1.º DOMINGO DA QUARESMA

21 de Fevereiro de 2021

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Irmãos convertei o vosso coração – J. P. Lecot, CNPL, pg543

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O tempo da quaresma é tempo de penitência mas também tempo de alegria, porque nos ajuda a combater a pior das pandemias que é o pecado.

Aproveitemo-lo bem, começando por viver melhor a Santa Missa e estando mais atentos à Palavra de Jesus.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Este trecho do Génesis fala-nos do dilúvio, que Deus enviou por causa dos pecados da Humanidade e da aliança que Deus fez com Noé e todas criaturas da terra e que está simbolizada pelo arco-íris.

 

Génesis 9,8-15

 

8Deus disse a Noé e a seus filhos: 9«Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência 10e com todos os seres vivos que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. 11Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra». 12Deus disse ainda: «Este é o sinal da aliança que estabeleço convosco e com todos os animais que vivem entre vós, por todas as gerações futuras: 13farei aparecer o meu arco sobre as nuvens, que será um sinal da aliança entre Mim e a terra. 14Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco, 15recordarei a minha aliança convosco e com todos os seres vivos e nunca mais as águas formarão um dilúvio para destruir todas as criaturas».

 

A aliança de que fala o texto não é ainda a que veio a ser feita com o povo escolhido, mas é a chamada «aliança cósmica», com toda a humanidade e com toda a obra da criação. Quando lemos o texto do dilúvio na Igreja – os estudiosos falam de duas fontes fundidas e entrelaçadas, a da tradição javista e a da tradição sacerdotal –, não devemos ficar parados ou perdidos nas questões histórico-literárias e nas interessantes semelhanças com outros relatos, ou mitos, de diversas culturas antigas que falam de cataclismos imemoriais do género. Como se lê em 2Tim 3,15-17, o que acima de tudo nos interessa no contacto com «toda a Escritura, inspirada por Deus», é alcançar «a sabedoria que conduz à salvação por meio da fé em Jesus Cristo». É fácil de detectar «o ensino» que no texto nos é oferecido. Quando a humanidade se perde no pecado, transgredindo a lei impressa na obra da criação, a harmonia própria da natureza transtorna-se, voltando ao caos inicial (cf. Gn 1,2), e corre sério risco a subsistência do ser humano (lembrar o muito que se tem dito a propósito da Sida, que não é a vingança de Deus, mas é a própria natureza a vingar-se). Na Sagrada Escritura o fenómeno do dilúvio tem a particularidade de não ser apresentado como fruto de caprichos maléficos e invejas dos deuses pagãos – assim era nos mitos sumérios e babilónicos –, mas como consequência do pecado e em ordem ao recomeço de uma nova era de regeneração e harmonia universal. A aliança a que dá lugar o dilúvio revela o verdadeiro interior de Deus para com a sua criatura: Ele é Pai providente que cuida carinhosamente de tudo o que criou, particularmente do homem; Deus, «mesmo quando castiga, não esquece a sua misericórdia» (cf. Habc 3,2). O fundo mitológico do relato parece claro, mas também nos parece pouco, ao lermos este texto sagrado, deixarmo-nos ficar encerrados no acanhado horizonte do mito, quando o autor inspirado vai mais além: Yahwéh é um Deus ético e transcendente; o «castigo» do pecado (Gn 6,6.12) não é resultante dum capricho, nem sequer duma ira desenfreada. Neste sentido, o autor já fez um primeiro trabalho de desmitização, apesar de manter a mesma linguagem antropomórfica do mito, chocante para a nossa mentalidade.

12-16 «O arco-íris» – fenómeno natural anterior ao dilúvio – adquire um significado simbólico. Ele é o sinal da benevolência divina, expressa em categorias de aliança, para com toda a criação; não é mais um tremendo arco de guerra (o termo hebraico, qéxet, é o mesmo), mas é sim o abraço de paz do Criador! Ainda que persistam na memória dos povos tremendas catástrofes, como o dilúvio, justo castigo do pecado, o ser humano não deve viver esmagado sob o pesadelo constante dos terrores que não podem deixar de sentir aqueles que ignoram a Revelação divina.

A Liturgia, ao apresentar este texto no começo da Quaresma, além de introduzir a 2.ª leitura, facilita-nos a animadora consideração da misericórdia divina, a qual permite que nos elevemos acima das nossas misérias e saiamos dos nossos pecados pela graça de Cristo, que nos chega particularmente através dos Sacramentos.

 

Salmo Responsorial    Salmo 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9 (R. cf. 10)

 

Monição: O salmo lembra a misericórdia de Deus, que quer que todos se convertam e vivam.

 

Refrão:        Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade

                     para os que são fiéis à vossa aliança.

 

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,

ensinai-me as vossas veredas.

Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,

porque Vós sois Deus, meu Salvador.

 

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias

e das vossas graças que são eternas.

Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,

por causa da vossa bondade, Senhor.

 

O Senhor é bom e recto,

ensina o caminho aos pecadores.

Orienta os humildes na justiça

e dá-lhes a conhecer a sua aliança.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S.Pedro lembra que Jesus morreu por todos os homens para os purificar dos pecados. No baptismo, de algum modo significado pelo dilúvio, lavou as nossas almas

 

1 São Pedro 3,18-22

 

Caríssimos: 18Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. 19Foi por este Espírito que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte 20e tinham sido outrora rebeldes, quando, nos dias de Noé, Deus esperava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram através da água. 21Esta água é figura do Baptismo que agora vos salva, que não é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso para com Deus de uma boa consciência, pela ressurreição de Jesus Cristo, 22que subiu ao Céu e está à direita de Deus, tendo sob o seu domínio os Anjos, as Dominações e as Potestades.

 

A 1ª Carta de Pedro, donde é tirada a leitura, parece ter como base uma catequese baptismal; aparece na liturgia de hoje em relação com a 1ª leitura, que fala do dilúvio, o qual é apresentado aqui como figura do Baptismo.

18 «Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito (cf. 1Pe 2,21.24; Rom 6,10; Hbr 9,28). Foi por este (Espírito) que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte…» A tradução procura oferecer aos fiéis que ouvem a leitura uma forma de entenderem um texto deveras difícil. O v. 18 pode entender-se: «morto» como homem, e «vivo» como Deus (cf. Rom 1,4; 1Tm 3,16.), ou talvez se trate antes de uma formulação primitiva para exprimir que Jesus, ao morrer, abandonou de vez a sua condição mortal para passar a viver no seu estado glorioso e imortal.

19 «Pregar» sempre indica, no NT, a pregação da salvação. Esta pregação de Jesus «aos espíritos que estavam na prisão» é a referência bíblica mais clara à verdade professada no Credo acerca de Jesus que «desceu à mansão dos mortos» (cf. 1Pe 4,6; Rom 10,6-7; Ef 4,8-9; Apoc 1,18; Mt 12,40; Lc 23,43; Act 2,31) a anunciar-lhes a mensagem da salvação, segundo uns com a sua alma separada do corpo, segundo outros na sua nova condição gloriosa. Lembramos que a «mansão dos mortos» (o Xeol hebraico, o Hades grego, os Infernos em latim) representava o estado dos que tinham morrido, que se pensava ser num espaço interior da Terra. O autor, ao dizer que Jesus pregou (a salvação) também (kai, uma partícula a que o tradutor não valorizou) aos que… tinham sido outrora rebeldes … nos dias de Noé, parece querer dizer que até (kai) àquela gente, que na tradição bíblica era considerada como os maiores pecadores (cf. Gn 6,5.11-12), chegou a salvação de Jesus. É o alcance universal da Redenção para todos os pecadores arrependidos (cf. 4,6), por mais pecadores que tenham sido; a salvação é levada por Jesus a todos e não apenas à gente aqui nomeada dos tempos de Noé, como sendo o tipo da gente mais perversa, mas certamente arrependida dos seus pecados (argumentação a fortiore).

No entanto, esta passagem da pregação de Jesus aos espíritos cativos é muito obscura e, para além da interpretação tradicional, que a entende como a descida de Jesus aos Infernos, ou Mansão dos Mortos, para levar para o Céu todas as almas que aguardavam a hora da redenção, deu azo às mais diversas e desacertadas interpretações: a) para uns seria uma referência à salvação de certos condenados que se salvaram com a descida de Cristo ao Inferno (assim pensou Orígenes, mas a Igreja reprovou esta opinião); b) para Sto. Agostinho (fazendo uma certa violência ao texto) refere-se ao Verbo, que, antes da Incarnação, através dos avisos de Noé, se dirigiu àqueles ímpios cativos da ignorância e da perversão; c) para uns poucos (em especial alguns protestantes), estes «espíritos cativos» seriam anjos caídos (cf. v. 22), a quem Cristo teria convencido da sua condenação definitiva; d) até houve quem conjecturasse, mas sem ter tido aceitação, que a expressão «neste também» (em grego: en ô kai), ao admitir a leitura «Henoc também» (em grego: Enôc kai), se referia ao patriarca anterior ao dilúvio, que, segundo Gn 5,24, não morreu e, segundo a literatura apócrifa, proclamou a condenação aos anjos rebeldes. Na nossa tradução da Nova Bíblia da Difusora Bíblica traduzimos en ô como sendo uma expressão adverbial: «então» (e não «neste», referido a «espírito», como tem a tradução litúrgica).

20 «Se salvaram através da água»: Noé, a mulher, 3 filhos e 3 noras (8 pessoas, sem contar os netos: cf Gn 6 – 9). Como se vê, a água aqui não é tomada no seu aspecto de castigo e destruição, como uma água mortífera, mas como uma água salvadora, um meio de os sobreviventes se salvarem, navegando através da água. É de notar um deslizamento semântico na preposição grega diá do sentido local – através de – para o sentido instrumental – por meio de –, de maneira a pôr em evidência um simbolismo oculto: a água do dilúvio é a figura (o tipo) do «Baptismo», o qual é a autêntica realidade (em grego: o antitipo) «que agora vos salva». Com efeito, se o Baptismo salva, não é pelo facto de limpar a sujidade do corpo, mas é «pela ressurreição de Jesus» (v. 21), quando a Ele se adere pela fé concretizada nas promessas do Baptismo, isto é, «o compromisso para com Deus de uma boa consciência» (v. 22).

22: «Subiu ao Céu» é uma clara referência à Ascensão de Jesus, bem atestada no N. T., e frequente nos Escritos Paulinos (Mc 16,19; Lc 24,50-51; Jo 6,62; Act 1,33-34; Rom 8,34; Ef 1,20; Col 3,1; Hebr 1,3; 8,1; 10,12; 12,2). «E está à direita de Deus» exprime a suma dignidade de Cristo, acima de todas as criaturas, bem como o seu domínio sobre todas elas, incluindo as criaturas mais elevadas e invisíveis, isto é, o mundo dos anjos, «Anjos, Dominações e Potestades», seres que também em S. Paulo englobam vagamente espíritos bons e maus, não sendo fácil estabelecer sempre a distinção. Tendo em conta sobretudo 1Cor 15,24 e Col 2,15, Dominações e Potestades pode ser uma alusão a espíritos maus. As hierarquias angélicas, estabelecidas a partir destes nomes e outros que aparecem no N. T., oferecem pouca segurança e têm mais em conta a literatura apócrifa intertestamentária do que os dados da Revelação divina.

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: Jesus permitiu que Satanás O tentasse para nos lembrar a guerra que o demónio nos faz e como podemos vencer se nos apoiamos nEle.

 

 

Cântico: Glória a Vós ó Cristo, M. Luís, NRMS, 1(I)

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 1,12-15

 

Naquele tempo, 12o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. 13Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. 14Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: 15«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

 

Todos os anos temos no 1º Domingo da Quaresma o texto evangélico das tentações de Jesus; neste ano B, temo-las na forma mais simples, desprovida de qualquer espécie de encenação, a do Evangelista do ano, S. Marcos.

13 «Esteve no deserto 40 dias». A nossa Quaresma recorda esses dias. S. Marcos não se refere ao jejum do Senhor, mas só ao deserto e às tentações, e apenas dum modo genérico: «Era tentado. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-no» (cf. Mt 4,1-11). Assim observa Bento XVI o sentido profundo que encerram o deserto e as tentações de Jesus: «A acção (de Jesus) é precedida pelo recolhimento, e este é necessariamente também uma luta interior em prol da sua missão, uma luta contra as deturpações da mesma, que se apresentam como suas verdadeiras realizações. É uma descida aos perigos que ameaçam o homem, porque só assim o homem caído pode ser levantado. Permanecendo fiel ao núcleo originário da sua missão, Jesus deve entrar no drama da existência humana, atravessá-lo até ao fundo, para deste modo encontrar a «ovelha perdida», colocá-la aos seus ombros e reconduzi-la a casa» (Jesus de Nazaré, p. 56).

«Satanás» (em hebraico, «xatan») significa adversário, acusador (em grego, «diábolos», caluniador). As tentações do demónio visavam desviar Jesus da sua missão, com a sedução do protagonismo para vir a ser um messias milagreiro, espectacular e ambicioso. O Evangelho põe em evidência o maravilhoso exemplo do Senhor: um exemplo de humildade, ao sujeitar-se aos ataques do demónio, e de fortaleza, ao resistir decididamente, sem a mais pequena vacilação ou cedência. Vem a propósito mais este belo comentário de Sto. Agostinho, que se lê no Ofício de Leituras: «A nossa vida, enquanto somos peregrinos na terra, não pode estar livre de tentações, e o nosso aperfeiçoamento realiza-se precisamente através das provações. Ninguém se conhece a si mesmo, se não for provado; ninguém pode receber a coroa, se não tiver vencido; ninguém pode vencer, se não combate; e ninguém pode combater, se não tiver inimigos e tentações. Bem poderia Ele ter mantido o demónio longe de Si; mas se não fosse tentado, não nos teria ensinado a vencer a tentação» (Enar. in Ps. 60).

 

Sugestões para a homilia

 

Cristo morreu pelos pecados

Tentado por Satanás

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho

 

 Cristo morreu pelos pecados

A Quaresma põe-nos mais uma vez diante dos olhos a Paixão e Morte de Jesus e a Sua Ressurreição. S.Pedro lembra-nos que Ele morreu pelos nossos pecados. Fomos comprados por grande preço (1 Cor 6,20), pelo sangue precioso de Jesus, o Filho de Deus.

 Sempre temos de avivar em nós esta lembrança para que a Sua Morte continue a transformar a nossa vida. Pelo Baptismo veio até nós o fruto dessa redenção. Fomos lavados dos nossos pecados e recebemos uma vida nova, a graça de Deus, que nos tornou participantes da natureza divina (2Ped 1,4), que nos divinizou, tornando-nos filhos de Deus. E somo-lo de facto, lembra-nos S.João (1 Jo 3,1).

O cristão tem de viver essa vida nova que recebeu de Jesus. Tem de viver como filho de Deus cá na terra, imitando a Jesus, que se sujeitou à nossa vida e é para nós modelo no trabalho, na vida de família, no convívio social, no trato com os outros, na oração, no sofrimento, no apostolado com os nossos familiares e colegas de trabalho.

A quaresma é para nós tempo de balanço, para nos examinarmos como vai a nossa vida, se estamos de verdade a viver à maneira de Cristo.

É tempo de conversão, de mudar com valentia o que está mal em nós. É neste começar e recomeçar de todos os dias que está a nossa santificação. Temos para isso a graça que Jesus nos oferece sobretudo nos sacramentos. O Senhor deixou-nos um segundo baptismo com o sacramento da penitência, que podemos receber muitas vezes e que renova em nós a vida da graça e nos dá força para a nossa luta de cada dia.

O Senhor lava-nos com o Seu sangue e dá-nos o Seu Espírito Santo para realizar em nós a obra da nossa santificação.

 

Tentado por Satanás

 

 Jesus foi para o deserto durante quarenta dias e permitiu que o demónio o tentasse. Quis lembrar-nos que pelo baptismo não atingimos imediatamente o Céu. Temos de contar com as dificuldades e com as tentações. E temos de imitar a Jesus procurando a mortificação e a oração, em especial agora na quaresma. São para nós armas para vencer. A nossa vida na terra é uma luta. Lutamos e ganhamos, lutamos e perdemos. Mas contamos com a graça de Deus e recomeçamos de novo com a certeza da vitória.

Conta-se na vida de Tamerlão, grande general mongol, que um dia tinha perdido uma batalha. Estava na sua tenda a pensar desistir da guerra e voltar para casa. E ia olhando para uma formiga que tentava subir pela parede da tenda mas chegava a certo ponto escorregava e caía no chão, por causa da gordura que havia na parede. A formiguita voltava a tentar uma e outra vez até que conseguiu passar para cima. E aquele general aprendeu a lição da formiga e voltou ao combate com mais vontade de ganhar.

Em nossa vida espiritual não podemos nunca desanimar. É preciso voltar à luta, procurando corrigir os nossos defeitos, fazer melhor o nosso trabalho, rezar melhor, ajudar mais os outros. E contamos com a graça que Jesus nos oferece e com as inspirações do Divina Paráclito, que está em nós para nos fazer santos.

S.Marcos fala da presença dos anjos que serviam a Jesus. O demónio tenta-nos para o mal, quer afastar-nos de Deus e roubar-nos o tesouro da graça. Não pode vencer-nos se nos apoiamos em Jesus, se acudimos a Ele, se nos deixamos guiar por Ele.

E temos também a ajuda dos anjos, em especial do anjo da guarda, que está sempre a nosso lado. Temos a ajuda dos santos, nossos irmãos, sempre prontos a apoiar-nos. Temos sobretudo Nossa Senhora, que Jesus nos deu por mãe, a quem podemos acudir uma vez e outra. Devemos recorrer também a S.José, nosso pai adoptivo, que o Santo Padre quer que tenhamos mais presente neste ano.

 

 Arrependei-vos e acreditai no Evangelho

 

 

Jesus começou a pregar – lembra–nos hoje S.Marcos - dizendo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho. São as Suas primeiras palavras ao começar a pregar e são como que o resumo de toda a Sua mensagem. O grande obstáculo que encontramos e nos rouba a felicidade é o pecado. Temos de reconhecê-lo com valentia para o arrancar da nossa alma. É ele o maior mal do mundo porque vai contra Deus e nos afasta dEle, que é a fonte da alegria.

Se o sabemos reconhecer e nos arrependemos Deus perdoa-nos e restitui-nos a Sua graça e recomeçamos de novo. Hoje os homens estão cegos, não olham para si próprios para corrigirem os seus erros, sabem apenas criticar os outros. Pecados gravíssimos como o aborto, que mata inocentes indefesos, e são muitos milhões cada ano, já não chocam as pessoas, que estão como que entorpecidas.

Temos de pedir a Jesus que nos abra os olhos, rezar como o cego de Jericó: Senhor, que eu veja. Que nos torne sensíveis ao mal, que nos dê uma consciência delicada. Ao ver os defeitos dos outros olharmos para nós mesmos. Conta-se dum casal que foi viver para um prédio novo na cidade. A esposa comentava para o marido:  tenho de avisar a vizinha da frente porque não lava bem a roupa. Mas um dia lavou ela os vidros das suas janelas e deu conta que afinal a roupa da vizinha era bem lavada, os vidros da sua janela é que estavam sujos e não deixavam ver corretamente.

Além de reconhecer os nossos pecados temos de acudir ao médico que os pode curar. Jesus deixou-nos, no domingo de Páscoa, o sacramento maravilhoso da penitência. Temos de agradecer-Lho e usá-lo muitas vezes. Muitos cristãos esqueceram este sacramento, os próprios sacerdotes esqueceram-se de o recomendar e de se porem à disposição dos fiéis. A Santa Igreja manda confessar-nos ao menos uma vez cada ano. O ao menos significa que devemos fazê-lo muitas vezes.

O sacramento da confissão perdoa os pecados e é vacina para os evitar e enche de luz a nossa alma para ver o caminho à nossa frente. Ajudemos os nossos amigos levando-os a confessar-se sobretudo agora na Quaresma.

Para fazermos o bem e ver o caminho temos de avivar a nossa fé, acreditar no Evangelho, naquilo que Jesus nos ensina. Ele é a luz que ilumina a nossa vida e nos faz contemplar as maravilhas do amor de Deus, que nos faz ver o caminho que devemos seguir para ser felizes na terra e um dia no céu. Só Ele tem palavras de vida eterna (cfr Jo 6, 69). Quem não tem fé é como um cego que vai às escuras. A quaresma há-de levar-nos a meditar mais as verdades da fé, a estudar melhor o catecismo, a ler de novo o Catecismo da Igreja Católica, a ler e meditar todos os dias os Evangelhos.

Que a Virgem nos ajude a viver este tempo santo, sendo mais fervorosos na oração, na mortificação e na prática das obras de misericórdia, para chegar à Páscoa cheios de fé e alegria.

 

Fala o Santo Padre

 

«Na nossa vida temos sempre necessidade de conversão — todos os dias! —,

e a Igreja faz-nos rezar por isso.»

Neste primeiro domingo de Quaresma, o Evangelho evoca os temas da tentação, da conversão e da Boa Nova. Escreve o evangelista Marcos: «E logo o Espírito impeliu Jesus para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demónio» (Mc 1, 12-13). Jesus vai ao deserto a fim de se preparar para a sua missão no mundo. Ele não precisa de conversão, mas, sendo homem, deve passar através desta provação, quer por Si mesmo, a fim de obedecer à vontade do Pai, quer por nós, para nos doar a graça de vencer as tentações. Esta preparação consiste na luta contra o espírito do mal, ou seja, contra o diabo. Também para nós a Quaresma é um tempo de “agonismo” espiritual, de luta espiritual: somos chamados a enfrentar o Maligno mediante a oração para sermos capazes, com a ajuda de Deus, de o vencer na nossa vida quotidiana. Nós sabemo-lo, o mal infelizmente age na nossa existência e à nossa volta, onde se manifestam violências, rejeição do outro, fechamentos, guerras, injustiças. Estas são todas obras do maligno, do mal.

Imediatamente após as tentações no deserto, Jesus começa a pregar o Evangelho, ou seja, a Boa Nova, a segunda palavra. A primeira era “tentação”; a segunda, “Boa Nova”. Esta Boa notícia exige do homem conversão — terceira palavra — e fé. Ele anuncia: «O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo»; depois dirige a exortação: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (v. 15), isto é, acreditai nesta Boa notícia que o reino de Deus está próximo. Na nossa vida temos sempre necessidade de conversão — todos os dias! —, e a Igreja faz-nos rezar por isso. Com efeito, nunca estamos suficientemente orientados para Deus e devemos dirigir constantemente a nossa mente e o nosso coração a Ele. Para fazer isto é necessário ter coragem de rejeitar tudo o que nos leva por maus caminhos, os falsos valores que nos enganam atraindo de maneira sorrateira o nosso egoísmo. Ao contrário, devemos confiar no Senhor, na sua bondade e no seu desígnio de amor para cada um de nós. A Quaresma é um tempo de penitência, sim, mas não é um tempo triste! É um tempo de penitência, mas não é um tempo triste, de luto. É um compromisso jubiloso e sério para nos despojarmos do nosso egoísmo, do nosso homem velho, e nos renovarmos segundo a graça do nosso Batismo.

Somente Deus nos pode doar a verdadeira felicidade: é inútil que percamos o nosso tempo procurando alhures, nas riquezas, nos prazeres, no poder, na carreira... O reino de Deus é a realização de todas as nossas aspirações, porque é, ao mesmo tempo, salvação do homem e glória de Deus. Neste primeiro domingo de Quaresma somos convidados a ouvir com atenção e a responder a este apelo de Jesus a converter-nos e a acreditar no Evangelho. Somos exortados a iniciar com empenho o caminho rumo à Páscoa, para acolher cada vez mais a graça de Deus, que quer transformar o mundo num reino de justiça, de paz, de fraternidade.

Maria Santíssima nos ajude a viver esta Quaresma com fidelidade à Palavra de Deus e com uma oração incessante, como fez Jesus no deserto. Não é impossível! Trata-se de viver os dias com o desejo de acolher o amor que vem de Deus e que quer transformar a nossa vida e o mundo inteiro.

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 18 de fevereiro de 2018 

 

Oração Universal

 

Unidos a Jesus e com toda a Igreja, apoiados na intercessão de Maria e de José,

peçamos ao Pai:

Por intercessão de Maria e de José ouvi-nos Senhor

 

    1-Pela Santa Igreja de Deus, para que se renove,

pela graça, na esperança e no amor, oremos ao Senhor.

Por intercessão de Maria e de José ouvi-nos Senhor

 

    2-Pelo Santo Padre, para que todos escutem os seus ensinamentos,

vendo nele a Jesus, que continua a guiar a Sua Igreja, oremos ao Senhor.

Por intercessão de Maria e de José ouvi-nos Senhor

 

    3-Pelos bispos e sacerdotes,

para que se entreguem generosamente ao serviço das almas,

sobretudo no ministério da confissão, oremos ao Senhor.

 

    4-Por todos os que sofrem, pelos pobres, pelos doentes,

pelos idosos, pelos marginalizados,

para que saibamos ser para eles uma presença de Jesus, oremos ao Senhor.

Por intercessão de Maria e de José ouvi-nos Senhor

 

    5-Para que pela ajuda de Nossa Senhora

o Senhor livre a humanidade da pandemia espalhada pelo mundo, oremos ao Senhor.

Por intercessão de Maria e de José ouvi-nos Senhor

 

    6-Por todos os que andam afastados de Deus,

para que o Senhor os converta e os atraia ao Seu amor,

para aproveitarem a salvação que Jesus lhes traz, oremos ao Senhor.

Por intercessão de Maria e de José ouvi-nos Senhor

 

    7-Por todos os que se encontram no Purgatório,

para que o Senhor os purifique e lhes conceda a felicidade do Céu, oremos ao Senhor.

Por intercessão de Maria e de José ouvi-nos Senhor

 

    Senhor, que nos enviastes o Vosso Filho para pagar pelos nossos pecados ajudai-nos a preparar bem os nossos corações para participar na Sua Paixão e Morte e na Sua Ressurreição e para abri-los a todos os que nos rodeiam.

    Por N.S.J.C.Vosso Filho que conVosco vive e reina na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS, 69

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: C. Silva - OC (pg 537)

 

Monição da Comunhão

 

Jesus vem até nós em cada Missa.  Saibamos acolhê-Lo com fé, humildade e amor sobretudo agora na comunhão. 

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem – F. Silva, NRMS, 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: O Senhor cobrir-te-á – F. Santos, BML, 55

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Queremos guardar a palavra de Jesus e guiar por ela o nosso viver, obedecendo fielmente à vontade do Pai como Ele fez.

 

Cântico final: Dai-me Senhor, um coração puro – M. Luís, CAC, pg 143

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA DA QUARESMA

 

2ª Feira, 22-II:  A Cadeira de S. Pedro.

1 Ped 5, 1-14 / Mt 16, 13-19

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.

Jesus pergunta aos Apóstolos o que acham que Ele é. E Pedro respondeu: Tu és o Messias, o Filho de Deus. E Jesus escolhe-o como o primeiro dos Apóstolos: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (EV).

E Pedro aponta as características do Bom Pastor: Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado; sede modelos do rebanho. E um dia recebereis a coroa da glória eterna (LT). O Senhor é meu Pastor, nada me faltará (SR). Peçamos a Deus que conceda estes dons ao sucessor de Pedro, para que o guie pelas sendas direitas por amor do nome de Deus (SR).

 

3ª Feira, 23-II: A vontade de Deus e a misericórdia.

Is 55, 10-11 / Mt 6, 7-15

A chuva e a neve, ao descerem do Céu, não voltam lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado.

Procuremos rezar confiadamente a oração que o Senhor nos ensinou (EV), pois contém tudo o que podemos pedir a Deus, e que é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho.

As Leituras de hoje recomendam duas petições. A primeira 'seja feita a vossa vontade', que nos exige acolher a palavra que sai da boca de Deus, e que a levemos à prática (LT). A segunda, 'perdoai-nos as nossas ofensas', pois o perdão é condição fundamental da reconciliação dos filhos de Deus com o seu Pai, e dos homens entre si.  O Senhor ouve o clamor de justos e está perto dos que têm o ânimo abatido (SR).

 

4ª Feira, 24-II: Uma mensagem importante: O apelo à conversão.

Jonas 3, 1-10 / Lc 11, 29-32

Ergue-te e vai à cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Na Quaresma recebemos uma mensagem de Deus, como aconteceu aos habitantes de Nínive (LT e EV), que nos convida à conversão e ao arrependimento. O sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido (SR).

A conversão está especialmente relacionada com o Sacramento da Penitência, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e ao esforço por regressar à casa do Pai, do qual nos afastámos pelos nossos pecados. Nele encontramos uma caminhada de conversão e de arrependimento.

 

5ª Feira, 25-II: Conversão e oração penitencial.

Est 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt 7, 7-12

Pois, todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra; e, ao que bate, abrir-se-á.

A oração é uma das formas de vivermos a penitência quaresmal, juntamente com o jejum e a esmola. Ao orarmos, procuramos fazê-lo com fé, pois Jesus diz-nos: Pedi e dar-se-vos-á. Sendo Ele a Porta, sigamos o seu conselho: batei à porta e abrir-se-vos-á (EV).

A rainha Ester é um bom exemplo desta oração: Vinde socorrer-me, que estou só, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita (LT). Fez grandes penitências, e pediu que a acompanhassem. A vossa mão direita me salvará (SR). Recorramos com fé ao Senhor nos momentos difíceis, nos momentos de tentação.

 

6ª Feira, 26-II: A conversão e o amor ao próximo.

Ez 18, 21-28 / Mt 5, 20-26

Se o pecador se arrepender de todas as faltas que tiver cometido...há-de viver e não morrerá.

A Quaresma é um tempo de conversão, de arrependimento, um caminho para a vida (LT). Se olhais para os nossos pecados quem poderá salvar-se? (SR). A conversão do coração tem muito que ver com a caridade, pois devemos reconciliar-nos com o nosso irmão, antes de apresentarmos a nossa oferta no altar (EV).

Também devemos empenhar-nos em introduzir esta forma de vida na instituições e condições da vida corrente, para que estejam de acordo com as normas de justiça e favoreçam o bem em vez de se lhe oporem, como os casos sobre a defesa da vida no seu início e no fim.

 

Sábado, 27-II: Heroicidade na caridade.

Deut 26, 16-19 / Mt 5, 43-48

Pois eu digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus.

Moisés lembrava ao povo que deveria levar à prática os preceitos e sentenças do Senhor, cumprindo-os com todo o coração e com toda a alma (LT). Felizes os que andam na lei do Senhor (SR).

Jesus pede que se viva o amor ao próximo, até às últimas consequências: amar os inimigos e rezar por eles (EV). Exige muita heroicidade, mas assim O imitaremos. No Sermão da Montanha já proibira a ira, o ódio e a vingança. Na Cruz pede ao Pai que perdoe aqueles que o insultaram e oferece a vida por todos, incluídos os seus carrascos.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:        Celestino Correia

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:               José Carlos Azevedo

 


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