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O CORPO E O SANGUE



Hugo de Azevedo


O que é a Missa?, perguntou o sacerdote ao menino. – É a representação da multiplicação dos pães, foi a resposta imediata.

Era natural a confusão da criança: como a multiplicação dos pães, além de manifestar a bondade de Jesus, anunciava também o novo maná, a Eucaristia, ele tomara o Sacrifício eucarístico por representação da multiplicação dos pães...

Vamos a ver: tu sabes o que é uma representação? – Não, confessou o menino com toda a simplicidade. – Mas sabes o que é o teatro... – Sei. – Uma pessoa faz de conta que é outra: que é um rei, ou um soldado, ou um velhinho... – Sim... – O actor representa uma outra pessoa qualquer... – Pois...

Então, imagina que este altar é um palco. Vamos representar nele uma peça: pego num bocado de pão, e faço de conta que é um corpo; e num pouco de vinho, e faço de conta que é sangue... O que é que isto representa? – Não sei!...

Vamos a ver: como é que tu desenhas um homem morto? – Faço o corpo, assim (e riscava no ar uns traços verticais), e depois risco assim, a esguichar sangue...

Ora aí está! Tens o corpo de um lado, e o sangue de fora... Então, pensa lá: tenho um bocadinho de pão – faz de conta que é um corpo – e um pouco de vinho – faz de conta que é sangue... O que é que isto representa?

É uma morte!, assustou-se o menino.

Pois é! A Missa é a representação de uma morte: da morte de Jesus! Mas não é só a representação; Nosso Senhor está mesmo no Pão, e está mesmo no Sangue...

E o menino ficou calado, meditando naquele grande mistério, que o surpreendia e o impressionava pela primeira vez.

Cristo, não só morreu por nós, mas entregou-nos a sua própria morte. Não só ofereceu a sua vida por nós, mas deixou-nos para sempre o seu próprio oferecimento ao Pai, para que o renovemos pelos séculos fora – como sacrifício nosso! O Cordeiro que tira o pecado do mundo, mesmo vivo e glorioso, será sempre o «Cordeiro degolado» de que nos fala S. João no Apocalipse. Conservará para sempre cinco chagas, que nunca mais hão-de cicatrizar, não só em feliz recordação do seu sacrifício redentor, mas como perenes fontes de graça, sempre a chamá-la sobre nós. A sua presença corporal no Sacrário não é uma «duplicação» da presença divina: Ele está no Sacrário como Quem se deu e se dá continuamente; A Eucaristia é a sua presença real, mais a da sua total Doação ao Pai e aos homens.

Por isso, a melhor preparação para a Santa Missa, para a Sagrada Comunhão e para todo o culto eucarístico, é a nossa própria doação a Cristo. Só O oferece «bem» quem se oferece com Ele; só O recebe «bem», quem se lhe entrega realmente; só O adora «bem» quem já não vive para si mesmo, «mas para Ele, que por nós morreu e ressuscitou». Não basta ter fé na Eucaristia; a Eucaristia é a máxima prova de Amor, e está a pedir-nos correspondência de caridade; a Eucaristia é o penhor da nossa Esperança, e está exigindo-nos que nos lancemos esperançosamente pelos caminhos da santificação e do apostolado.

Dar-se a Deus e ao próximo, este é o grande mandamento da Nova Lei; mas dar-se de tal modo, que não guardemos para nós o sacrifício da nossa doação, fazendo-o «pesar» depois sobre aqueles que amamos, e muito menos sobre Deus, como se Ele nos devesse especial consideração. «Dizei antes: somos inúteis servos; fizemos o que devíamos fazer».




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