TEMAS LITÚRGICOS

O jogo da liturgia

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

Certo dia soube da indignação de uma senhora por não poder ornamentar um altar ou toda a Igreja com as flores que desejava. O pároco, que era meu amigo, tentou explicar-lhe que estávamos na Quaresma e que nesta altura não era permitido esse tipo de ornamentação. Não recordo os pormenores, mas sei que, apesar das tentativas por parte daquele bom pároco de explicar a norma litúrgica, aquela senhora não entendeu e ficou zangada e a olhar para a Igreja como uma instituição antiquada, fechada sobre si, que não se adapta aos tempos e que só se agarra a leis obscurantistas e medievais, sem pensar nas pessoas.

Ao recordar a cara de pena daquele padre amigo e a sua impotência perante esta senhora lembrei-me de uns meninos a jogar à cabra-cega (assim chamávamos na minha infância). Uma das crianças era vendada e devia andar atrás das outras e agarrá-las e adivinhar quem eram. Ora, uma delas estava sempre a retirar a venda ou vendava apenas um dos olhos. O resultado foi que os outros meninos se cansaram daquilo e deixaram de jogar com ela. Mas, o curioso é que ela não percebia por que razão é que eles não a deixavam jogar ou se zangavam quando ela não respeitava as regras do jogo. Estava indignada. Os outros meninos eram maus e egoístas. Não a deixavam brincar. Porém, vistas bem as coisas, era ela que não queria jogar a aquele jogo. Talvez quisesse jogar a outro qualquer, mas não àquele, que já estava a ser jogado e que tinha umas regras concretas.

Quantas pessoas têm comportamentos semelhantes em relação ao jogo da Liturgia! Sim, a Igreja anda há dois mil anos a jogar um jogo com Deus. Algumas das regras foram limadas e sofreram pequenas modificações, há ligeiras mudanças de lugar para lugar, mas é o mesmo jogo, com os mesmos objetivos e em que o essencial nunca mudou.

Há mais de cem anos, Romano Guardini, surpreendeu-nos falando da liturgia desse modo: como um jogo:

«Viver liturgicamente, é – levado pela Graça e conduzido pela Igreja – tornar-se uma obra de arte viva diante de Deus, sem outro fim que estar e viver na presença de Deus. É cumprir a palavra do Mestre e «fazer-se criança». É, seja dito duma vez para sempre, renunciar à falsa prudência da idade adulta que para tudo quer encontrar um fim. É decidir-se a jogar, como David quando dançava diante da arca da aliança»[1].

Quando, recentemente, se deu o segundo confinamento em Portugal recebi um pedido de várias famílias de fazer algo para ajudar aqueles que têm filhos pequenos a viver o dia do Senhor. Seria um tempo de oração gravado, um pequeno vídeo, dirigido aos mais novos. Até me sugeriram o nome: seria um «Instantinho com Jesus». [2]

Como falar aos mais pequenos da Quaresma? Como falar da Paixão do Senhor? E como os ajudar a viver a alegria estonteante da Ressurreição que agora vivemos? Recordei, então, aquelas ideias de Romano Guardini sobre a Liturgia como jogo. Fiz um vídeo sobre «O jogo das cores» explicando cada cor litúrgica. Não como algo que «é assim» sem mais. É um jogo. As cores ajudam a rezar. Mais: dizem como rezar. Quando vejo roxo sei que devo recordar a morte de Jesus pelos meus pecados e pedir perdão, abrir-me à misericórdia de Deus. E quando vejo o vermelho recordo o amor do Verbo Encarnado que derrama o seu sangue por mim, e o amor dos mártires que derramaram o seu com uma força que me deixa sem palavras, e recordo que esse amor foi fruto do Espírito Santo. Então, ao ver esta cor, sei que devo pedir essa força, o fogo do Espírito Santo, o fogo do amor, para amar assim e dar a vida por Cristo, ainda que de forma escondida. E quando vejo a cor branca sei que me recorda a luz e a pureza. Devo alegrar-me, fazer festa, louvar a Deus e pedir essa mesma luz e essa pureza para a minha alma. É como um jogo. Porque Deus gosta de brincar com os homens e os homens precisam de brincar com o seu Pai.

Mas, por vezes, amuam. «A quem hei de comparar os homens desta geração? São como os meninos que estão sentados na praça, e que falam uns com os outros, dizendo: tocámos flauta e não dançastes, cantámos lamentações, e não chorastes».[3] Que pena quando os cristãos não querem entrar no jogo! E que interessante quando se joga e se compreende os pormenores e as subtilezas! Daí que Guardini dissesse que a Liturgia «está repleta de sentido. Não é trabalho, é jogo. Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência da liturgia. Daí a mescla de seriedade e de alegria divina que nela transparece». [4]

Ter de explicar o jogo ajuda-nos a percebê-lo melhor. Quando tive de explicar o significado do verde na liturgia e recordei os campos e as árvores e o sentido de eternidade que esta cor evoca, vieram-me à memória as parábolas agrícolas de Jesus. Somos como esse campo onde cai a semente. Pensar em todos esses meses do Tempo Comum, em que usamos o verde como cor litúrgica, como um tempo em que o Senhor lança a semente da Palavra e da Sua Graça nos nossos corações para que germine e dê frutos de eternidade é muito inspirador.

Da mesma forma, ao querer explicar a Páscoa e a sua alegria representada nas flores, nas velas, nos paramentos brancos ou dourados de festa, nos cânticos abundantes, alegres, solenes e festivos, no Glória cantado ao som dos sinos e da campainha, recordei o tal episódio da senhora que queria encher a igreja de flores quando não era próprio, porque se estava na Quaresma. É como vestir o vestido de noiva fora da celebração do Matrimónio e levá-lo vestido para o trabalho, por exemplo, ou ter uma árvore de Natal todo o tempo em casa. Simplesmente, não tem sentido.

Não se consegue viver a alegria da Páscoa se não se vive bem a Quaresma e a Semana Santa. Para nos alegrarmos e podermos exteriorizar essa alegria precisamos de jogar ao jogo das flores, da luz, das cores e dos cânticos e de tantos outros pormenores que fazem parte do grande jogo da Liturgia.

Sim, jogo, porque as delícias do nosso Pai Deus são estar connosco.[5] Delicia-se a brincar connosco. E pediu-nos através do Seu Filho que o jogássemos: «Fazei isto em memória de mim». E a Igreja, como as crianças, entrou neste jogo com o Pai. E, como as crianças, foi-o desenvolvendo e colocando as suas regras. E o Espírito Santo foi corrigindo aquilo que não era conveniente e inspirando aquilo que o enriqueceria.

E, tal como qualquer jogo jogado pelas crianças, deve ser jogado com seriedade. As regras são para cumprir. Senão, não tem graça. Senão, perde o sentido. Deixa de ser jogo e passa a ser palhaçada.

Com seriedade e com amor. Porque cada gesto é manifestação dessa relação de amor do filho com o Pai.

É um jogo com o nosso Pai Deus. O jogo que Ele quer jogar. Jogo criado pelo Filho com a inspiração do Espírito Santo. Jogo ao qual assiste a Nossa Mãe do Céu, enternecida ao ver os seus filhos a brincarem com o Pai. E no qual sempre acabamos por a envolver porque, com Ela, tem ainda mais graça.

 

 

 

 



[1] R. GUARDINI, O Espírito da Liturgia, p. 78.

[2] Procurar «Instantinho com Jesus» no youtube

[3] Lc 7, 31 -33.

[4] R. GUARDINI, O Espírito da Liturgia, p. 76.

[5] «Brincava sobre o globo da terra e encontrava as minhas delícias em estar com os filhos dos homens» Prov 8, 31.


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