2º Domingo Comum

16 de Janeiro de 2022

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada:  Toda a terra vos adore – F. Santos, BML, 54

Salmo 65, 4

Antífona de entrada: Toda a terra Vos adore, Senhor, e entoe hinos ao vosso nome, ó Altíssimo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Deus manifesta-se quase sempre mediante sinais simples, porém significativos e de alcance inesperado. Assim foi naquele convívio matrimonial em Caná da Galileia, e do mesmo modo sucede no hoje concreto de cada pessoa que se abre à novidade do Evangelho e se deixa envolver pela sua beleza e densidade.

Neste Domingo, como em cada Domingo, o Senhor coloca diante dos nossos olhos o sinal grandioso da sua infinita e soberana bondade. Senta-se à mesa e revela-se-nos, dando-se como pão da vida eterna e cálice de eterna salvação. Eis o vinho novo, saído do Coração de Cristo, que preenche de vida as talhas vazias da nossa pobre condição de mendigos de Deus!

Somos verdadeiramente felizes porque convocados a participar do banquete das bodas do Cordeiro; esse lugar da plenitude da alegria maior a que se pode aspirar.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que governais o céu e a terra, escutai misericordiosamente as súplicas do vosso povo e concedei a paz aos nossos dias. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Isaías, profeta da esperança, abre horizontes de alegria ao povo que andava nas trevas. Também Tu serás a alegria do teu Deus na medida em que lhe fores fiel.

 

Isaías 62, 1-5

1Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. 2Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará. 3Serás coroa esplendorosa nas mãos do Senhor, diadema real nas mãos do teu Deus. 4Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo. 5Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.

 

Ver supra, notas da Primeira Leitura da Vigília do Natal

 

Salmo Responsorial     Sl 95 (96), 1-3.7-8a.9-10a.c (R. 3)

 

Monição: Deus é a fonte da nossa alegria e a razão do seu anúncio a todos os povos da terra.

 

Refrão:        Anunciai em todos os povos as maravilhas do Senhor.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,

cantai ao Senhor, terra inteira,

cantai ao Senhor, bendizei o seu nome.

 

Anunciai dia a dia a sua salvação,

publicai entre as nações a sua glória,

em todos os povos as suas maravilhas.

 

Dai ao Senhor, ó família dos povos,

dai ao Senhor glória e poder,

dai ao Senhor a glória do seu nome.

 

Adorai o Senhor com ornamentos sagrados,

trema diante d'Ele a terra inteira;

dizei entre as nações: «O Senhor é Rei»,

governa os povos com equidade.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A diversidade de dons do Espírito revela a magnificência de Deus e a sua misericórdia para connosco. Assim como n’Ele não há obstáculos nem sombras, também em nós Deus destruirá os limites impostos pelo nosso egoísmo e a sede de protagonismos se nos dispusermos a acolher o fogo purificador e recriador do seu Espírito.

 

1 Coríntios 12, 4-11

Irmãos: 4Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. 5Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. 7Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. 8A um o Espírito dá a mensagem da sabedoria, a outro a mensagem da ciência, segundo o mesmo Espírito. 9É um só e o mesmo Espírito que dá a um o dom da fé, a outro o poder de curar; 10a um dá o poder de fazer milagres, a outro o de falar em nome de Deus; a um dá o discernimento dos espíritos, a outro o de falar diversas línguas, a outro o dom de as interpretar. 11Mas é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada.

 

Nos capítulos 12 a 14 de 1 Cor, S. Paulo aborda directamente o tema dos carismas para dar algumas normas práticas a fim de que tudo decorra com ordem nas reuniões litúrgicas; reconhece e aprecia a grande variedade e diversidade de dons, mas todos eles devem concorrer para o bem de todos. Assim como num corpo os diversos membros integram a unidade desse corpo, assim sucede na Igreja.

4-6 «Dons espirituais (carismas). Ministérios. Operações». (A nova tradução da Bíblia da CEP sugere: Carismas. Serviços. Atividades). Esta tripla designação parece referir-se sempre à mesma realidade, considerada segundo aspectos diferentes: a gratuitidade, a utilidade, a manifestação do poder divino, apropriando estas qualidades ao «Espírito» (Santo), ao Filho, «o Senhor», e ao Pai, «Deus (ho Theós)», que, precedido do artigo definido, indica a pessoa do Pai, em todo o grego do Novo Testamento. Estamos, assim, perante mais uma das ricas fórmulas trinitárias de S. Paulo.

7 «Dom... em ordem ao bem comum». Aqui trata-se de dons, ou graças, que a Teologia chama «gratis datæ», ou carismas, e que Deus concede primariamente em ordem à utilidade dos outros, e não ao proveito individual.

8-10 O Apóstolo apresenta um elenco dos carismas que o Espírito Santo concede, mas não pretende dar a lista completa deles (cf. vv. 28-31; Rom 12,6-8; Ef 4,11). Não é fácil indicar a natureza de cada carisma e como se distinguem entre si. «A mensagem da sabedoria» diz respeito à faculdade de conhecer e expor os mistérios divinos (cf. 1 Cor 2,6-7). «A mensagem da ciência» refere-se à faculdade de conhecer e de expor as verdades básicas do cristianismo. «O dom da fé» não parece ser a virtude teologal, mas a plena confiança em Deus, e as obras de fé (que procedem da fé, «capaz de transportar montanhas»). O dom de «falar em nome de Deus» – à letra, de «profetizar» – não diz respeito apenas ao dom de conhecer e manifestar o futuro oculto, mas ao poder de falar em nome de Deus, para «edificação, exortação e consolação» dos fiéis (14, 3). Algumas vezes, porém, os profetas manifestavam também as coisas futuras e ocultas e os segredos dos corações (cf. 14, 25). O dom do «discernimento dos espíritos», – avaliar dons espirituais – completa o dom da profecia e relaciona-se com o poder de julgar se uma coisa deva ser atribuída ao bom ou ao mau espírito. «O dom de falar diversas línguas» não era o poder de anunciar o Evangelho em línguas desconhecidas, mas o de louvar e adorar a Deus (cf. 14, 2) em línguas e expressões insólitas, numa espécie de exaltação extática. Complemento do dom das línguas era «o dom de as interpretar», porque aquilo que dizia o favorecido pelo dom das línguas não era compreendido pelos demais e, às vezes, nem pelo próprio.

11 «Conforme Lhe agrada». Estes dons carismáticos não pertencem à perfeição da vida cristã, não podendo o cristão reivindicá-los; e seria uma desordem mesmo até desejá-los no que têm de extraordinário, antepondo-os à caridade (cf. v. 31).

 

Aclamação ao Evangelho          cf. 2 Tes 2, 14

 

Monição: Nas Bodas de Caná, Jesus desvela a sua missão no momento em que veio a faltar o vinho, a alegria, a novidade da aliança. Ele vem transformar o velho em novo, a tristeza em alegria e a distância entre Deus e a humanidade num abraço de amor esponsal, próximo e inquebrantável.

Acolhendo o pedido de Sua e nossa Mãe, façamos o que Ele nos pede, em vista de sermos manifestação concreta e corajosa da aliança que Deus quer estabelecer com o seu povo. Cantemos.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia – M. Faria, NRMS, 16

 

Deus chamou-nos, por meio do Evangelho,

a tomar parte na glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

 

Evangelho

 

São João 2,1-11

Naquele tempo, 1realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. 2Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. 3A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». 4Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». 5Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». 6Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. 7Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. 8Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. 9Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo 10e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». 11Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.

 

O evangelista não visa contar o modo como Jesus resolveu um problema numas bodas, mas centra-se na figura de Jesus, que «manifestou a sua glória», donde se seguiu que «os discípulos acreditaram n’Ele» (v. 11). Toda a narração converge para as palavras do chefe da mesa ao noivo: «Tu guardaste o melhor vinho até agora!» (v. 10). Esta observação encerra um sentido simbólico; o próprio milagre é um «sinal» (v. 11), um símbolo ou indício duma realidade superior a descobrir, neste caso: quem é Jesus. Podemos pressentir a típica profundidade de visão do evangelista, que acentua determinados pormenores pelo significado profundo que lhes atribui. O vinho novo aparece como símbolo dos bens messiânicos (cf. Is 25,6; Joel 2,24; 4,18; Am 9,13-15), a doutrina de Jesus, que vem substituir a sabedoria do A. T., esgotada e caduca. A abundância e a qualidade do vinho – 6 (=7-1) vasilhas [de pedra] «de 2 ou 3 metretas» (480 a 720 litros) – é um dado surpreendente, que ilustra bem como Jesus veio «para que tenham a vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10; cfr Jo 6,14: os 12 cestos de sobras). O esposo das bodas de Caná sugere o Esposo das bodas messiânicas, o responsável pelo sucedido: n’Ele se cumprem os desposórios de Deus com o seu povo (cf. Is 54,5-8; 62,5; Apoc 19,7.9; 21,2; 22,17).

Também se pode ver, na água das purificações rituais que dão lugar ao vinho, um símbolo da Eucaristia – o sangue de Cristo –, que substitui o antigo culto levítico, e pode santificar em verdade (cf. Jo 2,19.21-22; 4,23; 17,17). Há quem veja ainda outros simbolismos implícitos: como uma alusão ao Matrimónio e mesmo à Ressurreição de Jesus, a plena manifestação da sua glória, naquele «ao terceiro dia» do v. 1 (que o Leccionário substituiu por: naquele tempo).

Por outro lado, também se costuma ver aqui o símbolo do papel de Maria na vida dos fiéis (cf. Apoc 19,25-27; 12,1-17), Ela que vai estar presente também ao pé da Cruz (Jo 19,25-27): «e estava lá a Mãe de Jesus» (v. 1). Ao contrário dos Sinópticos, nas duas passagens joaninas fala-se da Mãe de Jesus, como se Ela não tivesse nome próprio; é como se o seu ser se identificasse com o ser Mãe de Jesus, a sua grande dignidade. Trata-se de duas menções altamente significativas: os capítulos 2 e 19 aparecem intimamente ligadas precisamente pela referência à «hora» de Jesus, numa espécie de inclusão de toda a vida de Cristo. Ela não é mais um convidado numas bodas; é uma presença actuante e com um significado particular, nomeada por três vezes (vv. 1.3.5), atenta ao que se passa: dá conta da situação irremediável, intervém e fala, quando o milagre que manifesta a glória de Jesus podia ser relatado sem ser preciso falar da sua Mãe, mas Ela é posta em foco.

 “Caná”: só S. João fala desta terra (cf. 4,46; 21,2). Habitualmente identificada com Kef Kenna, a 7 Km a NE de Nazaré, um lugar de peregrinação, mas as indicações de F. Josefo fazem pensar antes nas ruínas de Hirbet Qana, a 14 Km a N de Nazaré.

3 “E estava lá a Mãe de Jesus”. Não deixa de ser surpreendente que João, ao contrário do Sinópticos, nunca A chama pelo seu nome: Maria. Este tratamento por “Mãe” revela uma grande intimidade, correspondente às palavras de Jesus “eis a tua Mãe” (Jo 19,27); ninguém, para se referir à sua mãe, a designa pelo nome próprio, é “a mãe”, sem mais. É significativo que a Mãe de Jesus apareça no início da vida pública de Jesus e no seu culminar no Calvário (19,26); Ela colabora na obra salvadora de Jesus desde o princípio até ao fim, em que é proclamada Mãe dos homens na pessoa do discípulo amado.

3 «Não têm vinho». A expressão costuma entender-se como um pedido de milagre. A exegese moderna tende a fixar-se em que a frase não passa duma forma de pôr em relevo uma situação irremediável, de molde a fazer sobressair o milagre. Mas, sendo a Mãe de Jesus a chamar a atenção para o problema, consideramos que Ela é apresentada numa atitude de oração. Com efeito, a oração de súplica e de intercessão não consiste em exercer pressão sobre Deus, para O convencer, mas é colocar-se na posição de necessitado e mendigo perante Deus, é pôr-se a jeito para receber os seus dons. A intercessão de Maria consiste em pôr-se do nosso lado, em vibrar connosco, de modo que fique patente a nossa carência e se dilate a nossa alma para nos dispormos a receber os dons do Céu. Ela aparece aqui como ícone da autêntica oração de súplica e de intercessão; e é lícito pensar que isto não é alheio à redacção joanina, pois o milagre acaba por se realizar na sequência da intervenção da Mãe de Jesus (mesmo que alguns não considerem primigénio o diálogo dos vv. 3-4).

4 «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». A expressão «que a Mim e a Ti?»(ti emoi kai soi?) é confusa, pois pode significar concordância – «que desacordo há entre Mim e Ti?» –, ou então recusa – «que de comum [que acordo] há entre Mim e Ti?». Sendo assim, a expressão «ainda não chegou a minha hora», presta-se a diversas interpretações, conforme o modo de entender «a hora»: ou a hora de fazer milagres, ou a hora da Paixão.

Para os que entendem a expressão como a de fazer milagres, uns pensam que Jesus se escusa: «que temos que ver com isso Tu e Eu? (=porque me importunas?), com efeito ainda não chegou a minha hora», e só a insistência de Maria é que levaria à antecipação desta hora; ao passo que outros (E. Boismard, na linha de alguns Padres) entendem a frase como de um completo acordo: «que desacordo há entre Mim e Ti? porventura já não chegou a minha hora?»; assim se justificaria melhor a ordem que Maria dá aos serventes.

Para os que entendem «a hora» a como a hora da Paixão, também as opiniões de dividem acerca de como entender a resposta de Jesus; para uns, significaria acordo, como se dissesse: «que desacordo há entre Mim e Ti? com efeito, ainda não chegou a minha hora, a de ficar sem poder ao ser preso, por isso não há dificuldade para o milagre» (Hanimann). Para outros, os que entendem a hora do Calvário como a hora da glorificação de Jesus, de manifestar a sua glória, dando o Espírito, a expressão é de recusa e quer dizer: «que temos a ver Tu e Eu, um com o outro?» («que tenho Eu a ver contigo?»), uma expressão demasiado forte, a mesma que é posta na boca dos demónios (cf. Mc 5,7; 1,24). Sendo assim, com uma expressão tão contundente, a redacção joanina põe em evidência a atitude de Jesus, que, longe de ser ofensiva para a sua Mãe, o que pretende é mostrar a independência de Jesus relativamente a qualquer autoridade terrena, incluindo a materna (Gächter). Mas o apelo para que Maria não intervenha tem um limite: é apenas até que chegue a hora de Jesus; até lá, Ela tem de ficar na penumbra (o que é confirmado pelas ditas «passagens anti-marianas»: Lc 2,49; 8,19-21 par; 11,27-28). Então Ela vai estar como a nova Eva, a Mãe da nova humanidade, – colaborando na obra da Redenção – ao lado do novo Adão, junto à árvore da Cruz, daí que então seja chamada «Mulher» (Jo 19,26), como nas Bodas de Caná.

Seja como for, convém fixarmo-nos numa interpretação concreta, talvez na mais corrente: na resposta de Jesus ao pedido da Mãe, Ele manifesta que a sua dependência é só do Pai, que fixa a hora dos milagres. Mas Maria sabe o valor da oração nos planos da Providência, por isso, continua a pedir, talvez sem palavras, mas com a sua actuação de preparar os criados, com o seu olhar, com a sua presença. E o milagre dá-se devido à intercessão de Maria. Ela tinha apelado para o seu Filho na qualidade de Messias, e o seu Filho dirige-se a Ela na qualidade da nova Eva, como quem tem uma missão a cumprir na obra da Redenção (corredentora e medianeira com Cristo): «Maria, Mestra de oração. Olha como pede ao seu Filho em Caná. E como insiste, sem desanimar, com perseverança. E como consegue» (Caminho, 502).

“Seis talhas de pedra… cada uma de duas a três medidas”. A medida (metreta grega, ou bath hebreu) era cerca de 40 litros, por isso o novo vinho, além de ser melhor, é abundantíssimo: entre 480 e 720 litros. No número 6 e nas talhas de pedra com água para as purificações rituais, pode ver-se um profundo simbolismo, pois o número 6 é um número que indica imperfeição (7 – 1 = 6); com efeito, apesar de a água ser tanta, de nada serve para purificar: Jesus substitui o antigo culto pelo novo.

10  “Tu guardaste o vinho bom até agora!” Esta observação do chefe da mesa é-nos transmitida por S. João, certamente pelo seu sentido simbólico. O próprio milagre é um “sinal” (v. 11) não apenas no sentido de argumento de credibilidade a favor da missão messiânica de Jesus (v. 11), mas também no sentido de símbolo, ou indício duma realidade superior, como em Jo 6; 9; e 11. Nestas passagens, é o próprio Jesus a revelar o simbolismo dos seus milagres; aqui, porém, podemos pressentir a típica profundidade de visão do Evangelista que acentua determinados pormenores pelo significado profundo que lhes atribui. Discute-se, no entanto, o simbolismo das palavras do noivo. O vinho novo, isto é, a doutrina trazida por Jesus – Sabedoria, Verbo de Deus – vem substituir a sabedoria do Antigo Testamento, esgotada e caduca. A água das purificações rituais e exteriores dá lugar ao vinho, que simboliza o sangue de Cristo, substituindo o antigo culto levítico, e santificando interiormente e em verdade (cf. Jo 4,23; 17,17). Podem ver-se ainda outros simbolismos implícitos: além da alusão ao Sacramento da Eucaristia, pode ver-se uma alusão ao do Matrimónio, e também, por outro lado, o papel de Maria na vida dos fiéis (ver Apoc 19,25-27; 12,1-17); se Jesus, a seu pedido, faz um milagre sem ter chegado a sua hora, quanto mais agora.

 

Sugestões para a homilia

 

Fazei tudo o que Ele vos disser

Fazei isto em memória de mim

 

A Palavra que escutámos neste II Domingo do Tempo Comum introduz-nos na contemplação do mistério de Cristo representado e sintetizado no episódio das Bodas de Caná. Ele é o esposo que se apresenta como aquele cujo banquete nupcial preenche de alegria a humanidade entristecida e sem rumo.

 

Isaías canta a esperança de um esposo que virá para desposar e encher de alegria os corações despidos e endurecidos pela incredulidade e infidelidade. “Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão-de chamar-te «Predilecta» e à tua terra «Desposada» porque serás a predilecta do Senhor e a tua terra terá um esposo.” (Is 62, 1-5)

 

São Paulo recorda à comunidade cristã de Corinto como é importante permanecer humilde e agradecido diante dos dons e carismas que o Espírito concede aos diferentes membros da família eclesial. É sempre numa perspectiva de serviço ao bem comum que esses dons e ministérios hão-de ser entendidos. Não para que cada qual se arrogue proprietário ou superior aos outros, mas para que todos se percebam parte de um corpo cujos membros se articulam em benefício do todo, sob a inspiração do Espírito. “Mas é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada.” (1Cor12, 4-11)

 

O Evangelho de São João 2, 1-11 apresenta-nos o belíssimo episódio daquele casamento realizado numa terra perdida da Galileia, Caná.

Presentes na boda estavam a Mãe de Jesus, Jesus e os seus discípulos. “Não têm vinho.” – observa a Mãe – “Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora.” – responde Jesus. Deste colóquio resulta um pedido dirigido aos serventes, de alcance inesperado e novo, ao jeito de mandamento: “Fazei tudo o que Ele vos disser.”

Eis o sinal operado no transbordante dom das talhas, que eram só seis, cheias, agora, de um vinho tão bom que nem o chefe da mesa podia perceber, qual ofuscamento da realidade nova, de onde vinha. Só os serventes sabiam de quem procedia aquele vinho, como só quem se dispõe a ser, por amor, servo de Jesus sabe de onde lhe vem a alegria no serviço.

Como não ler neste milagre o sinal inequívoco do memorial que viria a ser instituído na última ceia e na Hora da Cruz?

Nas Bodas de Caná Jesus manifesta a sua glória aos discípulos, que acreditaram n’Ele, e, por isso, à imagem dos serventes, também eles se tornariam servidores do vinho da alegria.

Ministros da alegria é o convite que se nos faz neste Evangelho; testemunhas da nova aliança entre Cristo e a sua Igreja, fazendo tudo o que Ele nos disser. E Ele pede-nos: «Fazei isto em memória de mim.»

 

Fala o Santo Padre

 

«Não é por acaso que no início da vida pública de Jesus haja uma cerimónia nupcial,

porque n’Ele Deus se uniu à humanidade: é esta a boa nova.»

No domingo passado, com a festa do Batismo do Senhor, demos início ao caminho do tempo litúrgico chamado “comum”: o tempo em que seguimos Jesus na sua vida pública, na missão para a qual o Pai o enviou ao mundo. No Evangelho de hoje (cf. Jo 2, 1-11) encontramos a narração do primeiro milagre de Jesus. O primeiro destes sinais prodigiosos decorreu na aldeia de Caná, na Galileia, durante a festa de um matrimónio. Não é por acaso que no início da vida pública de Jesus haja uma cerimónia nupcial, porque n’Ele Deus se uniu à humanidade: é esta a boa nova, embora quantos o convidaram ainda não saibam que à sua mesa está sentado o Filho de Deus e que o verdadeiro esposo é Ele. Com efeito, todo o mistério do sinal de Caná se funda na presença deste esposo divino, Jesus, que começa a revelar-se. Jesus manifesta-se como o esposo do povo de Deus, anunciado pelos profetas, e revela-nos a profundidade da relação que nos une a Ele: é uma nova Aliança de amor.

No contexto da Aliança compreende-se plenamente o sentido do símbolo do vinho, que está no centro deste milagre. Precisamente quando a festa chega ao ápice, acaba o vinho; Nossa Senhora dá-se conta disto e diz a Jesus: «Não têm vinho» (v. 3). Porque teria sido desagradável continuar a festa com água! Uma má figura para aquelas pessoas. Nossa Senhora dá-se conta e, dado que é mãe, vai ter imediatamente com Jesus. As Escrituras, especialmente os Profetas, indicavam o vinho como elemento típico do banquete messiânico (cf. Am 9, 13-14; Jl 2, 24; Is 25, 6). A água é necessária para viver, mas o vinho exprime a abundância do banquete e a alegria da festa. Uma festa sem vinho? Não sei... Transformando em vinho a água das ânforas utilizadas «para a purificação ritual dos judeus» (cf. v. 6) — era o costume: antes de entrar em casa, purificar-se — Jesus realiza um sinal eloquente: transforma a Lei de Moisés em Evangelho, portador de alegria.

E agora, contemplemos Maria: as palavras que Maria dirige aos servos coroam o quadro esponsal de Caná: «Fazei o que Ele vos disser!» (v. 5). Também hoje Nossa Senhora diz a todos nós: «Fazei o que Ele vos disser!». Estas palavras são uma herança preciosa que a nossa Mãe nos deixou. E de facto em Caná os servos obedeceram. «Disse-lhes Jesus: “Enchei as vasilhas de água”. Eles encheram-nas até em cima. Então ordenou-lhes: “Tirai agora e levai ao chefe de mesa”. E eles assim fizeram» (vv. 7-8). Nestas bodas, foi deveras estipulada uma Nova Aliança e aos servos do Senhor, isto é, a toda a Igreja, foi confiada a nova missão: «Fazei o que Ele vos disser!». Servir o Senhor significa ouvir e praticar a sua palavra. É a recomendação simples, essencial, da Mãe de Jesus, é o programa de vida do cristão.

Gostaria de evidenciar uma experiência que certamente muitos de nós tiveram na vida. Quando nos encontramos em situações difíceis, quando surgem problemas que não sabemos como resolver, quando sentimos muitas vezes ansiedade e angústia, quando nos falta a alegria, vamos ter com Nossa Senhora e dizemos: “Não temos vinho. Acabou o vinho: olha como estou, olha para o meu coração, olha para a minha alma”. Digamo-lo à Mãe. E Ela irá ter com Jesus para lhe dizer: “Olha para este, olha para esta: não têm vinho”. E depois, voltará para nos dizer: “Fazei o que Ele vos disser!”.

Para cada um de nós, haurir da ânfora equivale a confiar-se à Palavra e aos Sacramentos para experimentar a graça de Deus na própria vida. Então também nós, como o chefe de mesa que provou a água transformada em vinho, possamos exclamar: «Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» (v. 10). Jesus surpreende-nos sempre. Falemos à Mãe para que diga ao Filho, e Ele surpreender-nos-á.

Que Ela, a Virgem Santa, nos ajude a seguir o seu convite: «Fazei o que Ele vos disser!», a fim de que nos possamos abrir plenamente a Jesus, reconhecendo na vida de todos os dias os sinais da sua presença vivificadora.

     Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 20 de janeiro de 2019

 

Oração Universal

 

Irmãos, oremos a Deus nosso Pai,

Que nos chamou, por meio do Evangelho,

A tomar parte na glória de Nosso Senhor Jesus Cristo,

E digamos:

 

R. Ouvi, Senhor, a nossa súplica.

 

1.  Para que o nosso Bispo N. e o seu presbitério

Sirvam todos os homens santamente

E se alegrem com os dons de cada um,

oremos, irmãos.

 

2.  Para que o Senhor nos livre do pecado,

Nos faça experimentar a vida do Espírito

E nos ensine a ser amigos uns dos outros,

oremos, irmãos.

 

3. Para que os homens do saber e do trabalho,

Num esforço comum, sempre renovado,

Procurem dar-se as mãos e crescer juntos,

Oremos, irmãos.

 

4. Para que os casais jovens da nossa Diocese

Sintam junto deles a presença da Mãe de Jesus

E descubram, em Deus, a fonte de toda a alegria,

Oremos, irmãos.

 

5. Para que as crianças que hoje vão nascer

Sejam acolhidas com amor

E, como nós, venham a conhecer a Deus, seu Pai,

Oremos, irmãos.

 

Senhor, nosso Deus,

Que dais o vosso Espírito, sem medida,

Àqueles que Vos procuram

E trabalham para o bem comum de todos,

Ensinai-nos a escutar e a seguir as suas inspirações.

Por Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Acertai, Senhor a nossa alegria – M. Carneiro, NRMS, 73-74

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de participar dignamente nestes mistérios, pois todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se a obra da nossa redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Nascendo da Virgem Maria, Ele renovou a antiga condição humana; com a sua morte na cruz destruiu os nossos pecados; com a sua ressurreição conduziu-nos à vida eterna e na sua ascensão abriu-nos as portas do céu.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: F. Silva, NRMS, 14

 

Monição da Comunhão

 

Em cada Santa Missa renova-se o Sacrifício do puro amor, por meio do qual foi estabelecida a nova e eterna aliança. Se estivermos preparados, comunguemos alegremente do banquete das Bodas do Cordeiro e deixemos que Ele seja o alimento que nos sacia e a bebida que nos purifica.

 

Cântico da Comunhão: Felizes os convidados  – C. Silva, OC, pg 120

 

Salmo 22, 5

Antífona da comunhão: Para mim preparais a mesa e o meu cálice transborda.

 

Ou

1 Jo 4, 16

Nós conhecemos e acreditámos no amor de Deus para connosco.

 

Cântico de acção de graças: Deixai-me saborear – J. F. Silva, NRMS, 17

 

Oração depois da comunhão: Infundi em nós, Senhor, o vosso espírito de caridade, para que vivam unidos num só coração e numa só alma aqueles que saciastes com o mesmo pão do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Somos chamados a tomar parte na glória de Jesus Cristo e, do mesmo modo, convidados a testemunhá-la na vida de todos os dias. Que ao longo desta semana façamos tudo o que o Senhor nos disser, tal como nos pede a Sua e nossa Mãe, em vista de servirmos sempre aos nossos irmãos o vinho bom da alegria, da esperança e da paz.

 

Cântico final: A vida só tem sentido – H. Faria, NRMS, 103-104

 

 

 

 

Homilias Feriais

 

2ª SEMANA

 

2ª Feira,17-I: Consequências da desobediência.

1 Sam 15, 16-23 / MC 2, 18-22

Podem os companheiros do noivo jejuar, enquanto o noivo está com eles?

Esta imagem do noivo, ou Esposo, é utilizada pelo Senhor, para a união dEle com a Igreja. O próprio Senhor se intitula como o Esposo (EV).

Nesta união não cabem os «remendos», que podem estragar todo o tecido, A Igreja é o «vestido», se há rasgões, sofre. Samuel referiu ao rei Saúl um «rasgão» que teve consequências dramáticas: uma vez que rejeitaste a palavra do Senhor, também Ele te rejeitará como rei (LT).  A desobediência aos ensinamentos da Igreja provoca a divisão. É uma verdadeira repetição do pecado original.

 

3ª Feira, 18-I: Oitavário: Somos os ungidos do Senhor.

1 Sam, 16, 1-13 / Mc 2, 23-28

Samuel deu-lhe a unção no meio dos irmãos. a quem tinha diante, e o espírito do Senhor apoderou-se de David.

Na Antiga Aliança houve muitos «ungidos» do Senhor, especialmente o Rei David (LT). Encontrei David meu servo (SR). Jesus é o «Ungido do Senhor» de uma maneira única, pois na humanidade que Ele assume é totalmente «ungido pelo Espírito Santo».

Jesus recorda a atuação de David quando ele e os seus companheiros, cheios de fome, comeram os pães da proposição (EV). Actuou como ungido do Senhor. Todos somos ungidos do Senhor, pelo Baptismo, filhos de Deus. Não esqueçamos de actuar sempre de acordo esta dignidade. Assim colaboraremos na unidade dos cristãos pelo nosso exemplo.

 

4ª Feira, 19-I: Unidade exige fidelidade

1 Sam 17, 32-33. 37. 40-51 / Mc 3, 1-6

David: tu vens contra mim com a espada e eu vou contra ti em nome do Senhor do Universo, que tu desafiaste

As dificuldades que aparecem no nosso dia podem ser sempre ultrapassadas, se tivermos em conta que o Senhor está presente e espera que O invoquemos. David também venceu Golias, em nome do Senhor do Universo (LT). O Senhor é o meu amparo (SR).

Jesus quer curar a mão de um homem (EV) e fica triste com a dureza de coração dos fariseus. Agora estamos rodeados de um ambiente de afastamento de Deus. Não deixemos de ser fiéis à nossa fé, pois a infidelidade a Deus é uma das causas das divisões. O nosso exemplo poderá ajudar outros a voltarem de novo para Deus.

 

5ª Feira, 20-I: Cura das feridas da divisão.

1 Sam 18, 6-9; 19, 1-7 / Mc  3. 7-12

Na verdade, havia curado muita gente e, assim, todos os que tinham padecimentos corriam par Ele.

Jesus tinha o poder de curar e perdoar pecados. Por isso, todos procuravam tocar-lhe (EV). Ele é o verdadeiro médico divino. Em Deus confio e nada temo (SR).

Para curar esta grande ferida da divisão dos cristãos precisamos recorrer ao médico divino. Mas também devemos ter presente que estas divisões se devem aos pecados dos homens. Onde há pecado, há multiplicidade e cisma, heresia, conflito. Pelo contrário, onde há virtude, há união. Foi o pecado de inveja que provocou grande divisão entre Saul e David, de tal modo que o primeiro queria matar o outro.

 

6ª feira, 21-I: O Papa e a unidade dos cristãos.

1 Sam 24, 3-21 / Mc 3, 13-19

Estabeleceu, pois, os Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro, Tiago, filho de Zebedeu e João, o irmão de Tiago

Desde o início da sua actividade pública, Jesus escolheu doze homens para andarem com Ele e participarem da sua missão (EV). E ficaram associados ao reino de Cristo e, através deles, dirigiram a Igreja. Mas, de entre eles, Pedro ocupa o primeiro lugar e com missão única de defender a fé. Do Céu enviará a salvação (SR).

Os que se afastarem da Igreja precisam de uma conversão para voltarem à unidade. Assim aconteceu com Saúl, que moveu uma grande perseguição a David e acabou por reconhecer o seu engano (LT). Rezemos pelo Papa para que se recomponha a unidade.

 

Sábado, 22-I: Unidade, dom de Cristo

2 Sam 1, 1-4. 11-12. 19. 23-27 / Mc 3, 20-21.

Depois manifestaram o seu desgosto e jejuaram até à tarde, por causa de Saúl e seu filho Jónatas, do povo do Senhor.

É natural que a divisão dos cristãos provoque um grande desgosto ao Senhor e ao seu Vigário na terra, como aconteceu a David com a morte de Saúl e Jónatas.

Cristo concede sempre à sua Igreja o dom da unidade. Mas a Igreja tem que rezar e trabalhar constantemente para a manter, reforçar e abençoar. O desejo de recuperar a unidade de todos os cristãos é um dom de Cristo. Oremos e trabalhemos para obter este dom, muito unidos ao Papa. Peçamos ao Espírito Santo que nos conceda este dom, lembrando a oração de Cristo na Última Ceia.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Fábio Jorge Araújo de Carvalho

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo


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