Anunciação do Senhor

26 de Março de 2007

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Acolhe, Virgem piedosa, M. Carneiro, NRMS 101

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos hoje a festa da Anunciação do Senhor. O Filho de Deus fez-se Homem no seio da Virgem Maria, que O concebeu por obra do Espírito Santo. Maria disse que sim ao anúncio do Anjo S. Gabriel. É o início do grande Mistério da Encarnação que hoje celebramos.

Demos graças a Deus e ao Seu amor infinito por cada um de nós.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria, concedei-nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Profeta Isaías anuncia, a séculos de distância, o grande acontecimento que hoje celebramos: uma Virgem «que conceberá e dará à luz um Filho» que se chamará Emanuel, Deus connosco.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11«Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». 13Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco».

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um «menino» descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz...».

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: O Salmista refere-se ao momento da Encarnação, quando o Filho Unigénito de Deus entra no nosso mundo, para habitar no meio de nós, numa entrega total e plena à Vontade do Pai.

 

Refrão:         Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes–me os ouvidos;

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Hebreus 10, 4-10

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40 (39), 7-9 e 110 (109), 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: Aclamemos a Palavra de Deus, o Verbo eterno do Pai que se fez Homem e habitou no meio de nós.

 

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a Sua glória.

 

 

Evangelho

 

Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.

 

Pistas para a homilia

 

1. A vontade de Deus.

2. O valor da humildade.

3. O valor da obedência.

1. A vontade de Deus.

«Eis-Me aqui; no livro sagrado está escrito a Meu respeito: 'Eu vim, ó Deus, para fazer a Vossa Vontade'» (Hebr.10, 7).

São palavras do Salmo 39 (40) que foi escolhido para Salmo Responsorial da festa de hoje; elas aplicam-se perfeitamente a Jesus Cristo, Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.

Toda a arte do cristão está nesta identificação com Cristo, ao procurar sempre e em tudo fazer a Vontade de Deus, que é sempre a vontade de um Pai que nos ama infinitamente; mesmo quando me exige sacrifício, quando permite sofrimento e dor, essa vontade é sempre boa, santíssima e justíssima.

A Virgem Santíssima tem toda a autoridade para nos recomendar o mesmo que aos serventes de Caná: «Fazei o que o meu Filho vos disser». Ela mesma não teve outro modo de comportar-se: «Eis a escrava do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Evangelho).

Ao rezarmos o Pai Nosso, sempre renovamos o nosso desejo de que «se faça a Vontade de Deus, assim na terra como no Céu». A nossa amizade com Deus só será autêntica e verdadeira se fizermos a sua Vontade: «Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando».

«Não é o que diz 'Senhor, Senhor', que entrará no Reino de Deus, mas aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos Céus» (Mt 7, 21).

2. O valor da humildade.

«Humilhou-se a Si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz».

A virtude da humildade leva-nos e ajuda-nos a situar-nos no nosso verdadeiro lugar, com relação a Deus e aos outros. A humildade é a verdade: quando procuramos ser humildes, sentimos que a energia poderosa do Senhor actua, apoiada em nossa fraqueza; nunca somos mais fortes que quando somente podemos contar com Deus; então apercebemo-nos de que não bastam os anos nem a experiência para acertar nas nossas decisões, porque nesse caso os velhos seriam génios. «É o Senhor quem nos faz mais prudentes que os mestres e mais sábios que os anciãos» (Salmo 118).

«Deus escolheu os nécios segundo o mundo para confundir os sábios; escolheu os fracos...as coisas vis e desprezíveis e aqueles que não eram nada...» (1 Cor. 1, 27-28).

«Levados pela humildade, julgai-vos uns aos outros como superiores» (Filip. 11, 3).

O mistério da Encarnação é o mistério da humildade do Filho de Deus que se fez Homem, em tudo igual a nós, excepto no pecado. Ele mesmo nos pede para O seguirmos pelos caminhos da humidade e da mansidão: «Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis paz e descanso para as vossas almas».

A resposta da Santíssima Virgem no momento da Anunciação foi ditada pela perfeita humildade de quem só quer servir e dar a vida toda para a glória de Deus.

3. O valor da obediência.

«Faça-se em Mim segundo a tua Palavra» (Evangelho).

O mistério da Encarnação do Filho de Deus é um mistério de humildade e de obediência à Vontade do Pai. Obedecer é entregar em plena liberdade a nossa vontade à Vontade de Outro, para agir em conformidade com Ele. Esse Outro não pode ser, definitivamente, senão Deus. Só Ele tem o direito de obrigar uma vontade livre criada por Ele. Com Cristo, Verbo encarnado, uma nova ordem foi instaurada. No centro deste mundo novo está o sofrimento voluntário e redentor da Cruz e a misteriosa obediência que conduziu Cristo até lá. Ele é o modelo. Para o futuro, nenhuma participação nesta obra redentora poderá ser possível a alguém fora da perspectiva da obediência.

«Pois como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só, muitos virão a ser justos» (Rom 5, 29).

 

 

Oração Universal

 

Neste dia em que celebramos o início da nossa Redenção,

roguemos a Deus pela salvação de todos os homens, dizendo:

 

R. Ouvi-nos, Senhor.

 

1.  Pelo Papa, pelos Bispos e Sacerdotes:

para que cumpram sempre e em tudo a vontade de Deus,

confirmem os cristãos na fé

e atraiam para Cristo todos os homens,

oremos, irmãos.

 

2.  Pela paz e prosperidade de todo o mundo:

para que a fome, as calamidades e as guerras

se afastem de todos os povos,

oremos, irmãos.

 

3.  Pelos jovens que procuram conhecer

a vontade de Deus na sua vocação,

para que na oração e no compromisso apostólico,

encontrem a certeza que procuram,

oremos ao Senhor.

 

4.  Pelos que não conhecem a Cristo,

para que iluminados pela luz da fé,

se abram à Salvação que teve início

no grande momento da Encarnação,

oremos, irmãos.

 

5.  Por todos nós aqui reunidos,

pelos membros das nossas famílias e comunidades,

para que saibamos viver com total liberdade

e disponibilidade para o Senhor,

oremos, irmãos.

 

6.  Pelos defuntos da nossa comunidade e do mundo inteiro:

para que, purificados das sua faltas,

possam contemplar na eternidade o rosto de Cristo glorioso,

oremos, irmãos.

 

Senhor, nosso Deus,

Vós que desejais a salvação de todos os homens,

e para isso nos destes o Vosso Filho Unigénito,

fazei que Ele seja conhecido e amado no mundo inteiro.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Rainha da Graça, Az. Oliveira, NRMS 75

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

Peçamos a Nossa Senhora que nos consiga a graça de recebermos o Seu Filho Jesus Cristo nesta Comunhão com a mesma pureza, humildade e devoção com que Ela O recebeu no Seu Ventre puríssimo, no momento da Anunciação.

 

Cântico da Comunhão: Louvemos o Senhor, Cantemos o Senhor, J. Santos, NRMS 81

Is 7,14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor fez em mim maravilhas, Az. Oliveira, NRMS 45

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Alimentados com o pão celestial e com a Palavra de Deus, sejamos em toda a parte imagens vivas de Cristo. Pelos caminhos da humildade e da obediência, à imitação de Jesus Cristo, façamos sempre e em tudo a Vontade de Deus.

 

Cântico final: Ó Mãe da Igreja, F. da Silva, NRMS 101

 

Homilias Feriais

 

5ª SEMANA

feira, 27-III: ‘Olhar’ que cura.

Num. 21, 4-9 / Jo. 8, 21-30

Faz uma serpente de fogo e prende-a num poste. Todo aquele que, depois de mordido, olhar para ela, terá a vida salva.

Esta serpente (cf. Leit.) é a imagem da cruz de Cristo no Calvário. «Já no Antigo Testamento, Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens, que conduziriam simbolicamente à salvação pelo Verbo encarnado: por exemplo: a serpente de bronze» (CIC, 2130).

Jesus afirma: «Quando elevardes o Filho do homem, então sabereis que ‘Eu sou’». Quem ‘olhar’ para Cristo no alto, na Cruz, com arrependimento, terá a vida eterna. Poderemos fazê-lo meditando nos mistérios dolorosos do Santo Rosário, fazendo a Via Sacra, olhando para um crucifixo, etc.

 

feira, 28-III: A libertação da escravidão.

Dan. 3, 14-20. 91-92 / Jo. 8, 31-42

Bendito seja o Deus de Sidrach… Mandou o seu Anjo, para livrar os seus servidores, que tiveram confiança n’Ele.

Embora sendo escravos do rei da Babilónia, os três jovens foram salvos e libertados pela sua confiança em Deus, que é a Verdade (cf. Leit.).

Jesus recorda-nos igualmente que é a «verdade que vos libertará» (Ev.), e que Ele levou a cabo pela sua Paixão: «Pela sua cruz gloriosa, Cristo obteve a salvação de todos os homens. Resgatou-os do pecado, que os retinha numa situação de escravatura. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (CIC, 1741). Procuremos chegar ao conhecimento da verdade, que está contida nos ensinamentos de Jesus (cf. Ev.).

 

feira, 29-III: Fidelidade à Aliança.

Gen. 17, 3-9 / Jo. 8, 51-59

Vou estabelecer uma Aliança contigo e, depois de ti, com a tua descendência de geração em geração.

«A esperança cristã retoma e realiza a esperança do povo eleito, que tem a sua origem na esperança de Abraão, o qual, em Isaac, foi cumulado das promessas de Deus e purificado pela provação do sacrifício (cf. Leit.)» (CIC 1819).

A Aliança estabelecida com Abraão foi renovada, de uma vez para sempre, por Cristo na Cruz. A Eucaristia é um memorial da Páscoa de Cristo e também um sacrifício que se manifesta nas palavras da instituição (cf. CIC, 1365). Sejamos fiéis à nova Aliança, cumprindo o que prometemos a Deus.

 

feira, 30-III: Com o sinal da Cruz venceremos.

Jer. 20, 10-13 / Jo. 10, 31-42

Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos.

Este ‘herói poderoso’ é Cristo, que veio à terra para vencer o demónio. O Pai consagrou-o e enviou-o ao mundo com todo o poder: «O Pai está em mim e eu no Pai» (Ev.).

O demónio continua a desfrutar de algum poder sobre o mundo. Por isso, a nossa vida é um combate, mas temos a Cruz como recurso para vencê-lo: «O sinal da cruz… manifesta a marca de Cristo impresso naquele que vai passar a pertencer-lhe, e significa a graça da redenção que Cristo nos adquiriu pela Cruz» (CIC, 1235).

 

Sábado, 31-III: Meios para conseguir a unidade.

Ez. 37, 21-28 / Jo. 11, 45-46

Vou reuni-los de toda a parte… Farei deles um só povo.

Segundo esta profecia, Deus promete reunir os filhos de Israel, dispersos por toda a parte (cf. Leit.). E Caifás afirma que a unidade dos filhos de Israel será fruto da morte de Cristo (cf. Ev.).

A unidade é também um dom do Espírito Santo: «Possa o Espírito Santo guiar-nos no caminho da reconciliação, para que a unidade das nossas Igrejas se torne um sinal cada vez mais luminoso de esperança e conforto para toda a humanidade» (palavras de Paulo VI a Atenágoras). Rezemos pelos frutos de unidade de cada Missa, que é a renovação do sacrifício do Calvário.

 

 

 

 

Celebração e Homilia:  Alfredo Melo

Nota Exegética:       Geraldo Morujão

Homilias Feriais:      Nuno Romão

Sugestão Musical:   Duarte Nuno Rocha

 


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