TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

NICODEMOS,

UM «MESTRE» QUE SE FAZ DISCÍPULO

 

 

Geraldo Morujão

 

Por amável deferência da revista «Bíblica», temos o gosto de dar a conhecer aos nossos leitores um extracto do artigo que o Pe. Geraldo Morujão, professor de Sagrada Escritura no Instituto Superior de Teologia de Viseu, publicou no número 297 (Março/Abril 2005).

 

A figura de Nicodemos

No Novo Testamento só o Evangelho de S. João fala de Nicodemos. Nada de certo se sabe da sua vida, para além dos dados evangélicos. O evangelista diz-nos que pertencia ao partido dos fariseus, sendo um dos principais, e é chamado «mestre em Israel». O facto de ser designado como «um chefe dos judeus» – árkhôn –, levou a pensar que faria parte do Sinédrio, embora isto não seja dito explicitamente.

O seu nome não é hebraico nem aramaico, mas grego, um nome que significa «vence o povo». Na época era um nome corrente entre os hebreus, como consta dos escritos de Flávio Josefo e do Talmud. Fala-se dum Nicodemos ligado a uma família aristocrática de Jerusalém, morto pelo ano 70, depois de espoliado dos seus haveres pelos extremistas zelotas, por ocasião da primeira guerra judaica. Não há garantia de que se trate da mesma figura joanina, mas é uma possibilidade razoável.

De qualquer modo, a tradição cristã veio a honrá-lo atribuindo-lhe um belo escrito apócrifo, o «Evangelho de Nicodemos», também chamado «Actos de Pilatos», a que nos vamos referir à parte.

Nicodemos é uma figura emblemática que ilustra bem como a fé no «Filho de Deus» é acolhida por pessoas cultas, dotadas de autoridade e de exigência intelectual, e não apenas pela gente humilde e pobre, o povo da terra – ‘am ha’árets – considerado «maldito» pelas autoridades judaicas (cfr. Jo 7, 49). No meio dum ambiente hostil das classes dirigentes, o Evangelista sublinha que, «apesar disso, até entre os chefes, muitos creram nele, mas não O confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da Sinagoga, pois amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus» (Jo 12, 42-43).

Nicodemos é a exemplificação de como se podia ser fariseu e doutor da Lei e aceitar Jesus como «o Messias, o Filho de Deus». A redacção do IV Evangelho reflecte também o ambiente de oposição cerrada aos cristãos que se agudizou no judaísmo depois da destruição de Jerusalém. O plural, «nós sabemos» (v. 3, 2), é bem significativo de que não estamos perante uma tomada de posição individual e restrita a um simples momento da vida de Jesus. Quando se acusa São João de anti-judaísmo, não se tem em conta que é precisamente ele quem pretende mostrar, recorrendo até talvez a uma hipérbole, que «muitos entre os chefes creram nele».

Nicodemos aparece em S. João como uma figura paradigmática. Ele é um mestre que se faz discípulo. A narrativa joanina deixa-nos ver um homem ilustre e ilustrado, que caminha para Jesus a partir da escuridão da «noite» da dúvida e da incerteza; ele é um homem que está atento aos sinais de Deus e aos indícios de credibilidade duma mensagem cheia de novidade, e é por isso que se decide a avançar para a luz, como se pode ver nas palavras com que é aberto o diálogo: «Ninguém pode realizar os sinais portentosos que Tu fazes, se Deus não estiver com ele».

No entanto, não é certo que a «noite» em que Nicodemos é apresentado a procurar Jesus seja apenas psicológica e simbólica, a noite daqueles que querem vir para a luz da verdade, que é Jesus, no contexto joanino: «quem pratica a verdade aproxima-se da luz…» (3, 21). Nicodemos bem pode ser aquele mestre que, segundo a genuína tradição bíblica (cfr. Sl 16[15],7; 77[76], 7; 119 [118], 55.148; 134 [133], 1; etc.), medita de noite a palavra de Deus e, de acordo com a grande regra da Comunidade de Qumrã, estuda de noite a Lei (1 QS 6-7), em horas tranquilas, mais apropriadas para a reflexão e o estudo, à luz trémula da lâmpada. Por outro lado, a procura de Jesus pela calada da noite sempre foi interpretada como manifestação do receio de se expor à crítica e às suspeitas dos colegas, num misto de cobardia e de razoável prudência.

Mas o mais interessante parece ser notar como Nicodemos aparece como o paradigma do itinerário ou roteiro duma caminhada de fé, que ao longo do IV Evangelho se desenrola num notável crescendo, sendo assinalados três momentos em que aparece o seu nome ao longo do IV Evangelho: um diálogo inicial esclarecedor da fé; uma defesa desassombrada da pessoa de Jesus; um gesto cultual da homenagem da fé viva.

Um diálogo esclarecedor a partir de um mal-entendido

O capítulo terceiro de São João aparece fundamentalmente como um dos grandes discursos de Jesus, redigido bem à maneira joanina – um discurso temático introduzido por um dialogo –, apenas interrompido com mais um testemunho de João Baptista, mas que se enquadra bem no tema do Baptismo cristão, em aparente conflito com o de João (vv. 22-30).

O diálogo inicial dá lugar à mensagem de Jesus; mas de facto é praticamente impossível destrinçar aquilo que o evangelista põe na boca de Jesus daquilo que é uma reflexão sua sobre as palavras do Senhor. Costuma considerar-se que, a partir do v. 13, temos uma meditação divinamente inspirada sobre as palavras de Jesus feita pelo próprio evangelista, que do v. 16 ao 21 tomam a forma do chamado kérigma joanino em toda a sua força e esplendor. Também os versículos 31-36 só na aparência é que são do Baptista; na realidade são o mesmo kérigma joanino.

Se considerarmos a estrutura deste capítulo, facilmente verificamos que a figura central não é Nicodemos, pois nem sequer é ele quem introduz o tema do discurso. Se as três intervenções do chefe dos judeus dão origem aos ensinamentos de Jesus, fica patente que é Jesus quem conduz o diálogo que desemboca no kérigma. A começar, temos umas palavras elogiosas de Nicodemos, que revelam uma fé incipiente – «Tu vieste da parte de Deus, como Mestre». Nicodemos não está perante um mestre singular, ele está perante aquele que é a Vida, diante de quem é o único que pode dar a verdadeira vida, a vida eterna! A novidade cristã não se limita a reconhecer a superioridade de um novo mestre e admirar a pessoa de Jesus como um profeta. Jesus situa-nos perante uma nova maneira, um modo radical e inimaginável, de encarar a salvação: «ver o Reino de Deus» (v. 3). Com efeito, só é possível alcançar a salvação se uma pessoa «nascer do Alto», isto é, de Deus, tornando-se seu filho por um novo nascimento «da água e do Espírito»; o baptismo dos prosélitos era para um gentio um nascer simplesmente da água a fim de se tornar filho do povo de Israel. Agora estamos diante dum nascimento do Espírito para vir a ser filho de Deus!

O original grego de São João joga com o duplo sentido do advérbio ánothen: do alto e de novo. Isto é uma forma superior de expressar o requisito essencial à salvação – a vida eterna, aqui designada por Reino de Deus –, que Jesus traz à humanidade, um requisito que os Sinópticos designam de conversão; de facto, em São João nunca se fala de conversão (metánoia). Uma revelação tão surpreendente não pode deixar de desnortear até um homem que é mestre em Israel, provocando um curioso mal- entendido: «Como pode um homem nascer de novo, sendo já velho? Porventura pode entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?» (v. 4).

O mal-entendido, bem típico da redacção joanina, desperta a atenção do leitor e reforça o valor e a novidade radical deste ensino, que já foi classificado como uma catequese baptismal. Para entender este mistério do Reino de Deus, há uma radical incapacidade da ciência dos sábios – «tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas?» (v. 10) –, por isso, Nicodemos tem de descer das suas tamanquinhas e render-se perante aquele que é a própria Verdade; tem de passar de mestre a discípulo do divino Mestre.

Defesa desassombrada da pessoa de Jesus

A segunda vez que aparece Nicodemos em São João é na secção dos capítulos 7 a 10, em que se desenrolam as grandes discussões acerca da pessoa de Jesus em Jerusalém. Nada se tinha dito da reacção do mestre em Israel, quando este tinha vindo de noite ao diálogo com Jesus e fora tratado com dureza, diríamos mesmo humilhado e ferido no seu pundonor de homem ilustrado (para S. João não há escribas ou doutores da Lei!): «tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas?» É bem certo que sem uma profunda humildade não se pode ser discípulo de Jesus!

O evangelista faz-nos imaginar que se convertera num autêntico discípulo de Jesus, pois nomeia-o entre os que tomam o seu partido: «era um deles» (7, 50). Quando os chefes judaicos planeiam a prisão e a morte de Jesus, surge entre eles uma voz corajosa dum colega a lutar pela sua defesa, que já nem parece identificar-se com aquele homem tímido que vai ouvi-lo no segredo da noite. E fá-lo do modo mais discreto e eficaz, sem precisar de apelar para a sua condição de discípulo, pois lhe basta apelar para a mais elementar norma de justiça e prudência – em todos os tempos tantas vezes esquecida –, a regra de não julgar antes de ouvir: «porventura permite a nossa Lei julgar um homem, sem antes o ouvir e sem averiguar o que ele anda a fazer?» (7, 51).

O caminho de Nicodemos para a fé já vai adiantado, pois nos é proposto como dotado duma fé com obras e comprometida, que não teme enfrentar as mofas e a contradição dos poderosos e dos que pretendem ser eles a criar à força a opinião pública, nas costas da verdade: «Também tu és galileu?» (7, 52). A figura paradigmática do discípulo intrépido e desassombrado aparece aqui como um homem ponderado, sereno, coerente, dotado da fortaleza própria de uma alma sincera que busca a verdade acima de tudo, sem rancores nem fanatismos e sem medo a expor-se a críticas e a ser posto de parte.

A corajosa homenagem final duma fé viva

A terceira e última vez que surge a figura de Nicodemos em S. João é na sepultura de Jesus. Nicodemos junta-se a José da Arimateia, que os três Sinópticos descrevem como quem teve a coragem de pedir a Pilatos o corpo de Jesus para lhe dar uma digna sepultura. São João diz que Nicodemos, «aquele que tinha ido ter com Jesus de noite, apareceu também, trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés».

Estes dois chefes judaicos, até então uns discípulos envergonhados, quando chegou a hora da debandada geral, são eles os únicos que se atrevem a dar o corpo ao manifesto, e avançam para prestarem a última homenagem a Jesus. A eles se deve que o corpo do Senhor não tenha ido parar à vala comum, como qualquer malfeitor condenado ao suplício da cruz.

O evangelista faz notar a singular coragem e generosidade de Nicodemos. Comprar cerca de trinta quilos de substâncias aromáticas para sepultar Jesus representava um gasto notável e aparece como o ponto culminante da fé e do amor a Jesus. Em tão grande generosidade também se pode ver um esplêndido acto de desagravo dos maus tratos a que o Senhor fora sujeito; e também um indício de que não contavam com a Ressurreição.

Nicodemos, uma figura ideal, mas real

Vimos como Nicodemos é apresentado e como pode ser visto como uma figura emblemática. Mas isto não significa que se trate de uma criação artificiosa do Evangelista Teólogo. A figura de Nicodemos enquadra-se bem no contexto sócio-religioso da época. Intervém sempre de forma coerente e todas as vezes com referência a um facto inicial que o identifica: «aquele que antes fora ter com Jesus» (7, 50), «de noite» (19, 39), de modo a poder distinguir-se de outros do mesmo nome. O próprio nome helenístico de Nicodemos não implica qualquer significado simbólico.

Nicodemos aparece, no entanto, como uma figura paradigmática do homem culto e revestido de autoridade que adere a Jesus. Teologizar, porém, não implica inventar, mas antes pôr em relevo significados teológicos que a realidade nos oferece. Podemos, pois, aceitar com Olivieri que um dos objectivos do evangelista possa ter sido oferecer elementos aos seus leitores para poderem refutar acusações de judeus vindos de Jerusalém, que na província da Ásia proconsular tentavam desacreditar Jesus, acusando-o de não passar de um simples demagogo galileu, apoiado por multidões de gente rude da Galileia, mas desconhecido dos judeus e das autoridades religiosas de Jerusalém; a isto se deveria em grande parte o desenvolvimento que São João dá ao ministério de Jesus em Jerusalém.

Por outro lado, devem-se ter em conta investigações sérias que têm mostrado como, a par duma profunda elaboração teológica das palavras de Jesus, o IV Evangelho manifesta nos relatos de acontecimentos um realismo de pormenor muito próximo da realidade, ainda mais do que os Sinópticos. E isto vai ao ponto de que alguns investigadores chegam a considerar São João como o primeiro Evangelho a ser escrito; assim pensa o bem conhecido protestante J. A. T. Robinson (The priority of John).

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial