TEMAS LITÚRGICOS

NECESSIDADE DE QUE OS CONCELEBRANTES

COMUNGUEM SOB AS DUAS ESPÉCIES *

 

 

Javier Elorduy

 

 

* Publicado no site www.vidasacerdotal.org

 

 

Que fazer se, na concelebração da Missa, o celebrante principal – ou os primeiros concelebrantes – consomem o cálice todo na comunhão, deixando os outros concelebrantes sem poderem comungar sob a espécie do vinho?

Apresentação da questão

Em primeiro lugar, interessa considerar por que pode parecer necessário realizar de novo a consagração se querem celebrar uma verdadeira Missa, isto é, que motivos podem ter os concelebrantes para julgarem que se deve voltar a realizar a Consagração.

 

a) É bem sabido que a perfectio sacramenti requer a comunhão do sacerdote celebrante sob as duas espécies (cfr. São Tomás de Aquino, S. Th. III, q. 80, a. 12 c; q. 82, a. 4 c). Esta ideia está implícita, por exemplo, na indicação - bem conhecida - de que, se depois da Consagração um sacerdote fica impedido, outro deve completar a Missa.

b) A Instrução Geral do Missal Romano (nn. 245-249, da 3.ª edição típica), ao tratar da Comunhão dos concelebrantes, desenvolve os vários modos em que pode realizar-se, mas sempre o faz considerando que se comunga sob as duas espécies, e o texto não inclui excepção à norma.

 

Efectivamente, o normal é que todos os concelebrantes comunguem sob as duas espécies, mas admitem-se excepções. A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma Carta circular aos Presidentes das Conferências episcopais, com data de 19-VI-1995, sobre a matéria eucarística. A Carta é motivada pelo caso de sacerdotes que não podem consumir o pão e o vinho comuns durante a celebração eucarística. Em relação à licença para usar mosto, a norma II. a) diz que: «a solução preferida continua a ser a comunhão per intinctionem, ou então sob a única espécie do pão nas concelebrações».

Portanto, é possível, em casos particulares, que um ou alguns dos concelebrantes comunguem sob uma só espécie. Este caso não é completamente excepcional; acontece quando o celebrante principal consome todo o cálice, ou quando há muitos concelebrantes e os últimos, por se ter consagrado pouca quantidade de vinho, ficam sem poder comungar com o Sangue, ou então quando o conteúdo do cálice não for adequado para recebê-lo da maneira usual, etc.

 

Podem-se acrescentar algumas considerações:

a) Não é uma novidade introduzida pela citada Carta da Congregação, pois já antes da reforma pós-conciliar do rito da ordenação, os ordenados presbíteros, na Missa da ordenação, concelebravam com o bispo ordenante e recebiam dele a Comunhão sob a única espécie do pão.

b) A comunhão do sacerdote é um requisito que se refere à perfeição do sacramento, não à sua essência. O perficio (o fazer-se) do sacramento acontece ao aplicar a forma da instituição sobre a matéria sacramental (o pão e o vinho), enquanto que a perfectio requer a comunhão íntegra dos dons consagrados por algum dos sujeitos da celebração. Portanto, a perfectio sacramenti requer a comunhão do sacerdote celebrante sob as duas espécies, mas no caso da concelebração, se um dos concelebrantes não contribui para a perfeita realização da Comunhão, tal perfeição fica garantida pela comunhão sob ambas as espécies do celebrante principal e dos outros concelebrantes.

c) O número de concelebrantes não altera a realidade de nos encontrarmos perante uma única celebração sacramental, uma só Missa; portanto, que algum dos concelebrantes não comungue (como em algumas ocasiões acontece na celebração eucarística de alguns ritos orientais) não anula a integridade do sacramento celebrado.

Fica claro, portanto, que numa concelebração numerosa, por excepção, poderia haver concelebrantes que não comungassem sob as duas espécies.

Então, à questão apresentada (se os concelebrantes podem continuar a Missa normalmente, pois, para a integridade do Sacrifício, basta que um deles comungue sob as duas espécies) a resposta é afirmativa.

Algumas questões práticas

Na prática, se acontecesse com certa frequência que o concelebrante principal consumia o cálice todo, uma solução seria distribuir o vinho para a consagração em dois ou mais cálices, e assim se evita que o celebrante principal ou os primeiros concelebrantes possam consumir todo o Sangue.

Deve-se ter em conta que não parece lícito organizar uma concelebração de modo que só alguns concelebrantes comunguem sob as duas espécies - salvo a excepção, já indicada, do sacerdote que, pelas razões previstas, não possa consumir o Sangue -, porque tal solução é contrária às normas litúrgicas em vigor. As concelebrações, especialmente as numerosas, devem ser preparadas com cuidado para que se realizem dignamente e respeitando as rubricas, ainda que, para isso, se tenha de dispor de vários cálices. O que aqui se indica refere-se somente ao erro ocorrido durante a concelebração da Missa, não à preparação de uma concelebração. Inclusivamente, se não se encontra outra solução, é melhor que concelebrem menos sacerdotes - o que está de acordo com as normas litúrgicas – do que preparar uma concelebração contrária às ditas normas.

 

Em qualquer caso, devem-se ter em conta as indicações para repetir a Consagração:

a) Só se pode repetir a consagração para prover a algo essencial que se requeira para a integridade do sacrifício; como, por exemplo, quando o sacerdote adverte, depois da consagração, que deitou só água no cálice. No caso que nos ocupa, o sacrifício celebrado foi consumado e completo (dupla consagração e comunhão); portanto, a actuação seguida incorre na proibição recolhida no cânone 927: «Está terminantemente proibido, mesmo em caso de extrema necessidade, consagrar uma matéria sem a outra, …». Portanto, não se deve consagrar mais pão porque ainda fiquem fiéis para comungar, ou mais vinho porque falte para que o consumam os concelebrantes.

b) A consagração de uma só espécie sacramental recorta arbitrariamente a integridade da Oração Eucarística para a proclamar só em alguma das suas partes. Se fosse necessário repetir a consagração do cálice, far-se-ia como diz o n. 324 da 3.ª edição típica da Instrução Geral do Missal Romano: «Se depois da consagração ou no momento da Comunhão o sacerdote advertir que, no cálice, em vez de vinho estava água, deite esta num recipiente, ponha vinho e água no cálice e consagre-o, proferindo só as palavras da narração referentes à consagração do cálice, sem ter de consagrar novamente o pão».

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial