Quarta-Feira de Cinzas

21 de Fevereiro de 2007

 

 

Na Missa deste dia benzem-se e impõem-se as cinzas, feitas dos ramos de oliveira (ou de outras árvores), benzidos no Domingo de Ramos do ano anterior.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Acolhe Deus de bondade, F. da Silva, NRMS 13

cf. Sab 11, 24-25.27

Antífona de entrada: De todos Vos compadeceis, Senhor, e amais tudo quanto fizestes; perdoais aos pecadores arrependidos, porque sois o Senhor nosso Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O início da Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa, deve suscitar em cada um desejos profundos de conversão.

A conversão é a atitude de acolhimento da Boa Nova. Sem sincera conversão como será difícil saborear a autenticidade, a transparência e a concretização do projecto de Deus em minha vida!

 

Omite-se o acto penitencial, porque é substituído pela imposição das cinzas.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Senhor, a graça de começar com santo jejum este tempo da Quaresma, para que, no combate contra o espírito do mal, sejamos fortalecidos com o auxílio da temperança. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O convite da Palavra de Deus usa a linguagem forte e expressiva de «rasgar os corações». Só abertos pela doação total se torna possível a centralidade de Deus na vida. E por Ele com todas as pessoas.

 

Joel 2, 12-18

12Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.

 

Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e de esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se-ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da grande calamidade apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13).

12-13 «Convertei-vos a Mm de todo o coração». Não é suficiente uma manifestação exterior de dor (rasgar as vestes, v. 13, era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus: rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura, cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade, mas toda a interioridade da pessoa, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma, e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor, infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele é clemente e compassivo… rico de bondade.

«É clemente e compassivo, paciente e misericordioso». A Vulgata e a Neovulgata têm «benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ». «Compassivo», isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico «rahum» é derivado de «réhem» (ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco; assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão «misericordioso» (à letra, «de muita misericórdia») deixa ver que a misericórdia do Senhor («hésed») não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: «amor e fidelidade» («hésed v-émet», um amor que é fidelidade). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: «jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor» (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia).

14 «Vai reconsiderar». A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que «Ele se encheu de zelo pela sua terra» (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus «ministros» (v. 17).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Monição: A conversão implica não ter medo de reconhecer o meu pecado e de me contemplar na misericórdia de Deus. Assim liberto serei capaz de amar.

 

Refrão:         Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:                Tende compaixão de nós, Senhor,

                      porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A reconciliação com Deus significa a libertação de todo o egoísmo e da possibilidade de vida plena, a graça e a santidade.

 

2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.

 

S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que «é Deus quem vos exorta por nosso intermédio»; os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores de Cristo», não apenas «ao seu serviço», mas actuando «em vez de Cristo e por autoridade de Cristo»; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper (em favor de), usada com o sentido do antí (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 «Deus identificou-o com o pecado» (à letra, Deus fê-lo pecado), uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), a fim de os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

6, 2 «Este é o tempo favorável». S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, onde se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que «agora» é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4, 4-5). A expressão paulina é ainda mais expressiva e rica do que a da versão grega de Isaías (LXX): agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina operar a nossa salvação. Não há dúvida que a Liturgia pretende fazer uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Sl 94, 8ab

 

Monição: Quem verdadeiramente se entrega a Deus vive com simplicidade, humildade e entrega. Dá-se sem nada esperar em troca.

 

 

Cântico: M. Simões, NRMS 1 (I)

 

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,

não fecheis os vossos corações.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 6, 1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».

 

Os versículos da leitura são tirados do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, estes não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.

1 «As vossas boas obras» letra, a vossa justiça), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.

6 «Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto». Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: «no teu quarto». O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um (nominatim: Jo 10, 3); daqui que são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele próprio deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.

 

Pistas para a homilia

 

Conversão

Boa Nova

Oportunidade

Conversão

A liturgia deste dia e os sinais celebrativos convidam-nos a uma atitude de conversão.

A conversão é atitude fundamental para o encontro com o Evangelho, a Boa Nova de Jesus Cristo.

É sempre uma conversão na interioridade do ser humano, «no coração»: espaço sagrado da sua identidade e da consciência de ser pessoa.

Aí onde busca o sentido da vida, se constroem as opções, se decide a vocação e missão. Aí onde se situa a pessoa na relação com Deus e com os outros. É o espaço da verdade, da vida, da santidade. É aí onde deve haver mudança, abertura total a Deus e aos outros.

Se o coração busca o acolhimento sincero e humilde de Deus, então encontrará verdadeira alegria, vida e se fará partilha.

Sempre que houver encontro com a Palavra deve necessariamente haver convite à conversão: «Arrependei-vos e acreditai na Boa Nova».

Boa Nova

A maravilhosa Boa Nova é Jesus Cristo. Acolhê-Lo significa encontrar a verdadeira alegria. Quem O encontra vive a relação com Deus e com os irmãos, não como um peso, mas como experiência maravilhosa, gratificante e salvadora.

É também viver a exigência do autêntico discípulo que faz como o seu Mestre doando a vida, entregando-se, fazendo-se partilha: verdadeira oração, esmola e jejum.

Conhecer e amar Jesus Cristo é o acontecimento mais maravilhoso que irrompe na nossa vida e tudo o resto é consequência dessa relação de amor.

Oportunidade

Este tempo precioso da Quaresma é a grande oportunidade:

Podemos melhorar, podemos reparar, podemos e devemos começar ou recomeçar.

O Espírito Santo sulca-nos pedindo fidelidade, compromisso, renovação, pede-nos: amor, partilha, oração e penitência.

Oportunidade pessoal na celebração da reconciliação. É dentro do coração humano que deve haver mudança, corte, rompimento, purificação.

 

Fala o Santo Padre

 

«A liturgia convida-nos a entrar na Quaresma com uma atitude de escuta e de conversão sincera.»

 

1. «Teu Pai... que vê o oculto, há-de recompensar-te» (Mt 6, 4.6.18). Esta palavra de Jesus dirige-se a cada um de nós no início do caminho quaresmal. Empreendemo-lo com a imposição das cinzas, gesto penitencial austero, tão querido à tradição cristã. Ele realça a consciência do homem pecador perante a majestade e a santidade de Deus. Ao mesmo tempo, manifesta a sua disponibilidade para acolher e transpor para escolhas concretas a adesão ao Evangelho.

São muito eloquentes as fórmulas que o acompanham. A primeira, tirada do Livro do Génesis: «Tu és pó e ao pó voltarás» (cf. 3, 19), recorda a actual condição humana sob a marca da caducidade e dos limites. A segunda retoma as palavras evangélicas: «arrependei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15), que constituem um premente apelo a mudar de vida. As duas fórmulas convidam-nos a entrar na Quaresma com uma atitude de escuta e de conversão sincera.

2. O Evangelho realça que o Senhor «vê o oculto», ou seja, perscruta o coração. Os gestos de penitência têm valor se forem a manifestação de uma atitude interior, se manifestam a vontade firme de se afastar do mal e de percorrer o caminho do bem. Eis o sentido profundo da ascese cristã. «Ascese»: a própria palavra evoca a imagem do subir para metas elevadas. Isto exige necessariamente sacrifícios e renúncias. De facto, convém levar só o equipamento essencial para que a viagem não se torne pesada; estar dispostos a enfrentar todas as dificuldades e superar qualquer obstáculo para alcançar o objectivo estabelecido. Para sermos autênticos discípulos de Cristo, é preciso renunciar a si mesmos, tomar a própria cruz todos os dias e segui-lo (cf. Lc 9, 23). É o caminho difícil da santidade que cada cristão está chamado a percorrer.

3. Desde sempre a Igreja indica alguns meios úteis para seguir este caminho. Em primeiro lugar, é necessário a humilde e dócil adesão à vontade de Deus acompanhada pela oração incessante; são as formas penitenciais típicas da tradição cristã, como a abstinência, o jejum, a mortificação e a renúncia mesmo aos bens que são legítimos; são os gestos concretos de acolhimento em relação ao próximo, que a página do Evangelho de hoje recorda com a palavra «esmola». Tudo isto é reproposto com maior intensidade durante o período quaresmal, que representa, a este propósito, um «tempo forte» de treinamento espiritual e de generoso serviço aos irmãos. […]

 

João Paulo II, Vaticano, 25 de Fevereiro de 2004

 

 

Bênção das cinzas

 

Depois da homilia, o sacerdote, de pé, diz com as mãos juntas:

 

Irmãos caríssimos: Oremos fervorosamente a Deus nosso Pai, para que Se digne abençoar com a abundância da sua graça estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, em sinal de penitência.

 

E depois de alguns momentos de oração em silêncio, diz uma das orações seguintes:

 

Senhor nosso Deus, que Vos compadeceis daquele que se humilha e perdoais àquele que se arrepende, ouvi misericordiosamente as nossas preces e derramai a vossa bênção sobre os vossos servos que vão receber estas cinzas, para que, fiéis à observância quaresmal, mereçam chegar, de coração purificado, à celebração do mistério pascal do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

ou

 

Deus de infinita bondade, que não desejais a morte do pecador mas a sua conversão, ouvi misericordiosamente as nossas súplicas e dignai-Vos abençoar estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, para que, reconhecendo que somos pó da terra e à terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

O sacerdote asperge as cinzas com água benta, sem dizer nada.

 

Imposição das cinzas

 

Em seguida, o sacerdote impõe as cinzas a todos os presentes que se aproximam dele, dizendo a cada um:

 

Mc 1, 15

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

 

Ou

cf. Gen 3, 19

Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar.

 

Entretanto, canta-se um cântico apropriado, por exemplo:

 

cf. Joel 2, 13

Antífona: Mudemos as nossas vestes pela cinza e o cilício. Jejuemos e choremos diante do Senhor, porque Deus é infinitamente misericordioso e perdoa os nossos pecados.

 

ou

cf. Joel 2, 17; Est 13, 17

Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, para que possa cantar sempre os vossos louvores.

 

ou

Salmo 50, 3

Lavai-me de toda a iniquidade, Senhor.

 

Pode repetir-se esta antífona depois de cada versículo ou estrofe do salmo 50. Compadecei-Vos de mim, ó Deus.

 

Responsório

cf. Bar 3, 2; Salmo 78, 9

V.  Renovemos a nossa vida,

reparemos o mal que fizemos,

para que não nos surpreenda o dia da morte

e nos falte o tempo para nos convertermos.

R.  Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

V.  Ajudai-nos, Senhor, para glória do vosso nome;

perdoai as nossas culpas e salvai-nos.

R.  Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

Terminada a imposição das cinzas, o sacerdote lava as mãos. O rito conclui-se com a oração universal ou oração dos fiéis. Não se diz o Credo.

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Ao darmos inicio ao tempo santo da Quaresma,

oremos para que todos os homens se convertam

e tomem parte na renovação pascal,

dizendo (ou cantando):

R. Renovai, Senhor, o vosso povo.

ou: Ouvi-nos, Senhor.

ou : Dai-nos, Senhor, um coração novo.

 

1.  Por todos os fiéis da santa Igreja,

para que, neste tempo favorável da Quaresma,

se reconciliem uns com os outros e com Deus,

oremos ao Senhor.

 

2.  Pelos homens que governam as nações,

para que sirvam lealmente o bem comum,

façam esforços pela paz, defendam a vida,

as famílias e os mais desprotegidos,

oremos ao Senhor.

 

3.  Por todos os discípulos de Cristo,

para que se convertam e acreditem no Evangelho

e, em segredo, dêem esmola, rezem e jejuem,

oremos ao Senhor.

 

4.  Pelos doentes e por todos os que sofrem,

pelos pobres, pelos pecadores e pelos famintos,

para que tenham quem os socorra e alivie,

oremos ao Senhor.

 

5.  Pela nossa assembleia aqui presente,

para que receba a graça de seguir a Cristo,

no caminho da renovação pascal,

oremos ao Senhor.

 

Senhor, nosso Deus, rico em misericórdia,

que nos chamais a converter o coração,

dai-nos a alegria de sermos salvos,

e guiai-nos, pela força do Espírito Santo,

para a festa da Páscoa jubilosa.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Perdoa ao teu povo, Az. Oliveira, NRMS 105

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, este sacrifício, com o qual iniciamos solenemente a Quaresma, e fazei que, pela penitência e pela caridade, nos afastemos do caminho do mal, a fim de que, livres de todo o pecado, nos preparemos para celebrar fervorosamente a paixão de Cristo, Vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Quaresma III p. 463 ou IV p. 464 [598-710]

 

Santo F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

Se o encontro com a Boa Nova deve levar-nos à conversão, mais intensamente somos convidados, pela comunhão no Corpo e Sangue de Cristo, a que o nosso coração seja espaço de santidade no acolhimento e compromisso com Deus. E n’Ele com os irmãos.

 

Cântico da Comunhão: Eu sou o Pão vivo, C. Silva, NRMS 36

Salmo 1, 2-3

Antífona da comunhão: Aquele que medita dia e noite na lei do Senhor dará fruto a seu tempo.

 

Oração depois da comunhão: Senhor, fazei que este sacramento nos leve a praticar o verdadeiro jejum que seja agradável a vossos olhos e sirva de remédio aos nossos males. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Que o Espírito Santo possa encontrar em nós a sabedoria oportuna da conversão pela reconciliação, oração, jejum e partilha.

 

Cântico final: Vós me salvaste, Senhor, M. Simões, NRMS 16

 

A bênção e imposição das cinzas pode fazer-se também fora da Missa. Nesse caso, convém que preceda uma liturgia da palavra, utilizando a antífona de entrada, a oração colecta, as leituras e seus cânticos, como na Missa. Depois da homilia, procede-se à bênção e imposição das cinzas. O rito conclui com a oração universal.

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO DA QUARESMA

 

CINZAS

 

feira, 22-II: Cadeira de S. Pedro: Fidelidade e contrição.

1 Ped. 5, 1-4 / Mt. 16, 13-19

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.

Com esta festa da Cadeira de S. Pedro comemoramos o dia da instituição do Pontificado de S. Pedro, que é uma manifestação clara da vontade de Cristo (cf. Ev.). É uma boa ocasião para aceitarmos os ensinamentos do Papa, de os conhecermos bem e de os levarmos à prática.

S. Pedro reconhece-se como «testemunha dos sofrimentos de Cristo» (Leit.). Neste tempo de Quaresma acompanharemos o Senhor, muito de perto, na sua caminhada para a Cruz. Se alguma vez O negarmos façamos um bom acto de contrição, como S. Pedro: «Senhor, tu sabes tudo, sabes que eu te amo».

 

feira, 23-II: Que jejum agrada ao Senhor?

Is. 58, 1-9 / Mt. 9, 14-15

Será então jejum que me agrade mortificar-se um homem durante um dia?... O jejum que me interessa não é antes este…?

No começo da Quaresma podemos perguntar ao Senhor qual o jejum que devemos fazer para lhe agradar (cf. Leit.). O jejum é uma forma de oração particular. Tudo o que fizermos nesse sentido será agradável a Deus: guarda dos sentidos, sobriedade nas comidas e bebidas e no uso da TV, vencimento das nossas manifestações de comodismo e preguiça…

É sempre importante que esta penitência seja acompanhada de caridade: «As obras de misericórdia são as acções caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, as suas necessidades corporais e espirituais (cf. Leit.)» (CIC, 2447)

 

Sábado, 24-II: Curar as feridas da alma.

Is. 58, 9-14 / Lc. 5, 27-32

Hão-de chamar-te ‘reparador de brechas’, ‘restaurador dos caminhos para as áreas habitadas’.

Jesus vem ‘restaurar as brechas’ (os pecados, omissões…). É o que afirma a Mateus e aos seus amigos, reunidos num grande banquete: «vim chamar os pecadores, para que se arrependam» (Ev.). Deixemos que o Médico divino trate das nossas feridas na confissão sacramental.

Façamos um exame para ver que ‘brechas’ (cf. Leit.) há na nossa vida que precisem de uma reparação: as do egoísmo, da sensualidade, da preguiça, etc. E como estou a viver o dia do Senhor? (cf. Leit.). Vivo a pontualidade na santa Missa? Dedico atenção à família e aos doentes?

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia: Armando Rodrigues Dias

Nota Exegética:       Geraldo Morujão

Homilias Feriais:      Nuno Romão

Sugestão Musical:   Duarte Nuno Rocha

 


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