Sagrada Família de Jesus, Maria e José

26 de Dezembro de 2021

 

Domingo dentro da Oitava do Natal

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada:    Senhor Jesus iluminai nossas famílias – J. F. Silva, NRMS, 71 - 72

 

Lc 2, 16

Antífona de entrada: Os pastores vieram a toda a pressa e encontraram Maria, José e o Menino deitado no presépio.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Neste dia de festa da Sagrada Família somos convidados a celebrar o amor de Deus que se exprime na beleza de uma família simples, amorosa, servidora, disposta a viver com ardente compromisso a vontade de Deus.

Celebrar a Eucaristia exige de nós as mesmas atitudes de Maria e de José. Com eles aprendemos que a nossa colaboração é indispensável na construção da vida em sabedoria, em graça e em estatura, diante de Deus e diante dos homens, seguindo os passos de Cristo.

Procuremos as surpresas e novidades que Deus nos propõe. Procuremos abrir os nossos horizontes nas propostas de Deus. Sejamos testemunhas audazes do projeto grandioso da família cristã, ajudando a sociedade a encontrar a profundidade e beleza da vida e do amor. Para isso coloquemos no centro Cristo. Maria e José nos ajudarão.

 

Oração colecta: Senhor, Pai santo, que na Sagrada Família nos destes um modelo de vida, concedei que, imitando as suas virtudes familiares e o seu espírito de caridade, possamos um dia reunir-nos na vossa casa para gozarmos as alegrias eternas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Quem honra os seus pais obtém o perdão dos pecados, um tesouro no céu, encontra a alegria e longa vida.

 

Ben-Sira 3,3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14)

3Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. 4Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados 5e acumula um tesouro quem honra sua mãe. 6Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. 7Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. 14Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. 15Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, 16porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida 17ae converter-se-á em desconto dos teus pecados.

 

Esta leitura é extraída da Sabedoria de Jesus Ben Sira, título grego do livro do A.T. mais lido na Liturgia, depois do Saltério, o que lhe veio a merecer, na Igreja latina, o nome de Eclesiástico, como já lhe chamava S. Cipriano no séc. III. O autor inspirado escreve pelo ano 180 a. C., quando a Palestina acabava de passar para o domínio dos Selêucidas (198). Então, a helenização, favorecida pelas classes dirigentes, começava a tornar-se uma sedução para o povo da Aliança, com a adopção de costumes totalmente alheios à pureza da religião. Perante tão perigosa ameaça, Ben Sira vê na família o mais poderoso baluarte contra o paganismo invasor. Assim, os seus ensinamentos vão insistentemente dirigidos aos filhos, e estes são continuamente exortados a prestar atenção às palavras do pai.

O nosso texto é um belíssimo comentário inspirado ao 4.º mandamento do Decálogo (Ex 20,12; Dt 5,16), concretizando alguns deveres: o cuidado com os pais na velhice (v. 14a); não lhes causar tristeza (v. 14b); ser indulgente para com eles, se vierem a perder a razão (15a); nunca os votar ao desprezo (15b).

 

Salmo Responsorial     Sl 127 (128), 1-2.3.4-5 (R. cf. 1)

 

Monição: Quem ama o Senhor sabe partilhar esse amor, encontrar a felicidade e ser fecundo.

 

Refrão:        Felizes os que esperam no Senhor,

e seguem os seus caminhos.

 

Ou:               Ditosos os que temem o Senhor,

ditosos os que seguem os seus caminhos.

 

Feliz de ti, que temes o Senhor

e andas nos seus caminhos.

Comerás do trabalho das tuas mãos,

serás feliz e tudo te correrá bem.

 

Tua esposa será como videira fecunda

no íntimo do teu lar;

teus filhos serão como ramos de oliveira

ao redor da tua mesa.

 

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.

De Sião te abençoe o Senhor:

vejas a prosperidade de Jerusalém

todos os dias da tua vida.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Revestidos da proposta de São Paulo só poderemos ficar belos, elegantes e sábios.

 

Colossenses 3,12-21

Irmãos: 12Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. 13Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. 14Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. 15Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em acção de graças. 16Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. 17E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. 18Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. 19Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. 20Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. 21Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.

 

A leitura é tirada da parte final da Carta, a parte parenética, ou de exortação moral, em que o autor fundamenta a vida moral do cristão na sua união com Cristo a partir do Baptismo: trata-se duma «vida nova em Cristo».

12-15 Temos aqui a enumeração de uma série de virtudes e de atitudes indispensáveis à vida doméstica, diríamos nós agora, para que ela se torne uma imitação da Sagrada Família de Nazaré. Estas virtudes são apresentadas com a alegoria do vestuário, como se fossem diversas peças de roupa, que, para se ajustarem bem à pessoa, têm de ser cingidas com um cinto, que é «a caridade, o vínculo da perfeição». Na linguagem bíblica, «revestir-se» não indica algo de meramente exterior, de aparências, mas assinala uma atitude interior, que implica uma conversão profunda.

17 «Tudo em nome do Senhor Jesus» como Jesus faria ou falaria no meu lugar.

18-21 O autor sagrado não pretende indicar aqui os deveres exclusivos de cada um dos membros da família, mas sim pôr o acento naqueles que cada um pode ter mais dificuldade em cumprir; com efeito, o marido também tem de «ser submisso» à mulher, e a mulher também tem de «amar» o seu marido.

 

Aclamação ao Evangelho          Col 3, 15a.16a

 

Monição: Viver de Jesus e para Jesus é a interpelação de São Lucas.

 

Aleluia

 

Cântico: J. F. Silva, NRMS, 50-51 (II)

 

Reine em vossos corações a paz de Cristo,

habite em vós a sua palavra.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 2, 41-51a

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. 51aJesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

No nosso comentário julgamos que não há razões suficientes para prescindir da realidade do facto narrado, mas pretendemos valorizar a teologia de Lucas no seu maravilhoso trabalho redaccional. É certo que Lucas não pretende, sem mais, relatar um episódio – curiosamente o único em cerca de três dezenas de anos passados em Nazaré. Ele visa, antes de mais e acima de tudo, por um lado, pôr em foco como toda a vida de Jesus estava radicalmente marcada pelo cumprimento da vontade do Pai, ao sublinhar o contraste – “teu pai e eu” (v. 48) e “meu Pai” –, deixando (como diz o Catecismo da Igreja Católica, nº 534) “entrever o mistério da sua consagração total à missão decorrente da sua filiação divina” (v. 49); por outro lado, deixa ver como o conhecimento do mistério de Jesus nunca é pleno para ninguém, nem sequer para Maria e José: “eles não entenderam…” (v. 50).

Segundo a Mixnáh, (Niddáh, V, 6) depois dos 13 anos, o rapaz israelita começava a ser “bar-hamitswáh”, “filho-da-lei”, isto é, passava ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém, mas os pais piedosos costumavam antecipar um ano ou dois o cumprimento deste dever. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. “Jerusalém” não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência  a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino “a caminho de Jerusalém”, onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24,26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas “o Mestre”, Ele é “o Profeta” – especialmente Lucas gosta de apresentar Jesus como Profeta (cf. 7,16; 9,19; 13,33; 24,19) –, e, por isso mesmo, Jesus não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através do seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O “Menino perdido” não aparece como um simples menino, é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: “Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?” (v. 49). Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, em Jerusalém, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – “aflitos à tua procura” (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é “elevar-se” ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24,50-51).

41 “Os pais de Jesus. Teu pai” (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 “Eu devia estar na Casa de Meu Pai”. A tradução de tá toû Patrós mou pode significar tanto “a casa de meu Pai”, como “as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai”. A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: “Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai” (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 “Eles não entenderam”. A resposta do Menino envolve um sentido muito profundo que ultrapassa uma simples justificação da sua “independência”. Não alcançam ver até onde iria este “estar nas coisas do Pai”, mas também não se atrevem a fazer mais perguntas, dada a sua extrema delicadeza e reverência, que uma profunda fé lhes ditava. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um “sinal” e mais uma “espada” (cf. Lc 2,34-35).

 

Sugestões para a homilia

 

A Família modelo de sinodalidade: Comunhão, Participação e Missão.

 

A Família modelo de sinodalidade: Comunhão, Participação e Missão.

A comunhão bela e profunda é uma realidade permanente na família de Nazaré. Ela percorre o mesmo caminho em sintonia e unidade, cumprindo os preceitos do Senhor, colaborando cada um a seu modo nos desígnios de Deus, crescendo e vendo crescer segundo Deus e segundo o dinamismo humano.

Nessa experiência há surpresas, preocupações, buscas e procuras. Há escutar, sintonizar, admirar. Há o não compreender total, serenamente acolhido pelo amor profundo, pela confiança total, pela abertura à ação da graça.

Há o contemplar das maravilhas, mais uma vez testemunhadas, a somar à embaixada de Gabriel, à visita a Isabel, ao nascimento, à apresentação no templo, à fuga para o Egipto, e nesta subida a Jerusalém. Jesus sempre no centro provocando alegria, exaltação, assombro, admiração, boa nova, compromisso e entrega. É uma família onde a comunhão é total e surge com espontaneidade, simplicidade e firmeza porque emerge da comunhão bela e fecunda do Mistério de Deus, que Maria e José, visivelmente contemplam em Jesus!

É uma comunhão que surge da sua profunda relação e vínculo amoroso com Deus. Brota da escuta da Palavra que é levada ao cerne do coração e se traduz em vida fecunda e partilhada. Comunhão vivida por gestos, atitudes e diálogo: um mesmo querer, uma só amar, um só destino. Comunhão que alimenta e alicerça o quotidiano, o natural e o sobrenatural.

Comunhão com todos: escutando Isabel, os Pastores, Simeão, Ana, os Magos. Comunhão nos momentos de sofrimento e obstáculos, acolhendo e obedecendo, na pobre gruta, na espada que trespassa, na fuga para o Egipto e na vida pública. Comunhão perfeita com Deus querendo sempre e só o que Deus quer.

Uma família participativa. Neles se vê uma participação inteligente, livre, responsável, lida com os olhos da escritura e com o olhar do Espírito. A família simples e bela de Nazaré soube acolher os projetos de Deus, comprometer-se com Ele e caminhando sempre na fidelidade a Cristo.

A participação emerge da Palavra de Deus, da Sua Lei, do seu querer e Sua vontade. Não é uma participação fruto da vaidade, do orgulho e imposição. É participação genuína e humilde não ofuscando nenhuma pessoa que surge nas suas vidas para compor o cântico novo e belo de Deus. Assim recebem com agrado, humildade e gratidão as palavras e os gestos de uma infindável procissão de homens e mulheres que se alegram e falam sobre o Messias, fruto Virginal de Maria e Filho de Deus.

Participam nas necessidades e sofrimento dos outros correndo por entre montanhas para acolher, estar próximo e partilhar. Ou até escutam opiniões e gestos contrários a Cristo para encontrar solução de melhor amar e servir em favor da salvação de todos. É bem notória a sua participação como exigências da sua fé e da sua caridade. É uma participação nas dimensões da profundidade formativa, nas dimensões celebrativas da fé e nos gestos de vida doada, a mais bela afirmação da caridade.

Mas o que mais comove e emociona é que diante da gesta grande de salvação tornam-se inteiramente disponíveis, em humildade e disponibilidade genuínas, que afasta os medos e as dificuldades, para somente expressarem o querer de Deus.

Uma família em Missão. Também esta família se tornou discípula de Cristo percorrendo os caminhos de Jesus, vivendo da Sua palavra, abandonando-se a um amor e a um querer maior.

Na esfera do discipulado uma das condições indispensáveis para anunciar e testemunhar Jesus Cristo é viver com Ele, viver n’Ele e viver d’Ele. Foi nesta família, na sua família, que Jesus passou a maior parte do tempo da sua vida, e foi por Ele que José e Maria se enamoraram e cresceram em ideal de discipulado mais alto. Foi a experiência da simplicidade, da beleza do quotidiano como expressão de santidade, da ternura, do trabalho, das refeições cheias de amor, da escuta, da entrega, da oração celebrada na igreja doméstica, da subida ao Templo, da vivência da Aliança, da fidelidade.

Sabemos da situação atual do mundo e dos seus perigos devastadores: as ideologias da morte e as ideologias de apagar Deus na sua bela criação Homem/ Mulher, na família. Tudo isto com consequências nefastas para a família… mas também nefastas para a sociedade, para a democracia e para a humanidade.

As nossas famílias. É neste mundo que as famílias cristãs têm de oferecer o seu testemunho na fidelidade ao projecto de Deus partilhando com coragem, audácia e alegria um ambiente de verdadeiro amor, de abertura à vida e sua defesa, de paz, de entrega, de oração, de presença viva de Cristo, de dinamismo de transformação, de luz e de vida. Por isso as nossas famílias cristãs têm o seu espaço imprescindível e urgente na realização da verdadeira comunhão, participação e missão.

É a hora decisiva para uma “nova evangelização”, para construir em Cristo uma sociedade justa, livre, reconciliada. A esperança é possível e realista. Dizemos não ao medo, à fuga, ao desespero, à evasão e ao pessimismo. Anunciamos e vivemos um evangelho da alegria e o dinamismo das vidas que exultam e se alegram. Não fugimos das dificuldades e acreditamos na graça de Deus, na força da sua Palavra, na eficácia sacramental, na oração pessoal / comunitária e no valor do sacrifício como expressão de entrega. Não fugimos do “mundo”. Somos convidados a ir às periferias e conviver com todos, sabendo da força transformadora do amor.

A missão educadora da família exige que os pais partilhem aqueles conteúdos que são necessários para o amadurecimento da personalidade nas dimensões cristãs. Uma missão que irradia o evangelho da alegria, da ternura, da bondade e do testemunho coerente. Um testemunho do amor conjugal e de amor paternal e filial, vivido na fé e incarnado na normalidade do quotidiano. Um testemunho que se abre em diálogo simples e gradual, conforme o crescimento dos seus membros, possibilitando um sadio crescimento na fé e usando também aqueles meios, métodos e estratégias educativas proporcionais a cada um.

Fazer caminho com os filhos num itinerário feito de exemplo vivo, alegre e contagiante. Um caminho feito de oração da vida e vida de oração. A oração em família é transformadora. Ensinar os filhos a rezar, desde a mais tenra idade. Suscitar a abertura do coração e da inteligência dos filhos a Deus. Que forte testemunho quando os filhos presenciam seus pais a rezar de forma simples, verdadeira e convincente. Fazer caminho com os filhos participando com eles de forma ativa na formação, na celebração e na caridade.

Uma missão que é compromisso na edificação da Igreja. A educação na fé deve revelar-se na maneira alegre, contagiante como se fala a Deus e de Deus. Se fala da Igreja e de cada pessoa que para nós deve estar próxima, deve ser irmão. Deve ser uma fé que encontra também referência nos vários serviços na comunidade cristã: catequese familiar e paroquial; promoção das vocações; aceitação e colaboração nos vários movimentos da Igreja e em todas as suas instituições; atenção, serviço e partilha com os mais desfavorecidos e desprezados; respeito profundo por cada pessoa.

Missão que é também um compromisso com a sociedade e o mundo. A família cristã não vive só para si, fechada em si mesma. Está ao serviço da construção do reino de Deus, na sociedade e no mundo. Está chamada a testemunhar o amor universal de Deus a toda a família humana. Chamada a partilhar a boa nova com a sociedade; chamada a participar de forma individual ou coletiva na escola, na política familiar, nos espaços mais variados; chamada a dar voz aos sem voz e sem vez; chamada a ter um coração aberto às necessidades dos irmãos; chamada a unir e a curar.

Missão que reflete o que se vive no lar: "A Igreja como casa é vista como lugar de ternura, onde todos somos irmãos que caminham juntos e devem afeto mútuo, um querer bem que tire toda a apatia à dor alheia, onde todos somos filhos do mesmo Pai celeste, superando a superficialidade de relações mecânicas e frias." (Papa Francisco,10-03-2021).

 

Fala o Santo Padre

 

«Hoje pensemos nestas duas palavras: admiração e aflição.

Eu consigo maravilhar-me, quando vejo as coisas boas dos outros, e resolver deste modo os problemas familiares?

Sinto aflição quando me afasto de Jesus?»

Hoje celebramos a festa da Sagrada Família e a liturgia convida-nos a refletir sobre a experiência de Maria, José e Jesus, unidos por um amor imenso e animados por uma grande confiança em Deus. O hodierno trecho evangélico (cf. Lc 2, 41-52) narra a viagem da família de Nazaré a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Mas, durante a viagem de regresso, os pais dão-se conta de que o filho de doze anos não está na caravana. Depois de três dias de busca e de temor, acharam-no no templo, sentado no meio dos doutores, debatendo com eles. Ao ver o próprio Filho, Maria e José «ficaram admirados» (v. 48) e a Mãe manifestou-lhe a sua apreensão dizendo: «Teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição (ibid.).

admiração — eles «ficaram admirados» — e a aflição — «Teu pai e eu, aflitos» — são os dois elementos para os quais gostaria de chamar a vossa atenção: admiração e aflição.

Na família de Nazaré nunca faltou a admiração, nem sequer num momento dramático como a perda de Jesus: é a capacidade de se maravilhar diante da gradual manifestação do Filho de Deus. É a mesma admiração que também os doutores do templo sentiram, maravilhados «com a sua inteligência e as suas respostas» (v. 47). Mas que significa admiração, que significa ficar maravilhado? Ficar admirado e maravilhar-se é o contrário de dar tudo por certo, é o contrário de interpretar a realidade que nos circunda e os acontecimentos da história apenas conforme os nossos critérios. E quem faz isto não sabe o que significa maravilhar-se, o que significa ficar admirado. Admirar-se significa abrir-se aos outros, compreender as razões dos outros: esta atitude é importante para curar os deteriorados prejudicados entre as pessoas, e é indispensável também para curar as feridas abertas no âmbito familiar. Quando há problemas no seio das famílias, damos por certo que nós temos razão e fechamos a porta aos outros. Ao contrário, é necessário pensar: “Mas que tem de bom esta pessoa?”, e maravilhar-se com este “bom”. Isto ajuda a unidade da família. Se tiverdes problemas em família, pensai nas coisas boas que possui o familiar com o qual tendes problemas, e maravilhai-vos com isto. Ajudar-vos-á a curar as feridas familiares.

O segundo elemento do Evangelho sobre o qual gostaria de refletir é a aflição que experimentaram Maria e José quando não conseguiam encontrar Jesus. Esta aflição manifesta a centralidade de Jesus na Sagrada Família. A Virgem e o seu esposo tinham acolhido aquele Filho, custodiavam-no e viam-no crescer em estatura, sabedoria e graça no meio deles, mas sobretudo Ele crescia dentro do coração deles; e, pouco a pouco, aumentavam o seu afeto e a sua compreensão em relação a ele. Eis por que a família de Nazaré é sagrada: porque estava centrada em Jesus, a Ele dirigiam-se todas as atenções e as solicitudes de Maria e de José.

Aquela aflição que eles sentiam nos três dias em que perderam Jesus, deveria ser também a nossa aflição quando estamos distantes d’Ele, quando estamos distantes de Jesus. Deveríamos sentir aflição quando esquecemos Jesus por mais de três dias, sem rezar, sem ler o Evangelho, sem sentir a necessidade da sua presença e da sua amizade consoladora. E muitas vezes passam os dias sem que eu me lembre de Jesus. Mas isto é feio, isto é muito feio. Deveríamos sentir aflição quando acontecem estas coisas. Maria e José procuram-no e encontraram-no no templo enquanto ensinava: também nós, é sobretudo na casa de Deus que podemos encontrar o Mestre divino e acolher a sua mensagem de salvação. Na celebração eucarística fazemos experiência viva de Cristo; Ele fala-nos, oferece-nos a sua Palavra, ilumina-nos, ilumina o nosso caminho, doa-nos o seu Corpo na Eucaristia da qual haurimos vigor para enfrentar as dificuldades de cada dia.

E hoje voltemos para casa com estas duas palavras: admiração e aflição. Eu consigo maravilhar-me, quando vejo as coisas boas dos outros, e resolver deste modo os problemas familiares? Sinto aflição quando me afasto de Jesus?

Rezemos por todas a famílias do mundo, especialmente por aquelas nas quais, por vários motivos, faltam a paz e a harmonia. E confiemo-las à proteção da Sagrada Família de Nazaré.

 Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 30 de dezembro de 2018

 

Oração Universal

 

Caríssimos irmãos e irmãs:

Na festa da Família de Nazaré,

invoquemos a Deus nosso Pai,

pedindo-Lhe que proteja e ilumine todas as famílias do mundo,

dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Renovai, Senhor, todas as famílias.

Ou: Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Protegei, Senhor, todas as famílias.

 

1. Para que a santa Igreja, nossa mãe,

apresente o rosto de uma verdadeira família,

onde se saiba amar, perdoar e acolher,

oremos.

 

2. Para que, em todas as famílias do nosso tempo,

cresça o gosto e a procura da verdade

e haja fome e sede do Deus vivo,

oremos.

 

3. Para que as famílias cristãs de toda a terra

façam da celebração da Páscoa, como no lar de Nazaré,

a grande festa de todos os seus membros,

oremos.

 

4. Para que os pais cristãos e os seus filhos

façam de suas famílias lares de paz

e verdadeiras Igrejas domésticas,

oremos.

 

5.Pelos governantes: para que promovam

verdadeiras políticas de apoio às famílias:

atentos aos que precisam de casa, de emprego,

do justo reconhecimento da actividade doméstica,

da liberdade na escolha da escola para os filhos,

de assistência sanitária básica para todos.

Oremos.

 

6. Para que os nossos irmãos que Deus já chamou a Si

e que acreditaram no nome do seu Filho

d’Ele recebam tudo quanto desejaram,

oremos.

 

Senhor Deus, que em Jesus, Maria e José

nos destes uma imagem viva

da vossa eterna comunhão de amor,

enchei de graça e sabedoria

todas as famílias do mundo.

Por Cristo Senhor nosso.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Os pastores vieram A. F. Santos – BML, 54 e CEC (I)

 

Oração sobre as oblatas: Nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício de reconciliação e humildemente Vos suplicamos que, pela intercessão da Virgem, Mãe de Deus, e de São José, se confirmem as nossas famílias na vossa paz e na vossa graça. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio do Natal: p. 457 [590-702] ou 458-459

 

No Cânone Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Nas Orações Eucarísticas II e III faz-se também a comemoração própria do Natal.

 

Santo: A. Cartageno – COM, (pg 189)

 

Monição da Comunhão

 

Senhor que eu te procure sempre. Que te encontre como meu Mestre que me ensina o amor incondicional ao Pai, e nesse amor, aprenda a dar-me sem medida numa confiança total. Que eu cresça robusto para dar testemunho de ti. Que eu saiba escutar e perceber os sinais que os meus irmãos me dão sobre Ti ou desejando conhecer-te. Que nunca afaste ninguém de Ti.

Que eu desça contigo para crescer, servir e amar.

 

Cântico da Comunhão: O Verbo fez-se carne e habitou no meio de nós – C. Silva, OC, (pg 195)

cf. Bar 3, 38

Antífona da comunhão: Deus apareceu na terra e começou a viver no meio de nós.

 

Cântico de acção de graças: Glória e louvor ao Verbo Divino – M. Faria, NRMS, 8 (I)

 

Oração depois da comunhão: Pai de misericórdia, que nos alimentais neste divino sacramento, dai-nos a graça de imitar continuamente os exemplos da Sagrada Família, para que, depois das provações desta vida, vivamos na sua companhia por toda a eternidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Que eu sinta a urgência de percorrer todos os caminhos que me levam a Cristo; urgência de ser discípulo configurado na Sua Páscoa; urgência de iluminar a vida dos irmãos com a boa nova; urgência de entender que Cristo se encontra sempre onde estão as pessoas e por todos se deixa interpelar. Que sinta a urgência de trazer todos à casa do Pai onde abunda o amor, a verdade, a paz e o Pão. Que nunca impeça ninguém de se aproximar deste Amor!

Virgem Maria ajudai-me a ter um coração de fé, misericórdia e caridade. São José ensina-me a finura da tua discrição, sabedoria e serviço.

 

Cântico final: Como o lar de Nazaré – B. Salgado, NRMS, 8 (I)

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO DO NATAL (OITAVA)

 

Segunda-Feira, 27-XII: S.João: O exemplo do discípulo amado.

1 Jo 1, 1-4 / Jo 20, 2-8

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos, é o que vos anunciamos

S. João, conhecido como o discípulo amado, recebeu abundantes provas dessa amizade: recebeu um maior conhecimento dos mistérios mais íntimos da vida de Jesus que, depois, nos transmitiu nos seus escritos (LT), definiu Deus como «Amor», esteve junto da cruz, recebeu Nossa Senhora como sua e nossa Mãe. Alegrai-vos no Senhor (SR)

Imitando o seu exemplo, corramos depressa para estar junto do Senhor (EV), até encontrá-lo e podermos dizer que O tocámos com as nossas mãos. Anunciemos aos outros esse conhecimento; e recebamos Nossa Senhora, como ele a recebeu.

 

Terça-Feira, 28-XII: Santos Inocentes.

1 Jo 1, 5- 2, 2 / Mt 2, 13-18

Herodes mandou matar em Belém e, em todo o seu território, todos os meninos de dois anos ou menos (EV). Ele, o Justo e, portanto, inocente, é a vítima de expiação pelos nossos pecados e também dos do mundo inteiro (LT).

Nos nossos tempos, também se pretende eliminar Deus, os seus ensinamentos, da vida da sociedade, e que nos esqueçamos da nossa fé, para implantar uma ideologia ateia, que designam por neutra. O Senhor nos liberte daqueles que nos perseguem (SR).

 

Quarta-feira: 5º dia da Oitava: Alegrias e sofrimentos.

1 Jo 2, 3-11 / Lc 2, 22-35

Porque os meus olhos viram a vossa salvação…luz para se revelar aos pagãos e glória de Israel, vosso povo..

Quarenta dias depois do nascimento de Jesus, Maria e José levaram-no ao Templo, conforme previa a lei de Moisés. Então Simeão profetizou o aparecimento do Messias (a Luz). Mas, junto com essa alegria, Nossa Senhora ouve a profecia do seu sofrimento (EV), que há-de acompanhar igualmente todos os discípulos de Cristo.

Quem andar na luz tem, por exemplo, que amar o seu próximo: quem ama seu irmão, permanece na luz (LT). Alegrem-se os céus (SR). Este amor também está marcado pela cruz do convívio diário, pelas dificuldades, que servem para fortalecer o verdadeiro amor.

 

Sexta-Feira, 30-XII: 7º dia do Oitavário: Desejos de uma vida nova em Cristo.

1 Jo 2,  18-21 / Jo 1, 1-18

E estes não nasceram do sangue, nem da vontade do homem, mas nasceram de Deus.

Estes são os últimos momentos do ano, esta é a última hora (LT). É boa altura para agradecermos a Deus as muitas graças que nos concedeu, para pedirmos perdão pelo que não fizemos bem, e a pedir ajuda para o novo Ano.

A partir do momento em que recebemos o Baptismo, temos uma vida nova, sobrenatural. e começamos a viver a vida de Cristo, somos filhos de Deus (EV). Procuremos começar o novo Ano com o propósito de vivermos e de nos comportarmos de acordo com esta dignidade que recebemos.

 

Celebração e Homilia:       Armando Rodrigues Dias

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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