2º Domingo da Páscoa

11 de Abril de 2021

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eu confio Senhor – J. F. Silva, NRMS, 70

1 Pedro 2, 2

Antífona de entrada: Como crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual, que vos fará crescer e progredir no caminho da salvação. Aleluia.

 

Ou

4 Esd 2, 36-37

Exultai de alegria, cantai hinos de glória. Dai graças a Deus, que vos chamou ao reino eterno. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Celebramos neste 2.º Domingo da Páscoa, encerrando a oitava da Ressurreição de Jesus, o Domingo da Divina Misericórdia.

A misericórdia infinita é um atributo de Deus que se exprime num amor incondicional e sem qualquer limite.

Aos homens de hoje, assustados com a sua própria crueldade para com os outros homens, com medo de se aproximar de Deus para lhe pedir perdão, Deus recorda a sua misericórdia infinita.

 

Acto penitencial

 

(Sugere-se a aspersão da assembleia com a água lustral, como é recomendado pela Liturgia do tempo pascal).

 

Ou

 

Nós somos incapazes de praticar a misericórdia, porque nos cansamo-nos de perdoar. Deus nunca se cansa. Nós julgamos os outros com dureza e pomos a amargura no nosso julgamento, se nos ofenderam ou pensamos que o fizeram. Deus olha-nos sempre com benignidade e amor.

Peçamos humildemente perdão de termos cedido à nossa natureza doente e prometamos emendar-nos, com a ajuda da graça de Deus.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C do Ordinário da Missa)

 

•   Senhor Jesus: Custa-nos muito perdoar as ofensas reais ou imaginárias

    e guardamos toda a vida maus sentimentos no intimo do nosso coração.

    Senhor, misericórdia.

 

    Senhor, misericórdia.

 

•  Cristo: Julgamos muitas vezes com dureza as outras pessoas sem as ouvir,

    especialmente aquelas que alguma vez nos ofenderam ou prejudicaram.

    Cristo, misericórdia.

 

    Cristo, misericórdia.

 

•   Senhor Jesus: Temos muita dificuldade em confiar na Vossa misericórdia,

    porque nos custa ser misericordiosos e pensamos que Vós sois como nós.

    Senhor, misericórdia.

 

    Senhor, misericórdia.

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Deus de eterna misericórdia, que reanimais a fé do vosso povo na celebração anual das festas pascais, aumentai em nós os dons da vossa graça, para compreendermos melhor as riquezas inesgotáveis do Baptismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Livro dos Atos dos Apóstolos descreve-nos a vida exemplar da primitiva Igreja de Jerusalém.

Esta comunidade cristã é para nós uma referência importante, porque nela vivem muitas pessoas que conheceram e ouviram as palavras de Jesus.        

 

Actos dos Apóstolos 4,32-35

32A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. 33Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder e gozavam todos de grande simpatia. 34Não havia entre eles qualquer necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e traziam o produto das vendas, 35que depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade.

 

Este trecho é chamado o segundo «relato sumário». O primeiro (Act 2,42-47) leu-se neste mesmo Domingo do ano A. O terceiro (Act 5,12-16) lê-se no ano C. Chamam-se relatos sumários por serem uma espécie de bosquejos do estado da primitiva comunidade de Jerusalém, uma descrição um tanto idealizada, generalizando o que de mais positivo e edificante se verificou nos inícios. Todos estes três sumários focam três pontos importantes da vida dos primeiros cristãos, mas este desenvolve o cuidado dos pobres que havia entre eles. O 1º detém-se mais na sua vida religiosa, e o 3º no dom de operar milagres, que tinham os Apóstolos.

32 «Um só coração e uma só alma». Note-se a redundância que confere grande expressividade ao facto. Assim os primeiros cristãos viviam de acordo com as palavras de Jesus na sua oração sacerdotal (Jo 17,11.21-23; cf. Filp 1,27). «Uma tal união brota espontaneamente duma mesma fé em Jesus e dum mesmo amor pela sua adorável Pessoa» (Renié).

32-34 «Tudo entre eles era comum. Todos... vendiam...» Esta atitude extraordinariamente generosa dos nossos primeiros irmãos de Jerusalém ficou para sempre como um luminoso exemplo de como «compartilhar com os outros é uma atitude cristã fundamental. Os primeiros cristãos puseram em prática espontaneamente o princípio segundo o qual os bens deste mundo são destinados pelo Criador à satisfação das necessidades de todos sem excepção» (Paulo VI). Mas esta atitude cristã nada tem a ver com a colectivização de toda a propriedade privada imposta por um estado totalitário, uma vez que aqui era respeitada a legítima liberdade individual, podendo não se pôr tudo em comum. É por isto mesmo que se louva o gesto de Barnabé, logo a seguir, nos vv. 36-37, e se censura a fraude de Ananias e Safira, que muito bem poderiam não ter vendido o seu campo, ou então ter ficado para si com o produto da venda (cf. Act 5,4). Daqui se conclui que «todos» não se deve entender à letra, ao ser uma generalização, ou uma hipérbole. Em todos os tempos da vida da Igreja, desde então até aos nossos dias, numerosos grupos de cristãos têm posto em comum os seus bens, renunciando mesmo à sua posse, total ou parcial, imitando assim voluntariamente os primeiros cristãos.

 

Salmo Responsorial    Sl 117, 2-4. 16ab-18, 22-24

 

Monição: As maravilhas de Deus operadas na primeira comunidade cristã de Jerusalém pedem o nosso agradecimento ao Senhor.

Elevemos ao Céu um salmo de ação de graças e peçamos que o Espirito Santo renove, nas nossas comunidades cristãs, estas maravilhas.

 

 

Refrão:        Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,

                     porque é eterna a sua misericórdia.

 

Ou:               Aclamai o Senhor, porque Ele é bom:

                     o seu amor é para sempre.

 

Ou:               Aleluia.

 

Diga a casa de Israel:

é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Aarão:

é eterna a sua misericórdia.

 

Digam os que temem o Senhor:

é eterna a sua misericórdia.

A mão do Senhor fez prodígios,

a mão do Senhor foi magnífica.

 

Não morrerei, mas hei-de viver,

para anunciar as obras do Senhor.

Com dureza me castigou o Senhor,

mas não me deixou morrer.

 

A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular.

Tudo isto veio do Senhor:

é admirável aos nossos olhos.

Este é o dia que o Senhor fez:

exultemos e cantemos de alegria.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. João, na sua primeira Carta, ensina-nos que sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos.

Que o amor de Deus nos leve a sermos cada vez mais dóceis em cumprir a Sua Santíssima vontade.

 

1 São João 5,1-6

Caríssimos: 1Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus, e quem ama Aquele que gerou ama também Aquele que nasceu d’Ele. 2Nós sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos, 3porque o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, 4porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. 5Quem é o vencedor do mundo senão aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus? 6Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não só com a água, mas com a água e o sangue. É o Espírito que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade.

 

Nos domingos pascais do Ano B, a partir deste 2º Domingo, vamos ter como 2ª leitura trechos respigados da 1ª Carta de S. João (no ano A temos trechos de 1Pe; no ano C, do Apoc). O facto de hoje não começarmos pelo início, mas pela parte final da epístola, só se explica pelo carácter baptismal deste Domingo, que se chamou In albis, numa alusão às vestes brancas do Baptismo, e Quasi-modo pelas primeiras palavras latinas do célebre texto baptismal da Prima Petri adoptado como cântico de entrada da Missa (1Pe 2,2). No breve texto da leitura de hoje aparece por três vezes a palavra «água» (v. 6) e três vezes «nascer de Deus» (vv. 2a.2b.4), em que se pode ver uma alusão ao Baptismo. É interessante notar neste trecho o nexo entre a fé e o amor, e entre o amor de Deus e o dos irmãos, que, pelo Baptismo, se tornaram «filhos de Deus» (vv. 1-2).

1 «Quem ama Aquele que gerou ama também Aquele que nasceu d'Ele». Há duas possibilidades de entender o texto original. A versão litúrgica, pela utilização das maiúsculas, vê-se que prefere o sentido de que quem ama o Pai ama também o Filho (um sentido trinitário); mas o contexto próximo do amor fraterno levou-nos a preferir outra tradução: «todo aquele que ama Quem o gerou ama também quem por Ele foi gerado» (cf. a nossa tradução na Bíblia Sagrada da Difusora Bíblica). Assim, o amor aos irmãos é proposto como uma consequência da filiação divina, a derivar do amor a Deus (cf. 1Jo 2,29 – 3,2; 4,7.15; 1Pe 1,22-23).

3 «O amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos». O ensino de Jesus no Evangelho é neste sentido: Mt 7,21; 12,50; Jo 14,15.21; 15,14. «E os seus mandamentos não são pesados» é uma expressão que faz lembrar Mt 11,30: «o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

6 «Veio com água e com sangue»: esta insistência faz pensar na intenção de refutar os gnósticos, concretamente a heresia de Cerinto, para quem o Filho de Deus tomou posse de Jesus no Baptismo – a «água» –, e O abandonou ao chegar à sua Paixão – o «sangue». Muitos autores, seguindo os Santos Padres, vêem na referência à água e ao sangue uma alusão aos Sacramentos do Baptismo (cf. Jo 3,5), em que se recebe o Espírito Santo (cf. Jo 7,37-39) e da Eucaristia (cf. Jo 6,53.55-56), figurados, por sua vez, na água e no sangue que brotaram do lado aberto de Cristo na Cruz (Jo 19,33-35), o Novo Adão, de cujo lado saiu a Igreja, qual nova Eva. O versículo 7 (que não aparece na leitura de hoje) diz: «São três os que dão testemunho, o Espírito, a água e o sangue», o que levou os Padres a verem nestes três testemunhos unânimes um símbolo e um reflexo da SS. Trindade; daqui resultou que, em muitos manuscritos da Vulgata, o texto foi transcrito de diversas maneiras, sendo a mais corrente: «Três são os que dão testemunho no Céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e estes três são um só». Este acrescento (o chamado comma ioanneum, que foi objecto de tanta discussão inútil) veio a entrar para o texto oficial da Igreja, mas, embora a edição da Vulgata sisto-clementina o aceite, a Nova Vulgata já não o mantém.

 

Aclamação ao Evangelho          Jo 20, 29

 

Monição: Abramos de par em par o nosso coração para acolher a Boa Nova da Salvação que vai ser proclamada.

E clamemo-la com júbilo, agradecendo ao Senhor a luz que ela difunde nos nossos caminhos. 

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia – M. Faria, NRMS, 16

 

Disse o Senhor a Tomé: «Porque Me viste, acreditaste;

felizes os que acreditam sem terem visto».

 

 

Evangelho

 

São João 20,19-31

19Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». 20Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. 21Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». 22Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: 23àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». 24Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». 26Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». 28Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» 29Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». 30Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

 

Neste breve relato pode ver-se como Jesus cumpriu a suas promessas que constam dos discursos de despedida: voltarei a vós (14,18) – pôs-se no meio deles (v. 19); um pouco mais e ver-Me-eis (16,16) – encheram-se de alegria por verem o Senhor (v. 20); Eu vos enviarei o Paráclito (16,7) – recebei o Espírito Santo (v. 22); ver também Jo 14,12 e 20,17.

19 «A paz esteja convosco!» Não se trata duma mera saudação, a mais corrente entre os judeus, mesmo ainda hoje. Esta insistência joanina na sudação do Senhor ressuscitado (vv. 19.21.26) é muito expressiva; com efeito nunca os Evangelhos registam tal saudação, mas só agora, quando Jesus, com a sua Morte e Ressurreição, acabava de nos garantir a paz, a paz com Deus, origem e alicerce de toda a verdadeira paz (cf. Jo 14,27; Rom 5,1; Ef 2,14; Col 1,20).

20 O mostrar das mãos e do peito acentua a continuidade entre o Jesus crucificado e o Senhor glorioso (cf. Hebr 2,18); a sua presença, que transcende a dimensão espácio-temporal (cf. vv. 19.26), é uma realidade que os enche de paz (vv. 19.21.26; cf. Jo 14,27; 16,33; Rom 5,1; Col 1,20) e de alegria (v. 20; cf. Jo 15,11; 16,20-24; 17,13), conforme Jesus prometera.

«Ficaram cheios de alegria» é uma observação que confere ao relato uma grande credibilidade; com efeito, naqueles discípulos espavoridos (v. 19), desiludidos e estonteados, surge uma vivíssima reacção de alegria, ao verem o Senhor. Ao contrário do que era de esperar, não se verifica aqui o esquema habitual das visões divinas, as teofanias do A. T., em que sempre há uma reacção de temor e de perturbação. A grande alegria dos Apóstolos procede da certeza da vitória de Jesus sobre a morte e também de verem como Jesus reatava com eles a intimidade anterior, sem recriminar a fraqueza da sua fé e a vergonha da sua deslealdade.

22 «Soprou sobre eles… Recebei o Espírito Santo». Este soprar de Jesus não é ainda «o vento impetuoso» do dia de Pentecostes; é um sinal visível do dom invisível do Espírito (em grego é a mesma palavra que também significa «sopro»). Aqui, tem por efeito conferir-lhes o poder de perdoar os pecados, poder dado só aos Apóstolos (e seus sucessores no sacerdócio da Nova Aliança), ao passo que no dia do Pentecostes é dado o Espírito Santo também a outros discípulos reunidos com Maria no Cenáculo (cf. Act 1,14; 2,1), iluminando-os e fortalecendo-os com carismas extraordinários em ordem ao cumprimento da missão de que estavam incumbidos.

23 «A quem perdoardes…» A Igreja viu nestas palavras a instituição do Sacramento da Reconciliação, que é fonte de paz e alegria, e definiu mesmo o seu sentido literal; de facto Jesus diz: «a quem perdoardes os pecados», e não: «a quem pregardes o perdão dos pecados» (segundo entendeu a reforma protestante). A expressão é muito forte, pois deve-se ter em conta o uso judaico da voz passiva para evitar pronunciar o nome inefável de Deus (passivum divinum); sendo assim, dizer ficarão perdoados corresponde a «Deus perdoará» e «ficarão retidos» equivale a «Deus reterá», isto é, não perdoará (cf. Mt 16,19; 18,18; 2Cor 5,18-19). Aqui se funda o ensino do Concílio de Trento ao falar da necessidade de confessar todos os pecados graves cometidos depois do Baptismo, uma doutrina que, já depois do Vaticano II, o magistério de Paulo VI reafirma: «a doutrina do Concílio de Trento deve ser firmemente mantida e aplicada fielmente na prática»; por isso, os fiéis que, em perigo de morte ou em caso de grave necessidade, tenham recebido legitimamente a absolvição comunitária ou colectiva de pecados graves ficam com a grave obrigação de os confessar dentro de um ano (Normas Pastorais da Congregação para a Doutrina da Fé, 16-VI-1972); também o Catecismo da Igreja Católica, nº 1497, afirma: «a confissão individual e integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua a ser o único meio ordinário para a reconciliação com Deus e com a Igreja»; cf. tb. o Motu proprio de João Paulo II, Misericordia Dei (7.4.2002) e Código de Direito Canónico (nº 960.).

24 «Tomé», nome aramaico Tomá, que significa «gémeo»; em grego, dídymos.

28 «Meu Senhor e meu Deus!» É da boca do discípulo incrédulo que sai a mais elevada profissão de fé explícita na divindade de Cristo, a qual engloba todo o Evangelho numa unidade coerente, bem assente em três pilares (1,1-3; 10,30; 20,28).

29 «Felizes os que acreditam sem terem visto». Para a generalidade dos fiéis, a fé (dom de Deus) não tem mais apoio humano verificável do que o testemunho grandemente crível da pregação apostólica e da Igreja através dos séculos (cf. Jo 17,20). Para crer não precisamos de milagres, basta a graça, que Deus nunca nega a quem busca a verdade com humildade e sinceridade de coração. O facto de as coisas da fé não serem evidentes, nem uma mera descoberta da razão, só confere mérito à atitude do crente, que crê confiando em Deus, que na sua Revelação não se engana nem pode enganar-nos. Por isso, Jesus proclama-nos «felizes», ao submetermos o nosso pensamento e a nossa vontade a Deus na entrega que o acto de fé implica. Como Tomé, também nós temos garantias de credibilidade suficientes para aceitar a Boa Nova de Jesus: as nossas escusas para não crer são escusas culpáveis, escusas de mau pagador. Também as estrelas não deixam de existir pelo facto de os cegos não as verem, ou de o céu estar nublado.

30-31 Temos aqui a primeira conclusão do Evangelho de S. João, que nos deixa ver o objectivo que o Evangelista se propôs: fazer progredir na fé e na vida cristã os fiéis, sem que se possa excluir também uma intenção de trazer à fé os não crentes. Este Evangelho foi escrito para crermos que «Jesus é o Messias, o Filho de Deus». Note-se que a fé não é uma mera disposição interior de busca, aposta, ou caminhada, sem uma base doutrinal, implica um conteúdo de ensino (cf. Rom 6,17), pois exige que se aceitem «verdades» como esta, a saber, que Jesus é o Filho de Deus, e Filho, não num sentido genérico, humano ou messiânico, pois é o «Filho Unigénito que está no seio do Pai» (Jo 1,18), verdadeiro Deus, segundo a confissão de S. Tomé: «Meu Senhor e meu Deus» (v. 28; cf. Jo 1,1; Rom 9,5). Note-se que há quem veja o Evangelho segundo S. João contido dentro de uma grande inclusão, que põe em evidência a divindade de Cristo: Jo 1,1 (O Verbo era Deus) e Jo 20,28 (meu Senhor e meu Deus), tendo como centro e clímax a afirmação de Jesus: Eu e o Pai somos Um (10,30).

 

Sugestões para a homilia

 

• Igreja fiel a Jesus Cristo

• A Misericórdia Divina no Cenáculo

 

1. Igreja fiel a Jesus Cristo

 

Os Atos dos Apóstolos apresentam-nos um vislumbre da Igreja primitiva em Jerusalém. Era uma comunidade formada por pessoas que tinham conhecido e convivido com Jesus, um numeroso grupo de 120 pessoas tinha recebido o Espírito Santo no cenáculo e, portanto, empenhada em viver fiel aos ensinamentos do Mestre divino.

Igreja em comunhão. «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma

Ninguém pode estar unido a Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, viver de costas voltadas para as outras pessoas.

A participação na vida divina pela graça, que nos torna filhos de Deus, leva-nos a viver de acordo com o que havemos de ser por toda a eternidade no Céu: uma Comunhão na Verdade e no Amor com a Santíssima Trindade – com o Pai e o Filho e o espírito Santo – e com todos os bem aventurados do Céu.

De algum modo, podemos dizer que a nossa vida no Paraíso começa já na terra. E, de facto, quando vivemos assim, a terra aproxima-nos do Céu na alegria, no amor e na paz.

Pelo contrário, quando as pessoas se afastam de Deus, instauram, sem o pensarem, um ambiente que lembra o inferno no ódio, na guerra, na ambição, na podridão moral, e deslealdade.

Comunhão de bens. «ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum

Cada um dos discípulos de Jesus da Igreja de Jerusalém usava os bens materiais como se não fossem seus. A virtude da pobreza não consiste em não ter bens, mas em estar desprendido, em usar as coisas como emprestadas por Deus.

Esta virtude leva-nos a não ter ídolos, a não pôr nos bens da terra o nosso tesouro e a nossa felicidade e contentarmo-nos com aquilo que é suficiente para levar uma vida humana digna.

Em boa verdade, ninguém pode dizer: “O dinheiro é meu e faço dele o que me apetecer...” Somos administradores de bens que o Senhor nos confiou, como nos ensina Jesus na parábola dos talentos.

Alguns recebem por vocação adotar na vida uma radicalidade total. Os pais, quando vivem a sua entrega a sério, são bons modelos deste desprendimento. Ganham o que lhes é possível e põem tudo ao serviço da edificação da família. Os problemas da vida quase não os deixam pensar em si.

A comunhão na terra, como acontecia na Igreja de Jerusalém, passa por uma certa comunhão de bens, sem renunciar ao direito de propriedade o qual faz parte da natureza humana.

A Igreja nunca abandonou esta experiência da comunhão de bens em pequenos grupos bem preparados, vivem assim as comunidades de vida religiosa, consagrada, e vários grupos no mundo.

Testemunhas de Cristo Ressuscitado. «Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus com grande poder [...]»

A grande novidade que anunciavam aos habitantes de Jerusalém era que Aquele condenado de Sexta Feira Santa tinha ressuscitado, oferecendo a prova clara de que era Ele o verdadeiro Messias.

Para os judeus, esta era e é a questão fundamental. Se Cristo é o Messias anunciado pelos profetas, devemos segui-l’O sem hesitação, porque não há salvação em nenhum outro.

S. João diz, na sua primeira Carta: «Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus, e quem ama Aquele que gerou ama também Aquele que nasceu d’Ele

Os primeiros discípulos do Senhor em Jerusalém não se limitavam a afirmar a Ressurreição de Jesus, mas proclamavam também pela vida cheia de alegria, de optimismo e de esperança, pela verdadeira fraternidade e misericórdia que viviam, como Povo de Deus a caminho da Pátria definitiva.

Rostos do verdadeiro cristianismo. «gozavam todos de grande simpatia

Os primeiros passos dos evangelizadores na Cidade Santa foram facilitados pela simpatia que os cristãos atraíam sobre si, eram pessoas de convivência agradável, compreensivas e que não olhavam os seus conterrâneos com altivez, como os fariseus, os escribas e os príncipes de povo, mas com humilde misericórdia.

O Senhor convida-nos a um exame de consciência, para constatarmos que imagem têm as pessoas não praticantes a nosso respeito.

A simpatia não é a finalidade da nossa vida, mas pode ser um bom exercício de caridade e até de mortificação, no sorriso, na palavra amável, na ajuda oportuna e na compreensão.

 

2. A Misericórdia Divina no Cenáculo

 

Começavam a circular as primeiras notícias da Ressurreição gloriosas do mestre, como Ele tinha anunciado tantas vezes. Pedro e João, alarmados por Maria Madalena, foram a correr ao sepulcro e viram sinais deste grande mistério.

Vencida a desorientação causada pela prisão e morte de Jesus, os Onze começavam a congregar-se no Cenáculo, para trocar impressões sobre o que estava a acontecer.

A oferta da Divina Misericórdia. «Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles

Inesperadamente, sem que nada o fizesse prever, Jesus manifestou-Se no meio deles, vivo e glorioso, sem que ninguém Lhe tivesse aberto as portas ou janelas. Tinham sido trancadas por dentro, com medo que a agitação da cidade chegasse ali.

Jesus entrou naquele espaço fechado e triste, como saiu do sepulcro sem que fosse preciso rolar a pedra, para levar aos Seus Esperança, Amor e Alegria.

Jesus aparece sorridente e não com ar carregado de quem veio para repreender a falta de lealdade dos últimos dias. Foi tão delicada a Sua visita, que não fez uma única alusão ao comportamento deles, deixando-O só quando precisava mais de ajuda.

A paz e a alegria que só Deus nos dá. «e disse-lhes: “A paz esteja convosco”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.”»

Muitas vezes, as pessoas tentam comprar alguns minutos de falsa alegria e acabam mais desiludidas e triste do que antes.

Quando se encontram nos eventos, em grupo, até parece que vendem alegria e agitação feliz. Mas quando surpreendemos o seu rosto sem que contem serem vistas, surpreendemos nelas um ar de tristeza que impressiona.

Só na fé e no amor de Cristo podemos encontrar a verdadeira alegria e paz, como oferta da misericórdia, porque estas não nascem da nossa possível virtude, mas do Seu Amor.

Mensageiros da paz e da misericórdia. «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós»

Somos enviados de Cristo ao mundo mergulhado na tristeza, como mensageiros da verdadeira paz e alegria.

Havemos de sê-lo, pelo nosso otimismo iluminado pela fé e confiança em Deus. Uma vez que somos filhos de Deus, conscientes do Seu Amor infinito e omnipotente para connosco, não há lugar para pessimismo nas nossa palavras e atitudes.

Deus não nos quer em nós um otimismo néscio, de quem vive fora do mundo, alheio às dificuldades reais, mas apoiado na confiança que temos n’Ele. As dificuldades de que se queixam as pessoas são reais, mas a fé ajuda-nos a ver para além delas. Somos otimistas porque vivemos na certeza da fé de que somos filhos de Deus e estamos certos do Seu Amor por nós.

Ministros do Sacramento da Misericórdia. «Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos”.»

Na tarde do dia de Páscoa, Jesus Ressuscitado quis instituir no Cenáculo o Sacramento da Reconciliação e Penitência, para nos oferecer a Misericórdia e o perdão dos nossos pecados.

Ele é a porta sempre aberta do Coração de Jesus Cristo para nos receber. Ele não quis estabelecer qualquer limite da entrada nele, nem pelos pecados, nem pelo seu número. É uma entrada incondicional.

Não era possível facilitar mais a reconciliação com Ele. Os que dizem que poderia ter deixado apenas um simples arrependimento para serem perdoados, desconhecem que nós precisamos de um sinal sensível do perdão recebido.

Além disso, fortalece-nos na certeza do perdão um irmão nosso que intervém como instrumento na administração desta misericórdia. O ministro da Confissão é juiz, não para condenar, mas para nos ajudar a oferecer o mínimo de condições, para sermos absolvidos dos nossos pecados.

A Igreja, mediadora da Misericórdia. «Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: “Vimos o Senhor”. Mas ele respondeu-lhes: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei”.»

Alguns dizem. “Cristo, sim, Igreja, não.” “Eu amo a Cristo, mas não creio, nem aceito a Igreja.”

A Igreja tem a Cabeça divina, santíssima, e membros cheios de limitações e pecados. Também na contemplação da Igreja temos de ser misericordiosos e passar além das limitações humanas para acreditar na presença misteriosa de Cristo.

O que Jesus censura a Tomé não é a sua prudência em investigar a verdade, mas a sua recusa de aceitar a mediação da Igreja. É dos Apóstolos que recebemos a fé em Jesus Morto e Ressuscitado. Não ama a Jesus Cristo quem não ama e não aceita a mediação da Igreja na fé.

A condescendência misericordiosa de Jesus. «Veio Jesus, [...] e disse [...] a Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente”.»

Nós somos facilmente melindráveis. Se alguém tomasse para connosco uma atitude como a de Tomé, a somar ao abandono a que tinha votado Jesus na Paixão, que atitude tomaríamos?

A Misericórdia leva Jesus a procurar, com diligência amorosa, este Apóstolo que Ele tinha chamado. Ensina-nos praticamente o que ensinou na parábola da ovelha tresmalhada: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar?»

O Apóstolo atormentado pela dúvida reencontra a alegria no Cenáculo. «Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o vencedor do mundo senão aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus?»

Ultrapassada esta dificuldade, Tomé vai trabalhar heroicamente até ao fim da sua vida na expansão do evangelho e não hesitará dar a vida por um Amigo tão bom.

Acreditar sem ver. «Disse-lhe Jesus: “Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto”

Acreditemos na divina misericórdia para connosco, mesmo que nos pareça que não a vimos. Mostremo-la, pelas nossas palavras e ações, às outras pessoas.

Há pouco, o Santo Padre acrescentou às invocações da Ladainha Mãe da Misericórdia e Mãe da Esperança. Peçamos-Lhe nos ensine a mostrar às pessoas a misericórdia divina, para as inundarmos da verdadeira Esperança.

 

Fala o Santo Padre

 

«Entrar nas suas chagas significa contemplar o amor sem medidas que brota do seu coração.»

No Evangelho de Hoje, o verbo ver aparece várias vezes «Os discípulos se alegraram por verem o Senhor» (Jo 20,20); depois disseram a Tomé: «Vimos o Senhor» (v. 25). Mas o Evangelho não descreve como o viram, não descreve o Ressuscitado, apenas destaca um detalhe: «Mostrou-lhes as mãos e o lado» (v. 20). Parece significar que os discípulos reconheceram Jesus desse modo: através das suas chagas. O mesmo acontece com Tomé: ele também queria ver «a marca dos pregos em suas mãos» (v. 25) e, depois de ter visto, acreditou (cf. v. 27).

Apesar da sua incredulidade, temos de agradecer a Tomé, pois a ele não bastou ouvir dizer dos outros que Jesus estava vivo, e nem sequer com poder vê-Lo em carne e osso, mas quis ver dentro, tocar com a mão nas suas chagas, os sinais do seu amor. O Evangelho chama Tomé de «Dídimo» (v. 24), ou seja, gêmeo; e nisso ele é verdadeiramente nosso irmão gêmeo. Pois também a nós não basta saber que Deus existe: um Deus ressuscitado, mas longínquo, não nos preenche a nossa vida; não nos atrai um Deus distante, por mais que seja justo e santo. Não: Nós também precisamos “ver a Deus”, de “tocar com a mão” que Ele tenha ressuscitado, e ressuscitado por nós.

Como podemos vê-Lo? Como os discípulos: por meio das suas chagas. Olhando por ali, compreenderam que Ele não os amava de brincadeira e que os perdoava, embora entre eles houvesse quem O tivesse negado e O tivesse abandonado. Entrar nas suas chagas significa contemplar o amor sem medidas que brota do seu coração. Esse é o caminho. Significa entender que o seu coração bate por mim, por ti, por cada um de nós. Queridos irmãos e irmãs, podemos nos considerar e chamar-nos cristãos, e falar sobre muitos belos valores da fé, mas, como os discípulos, precisamos ver Jesus tocando o seu amor. Só assim podemos ir ao coração da fé e, como os discípulos, encontrar uma paz e uma alegria mais fortes que qualquer dúvida (cf. vv. 19-20).

Tomé, depois de ter visto as chagas do Senhor, exclamou: «Meu Senhor e meu Deus!» (v. 28). Queria chamar a atenção para esse pronome que Tomé repete: meu. Trata-se de um pronome possessivo e, se refletimos sobre isso, podia parecer fora do lugar referi-lo a Deus: como Deus pode ser meu? Como posso fazer que o Todo-poderoso seja meu? Na realidade, dizendo meu, não profanamos a Deus, mas honramos a sua misericórdia, pois foi Ele que quis “fazer-se nosso”. E, como numa história de amor, dizemos-Lhe: “Fizestes-vos homem por mim, morrestes e ressuscitastes por mim e agora não sois somente Deus; sois o meu Deus, sois a minha vida. Em vós encontrei o amor que eu procurava e muito mais, como nunca teria imaginado”.

Deus não se ofende de ser “nosso”, pois o amor exige familiaridade, a misericórdia requer confiança. Já no início dos dez mandamentos, Deus dizia: «Eu sou o Senhor, teu Deus» (Ex 20,2) e reiterava: «pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus zeloso» (v.5). Aqui está a proposta de Deus, amante zeloso, que se apresenta como teu Deus; e do coração comovido de Tomé brota a resposta: «Meu Senhor e meu Deus!». Entrando hoje, através das chagas, no mistério de Deus, entendemos que a misericórdia não é mais uma de suas qualidades entre outras, mas o palpitar do seu coração. E então, como Tomé, não vivemos mais como discípulos vacilantes; devotos, mas hesitantes; nós também nos tornamos verdadeiros enamorados do Senhor! Não devemos ter medo desta palavra: enamorados do Senhor!

Como saborear este amor, como tocar hoje com a mão a misericórdia de Jesus? O Evangelho também nos sugere isso, quando aponta que na mesma tarde da Páscoa (cf. Jo 20, 19), ou seja, logo depois de ressuscitar, Jesus, em primeiro lugar, dá o Espírito para perdoar os pecados. Para experimentar o amor, é preciso passar por ali: deixar-se perdoar. Deixar-se perdoar: pergunto a mim mesmo e a cada um de vós: “deixo-me perdoar?”. “- Mas, Padre, ir confessar-se parece difícil...”. Diante de Deus, somos tentados a fazer como os discípulos no Evangelho: trancarmo-nos por detrás de portas fechadas. Eles faziam isso por temor e nós também temos medo, vergonha de abrir-nos e contar os nossos pecados. Que o Senhor nos dê a graça de compreender a vergonha: de vê-la não como uma porta fechada, mas como o primeiro passo do encontro. Quando nos sentimos envergonhados, devemos ser agradecidos: quer dizer que não aceitamos o mal, e isso é bom. A vergonha é um convite secreto da alma que precisa do Senhor para vencer o mal. O drama está quando não se sente vergonha por coisa alguma. Não devemos ter medo de sentir vergonha! E assim passemos da vergonha ao perdão! Não tenhais medo de vos envergonhar! Não tenhais medo.

Contudo, há uma porta fechada diante do perdão do Senhor: é a resignação. A resignação é sempre uma porta fechada. Os discípulos a experimentaram quando, na Páscoa, constatavam que tudo tivesse voltado a ser como antes: ainda estavam lá, em Jerusalém, desalentados; o “capítulo Jesus” parecia terminado e, depois de tanto tempo com Ele, nada tinha mudado: “-Resignemo-nos”. Também nós podemos pensar: “Sou cristão há muito tempo, porém nada muda em mim, cometo sempre os mesmos pecados”. Então, desalentados, renunciamos à misericórdia. Entretanto, o Senhor nos interpela: “Não acreditas que a misericórdia é maior do que a tua miséria? Estás reincidente no pecado? Sê reincidente em clamar por misericórdia, e veremos quem leva a melhor!”. E depois – quem conhece o sacramento do perdão o sabe – não é verdade que tudo permaneça como antes. Em cada perdão recebemos novo alento, somos encorajados, pois nos sentimos cada vez mais amados, mais abraçados pelo Pai. E quando, sentindo-nos amados, caímos mais uma vez, sentimos mais dor do que antes. É uma dor benéfica, que lentamente nos separa do pecado. Descobrimos então que a força da vida é receber o perdão de Deus, e seguir em frente, de perdão em perdão. Assim segue a vida: de vergonha em vergonha, de perdão em perdão; Esta é a vida cristã.

Depois da vergonha e da resignação, existe outra porta fechada, às vezes blindada: o nosso pecado; o próprio pecado. Quando cometo um grande pecado, se eu, com toda a honestidade, não quero me perdoar, por que o faria Deus? Esta porta, no entanto, está fechada só de um lado: o nosso; para Deus nunca é intransponível. Ele, como nos ensina o Evangelho, adora entrar justamente através “das portas fechadas” – como escutamos -, quando todas as passagens parecem bloqueadas. Lá Deus faz maravilhas. Ele nunca decide separar-se de nós, somos nós que o deixamos do lado de fora. Mas quando nos confessamos, tem lugar o inaudito: descobrimos que precisamente aquele pecado, que nos mantinha distantes do Senhor, converte-se no lugar do encontro com Ele. Ali o Deus ferido de amor vem ao encontro das nossas feridas. E torna as nossas chagas miseráveis semelhantes às suas chagas gloriosas. Trata-se de uma transformação: a minha chaga miserável torna-se semelhante às suas chagas gloriosas. Pois Ele é misericórdia e faz maravilhas nas nossas misérias. Como Tomé, pedimos hoje a graça de reconhecer o nosso Deus: de encontrar no seu perdão a nossa alegria; de encontrar na sua misericórdia a nossa esperança.

Papa Francisco, Homilia, Praça São Pedro, 8 de abril de 2018

 

Oração Universal

 

(Se estiverem presentes adultos que tenham sido baptizados na última Páscoa, as intenções da oração dos fiéis poderão hoje ser propostas por eles).

 

Irmãs e irmãos, membros da família de Deus:

Supliquemos a Jesus Cristo ressuscitado

que encha dos seus dons a santa Igreja,

e dê a paz aos crentes e aos não crentes,

Oremos (cantando), cheios de esperança:

 

    Cristo ressuscitado e misericordioso, ouvi-nos.

 

1. Para que todos os fiéis da santa Igreja tenham um só coração e uma só alma

    e se sintam renovados, nesta Páscoa, no seu amor para com todas as pessoas,

    oremos, irmãos.

   

    Cristo ressuscitado e misericordioso, ouvi-nos.

 

2. Para que os homens descrentes e ateus despertem para a luz que é Jesus Cristo

    e com Ele passem da morte do pecado para a vida da graça, a caminho do Céu,

    oremos, irmãos.

 

    Cristo ressuscitado e misericordioso, ouvi-nos.

 

3. Para que o Senhor Jesus ressuscitado dê aos esposos cristãos e aos seus lares

a fidelidade, o amor mútuo, o bem-estar e alegria de filhos amados de Deus,

    oremos, irmãos.

 

    Cristo ressuscitado e misericordioso, ouvi-nos.

 

4. Para que os cristãos de todas as Igrejas alcancem a graça de acreditar sempre

    sem terem visto encontrando-se no seu íntimo com Jesus Cristo Ressuscitado,

    oremos, irmãos.

 

    Cristo ressuscitado e misericordioso, ouvi-nos.

 

5. Para que a nossa celebração deste domingo encha de dons do Céu a comunidade

e lhe dê um cuidado cada vez maior e mais operativo pelos que são mais pobres,

    oremos, irmãos.

 

    Cristo ressuscitado e misericordioso, ouvi-nos.

 

6. Para que os nossos parentes e amigos falecidos que ainda precisam de sufrágios

    encontrem na nossa generosidade de dada dia a ajuda para entrarem no Paraíso,

    oremos, irmãos.

 

    Cristo ressuscitado e misericordioso, ouvi-nos.

 

Senhor Jesus Cristo,

que, ao aparecer aos discípulos, lhes destes a paz

e os enviastes a anunciar a Palavra e o perdão,

fazei que acreditemos sem ter visto

para alcançarmos a vida eterna em vosso nome.

Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Foi pela divina misericórdia que participamos na Mesa da Palavra que ilumina os nossos caminhos.

Será pela Mesa da Eucaristia que o próprio Jesus misericordioso prepara agora para nós, pelo ministério do sacerdote, que poderemos caminhar até ao Céu.

 

Cântico do ofertório: Aproxima a tua mão – F. Santos, BML, 66

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, as ofertas do vosso povo [e dos vossos novos filhos], de modo que, renovados pela profissão da fé e pelo Baptismo, mereçamos alcançar a bem-aventurança eterna. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia]: p. 469 [602-714]

 

No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios. Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.

 

Santo: F. Silva, NRMS, 14

 

Saudação da Paz

 

Peçamos ao Senhor que, pela Sua Divina Misericórdia, nos conceda o dom da verdadeira paz.

Animemo-nos também a construí-la no nosso mundo, usando de misericórdia para com todos.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

A Sagrada Comunhão na qual Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Se nos dá em alimento, é um dom da Misericórdia Divina.

Peçamos ao Senhor, quando O tivermos viva, real e substancialmente presente em nós, pela Sagrada Comunhão, que nos ensine e ajude a sermos também misericordiosos.

 

Cântico da Comunhão: A paz vos deixo – J. F. Silva, NRMS, 01

cf. Jo 20, 27

Antífona da comunhão: Disse Jesus a Tomé: Com a tua mão reconhece o lugar dos cravos. Não sejas incrédulo, mas fiel. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Cantarei eternamente – M. Luís, NRMS, 6 (I)

 

Oração depois da comunhão: Concedei, Deus todo-poderoso, que a força do sacramento pascal que recebemos permaneça sempre em nossas almas. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Peçamos ao Senhor a graça de sermos misericordiosos, para alcançarmos também misericórdia.

 

Cântico final: Ressuscitou, ressuscitou, – A. Cartageno, CNPL, pg 843

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO PASCAL

 

2ª SEMANA

 

2ª Feira, 12-IV: A Palavra de Deus e uma vida nova.

Act 4, 23-31 / Jo 3, 1-8

Disse Jesus a Nicodemos: Não te admires de Eu te ter dito. Vós tendes de nascer de novo.

Jesus fala de um novo nascimento, pela água e pelo Espírito Santo (EV). Pelo Baptismo recebemos uma vida nova, somos filhos adoptivos de Deus: Tu és meu filho (SR). Participamos da vida divina pela graça, passamos a ser templos do Espírito Santo.

Esta vida nova vai depois exigir algumas conversões, que se podem obter através da oração: Depois de eles terem rezado, todos ficaram cheios do Espírito Santo (LT). A oração ajuda também a ver os acontecimentos e as pessoas como Deus as vê. E será uma boa ajuda para as transmitir aos outros: Depois pregaram com desassombro a palavra de Deus (LT).

 

3ª Feira, 13-IV: Tempo de renovação e de partilha.

Act 4, 32-37 / Jo 3, 7-15

A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma.

Aproveitemos o Tempo Pascal, apoiados nas palavras de Jesus a Nicodemos, para um novo nascimento: Vós tendes que nascer de novo (EV). Um dos aspectos pode ser o modo como viviam os primeiros cristãos (LT). O seu testemunho é digno de fé (SR).

Em cada Missa temos o ideal de comunhão que os Actos dos Apóstolos nos apresentam como modelo, que servirá para a Igreja de sempre. Aprenderemos a partilhar não só os bens espirituais, mas também os materiais. É o caso de Barnabé que vendeu um terreno, que lhe pertencia, e entregou o dinheiro aos Apóstolos (LT).

 

4ª Feira, 14-IV: As palavras de vida.

Act 5, 17-26 / Jo 3, 16-21

O Anjo do Senhor abriu as portas da prisão e disse-lhes: ide anunciar ao povo todas estas palavras de vida.

Deus não permite que se perca uma só das suas palavras, porque são palavras de vida (LT). E nós não podemos perder um só dos seus ensinamentos, fontes de conselhos e exemplos, para a nossa vida. Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes (SR).

Uma das mais importantes palavras de vida é a misericórdia com que Deus nos tratou. Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho único (EV). Guardemos este dom pois, quando pecarmos, poderemos recorrer à misericórdia de Deus, para nos arrependermos e começarmos de novo.

 

5ª Feira, 15-IV: A secularização da sociedade actual.

Act 5, 27-33 / Jo 3, 31-36

O Sumo sacerdote: Já vos demos a ordem formal de não ensinar em nome de Jesus.

Actualmente é a cultura secularizada que pretende impor-nos o mesmo silêncio. Deseja construir uma ordem temporal sem Deus, que é o único fundamento dela. Cai nos maiores ataques à dignidade humana: o aborto, a eutanásia, etc. Mas, quem se recusa a crer no Filho, não verá a vida (EV). A face do Senhor volta-se contra os que fazem o mal (SR).

A nossa reacção há-de ser como a dos Apóstolos: Deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens (LT). Em todas as situações não podemos prescindir da nossa fé, quer no mundo do trabalho, dos negócios, da família, da vida, da educação, etc.

 

6ª Feira,16-IV: Os alimentos dos corpo e da alma.

Act 5, 34-42 / Jo 6, 1-15

Então Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos convivas. E fez o mesmo com os peixes.

Jesus ajuda os homens a matarem a fome (EV), ma a sua missão fundamental é a libertação do pecado e o fornecimento dos alimentos adequados à alma. No Pai nosso, quando pedimos «o pão nosso de cada dia nos dai hoje», referimo-nos não só às necessidades materiais mas também ao pão eucarístico.

É bom que o nosso corpo, e a nossa alma, estejam ambos de boa saúde. Assim compreendemos que os Apóstolos se tivessem alegrado por terem sido açoitados em nome de Jesus (LT).  O Senhor é a defesa da minha vida (SR).

 

Sábado, 17-IV: As tempestades na Igreja e nas nossas vidas.

Act 6, 1-7 / Jo 6, 16-21

Como soprava imensa ventania, o mar ia-se encrespando. E tiveram medo. Mas Jesus disse-lhes: Sou eu, não temais.

A Tradição viu neste barco, assolado por grande tempestade (EV), a imagem da Igreja, submetida às perseguições e heresias. Estes ataques continuam com o sofrimento dos crentes e ataques aos ensinamentos do Papa. Nada temamos: Cristo está presente na Igreja até ao fim dos tempos. Aumentemos o nosso amor à Igreja e ao Papa.

Esta ajuda aparece também em pequenos problemas, como a ordenação dos primeiros diáconos (LT). Confiemos na ajuda do Senhor para os nossos problemas. Ele está connosco. Os olhos do Senhor estão voltados para os que esperam na sua bondade (SR).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:       Fernando Silva

Nota Exegética:                Geraldo Morujão

Homilias Feriais:               Nuno Romão

Sugestão Musical:            José Carlos Azevedo

 


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