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JOSÉ, O SILENCIOSO?

 

Hugo de Azevedo

 

 

Ao dedicar este ano a S. José, no 150º aniversário da sua festividade como Padroeiro da Igreja Universal, o Santo Padre deu aos fiéis mais uma grande consolação espiritual. Embora a consciência da grandeza da sua vocação, como Pai de Jesus e dedicado Esposo de Maria, não se houvesse reflectido durante séculos na Sagrada Liturgia, e só aos poucos em fórmulas e costumes da devoção privada, a sua discreta figura foi desde sempre representada com imenso carinho na iconografia cristã e amada pelos fiéis em ritmo crescente. Digamos que ele próprio se empenhou em permanecer bem em terceiro lugar na História da nossa Redenção, tal como fizera na sua vida terrena.

Conviria, porém, esclarecer uma tonalidade muito comum na contemplação da sua heroica e amável personalidade: à falta de palavras de S. José nos Evangelhos e com tão poucas de Nossa Senhora - o brevíssimo diálogo angélico, o «Magnificat», a dolorida queixa em Jerusalém e o recado em Caná - deu-se em imaginar um Lar de Nazaré em perpétuo recolhimento «místico», de que ainda se faz eco a Liturgia das Horas na festa da Sagrada Família, e serve de título a uma bela obra de Michel Gasnier.

Um lar onde não se conversava? Onde não chegava uma notícia, feliz ou infeliz? Nem se combinavam afazeres? Onde ninguém ria, sorria, brincava, chorava, cantava, perguntava, respondia, e até discutia - cada um para se adiantar aos outros nos trabalhos mais incómodos? Onde não se recebiam parentes, vizinhos, clientes, colegas de ofício, pedintes?

Não crescia o Menino Jesus «em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens»? (Lc 2, 52) E como cresceria sem passar pela «idade do não», em que a criança se dá conta de que é ela mesma, e não «o menino» que os outros apontam; sem fazer «tolices» e receber conselhos; sem perguntar mil coisas até fatigar os pais; sem repetir experiências até se cansar Ele; sem imitar o que fazem os outros; sem gostar de ouvir as mesmas histórias muitas vezes; sem pedir ao Pai que O deixasse ajudar na carpintaria; e sem passar pela crise da adolescência, por volta dos doze anos?

Nada há nisto de pecado ou imperfeição, mas sim o normalíssimo e saudável desenvolvimento humano.

Pelas suas feições, embora bem masculinas, «sairia» à Mãe; pelo modo de ser, muito ao Pai: ao seu espírito observador; ao conhecimento dos homens de todo tipo e função, que encontramos nas parábolas; à experiência pessoal de trabalhos caseiros e rurais; às lembranças de família presente e passada; para não falar já da sua piedade e do conhecimento profundo das Sagradas Escrituras… Sei lá, até no modo de falar. «Tal pai, tal filho!», diriam, com certeza.

José é verdadeiro Pai, pois o que é ter um filho, senão recebê-lo de Deus? «E não te atrevas a negar-lhe o nome de Pai, não vá Nossa Senhora zangar-se!», avisa Santo Agostinho no «Sermão das Genealogias», «pois Ela assim o disse: teu Pai e eu procurávamos-Te, cheios de aflição».

Nessa ocasião, nem a Mãe nem José entenderam a resposta, como acontece tanta vez aos pais nas mesmas circunstâncias. E voltam a casa, e o Filho é obediente, mas já não O tratam como criança: temos Homem!

Certamente, a conversa com José adquiriu outro tom a partir daí. José, passou a ser o seu maior amigo e confidente. Oxalá isso aconteça com todos os pais.

Mas, silencioso, não.

 


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