TEMAS LITÚRGICOS

A Que Distância Estamos da Missa?

 

 

 

1.     A Missa que vai aos fiéis

Em 2020, no decurso da pandemia do vírus Covid-19, a Igreja suspendeu a celebração pública da Eucaristia, de forma prolongada, em numerosos países. Muitos fiéis, fazendo uso das possibilidades das novas tecnologias, assistiram (alguns até diariamente) a Missas transmitidas em directo na Internet.

Quando comparado com o “ficar sem nada”, passar um Domingo fechado em casa sem se lembrar que é o dia do Senhor, sem se sentir ligado à comunidade da Igreja, facilmente admitimos que essa solução foi útil e consoladora. Muitas pessoas referem com agradecimento como isso os ajudou a rezar.

Mas na perspectiva de que isto se possa normalizar, seja por eventuais segundas vagas, deste vírus ou de outro, ou como forma de acorrer a necessidades de zonas com poucos sacerdotes, etc., levanta-se também a comparação no outro sentido: como é que a Missa remota se compara com a Missa presencial?

Penso que vale a pena determo-nos nessa pergunta, sem facilitar com meras platitudes (“não é a mesma coisa…”) que não nos bastam quando há uma verdadeira pressão para ceder, e aproveitar as vantagens logísticas das Missas servidas remotamente. Convém-nos saber delimitar com precisão o problema, e explicar porquê.

2.     A Presença Humana Como Experiência Sensorial

A experiência vivida do homem constitui-se a partir de dois polos: a partir da nossa corporeidade, experimentamos a vida como um aqui e agora; e experimentamos também uma continuidade pessoal e uma elevação para além dessa esfera, que designamos habitualmente por alma.

Na notícia que temos da nossa ligação ao aqui e agora, os sentidos jogam um papel primordial, e entre eles os mais ricos, de longe, são a visão e a audição. Não nos estranha, portanto, que as transmissões da Missa sejam consideradas satisfatórias quando são “audiovisuais”, quando sentimos que trazem até nós a principal parte da experiência de “estar lá”. Havendo acesso audiovisual, chegamos ao ponto em que parecemos estar dispostos a admitir, pelo menos nalguns casos, e num espírito de uma certa concessão, que aquele “lá” está a ser vivido como um “aqui e agora”.

Em relação à experiência presencial, teríamos de apontar desde já que a liturgia também faz uso dos restantes sentidos – pense-se por exemplo no aroma do incenso – embora tenhamos de admitir que o seu uso é acessório.

Mais importante nos parece assinalar o modo fragmentário e desintegrado do uso da experiência visual. É muito diferente olhar para onde escolhemos, determo-nos, medirmos as distâncias, ou pelo contrário, ser fixados no ponto de vista de uma câmara única, ou conduzidos por um realizador através de uma sequência de pontos de vista por ele determinada.

Do ponto de vista litúrgico, a consequência pode ser descrita como um déficit do nosso situar-nos na Igreja e na Missa: podemos olhar para o lado e sair da Missa; podemos cansar-nos do olhar que nos é dado, não podemos explorar. Perdemos quase toda a linguagem da arquitectura, tão relevante para a Liturgia. Não vemos os outros que nos acompanham na celebração.

3.     A Presença Humana Como Compromisso

Ao estarmos num sítio, não estamos nos outros sítios onde podíamos estar. Além de isso induzir uma simplificação na nossa vida, constitui naturalmente um modo de sinalizar compromisso. Ao apresentar-me num lugar, é como se dissesse: “para eu vir aqui estar convosco, fazer isto na vossa companhia, não fui estar com outros, nem fazer outras coisas diferentes. Isso comunica-vos, em certa medida, que sou dos vossos, que vos dou algo de mim, que recorto um pedaço da minha vida para a gastar convosco, e por vós”. Esta linguagem da presença, raras vezes enunciada explicitamente, todos a sabemos ler intuitivamente.

Também o espaço sagrado onde celebramos a Eucaristia é um espaço comprometido. O sagrado é o separado, aquilo que é posto de parte para Deus. A Igreja é o espaço onde rezamos, e onde não fazemos mais nada. Não comemos, não corremos, não conversamos despreocupadamente, etc. Cada vez que damos tratamento comum ao espaço da Igreja, usando-a para outros fins, dessacralizamos o espaço. A uma Igreja convém-lhe ser um espaço inútil, excepto para aquele fim único que é o seu fim principal. Assim indicamos a transcendência de Deus, a sua prioridade, o Seu merecimento do melhor da nossa atenção.

Ora na experiência da Missa remota, facilmente perdemos boa parte disto que temos vinda a descrever. Vemos a Missa no mesmo computador útil para tantas outras coisas, nalguma sala da nossa casa onde fazemos outras coisas. Num instante vamos à Missa, num instante saímos; não custa nada ir lá e, portanto, não exprimimos da nossa parte tanto compromisso. Mais: rapidamente cedemos e deixamos que todas estas intersecções aconteçam não apenas à volta da Missa, mas durante a Missa. A facilidade em atender o telefone, ser interrompidos, aproveitar para tratar de algum pequeno assunto ali mesmo noutra janela do computador, é muito tentadora.

Não nos ajuda muito, este ir à Missa sem sair do local do comum por excelência, a casa própria. Nem a banalidade já tão habitual da posição de “espectador”: assistir à Missa na mesma postura e modo como assistimos ao futebol, aos anúncios, ou consumimos entretenimento.

Também o compromisso comunitário fica necessariamente ferido. Quando vamos à Missa vemos os outros, ajustamo-nos a eles ao arrumarmo-nos nos bancos, sincronizamo-nos com eles nas orações, suportamos pequenos incómodos, fazemos pequenos gestos de gentileza e atenção. Experimentamos a sua fé e fortalecemo-nos com a sua convicção religiosa. Sabemos que não estamos sozinhos, que somos muitos, que somos diferentes, mas temos algo em comum. Para alguns, especialmente nas cidades, a Missa dominical é mesmo a sua única experiência comunitária local.

Talvez estes aspectos não sejam tradicionalmente comunicados ao falar de Liturgia, mas fazem parte integrante dela. As coisas não se dizem quando são evidentes, e muita coisa sobre a presença na Liturgia era evidente até há bem pouco tempo. É a alteração dessa evidência que nos motivará agora a pensar melhor estes aspectos e inclui-los no ensino da Liturgia.

4.     Participação, Comunhão, Kerigma, Sacramento

Sem ser possível no âmbito de um breve artigo analisar em profundidade todos estes temas, limitamo-nos a uma observação geral. A reflexão teológica da Igreja foi desenvolvendo conceitos para se enfrentar com o mistério da Eucaristia. Sem dissolver o mistério, sem o abarcar, estes conceitos ajudam-nos a adentrar-nos no seu núcleo e a nos alimentarmos dele.

Ora, ao longo destes séculos de oração e reflexão, por parte dos Padres da Igreja, do Magistério, dos Santos, nunca antes do século XX podia ocorrer a alguém distinguir se se podia dizer as mesmas coisas de uma Missa a que se assistia remotamente.

Se a participação é essencial na assistência de um fiel à Missa, e tendo esta participação um sentido tão profundo, tão interno e espiritual, muito para além da mera inclusão num grupo de assistentes, podemos estar seguros que vivemos correctamente esta participação numa Missa remota?

Se a comunhão que os fiéis vivem e constroem na Missa entre si e com Deus, com os fiéis de todos os lugares e de todos os tempos, com a eternidade dos eleitos de Deus, pertence à própria essência da vida da Igreja e da celebração da Missa, devemos conceder desde logo que se dá a mesma comunhão neste novo modo de assistir?

Se o kerigma, o anúncio do Cristianismo, ecoando a pregação de Nosso Senhor e prolongando o anúncio de que Ele mesmo encarregou os apóstolos, chegou até nós num determinado modo, pessoal e directo, terá o mesmo desenvolvimento dispensando o contacto pessoal?

Se nos Sacramentos se junta espírito e matéria, se por instituição divina neles temos acesso a graças de salvação, caberá dentro do plano divino para a economia sacramental uma apropriação tecnológica por parte do homem?

De estas questões pretendemos apenas afirmar uma ideia geral, aplicável a todos: não é nada evidente responder a estas perguntas, e muito menos responder-lhes de modo a afirmar uma equivalência da Missa presenciada com a Missa assistida remotamente por meios tecnológicos. Se o quisermos fazer, temos de assumir que entramos em terreno novo, e questionarmos seriamente sobre se estaremos em continuidade com esta longa e rica Tradição.

5.     A Presença Divina na Eucaristia

Toda a análise anterior pode ser levada ainda a um nível mais profundo e mais fundamental se, por assim dizer, olharmos a questão a partir “do lado de Deus”.

A Igreja Católica afirma que o Verbo de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnou em Jesus; que morreu por nós no Calvário e ressuscitou, vencendo a morte; e que temos acesso a esse Mistério Pascal de Jesus através da sua presença real no altar. Na Missa assistimos realmente ao único sacrifício de Cristo na cruz. É Ele quem vemos quando olhamos para a hóstia consagrada, e é Ele quem recebemos dentro de nós na comunhão.

Em termos de presença, o que isto significa é que Deus, que pode falar à distância, fazer-se ver onde quiser, ter notícia de nós e dar notícia de Si sem qualquer restrição de espaço e de tempo, optou por não nos redimir à distância. Não precisava de fazer a misteriosíssima viagem da encarnação, mas fez. Não precisava de complicar a logística, mas avançou para uma existência humana normal, com toda a espera e ineficiência que isso supõe.

E depois, quando nos podia ter pedido que o reverenciássemos como uma referência histórica, que apenas recordássemos os acontecimentos em Israel há cerca de 2000 anos, em vez disso optou por ficar connosco, perto de cada um, quis dar-nos uma forma de o tocar no aqui e agora da nossa existência.

A Missa é, ela mesma, a mediação perfeita entre Deus e os homens, a ponte, a suprema comunicação; nela já temos o “écran” onde se pode ver, ver realmente, o Calvário onde fomos salvos, e o Céu que nele foi para nós conquistado.

Tudo isto é impossível se não for decidido e feito por Deus. Tudo isto é incrível se não for crido por fé. Tudo isto é expressão do amor rendido pelo Todo-Poderoso às suas pequenas criaturas, que eleva à condição de filhos. O compromisso de Deus com a Missa é total, e extraordinário.

Responder a esta proximidade cheia de amor com a nossa distância, a este compromisso e entrega com a nossa retracção e descompromisso, corre o sério risco de ser desamor. Acrescentar uma pequena “prótese” de ponte tecnológica a esta miraculosa ponte entre o temporal e o eterno, atrever-nos a modificar a própria estrutura decidida por Deus para a nossa salvação, como quem pretende aperfeiçoar uma das mais perfeitas obras de Deus… tudo isto pode ser a nossa soberba a enganar-nos, a sugerir-nos que somos nós que fabricamos e desenhamos salvação, quando na realidade, da salvação só nos toca ser receptores agradecidos.

 

 

Pedro G. Rodrigues

Eng.º Informático, Professor

 

 

 

 

 


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