A PALAVRA DO PAPA

Presença física na Missa

 

 

 

 

 

Na catequese dada por ocasião das audiências das quartas feiras, no dia 3 de setembro, o Santo Padre abordou o tema da presença física na Santa Missa.

O recurso aos meios audio-visuais como única possibilidade em tempo de pandemia, como aquele em que vivemos, poderia levar as pessoas – empurradas pela tentação do menor esforço – a pensar que basta “participar” na Missa lançando mão de um meio audio-visual, para cumprir o preceito de cada domingo e dias santificados.

Não é a mesma coisa ver e participar na celebração dos mistérios da nossa fé, como nos ensina o Santo Padre nesta audiência.

Esta catequese vem na sequência da carta que o então prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Robert Sarah escreveu, com aprovação do Papa, aos Presidentes das Conferências Episcopais em setembro do ano findo. A subdivisão de alguns parágrafos é da responsabilidade da Redação de CL.

 

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

 

Na história da Igreja verificou-se repetidamente a tentação de praticar um cristianismo intimista, que não reconhece a importância espiritual dos ritos litúrgicos públicos. Muitas vezes, esta tendência reivindicou a presumível maior pureza de uma religiosidade que não dependesse de cerimónias exteriores, consideradas um fardo inútil ou prejudicial. O centro das críticas não era uma forma ritual particular, nem um determinado modo de celebrar, mas a própria liturgia, a forma litúrgica de rezar.

Com efeito, na Igreja é possível encontrar certas formas de espiritualidade que não souberam integrar adequadamente o momento litúrgico. Muitos fiéis, embora participassem assiduamente nos ritos, especialmente na Missa dominical, sorviam alimento para a sua fé e para a sua vida espiritual sobretudo de outras fontes, de tipo devocional.

Nas últimas décadas, houve muito progresso. A Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, representa o centro deste longo trajeto. Reafirma de modo completo e orgânico a importância da liturgia divina para a vida dos cristãos, que nela encontram a mediação objetiva exigida pelo facto de Jesus Cristo não ser uma ideia nem um sentimento, mas uma Pessoa viva, e o seu Mistério um acontecimento histórico. A oração dos cristãos passa por mediações concretas: a Sagrada Escritura, os Sacramentos, os ritos litúrgicos, a comunidade. Na vida cristã não prescindimos da esfera corpórea e material, porque em Jesus Cristo ela tornou-se o caminho da salvação. Poderíamos dizer que devemos rezar inclusive com o corpo: o corpo entra na oração.

Portanto, não existe espiritualidade cristã que não esteja enraizada na celebração dos mistérios sagrados. O Catecismo escreve: «A missão de Cristo e do Espírito Santo que, na liturgia sacramental da Igreja anuncia, atualiza e comunica o mistério da salvação, prossegue no coração de quem ora» (n. 2655). A liturgia, em si, não é apenas oração espontânea, mas algo cada vez mais original: é um ato que fundamenta toda a experiência cristã e, por conseguinte, também a oração.

É acontecimento, é evento, é presença, é encontro. É um encontro com Cristo. Cristo faz-se presente no Espírito Santo através dos sinais sacramentais: disto, para nós cristãos, deriva a necessidade de participar nos mistérios divinos.

Um cristianismo sem liturgia, ousaria dizer que talvez seja um cristianismo sem Cristo. Sem o Cristo total. Até no rito mais despojado, como o que alguns cristãos celebraram e celebram nos lugares de prisão, ou no escondimento de uma casa durante tempos de perseguição, Cristo está verdadeiramente presente e doa-se aos seus fiéis.

A liturgia, precisamente devido à sua dimensão objetiva, deve ser celebrada com fervor, para que a graça derramada no rito não se disperse, mas abranja a vida de cada pessoa. O Catecismo explica-o muito bem e diz assim: «A oração interioriza e assimila a liturgia, durante e depois da sua celebração» (ibidem).

Muitas orações cristãs não provêm da liturgia, mas todas elas, se forem cristãs, pressupõem a liturgia, ou seja, a mediação sacramental de Jesus Cristo. Cada vez que celebramos um Batismo, ou consagramos o pão e o vinho na Eucaristia, ou ungimos o corpo de um enfermo com o Óleo Santo, Cristo está ali! É Ele que age e está presente como quando curava os membros fracos de um doente ou quando, na Última Ceia, entregou o seu testamento para a salvação do mundo.

A oração do cristão faz sua a presença sacramental de Jesus. O que nos é exterior torna-se parte de nós: a liturgia expressa isto também no gesto muito natural de comer.

A Missa não pode ser somente “ouvida”: também a expressão “vou ouvir Missa” não é correta. A Missa não pode ser só ouvida, como se fôssemos apenas espetadores de algo que escorre sem nos envolver.

A Missa é sempre celebrada, e não apenas pelo sacerdote que a preside, mas por todos os cristãos que a vivem. E o centro é Cristo! Todos nós, na diversidade dos dons e ministérios, nos unimos na sua ação, porque Ele, Cristo, é o Protagonista da liturgia.

Quando os primeiros cristãos começaram a viver o seu culto, fizeram-no atualizando os gestos e a palavras de Jesus, com a luz e a força do Espírito Santo, para que a sua vida, alcançada por esta graça, se tornasse sacrifício espiritual oferecido a Deus. Esta abordagem foi uma verdadeira “revolução”.

Na Carta aos Romanos São Paulo escreve: «Exorto-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecer os vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual» (12, 1). A vida é chamada a tornar-se culto a Deus, mas isto não pode acontecer sem oração, especialmente a oração litúrgica.

Que este pensamento nos ajude a todos quando vamos à Missa: vou rezar em comunidade, vou rezar com Cristo que está presente. Quando vamos à celebração de um Batismo, por exemplo, Cristo está lá, presente, que batiza. “Mas, Padre, esta é uma ideia, um modo de dizer”: não, não é um modo de dizer. Cristo está presente e na liturgia rezas com Cristo que está ao teu lado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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