Papa Francisco

VISITA DO SANTO PADRE AO IRAQUE

 

 

 

Anunciada com surpresa de todos, esperada com o coração a pulsar forte, o Santo Padre realizou a Visita do ao Iraque nos primeiros dias de março.

Todos sabiam que era uma viagem de alto risco, por todas as razões sobejamente conhecidas. Mas os cristãos deste país suspiravam pela visita do Pai Comum, como a terra ressequida anseia pela água.

Entretanto, em toda a cristandade, os fieis ficaram com a respiração suspensa, com receio do que poderia acontecer e procuraram a força e a paz na oração.

 

 

5 de março

O Papa Francisco partiu de Roma na manhã de 5 de março, uma sexta feira, num avião da Alitália, acompanhado por numerosos jornalistas. Durante a viagem manteve um diálogo com eles durante algum tempo.

 

Chega a Bagdade. O avião aterrou no aeroporto de Bagdade ao fim da manhã, e o Santa Padre foi acolhido pelas autoridades civis do Iraque. Antes de partir deste aeroporto internacional, teve um encontro com o Primeiro Ministro. Ao qual se dirigiu com as seguintes palavras:

Sinto-me agradecido pela oportunidade de fazer esta Visita, longamente esperada e desejada, à República do Iraque, pela possibilidade de vir a esta terra, berço duma civilização estreitamente ligada, através do Patriarca Abraão e de numerosos profetas, à história da salvação e às grandes tradições religiosas do Judaísmo, Cristianismo e Islão. Expresso a minha gratidão ao Senhor Presidente Salih pelo convite e as amáveis palavras de boas-vindas que me dirigiu em nome também das outras Autoridades e do seu amado povo. De igual modo saúdo os membros do Corpo Diplomático e os representantes da sociedade civil.

A cerimónia de boas vindas decorreu no Palácio Presidencial da capital deste país, realizando o Papa, em seguida, uma visita de cortesia ao Presidente da República da Iraque, logo seguido de um encontro com as Autoridades Civis e com o Corpo Diplomático.

Na Catedral Sírio-Católica de Nossa Senhora da Salvação, em Bagdade, encontrou-se com os Bispos, Sacerdotes, Religiosas e Religiosos, Seminaristas e Catequistas.

Agora, gostaria de dizer uma palavra especial aos meus irmãos bispos. Gosto de pensar no nosso ministério episcopal em termos de proximidade: a necessidade que temos de permanecer com Deus na oração, junto dos fiéis confiados aos nossos cuidados e dos nossos sacerdotes. De modo particular permanecei vizinhos aos vossos sacerdotes. Que não vos vejam como administradores ou gerentes, mas como pais preocupados por que os filhos estejam bem, prontos a dar-lhes apoio e ânimo de coração aberto. Acompanhai-os com a vossa oração, o vosso tempo, a vossa paciência, reconhecendo o seu trabalho e guiando o seu crescimento. Sereis, assim, para os vossos sacerdotes sinal visível de Jesus, o Bom Pastor que conhece as suas ovelhas e dá a vida por elas (cf. Jo 10, 14-15). (…)

Amados sacerdotes, religiosos e religiosas, catequistas, seminaristas que vos preparais para o futuro ministério: todos vós ouvistes a voz do Senhor nos vossos corações e respondestes como o jovem Samuel: «Eis-me aqui» (1 Sam 3, 4). Esta resposta, que vos convido a renovar todos os dias, leve cada um de vós a partilhar a Boa Nova com entusiasmo e coragem, vivendo e caminhando sempre à luz da Palavra de Deus, que temos o dom e o dever de anunciar.

Sabemos que o nosso serviço inclui também uma componente administrativa, mas isto não significa que devemos passar todo o nosso tempo em reuniões ou atrás duma escrivaninha. É importante sair para o meio do nosso rebanho e oferecer a nossa presença e acompanhamento aos fiéis nas cidades e nas aldeias. Penso em todos aqueles que correm o risco de ficar para trás: nos jovens, nos idosos, nos doentes e nos pobres

 

Dia 6 de março

Em Najaf, Nassiriya e Ur. Às primeira horas de sábado, 6 de março, o Santo Padre partiu de avião para Najaf, onde estava programado um encontro com o Grão-Aiatolá Sayyid Ali Ali-Husayni Al-Sistani.

Daqui seguiu, novamente de avião, para Nassiriya, na planície de Ur, na Caldeia, terra de origem de Abraão, onde era esperado para um encontro inter religioso.

Proferiu um discurso histórico aos fieis das três religiões principais representadas: cristãos, judeus e árabes.

Este lugar abençoado faz-nos pensar nas origens, nos primórdios da obra de Deus, no nascimento das nossas religiões. Aqui, onde viveu o nosso pai Abraão, temos a impressão de regressar a casa. Aqui ele ouviu a chamada de Deus, daqui partiu para uma viagem que mudaria a história. Somos o fruto daquela chamada e daquela viagem. Deus pediu a Abraão que levantasse os olhos para o céu e contasse as estrelas (cf. Gn 15, 5). Naquelas estrelas, viu a promessa da sua descendência, viu-nos a nós. E hoje nós, judeus, cristãos e muçulmanos, juntamente com os irmãos e irmãs doutras religiões, honramos o pai Abraão fazendo como ele: olhamos para o céu e caminhamos sobre a terra.

1. Olhamos para o céu. Ao contemplarmos o mesmo céu alguns milénios depois, aparecem as mesmas estrelas. Iluminam as noites mais escuras, porque brilham juntas. O céu oferece-nos assim uma mensagem de unidade: sobre nós, o Altíssimo convida a não nos separarmos jamais do irmão que está ao nosso lado. O Além de Deus envia-nos mais além de nós, ao outro, ao irmão. Mas, se quisermos salvaguardar a fraternidade, não podemos perder de vista o Céu. Nós, descendência de Abraão e representantes de várias religiões, sentimos que a nossa função primeira é esta: ajudar os nossos irmãos e irmãs a elevarem o olhar e a oração para o Céu. E disto todos precisamos, porque não nos bastamos a nós próprios. O homem não é omnipotente; sozinho, não é capaz. E se escorraça Deus, acaba por adorar as coisas terrenas. Mas os bens do mundo, que fazem muitos esquecer-se de Deus e dos outros, não são o motivo da nossa viagem sobre a terra. Erguemos os olhos ao Céu para nos elevarmos das torpezas da vaidade; servimos a Deus, para sair da escravidão do próprio eu, porque Deus nos impele a amar. Esta é a verdadeira religiosidade: adorar a Deus e amar o próximo. No mundo atual, que muitas vezes se esquece do Altíssimo ou oferece uma imagem distorcida d’Ele, os crentes são chamados a testemunhar a sua bondade, mostrar a sua paternidade através da nossa fraternidade.

A partir deste lugar fontal da fé, da terra do nosso pai Abraão, afirmamos que Deus é misericordioso e que a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão. Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. E nós, crentes, não podemos ficar calados, quando o terrorismo abusa da religião. Antes, cabe a nós dissipar com clareza os mal-entendidos. Não permitamos que a luz do Céu seja ocultada pelas nuvens do ódio! Sobre este país, acumularam-se as nuvens negras do terrorismo, da guerra e da violência. Com isso, sofreram todas as comunidades étnicas e religiosas; de modo particular quero recordar a comunidade yazidi, que chorou a morte de muitos homens e viu milhares de mulheres, donzelas e crianças raptadas, vendidas como escravas e sujeitas a violências físicas e conversões forçadas.

2. Caminhamos sobre a terra. Os seus olhos erguidos para o céu não desviaram, antes encorajaram Abraão a caminhar sobre a terra, a empreender uma viagem que, através da sua descendência, tocaria todos os séculos e latitudes. Mas tudo começou a partir daqui, do Senhor que o «mandou sair de Ur» (Gn 15, 7). Por conseguinte, o seu foi um caminho em saída, que implicou sacrifícios: teve de deixar terra, casa e parentes. Mas, renunciando à sua família, tornou-se pai duma família de povos. Algo de semelhante acontece também connosco: no caminho, somos chamados a deixar aqueles vínculos e apegos que, fechando-nos no nosso grupo, impedem-nos de acolher o amor ilimitado de Deus e ver os outros como irmãos. É verdade! Precisamos de sair de nós mesmos, porque temos necessidade uns dos outros. A pandemia fez-nos compreender que «ninguém se salva sozinho» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 54); mas volta sempre a tentação de nos distanciarmos dos outros. Todavia «o principio “salve-se quem puder” traduzir-se-á rapidamente no lema “todos contra todos”, e isso será pior que uma pandemia» (Ibid., 36). Nas tormentas que estamos a atravessar, não nos salvará o isolamento, não nos salvarão a corrida armamentista e a construção de muros, que aliás nos tornarão cada vez mais distantes e irados. Não nos salvará a idolatria do dinheiro, que nos fecha em nós mesmos e provoca abismos de desigualdade onde se afunda a humanidade. Não nos salvará o consumismo, que anestesia a mente e paralisa o coração.

O caminho que o Céu aponta para o nosso percurso é outro: é o caminho da paz. E este requer, sobretudo na tormenta, que rememos juntos na mesma direção. É indigno que, enquanto todos somos provados pela crise pandémica, e especialmente aqui onde os conflitos causaram tanta miséria, alguém pense avidamente nos seus negócios. Não haverá paz sem partilha e acolhimento, sem uma justiça que assegure equidade e promoção para todos, a começar pelos mais frágeis. Não haverá paz sem povos que estendam a mão a outros povos. Não haverá paz enquanto se olhar os outros como um «eles», e não como um «nós». Não haverá paz enquanto as alianças forem contra alguém, porque as alianças de uns contra os outros só aumentam as divisões. A paz não exige vencedores nem vencidos, mas irmãos e irmãs que, não obstante as incompreensões e as feridas do passado, passem do conflito à unidade. Na oração, peçamos isto para todo o Médio Oriente; penso em particular na vizinha e atormentada Síria.

O patriarca Abraão, que hoje nos reúne em unidade, foi profeta do Altíssimo. Uma antiga profecia diz que os povos «transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices» (Is 2, 4). Esta profecia não se realizou; antes, espadas e lanças tornaram-se mísseis e bombas. Então donde pode começar o caminho da paz? Da renúncia a ter inimigos. Quem tem a coragem de olhar as estrelas, quem acredita em Deus, não tem inimigos para combater. Tem apenas um inimigo a enfrentar, que está à porta do coração e insiste para entrar: é a inimizade. Enquanto alguns procuram mais ter inimigos do que ser amigos, enquanto muitos buscam o próprio benefício à custa de outros, quem olha as estrelas da promessa, quem segue os caminhos de Deus não pode ser contra ninguém, mas por todos; não pode justificar qualquer forma de imposição, opressão e prevaricação, não se pode comportar de modo agressivo.

Somente com os outros é que se podem curar as feridas do passado. A senhora Rafah contou-nos o exemplo heroico de Najy, da comunidade sabeia mandeia, que perdeu a vida na tentativa de salvar a família do seu vizinho muçulmano. Quantas pessoas aqui, no silêncio e ignorados pelo mundo, iniciaram caminhos de fraternidade! Rafah contou ainda as tribulações indescritíveis da guerra, que forçou muitos a abandonarem casa e pátria à procura dum futuro para os seus filhos. Obrigado, Rafah, por partilhares connosco a firme vontade de permanecer aqui, na terra dos teus pais! Oxalá todos aqueles que não o conseguiram fazer e tiveram de fugir encontrem um acolhimento benévolo, digno de pessoas vulneráveis e feridas.

Foi precisamente através da hospitalidade, traço caraterístico destas terras, que Abraão recebeu a visita de Deus e o dom, já não esperado, dum filho (cf. Gn 18, 1-10). Nós, irmãos e irmãs de diversas religiões, encontramo-nos aqui, em casa, e a partir daqui, juntos, queremos empenhar-nos para que se realize o sonho de Deus: que a família humana se torne hospitaleira e acolhedora para com todos os seus filhos; que, olhando o mesmo céu, caminhe em paz sobre a mesma terra.

Presidiu, seguidamente à oração dos filhos de Abraão. Depois de agradecer ao Senhor aquele encontro, implorou do Céu:

Pedimo-Vos, Deus do nosso pai Abraão e nosso Deus, que nos concedais uma fé forte, operosa no bem, uma fé que abra os nossos corações a Vós e a todos os nossos irmãos e irmãs; e uma esperança irreprimível, capaz de em tudo vislumbrar a fidelidade das vossas promessas.

Fazei de cada um de nós uma testemunha do vosso cuidado amoroso por todos, especialmente os refugiados e os deslocados, as viúvas e os órfãos, os pobres e os doentes.

Abri os nossos corações ao perdão recíproco, tornando-nos instrumentos de reconciliação, construtores duma sociedade mais justa e fraterna.

Acolhei na vossa morada de paz e luz todos os defuntos, de modo particular as vítimas da violência e das guerras.

Assisti as autoridades civis na busca e localização das pessoas sequestradas e na proteção especial das mulheres e crianças.

Ajudai-nos a cuidar da terra, a casa comum que, na vossa bondade e generosidade, destes a todos nós.

Sustentai as nossas mãos na reconstrução deste país e dai-nos a força necessária para ajudar, aqueles que tiveram de deixar as suas casas e terras, a regressar em segurança e com dignidade, e a começar uma vida nova, serena e próspera. Amen.

Missa na Catedral de S. José, em Bagdade. Regressou novamente a Bagdade, para celebrar a Santa Missa na Catedral Caldeia de "São José" em Bagdade. Na homilia da Missa recordou:

Assim, viver as Bem-aventuranças é tornar eterno aquilo que passa, é trazer o Céu à terra.

Mas como se vivem as Bem-aventuranças? Não exigem que se façam coisas extraordinárias, empreendimentos acima das nossas capacidades. Exigem o testemunho diário. Bem-aventurado é quem vive com mansidão, quem pratica a misericórdia no lugar onde se encontra, quem mantém o coração puro lá onde vive. Para se tornar bem-aventurado, não é preciso ser herói de vez em quando, mas testemunha todos os dias. O testemunho é o caminho para encarnar a sabedoria de Jesus. É assim que se muda o mundo: não com o poder nem com a força, mas com as Bem-aventuranças. Pois foi assim que fez Jesus, vivendo até ao fim aquilo que dissera ao início. Tudo se resume em testemunhar o amor de Jesus, aquela caridade que São Paulo descreve de forma estupenda na segunda Leitura de hoje. Vejamos como a apresenta.

Em primeiro lugar diz que «a caridade é paciente» (1 Cor 13, 4). Não esperávamos este adjetivo; amor parece sinónimo de bondade, generosidade, bem-fazer. Mas Paulo diz que a caridade é, antes de tudo, paciente. Trata-se de um termo que exprime, na Bíblia, a paciência de Deus. Ao longo da história, o homem continuou a trair a aliança com Ele, a cair nos pecados habituais, e o Senhor, em vez de Se cansar e abandoná-lo, permaneceu sempre fiel, perdoou, recomeçou. A paciência de recomeçar sempre é a primeira qualidade do amor, porque o amor não se indigna, mas sempre recomeça. Não se abate, mas relança; não desanima, mas permanece criativo. Perante o mal, não se rende, não se resigna. Quem ama não se fecha em si mesmo, quando as coisas correm mal, mas responde ao mal com o bem, lembrando-se da sabedoria vitoriosa da cruz. Assim procede a testemunha de Deus: não é passiva, fatalista, não vive à mercê das circunstâncias, do instinto e do momento, mas mostra-se sempre esperançosa, pois está fundada no amor que «tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (13, 7).

Podemos interrogar-nos: Como reajo eu às situações funestas? À vista das adversidades, apresentam-se sempre duas tentações. A primeira é a fuga: fugir, virar as costas, desinteressar-se. A segunda é reagir, como irritados, com a força. Assim aconteceu com os discípulos no Getsémani: no alvoroço geral, vários fugiram e Pedro puxou da espada. Mas nem a fuga nem a espada resolveram coisa alguma. Ao contrário, Jesus mudou a história. Como? Com a força humilde do amor, com o seu paciente testemunho. O mesmo somos nós chamados a fazer; assim Deus realiza as suas promessas.

Promessas. A sabedoria de Jesus, encarnada nas Bem-aventuranças, pede o testemunho e oferece a recompensa, contida nas promessas divinas. De facto, vemos que a cada Bem-aventurança segue uma promessa: quem as vive terá o reino dos céus, será consolado, saciado, verá a Deus… (cf. Mt 5, 3-12). As promessas de Deus asseguram uma alegria incomparável e não dececionam. Mas como se realizam? Através das nossas fraquezas. Deus faz bem-aventurados aqueles que percorrem até ao fim o caminho da sua pobreza interior. Esta é a estrada; não há outra. Olhemos para o patriarca Abraão: Deus promete-lhe uma grande descendência, mas ele e Sara são idosos e sem filhos. Precisamente na velhice paciente e confiante deles, Deus realiza maravilhas e dá-lhes um filho. Vejamos Moisés: Deus promete-lhe que libertará o povo da escravidão e, para isso, pede-lhe para ir falar ao Faraó. Moisés observa que tem dificuldade na fala; e no entanto Deus cumprirá a promessa através das suas palavras. Olhemos para Nossa Senhora, que é chamada a ser mãe, justamente quando, nos termos da Lei, não pode ter filhos. E olhemos para Pedro: renega o Senhor e, todavia, é precisamente a ele que Jesus chama para confirmar os seus irmãos. Às vezes, queridos irmãos e irmãs, podemos sentir-nos incapazes, inúteis. Não lhe demos crédito, pois Deus quer fazer maravilhas precisamente através das nossas fraquezas.

 

Dia 7 de março

Rumo a Erbil, no Curdistão. No domingo, dia 7, partiu de avião para Erbil, onde foi acolhido pelas Autoridades Religiosas e Civis da Região Autónoma do Curdistão Iraquiano na Sala VIP do Aeroporto.

Seguidamente, encontrou-se c na Sala VIP do Aeroporto de Erbil com o Presidente e o Primeiro Ministro da Região Autônoma.

Obedecendo a um horário cheio de atividades, partiu de helicóptero pata Mosul, cidade mártire da guerra e destruição em tempos recentes. Aí presidiu a uma  Oração de sufrágio pelas Vítimas da Guerra no Hosh al-Bieaa (praça da igreja) em Mosul.

Mais tarde, de regresso a Roma, no diálogo com os jornalistas, confidenciou:

Sobre Mossul, já disse de passagem o que senti quando me detive diante da igreja destruída: não tinha palavras! Não podia crer no que via, não podia crer... E não só aquela igreja, mas também as outras igrejas, até mesmo uma mesquita destruída. Vê-se que não andavam de acordo com o povo... A nossa crueldade humana é inacreditável! E neste momento – não quero dizer o nome – recomeçam: olhemos para a África, olhemos para a África! E com a nossa experiência de Mossul, estas igrejas destruídas e tudo mais… Cria-se a inimizade, a guerra, e recomeça a agir também o chamado Estado Islâmico. É uma coisa selvagem, brutal.

Antes de passar à outra questão... Uma pergunta que me veio à mente na igreja foi esta: Mas quem vende as armas a estes devastadores? Pois não são eles que as fazem em casa; sim, farão qualquer bomba... Mas quem lhes vende as armas? Quem é o responsável? A estes que vendem as armas pediria que ao menos tivessem a sinceridade de dizer: nós vendemos as armas. Não o dizem. É brutal.

Antes da oração pelas vítimas da guerra, o Santo Padre dirigiu a palavra aos presentes:

Agradeço ao Arcebispo D. Najeeb Michaeel as suas palavras de boas-vindas e estou particularmente grato ao Padre Raid Kallo e ao senhor Gutayba Aagha pelos seus comoventes testemunhos.

Muito obrigado, Padre Raid, por nos ter falado do deslocamento forçado de muitas famílias cristãs das suas casas. A trágica redução dos discípulos de Cristo, aqui e em todo o Médio Oriente, é um dano incalculável não só para as pessoas e comunidades envolvidas, mas também para a própria sociedade que eles deixaram para trás. Com efeito, um tecido cultural e religioso assim rico de diversidade é enfraquecido pela perda de qualquer um dos seus membros, por menor que seja, como, num dos vossos artísticos tapetes, um pequeno fio rebentado pode danificar o conjunto. Padre, falou da experiência fraterna que vive com os muçulmanos, depois de ter regressado a Mossul. Aqui encontrou acolhimento, respeito, colaboração. Obrigado, Padre, por ter compartilhado estes sinais que o Espírito faz florir no deserto e ter mostrado que é possível esperar na reconciliação e numa vida nova.

Senhor Aagha, lembrou-nos que faz parte da verdadeira identidade desta cidade a convivência harmoniosa entre pessoas de diferentes origens e culturas. Por isso, muito me alegro com o seu convite à comunidade cristã para voltar a Mossul e assumir o papel vital que lhe cabe no processo de regeneração e renovamento.

Hoje, todos erguemos as nossas vozes em oração a Deus Todo-Poderoso por todas as vítimas da guerra e dos conflitos armados. Aqui em Mossul, saltam à vista as trágicas consequências da guerra e das hostilidades. Como é cruel que este país, berço de civilizações, tenha sido atingido por uma tormenta tão desumana, com antigos lugares de culto destruídos e milhares e milhares de pessoas (muçulmanas, cristãs, yazidis – que foram aniquiladas cruelmente pelo terrorismo – e outras) deslocadas à força ou mortas!

Hoje, apesar de tudo, reafirmamos a nossa convicção de que a fraternidade é mais forte que o fratricídio, que a esperança é mais forte que a morte, que a paz é mais forte que a guerra. Esta convicção fala com uma voz mais eloquente do que a do ódio e da violência; e jamais poderá ser sufocada no sangue derramado por aqueles que pervertem o nome de Deus ao percorrer caminhos de destruição.

 

Visita à Comunidade Qaraqosh. urante o encontro com os cristãos de Qaraqosh, o Papa Francisco devolveu à comunidade o volume do século XIII pertencente à Igreja sírio-cristã, recuperado na Itália pela Focsiv durante os anos de violência do Estado islâmicoNa igreja da Imaculada Conceição

O Livro Sagrado, que escapou da fúria iconoclasta do autoproclamado Estado Islâmico, confiado à Focsiv, a Federação de Organizações Cristãs de Serviço Voluntário Internacional, que em 2017 o trouxe à Itália para permitir a restauração, foi restituído neste domingo (7) pelo Papa aos cristãos da Planície de Nínive, durante o encontro de oração na Catedral da Imaculada Conceição da cidade mártir cristã. O Livro Sagrado de liturgia dos séculos XIV - XV, foi entregue por Francisco ao arcebispo de Mosul, dom Yohanna Butros Mouché.

Levá-lo para casa e entregá-lo aos fiéis através do Papa foi emocionante, explicou ao Vatican News, Ivana Borsotto, presidente da Focsiv, presente no Iraque há seis anos. Ela está empenhada em apoiar e ajudar as populações deslocadas nos campos de refugiados:

R. - Vivemos uma emoção, porque, como Focsiv, também acompanhamos esse livro ‘refugiado’ e que foi entregue no final. O Papa Francisco o devolveu à catedral de Qaraqosh, por isso, para nós, foi realmente uma grande emoção.

Depois, na alocução emocionada dirigida aos presentes, o Santo Padre disse, com tristeza:

Simultaneamente, com grande tristeza, olhamos ao nosso redor e vemos outros sinais: os sinais do poder destruidor da violência, do ódio e da guerra. Quantas coisas foram destruídas! E quanto deve ser reconstruído! Este nosso encontro demonstra que o terrorismo e a morte nunca têm a última palavra. A última palavra pertence a Deus e ao seu Filho, vencedor do pecado e da morte. Mesmo no meio das devastações do terrorismo e da guerra podemos, com os olhos da fé, ver o triunfo da vida sobre a morte. Tendes diante de vós o exemplo dos vossos pais e mães na fé, que adoraram e louvaram a Deus neste lugar. Perseveraram com firme esperança no seu caminho terreno, confiando em Deus que nunca dececiona e sempre nos sustenta com a sua graça. A grande herança espiritual que nos deixaram continua a viver em vós. Abraçai esta herança! Esta herança é a vossa força. Agora é o momento de reconstruir e recomeçar, confiando-se à graça de Deus, que guia o destino de cada homem e de todos os povos. Não estais sozinhos. Solidária convosco está a Igreja inteira, com a oração e a caridade concreta. E, nesta região, muitos vos abriram as portas nos momentos de necessidade.

Queridos amigos, este é o momento de restaurar não só os edifícios, mas também e em primeiro lugar os laços que unem comunidades e famílias, jovens e idosos. Diz o profeta Joel: «Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões» (cf. Jl 3, 1). Quando os idosos e os jovens se encontram, que acontece? Os idosos sonham; sonham um futuro para os jovens. E os jovens podem recolher estes sonhos e profetizar, realizá-los. Quando os idosos e os jovens se unem, preservamos e transmitimos os dons que Deus nos oferece. Olhamos para os nossos filhos, sabendo que herdarão não apenas uma terra, uma cultura e uma tradição, mas também os frutos vivos da fé, que são as bênçãos de Deus sobre esta terra. Animo-vos a não esquecer quem sois e donde vindes; a preservar os laços que vos mantêm unidos, a guardar as vossas raízes. (…)

Quando chegava de helicóptero, vi a estátua da Virgem Maria sobre esta igreja da Imaculada Conceição e confiei-Lhe o renascimento desta cidade. Nossa Senhora não só nos protege do Alto, mas, com ternura materna, desce até junto de nós. Aqui a sua estátua foi danificada e espezinhada, mas o rosto da Mãe de Deus continua a olhar-nos com ternura. Porque é assim que fazem as mães: consolam, confortam, dão vida. E gostaria de agradecer cordialmente a todas as mães e mulheres deste país, mulheres corajosas que continuam a dar vida não obstante os abusos e as feridas. Que as mulheres sejam respeitadas e protegidas! Que lhes sejam dadas atenção e oportunidades! E agora rezemos juntos à nossa Mãe, invocando a sua intercessão para as vossas necessidades e projetos. Coloco-vos a todos sob a sua proteção. E peço, por favor, que não vos esqueçais de rezar por mim.

 

Santa Missa em Erbil. Regressou a Erbil, para celebrar a Santa Missa no estádio “Franso Hariri” desta cidade. Na homilia proferida sublinhou:

«Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei» (Jo 2, 19). Falava do templo do seu corpo e, por conseguinte, também da sua Igreja. O Senhor promete que pode, com o poder da sua Ressurreição, fazer-nos ressurgir a nós e às nossas comunidades das ruínas causadas pela injustiça, a divisão e o ódio. É a promessa que celebramos nesta Eucaristia. Com os olhos da fé, reconhecemos a presença do Senhor crucificado e ressuscitado no meio de nós, aprendemos a acolher a sua sabedoria libertadora, a repousar nas suas chagas e a encontrar cura e força para servir o seu Reino que vem ao nosso mundo. Pelas suas feridas, fomos curados (cf. 1 Ped 2, 24); nas suas chagas, amados irmãos e irmãs, encontramos o bálsamo do seu amor misericordioso; porque Ele, Bom Samaritano da humanidade, deseja ungir cada ferida, curar cada recordação dolorosa e inspirar um futuro de paz e fraternidade nesta terra.

A Igreja no Iraque, com a graça de Deus, fez e continua a fazer muito para proclamar esta sabedoria maravilhosa da cruz, espalhando a misericórdia e o perdão de Cristo especialmente junto dos mais necessitados. Mesmo no meio de grande pobreza e tantas dificuldades, muitos de vós oferecestes generosamente ajuda concreta e solidariedade aos pobres e atribulados. Este é um dos motivos que me impeliu a vir em peregrinação até junto de vós, ou seja, para vos agradecer e confirmar na fé e no testemunho. Hoje, posso ver e tocar com a mão que a Igreja no Iraque está viva, que Cristo vive e age neste seu povo santo e fiel.

Amados irmãos e irmãs, confio cada um de vós, as vossas famílias e as vossas comunidades à proteção materna da Virgem Maria, que foi associada à paixão e à morte do seu Filho e participou na alegria da sua ressurreição. Interceda por nós e nos conduza até Ele, poder e sabedoria de Deus.

 

No final despediu-se dos fiéis do Iraque:

Agora, aproxima-se o momento de voltar para Roma. Mas o Iraque ficará sempre comigo, no meu coração. Peço a todos vós, queridos irmãos e irmãs, que trabalheis juntos e unidos por um futuro de paz e prosperidade que não deixe ninguém para trás nem discrimine ninguém. Asseguro-vos as minhas orações por este amado país. De modo particular, rezo para que os membros das várias comunidades religiosas, juntamente com todos os homens e mulheres de boa vontade, cooperem para forjar laços de fraternidade e solidariedade ao serviço do bem e da paz. Salam, salam, salam! Shukrán [obrigado]! Deus abençoe a todos! Deus abençoe o Iraque! Allah ma’akum [ficai com Deus]!

 

Finalmente em Bagdade, para regressar a casa. Terminada a Concelebração, regressou a Bagdade de avião para uma noite de bem merecido repouso.

Na segunda feira de manhã, 8 de março, regressou a Roma, cansado, mas feliz, pela extraordinária jornada que marca uma época na história da Igreja.

Na viagem de regresso à Cidade Eterna, o Santo Padre respondeu a uma série de perguntas formuladas pelos jornalistas.

O Papa começou por saudar e agradecer a companhia dos jornalistas, acrescentando:

Depois, como hoje é o dia da mulher, parabéns às mulheres. A festa da mulher. E poder-se-ia perguntar: Por que não há a festa dos homens? Como disse no momento do encontro com a Senhora do Presidente [da República do Iraque], «porque nós, homens, estamos sempre em festa!» Para as mulheres, é preciso uma festa. A esposa do Presidente falou-me das coisas belas que fazem as mulheres, da fortaleza que têm para levar por diante a vida, a história, a família... muitas coisas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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