4º Domingo da Quaresma

18 de Março de 2007

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Senhor, são muitos os nossos pecados, J. Santos, NRMS 53

cf. Is 66, 10-11

Antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Sozinhos, apenas com as nossas capacidades, seremos incapazes de chegar à verdadeira liberdade. Somente com a ajuda de Deus conseguiremos tal objectivo.

É isto de que nos fala a liturgia da Palavra deste domingo. O amor do Pai é que nos salva e nos convida à conversão e à reconciliação com Ele e com os irmãos.

Estejamos atentos para analisarmos em nós mesmos a modificação interior que é preciso operar para melhor vivermos este restante tempo quaresmal.

 

Oração colecta: Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Esta leitura narra a conclusão da viagem pelo deserto que o povo hebreu teve de empreender, para sair do Egipto e chegar à terra prometida. Como sinal de regozijo pela sua libertação, celebram novamente a Páscoa, como haviam feito os seus antepassados na noite da saída do cativeiro egípcio.

 

Josué 5, 9a.10-12

Naqueles dias, 9adisse o Senhor a Josué: «Hoje tirei de vós o opróbrio do Egipto». 10Os filhos de Israel acamparam em Gálgata e celebraram a Páscoa, no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó. 11No dia seguinte à Páscoa, comeram dos frutos da terra: pães ázimos e espigas assadas nesse mesmo dia. 12Quando começaram a comer dos frutos da terra, no dia seguinte à Páscoa, cessou o maná. Os filhos de Israel não voltaram a ter o maná, mas, naquele ano, já se alimentaram dos frutos da terra de Canaã.

 

A leitura fala-nos do início de uma nova vida do povo eleito, após a longa e dura travessia do deserto. O facto de ter sido escolhida para este tempo, em que o deserto da Quaresma caminha para o seu fim, pode ter um significado simbólico, ligado ao Evangelho do filho pródigo: o regresso à casa paterna, a conversão, o começo de uma vida nova.

9 «Vexame do Egipto». Este pode ser a incircuncisão, de acordo com o contexto (notar que foram aqui suprimidos os vv. 6-8), em que se fala de que Josué procedeu então à circuncisão dos filhos daqueles que tinham saído do Egipto, embora também os egípcios a tivessem praticado. Outros autores pensam que o vexame do Egipto seria a escravidão lá sofrida e as consequentes privações do deserto.

10 «Guilgal». A localização desta Guilgal é incerta, mas supõe-se que ficasse nas proximidades de Jericó. No texto hebraico há um jogo de palavras que podíamos transpor para português da seguinte maneira: «Em Guigal eu fiz o povo galgar o vexame do Egipto». Com efeito, em hebraico gálgal significa roda, e o verbo aqui usado (gallóthi) significa pus a rodar, isto é, «afastei» ou «tirei».

11 «No dia seguinte à Páscoa», isto é, a 16 do mês de Nisan, de acordo com a Lei (cf. Lev 23, 4-14); após a oferta a Deus do primeiro feixe de trigo, já o povo podia começar a comer o trigo novo, ainda quase todo verde. Ainda hoje a gente do campo na Síria e no Egipto gosta de comer, quando ainda verde, o grão de trigo assado.

 

Salmo Responsorial    Sl 33 (34), 2-3.4-5.6-7 (R. 9a)

 

Monição: Como o salmista, saibamos saborear e agradecer, alegre e enaltecidamente, a experiência da ajuda de Deus para connosco em toda a nossa vida.

 

Refrão:         Saboreai e vede como o Senhor é bom.

 

A toda a hora bendirei o Senhor,

o seu louvor estará sempre na minha boca.

A minha alma gloria-se no Senhor:

escutem e alegrem-se os humildes.

 

Enaltecei comigo ao Senhor

e exaltemos juntos o seu nome.

Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,

libertou-me de toda a ansiedade.

 

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,

o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.

Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,

salvou-o de todas as angústias.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A interrupção da paz do homem consigo, com Deus e com os outros, causada pelo pecado, é restabelecida pela iniciativa do próprio Deus, através da reconciliação. Para isso saibamos abrir o coração e a mente ao dom que o Senhor nos oferece.

 

2 Coríntios 5, 17-21

Irmãos: 17Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. 18Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. 19Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo, não levando em conta as faltas dos homens e confiando-nos a palavra da reconciliação. 20Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus.

 

Já nas Cinzas, tivemos parte desta leitura. S. Paulo ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

17 «Nova criatura». Pelo Baptismo dá-se uma transformação radical – regeneração interior (cf. Jo 3, 5) – do homem velho (cf. Rom 6, 6; Gal 6, 15; Col 3, 9; Ef 2, 15; Tit 3, 5). Dá-se como que uma nova criação, no plano da graça, pois passa-se do não ser, do nada e menos que nada (o pecado: «as coisas antigas») para «estar em Cristo», participando da sua vida divina.

18 «Ministério da reconciliação». O contexto não permite que se interprete este ministério no sentido estrito do ministério do perdão exercido no Sacramento da Penitência, embora este se possa ver englobado no conjunto (boa ocasião para rever o motu proprio Misericordia Dei, sobre alguns aspectos do Sacramento da Penitência, de 7 de Abril de 2002, que quase passou despercebido).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S Paulo, com a plena consciência de que era Deus que exortava por seu intermédio, pois os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores ao serviço de Cristo», e não apenas ao seu serviço, mas actuando em vez de Cristo e por autoridade de Cristo, como o texto original parece dar a entender com o uso da preposição grega ypér (em favor de, usada no sentido da preposição antí, em vez de; cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 «Deus identificou-o com o pecado», à letra, Deus fê-lo pecado, uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (de toda a Humanidade), para os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

 

Aclamação ao Evangelho        Lc 15, 18

 

Monição: Todo o processo de conversão começa com a tomada de consciência da falta cometida, que leva ao arrependimento. Deus alegra-se pelo regresso do pecador à dignidade da vida.

 

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

Vou partir, vou ter com meu pai e dizer-lhe:

Pai, pequei contra o Céu e contra ti.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 15, 1-3.11-32

Naquele tempo, 1os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. 2Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». 3Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: 11«Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. 13Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. 14Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. 15Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. 16Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! 18Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. 19Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. 21Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejamos, 24porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. 25Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. 26Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 27O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. 28Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. 29Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. 30E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. 31Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».

 

Alguém considerou a parábola do filho pródigo «o evangelho dos evangelhos». É a mais bela e a mais longa das parábolas de Jesus, impregnada duma finíssima psicologia própria de quem no-la contou, Jesus, que conhece a infinita misericórdia do coração de Deus, que é o seu próprio coração, e que penetra na profundidade da alma humana (cf. Jo 2, 25), onde se desenrola o tremendo drama do pecado. «Aquele filho, que recebe do pai a parte do património que lhe corres­ponde, e abandona a casa para o desbaratar num país longínquo, vivendo uma vida libertina, é, em certo sentido, o homem de todos os tempos, começando por aquele que em primeiro lugar perdeu a herança da graça e da justiça original. A analogia neste ponto é muito ampla. A parábola aborda indirectamente todo o tipo de rupturas da aliança de amor, todas as perdas da graça, todo o pecado» (Encíclica Dives in misericordia, nº 5; ver tb. Catecismo da Igreja Católica, nº 1439).

12 «Dá-me a parte da herança»: segundo Dt 21, 17 pertencia-lhe um terço, havendo só dois filhos. O pai podia fazer as partilhas em vida (cf. Sir 30, 28ss).

13 «Partiu…»: o pecado do filho foi abandonar o pai, esbanjar os seus bens e levar uma vida dissoluta.

14-16 «Uma grande fome»: é a imagem do vazio e insatisfação que sente o homem quando está longe de Deus, em pecado. «Guardar porcos» era uma humilhação abominável para um judeu, a quem estava proibido criar e comer estes animais impuros. Esta situação para um filho duma boa família era absolutamente incrível, o cúmulo da baixeza e da servidão. As «alfarrobas»: o rapaz já se contentaria com uma tão indigesta e indigna comida, mas, na hora de se dar uma ração dessas aos porcos, ninguém se lembrava daquele miserável guardador! Aqui fica bem retratada a vileza do pecado e a escravidão a que se submete o homem pecador (cf. Rom 1, 25; 6, 6; Gal 5, 1). O filho pretendia ser livre da tutela do pai, mas acaba por perder a liberdade própria da sua condição: imagem do pecador que perde a liberdade dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 21; Gal 4, 31; 5, 13) e se sujeita à tirania do demónio, das paixões.

17 «Então, caindo em si…» A degradação a que a loucura do seu pecado o tinha levado fê-lo reflectir (é o começo da conversão) e enveredar pela única saída digna e válida.

18-19 «Vou-me embora»: A tradução latina (surgam) do particípio gráfico (mas não ocioso) do original grego – «levantar-me-ei» – é muito mais expressiva, pois, duma forma viva, indica a atitude de quem começa a erguer-se da sua profunda miséria.

«Pequei contra o Céu e contra ti»: nesta expressão retrata-se a dimensão transcendente do pecado; não é uma simples ofensa a um homem, é ofender a Deus, uma ofensa de algum modo infinita! O filho não busca desculpas, reconhece sinceramente a enormidade da sua culpa.

«Trata-me como um dos teus trabalhadores». É maravilhoso considerar como naquele filho arrependido começa a brotar o amar ao pai; o que ele ambiciona é ir para junto do pai, estar junto a ele é o que o pode fazer feliz! Melhorar a sua situação material não é o que mais o preocupa, pois, para isso, qualquer proprietário da sua pátria o podia admitir como jornaleiro. Por outro lado, não se atreve a pedir ao pai que o admita no gozo da sua antiga condição de filho, porque reconhece a sua indignidade: «já não mereço ser chamado teu filho».

20 «Ainda ele estava longe, quanto o pai o viu». Este pormenor faz pensar que o pai não só desejava ansiosamente o regresso do filho, mas também, muitas vezes, observava ao longe os caminhos, impaciente de ver o filho chegar quanto antes, uma enternecedora imagem de como Deus aguarda a conversão do pecador. «Encheu-se de compaixão»: o verbo grego é muito expressivo e difícil de traduzir com toda a sua força, esplankhnístê: «comoveram-se-lhe as entranhas» (tà splánkhna). «E correu…»: é impressionante o contraste entre o pai que corre para o filho e o filho que simplesmente caminha para o filho – «a misericórdia corre» (comenta Sto. Agostinho); «cobrindo-o de beijos», numa boa tradução que tem em conta a forma iterativa do verbo grego, é uma belíssima e expressiva imagem do amor de Deus para com um pecador arrependido!

21 «Pai, pequei». Apesar de se ver assim recebido pelo pai, o filho não se escusa de confessar o seu pecado e de manifestar a atitude interior que o move a regressar.

22 «A melhor túnica, o anel, o calçado», são uma imagem da graça, o traje nupcial (cf. Mt 22, 11-13); assim nos espera o Senhor no Sacramento da Reconciliação, não para nos ralhar, recriminar, mas para nos admitir na sua antiga intimidade, restituindo-nos, cheio de misericórdia, a graça perdida.

23 «Comamos e festejemos», a imagem da Sagrada Eucaristia, segundo um sentido espiritual corrente.

25-32 «O filho mais velho»: esta segunda parte da parábola não se pode limitar a uma censura dos fariseus e escribas (v. 2), cumpridores, mas insensíveis ao amor – o mais velho é que é, no fim de contas, o filho mau –; a parábola é também uma lição para todos, a fim de que imitem a misericórdia de Deus para com um irmão que pecou (cf. Lc 6, 36); ele é sempre «o teu irmão» (v. 33), e não há direito de que não se tome a sério a misericórdia de Deus, com aquela despeitada ironia: «esse teu filho» (v 30). A misericórdia de Deus é tão grande, que ultrapassa uma lógica meramente humana; esta segunda parte da parábola põe em evidência a misericórdia de Deus a partir do contraste com a mesquinhez do filho mais velho.

 

Sugestões para a homilia

 

A história de Israel imagem da nossa história

Protagonismo do Pai

Convite à reconciliação

A história de Israel imagem da nossa história

A primeira leitura deste domingo narra-nos a chegada dos israelitas à terra prometida, depois de terem escapado do cativeiro do Egipto e empreendido a longa viagem pelo deserto.

Essa fuga e a conclusão da viagem não teria sido possível se Deus os não tivesse acompanhado e ajudado durante tão longo trajecto. Finalmente livres, estão quase a conseguir tomar posse da terra que lhes fora prometida. Terra muito fértil que lhes permitirá viver da agricultura e do pastoreio dos seus rebanhos. Enfim, já não precisarão de se alimentar do maná do deserto e dos poucos frutos que iam conseguindo apanhar pelo caminho. Por isso, sentem necessidade de agradecer a Deus toda esta alegria que Ele lhes proporcionara e decidem tornar a celebrar a festa da Páscoa, tal como tinham feito os seus antecessores, aquando da saída do Egipto.

Esta história dos israelitas é em tudo a imagem da nossa própria história. Pelo baptismo e, depois, através da reconciliação, somos desviados da condição de miséria e de pecado em que nos encontrávamos e conduzidos à libertação, com a ajuda de Deus. Por isso realçamos a salvação alcançada celebrando a Eucaristia e agradecendo ao Senhor tão grande graça, enquanto esperamos o reencontro com Ele na meta definitiva.

Protagonismo do Pai

É Deus que assume o protagonismo nesta libertação, como nos refere o Evangelho de hoje.

Aparecem-nos três figuras nesta parábola: o filho mais novo, que assume atitudes que todos nós provavelmente reprovamos; o filho mais velho, a que se refere o final da parábola; e o pai, que é na realidade a figura proeminente da parábola. De uma coisa não nos poderemos esquecer: é que a parábola foi contada por Jesus para os chefes espirituais, que se consideravam os «justos» do seu tempo por «cumprirem todos os mandamentos da lei», perante quem Ele quer justificar o seu comportamento para com os publicanos e os pecadores. É a estes «justos» que o Senhor quer dar uma lição.

O filho mais novo depois de exigir ao pai aquilo que entendia ter direito, parte para longe. Reparemos na postura do pai: não diz uma única palavra. Isto indica todo o respeito que Deus tem pela liberdade das pessoas.

Desperdiçando tudo o que possui, não encontra a felicidade que procura. As aventuras não o satisfazem e experimenta a angústia de que «morre de fome». A decepção fá-lo «cair em si mesmo» e desejar o «regresso a casa». No reencontro com o pai não chega a desenvolver o discurso preparado, porque o pai o recebe carinhosamente e o abraça sem lhe fazer perguntas. Manda, outrossim, preparar uma festa para comemorar o seu regresso.

O ressentimento e as palavras proferidas pelo filho mais velho estão correctas e até se conformam, provavelmente, com a nossa lógica de pensar. Mas, enquanto o filho mais novo usa cinco vezes a palavra «pai», o filho mais velho, que apresenta as boas obras que realizou, mostra com esta atitude que, para ele, o pai é apenas um patrão. Por isso, nunca da sua boca saiu a palavra «pai». Este relacionamento incorrecto com o pai manifesta-se na rejeição do irmão a quem ele chama: «esse teu filho». O pai prontamente o corrige, esclarecendo: «este teu irmão…».

É esta atitude que Jesus toma quando acolhe os publicanos e os pecadores e come com eles. Por este motivo, escribas e fariseus se irritam com a Sua postura. Jesus evidencia os sentimentos de Deus Pai: Ele não só ama os justos e os pecadores arrependidos, mas ama a todos, sempre e sem condições. Por amar tão perdidamente todo o homem é que Deus o deixa livre, mas «inquieta-o» com o Seu amor, de tal modo que o pecador não conseguirá sentir-se feliz enquanto demorar no seu estado e não correr a abrir o coração ao amor do Pai.

Reflectindo na atitude do pai, poderemos encontrar um exemplo para todos os pais: na família deve haver sempre respeito pelas opções dos filhos, dos irmãos, dos netos. Os pais têm a obrigação de os educar a fazerem escolhas sábias e de harmonia com os autênticos valores da vida. Têm o direito e o dever de encorajar, orientar, auxiliar, mas não decidir em lugar dos filhos. Mesmo que estes errem, são dignos de respeito.

A aventura do filho mais novo redundou em fracasso e levou-o a descobrir que precisava de segurança interior e que o caminho que tinha escolhido não lhe trazia felicidade mas inquietação e falta de paz, o que o levou a reconsiderar o regresso.

Como o filho mais velho raciocinavam os escribas e os fariseus do tempo de Jesus. E é assim, talvez, que alguns de nós, considerados «justos», ainda pensemos.

Ora, seria imerecido considerar que os que deixam a comunidade apenas ambicionam satisfazer as suas paixões. Por vezes, os «irmãos mais velhos», e na comunidade somos todos os que a frequentamos, sentimo-nos no direito de julgar e condenar os que se afastam. Sendo assim, talvez nos caiba parte da responsabilidade em tais deserções.

A maneira de pensar e de falar, as escolhas que fazemos, os juízos de valor que emitimos não coincidem com os do Pai, quando não sabemos acolher convenientemente aqueles que, por qualquer motivo, erraram nas suas opções e posturas de vida. Deste modo, assemelhamo-nos aos escribas e fariseus a quem Jesus dirige a parábola.

Teremos honestamente de nos interrogar sobre a nossa responsabilidade por tais abandonos.

Convite à reconciliação

Por isso, a segunda leitura nos chama a atenção para a necessidade da «reconciliação». Esta, não resultará somente da nossa boa vontade e do nosso esforço, mas é dom de Deus. É Ele que toma a iniciativa de restabelecer a paz. Esta paz não se consegue com cerimoniais purificadores, com práticas devotas, mas, mediante a palavra do apóstolo que é enviado a anunciar o que Deus fez por nós, homens. Cada um só tem de permitir que a sua mente e o seu coração se abram ao dom e à mensagem que lhe é oferecida pela Palavra e regressar «ficando de acordo», «banindo a aversão», «purificando-se dos próprios pecados».

Fica a pergunta: o que teremos de modificar para melhor vivermos esta Quaresma?

 

Fala o Santo Padre

 

«No pai que abraça o filho 'perdido', contemplamos o rosto de Deus bom e misericordioso.»

 

1. «Alegrai-vos...» (Antífona de entrada; cf. Is 66, 10-11). O convite à alegria, ressoado no início da Celebração eucarística bem exprime o clima que caracteriza a hodierna liturgia. Chegamos ao quarto domingo da Quaresma, tradicionalmente chamado domingo «Laetare» e já saboreamos, de um certo modo, a alegria espiritual da Páscoa.

A exortação à alegria torna-se ainda mais íntima e envolvente ouvindo o relato evangélico que torna a propor a comovente parábola do «filho pródigo» (cf. Lc 15, 1-3. 11-32). No pai que abraça novamente o próprio filho «perdido», contemplamos o rosto de Deus bom e misericordioso, sempre pronto a oferecer a todos os homens o seu perdão, fonte de serenidade e de paz.

2. «Se alguém está com Cristo, é uma nova criatura» (2 Cor 5, 17).

Podemos resumir com estas palavras do apóstolo Paulo a mensagem da hodierna liturgia […], que se insere, no meio do caminho quaresmal, no Domingo chamado «Laetare». A segunda Leitura e o Evangelho formam como que um hino a duas vozes, o louvor do amor de Deus, Pai misericordioso (Lc 15, 11-32), que nos reconciliou em Cristo (2 Cor 5, 17-21). Um hino que se faz premente apelo: «Deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20).

Este convite apoia-se na certeza de que o Senhor nos ama. Ele amou os Israelitas fazendo-os entrar na terra de Canaã, depois do longo caminho do Êxodo, como ouvimos na primeira Leitura, cheia de saudade pungente. A Páscoa que eles celebraram «de manhã, na planície de Jericó» (Js 5, 10) e os primeiros meses que passaram na terra prometida tornaram-se, para nós, um símbolo eloquente da fidelidade divina, que faz dom da sua paz ao povo eleito, depois da triste experiência da escravidão.

 

João Paulo II, Vaticano, 21 de Março de 2004

 

Oração Universal

 

Irmãos,

oremos a Deus nosso Pai

com toda a confiança,

sabendo que Ele sempre espera e perdoa

a todos os filhos que regressam, dizendo (cantando):

 

Senhor, acolhei-nos no vosso amor.

 

1.  Pelo Papa, Bispos e Presbíteros,

para que, fiéis ao ensinamento de Cristo,

saibam acolher os pecadores que se convertem,

oremos, irmãos.

 

2.  Pelos que se afastaram das nossas comunidades,

para que caiam em si

e desejem voltar ao seio comunitário,

oremos, irmãos.

 

3.  Por todos os que são intolerantes

com aqueles que erraram,

para que aprendam a compreendê-los

e a acolhê-los à semelhança do Pai,

oremos, irmãos.

 

4.  Por todos os pais,

para que saibam exortar, aconselhar e acompanhar

os seus filhos, sem decidirem em seu lugar,

respeitando as suas decisões,

oremos, irmãos.

 

5.  Pelos membros da nossa comunidade,

para que manifestemos compreensão, bondade e misericórdia

com aqueles que falharam

e os saibamos acolher no nosso seio,

oremos, irmãos.

 

6.  Para que cada um de nós

consiga honesta e profundamente

repensar a sua vida,

a fim de averiguar o que em si haja a corrigir,

oremos, irmãos.

 

Senhor nosso Deus e nosso Pai,

dai-nos um coração renovado

que se deixe guiar pela reconciliação,

de modo que receba alegremente

a vossa Palavra de amor e de perdão.

Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Corri, Senhor, M. Carneiro, NRMS 13

 

Oração sobre as oblatas: Ao apresentarmos com alegria estes dons de vida eterna, humildemente Vos pedimos, Senhor, a graça de os celebrar com verdadeira fé e de os oferecer dignamente pela salvação do mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Assim como os israelitas festejaram a sua libertação ao chegarem à terra prometida, celebremos nós alegremente, depois da reconciliação, a força que a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo nos proporciona, para alcançarmos as suas promessas.

 

Cântico da Comunhão: Bendiz, minha alma, M. Carneiro, NRMS 105

Lc 15, 32

Antífona da comunhão: Alegra-te, meu filho, porque o teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado.

 

Cântico de acção de graças: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, luz de todo o homem que vem a este mundo, iluminai os nossos corações com o esplendor da vossa graça, para que pensemos sempre no que Vos é agradável e Vos amemos de todo o coração. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Em cada um de nós coexistem o filho pródigo e o filho mais velho, de que nos fala o evangelho deste domingo. Saibamos abrir o coração e a mente para reflectirmos com sinceridade na nossa maneira de pensar e de falar, nas escolhas que fazemos, nos juízos de valor que formulamos, a fim de que eles possam coincidir com o amor manifestado por Deus nosso Pai.

 

Cântico final: O Senhor me apontará o caminho, F. da Silva, NRMS 69

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:  António Elísio Portela

Nota Exegética:       Geraldo Morujão

Sugestão Musical:   Duarte Nuno Rocha

 


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