostensório vivo do Salvador do mundo.

Oxalá os cristãos de Roma, fortalecidos pelo seu Corpo e pelo seu Sangue, mostrem Cristo a todos com o seu modo de viva: com a sua unidade, com a sua fé jubilosa, com a sua bondade! Que a nossa Comunidade diocesana recomece corajosamente a partir de Cristo, Pão de vida imortal!

E Tu, Jesus, Pão vivo que dá a vida, pão dos peregrinos, «alimenta-nos e defende-nos / conduz-nos para os bens eternos / na terra dos vivos». Amen.

João Paulo II, Roma, 14 de Junho de 2001


Oração Universal


Irmãos e irmãs: Oremos a Cristo Senhor, sacerdote único do Altíssimo

segundo a ordem de Melquisedec, Pão vivo descido do Céu,

e digamos iluminados pela fé.

R. Cristo, pão do Céu, dai-nos a vida.


1. Pela Santa Igreja de Deus:

para que, encontre sempre na Eucaristia

a fonte e o cume de toda a sua actividade,

oremos, irmãos.


2. Pelo Papa, pelos bispos, presbíteros e diáconos:

para que transmitam fielmente aquilo

que receberam do Senhor até que Ele venha,

oremos, irmãos.


3. Pelos pobres, pelos doentes e aflitos:

para que encontrem no corpo de Cristo

o viático para a vida eterna e o remédio para o espírito,

oremos, irmãos.


4. Pelas crianças que hoje fazem a primeira comunhão:

para que cresçam sempre no amor de Jesus

e na gratidão ao Deus que nos faz tão grande dom,

oremos, irmãos.


Senhor Jesus Cristo, que alimentais continuamente a vossa Igreja com o mistério

do vosso Corpo e Sangue, concedei-lhe a graça de encontrar a verdadeira alegria

na riqueza infinita dos vossos dons. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: Oh Verdadeiro Corpo do Senhor, C. Silva, NRMS 42


Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, à vossa Igreja o dom da unidade e da paz, que estas oferendas misticamente simbolizam. Por Nosso Senhor...


Prefácio da Eucaristia


Santo: J. Duque, NRMS 21


Monição da Comunhão


Contemplar Jesus na Eucaristia é desejar aproximar-se deste altar onde Deus se dá em alimento para que nós tenhamos a vida eterna.


Cântico da Comunhão: Saciastes o Vosso Povo, F. Silva, NRMS 90-91

Jo 6, 57

Antífona da comunhão: Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele, diz o Senhor.


Cântico de acção de graças: Comemos, ó Senhor, do mesmo Pão, M. Borda, NRMS 43


Oração depois da comunhão: Concedei-nos, Senhor Jesus Cristo, a participação eterna da vossa divindade, que é prefigurada nesta comunhão do vosso precioso Corpo e Sangue.



Ritos Finais


Monição final


Alimentar-se é ganhar forças para testemunhar Deus no mundo. Comer o Pão da Vida é revigorar-se para participar na missão de Jesus, anunciar o Evangelho da paz ao mundo inteiro.


Cântico final: Deus é Pai, Deus é Amor, F. Silva, NRMS 90-91



Homilias Feriais


6ª feira, 11-VI: S. Barnabé: O cuidado dos doentes.

Act 11, 21-26 / Mt 10, 7-13 (aprop.)

Disse Jesus aos Apóstolos: Ide pregar... Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios.

Barnabé foi um dos primeiros fiéis de Jerusalém. Anos depois foi destacado para pregar o Evangelho em Antioquia e, mais tarde, para acompanhar S. Paulo na sua primeira viagem apostólica (cf. Leit.).

Além da pregação, o Senhor confia também aos Apóstolos o cuidado dos enfermos: «a Igreja recebeu este encargo do Senhor... Ela crê na presença vivificante de Cristo, médico das almas e dos corpos, presença que age particularmente através dos sacramentos» (CIC, 159). É importante que todos cuidemos bem dos doentes e da suas famílias: capelães, membros do voluntariado, pessoal médico e paramédico, agentes sanitários (cf. INE, 88).


Sábado, 12-VI: Verdade, honestidade, discrição.

1 Reis 19, 19-21 / Mt 5, 33-37

A vossa linguagem deve ser: Sim, sim; não, não. O que for além disto vem do Maligno.

Porque Jesus é a Verdade (cf. Jo 14, 6), pede aos seus discípulos um amor incondicional à verdade: «que a vossa linguagem seja sim, sim; não, não» (Ev).

«A verdade ou veracidade consiste em mostrar-se verdadeiro no actos e dizer a verdade nas palavras, evitando a duplicidade, a simulação e a hipocrisia» (CIC, 2468). Também é indispensável viver esta virtude no convívio com os demais: «A virtude da veracidade dá justamente a outrem o que lhe é devido. A veracidade observa um justo meio termo entre o que deve ser dito e o segredo que deve ser guardado: implica honestidade e discrição» (CIC, 2469).







Celebração e Homilia: Hermenegildo Faria

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha


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