TEMAS LITÚRGICOS

A celebração litúrgica do Natal e da Epifania

 

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

O tempo de Natal: origem e desenvolvimento histórico

 

A celebração do Natal a 25 de dezembro é muito antiga. Efetivamente, por volta do ano 336, temos notícia de uma festa de Natal em Roma nessa data. Por S. Agostinho sabemos que também no norte de África se celebrava a 25 de dezembro. No final do sec. IV a festa está estendida a toda a Itália e Espanha e S. João Crisóstomo testemunha que também em Antioquia.[1] Porém, como surgiu esta festa? E porquê o dia 25 de dezembro?

 

 Há várias hipóteses. Uma primeira pode ser a cristianização das festas pagãs associadas ao solstício de inverno (que calha à volta do dia 21 de dezembro). Em Roma essas festas conhecidas como «saturnalias» foram muito populares entre os séculos III aC e o séc. IV dC. Começavam-se a celebrar a dia 17 de dezembro e havia trocas de prendas, inversão de papeis (escravos e livres), muitas luzes e banquetes. Na época imperial estendeu-se até ao dia 25 de dezembro, data do «Natalis (solis) invicti». Nesta festa celebrava-se a vitória do Sol sobre as trevas. Era também a celebração do nascimento de Mitra, divindade persa, muito popular em Roma. Para os cristãos Cristo é a verdadeira luz que triunfa sobre as trevas.

Outra hipótese está relacionada com uma tradição judaica que afirmava que todo o profeta morre no dia da sua conceção. Segundo o calendário romano, a morte de Cristo seria a 25 de março e, portanto, também nessa data se teria dado a sua conceção. Assim, o seu nascimento seria nove meses depois, a 25 de dezembro.

Também se aponta esta festa como um dos resultados do concílio de Niceia. Seria como que a expressão litúrgica da confissão de fé na divindade consubstancial de Cristo professada nesse concílio.

Uma tese interessante é a de alguns autores como Nicola Bux. Afirmam ser possível calcular a data do anúncio do Anjo a Zacarias. Calharia em finais de setembro, por volta do dia 23. Assim, Isabel estaria com seis meses de gravidez por volta do dia 25 de março, data da anunciação a Maria e o nascimento dar-se-ia em 25 de dezembro.

 

Modo de celebrar

 

Segundo a tradição patrística não se celebravam os nascimentos terrenos, mas sim a data do martírio dos santos (Natalis dies), daí que S. Agostinho considere a festa do Natal como um simples aniversário com valor de recordação de um dado histórico, ao contrário da Páscoa que a vê como um tempo litúrgico com valor de atualização sacramental.

Porém, um século depois, S. Leão Magno aplica às festas natalícias este mesmo valor sacramental e já se celebram (aliás, desde o seu predecessor Sixto III) as três Missas estacionais do Papa: meia-noite em Santa Maria, de manhã em Santa Anastasia e ao meio-dia em S. Pedro.

Os livros medievais vão enriquecendo esta solenidade dotando-a de oitava: 26: S. Estevão; 27: S. João Evangelista; 28: S. Inocentes; 1 de janeiro: Maternidade de Santa Maria.

O missal de S. Pio V recolhe e sistematiza estas festas, trocando o dia 1 de janeiro pela circuncisão do Senhor na oitava do Natal.

A reforma litúrgica do Vaticano II conservou substancialmente o enfoque anterior do tempo natalício; enriqueceu-o, porém, gradualmente com textos e também com algumas celebrações, como, por exemplo, a missa vespertina da vigília; o restabelecimento da divina maternidade de Maria na oitava do Natal, segundo a antiga tradição; maior destaque dado ao mistério do batismo de Jesus, celebrado no domingo depois da epifania; a festa da Sagrada Família celebrada no tempo de Natal.

 

A teologia da celebração do Natal

 

Podemos assinalar alguns dos temas que a liturgia deste tempo desenvolve:

a.      Natal, mistério de salvação: S. Leão Magno dá a esta solenidade o seu verdadeiro fundamento teológico. Ele fala do «sacramentum nativitatis Christi» («mistério da natividade de Cristo») para indicar o valor salvífico do evento. As páginas do Evangelho e dos profetas que anunciam este mistério «enchem-nos de fervor e ensinam-nos que o Natal do Senhor, quando o Verbo se fez carne (Jo 1, 14), não se nos apresenta como recordação do passado, mas como algo que vemos no presente»[2], por isso, a presente festividade renova para nós o sagrado Natal de Jesus. Porém, o Natal é «sacramento de salvação» na medida em que torna presente o ponto de partida de tudo o que se realizou na carne de Cristo para nossa salvação, nomeadamente o mistério pascal.

b.      Encarnação do Verbo: Os textos da atual liturgia ainda estão cheios das expressões dogmáticas que esclarecem com precisão a fé no mistério da Encarnação. Podemos dizer que é a celebração do mistério da Encarnação segundo a fé da Igreja contra todas as interpretações erradas: gnóstica, ariana, docetista, maniqueia ou monofisista.

c.      Admirável intercâmbio entre a divindade e a humanidade: o tema do intercâmbio em que «Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus»[3] ocupa o centro de toda a rica liturgia romana do Natal. Este intercâmbio pode ser visto desde duas perspetivas, descendente e ascendente:

                                                               i.     O Verbo assumiu o que era nosso para nos dar o que era seu.

                                                             ii.     Participação real e intimamente da natureza divina do Verbo: fomos regenerados como filhos de Deus.

A espiritualidade do Natal é a espiritualidade de adoção como filhos de Deus. S. Leão Magno convida o cristão a reconhecer a própria dignidade, a fim de que, tornando-se participante da natureza divina, não queira voltar à abjeção de outrora com uma conduta indigna.

d.      O Natal na perspetiva da Páscoa: o Verbo fez-se carne para oferecer um sacrifício existencial e pessoal ao Pai. Por detrás dos dois dias festivos, Natal e Páscoa, existe uma única perspetiva de fundo.

e.      Natal como princípio da Igreja e da solidariedade com todos os homens: a geração de Cristo – afirma S. Leão Magno – é a origem do povo cristão: o Natal da cabeça é também o Natal do corpo.

f.       Mistério da renovação do cosmos: o Verbo assume em si toda a criação para erguê-la da sua queda e para reintegrar o universo no desígnio do Pai.[4]

 

A Epifania

 

O termo grego «epifania» ou «teofania» tem o significado de auto-notificação, de entrada poderosa no campo da notoriedade e referia-se à chegada de um rei ou imperador. O mesmo termo servia também para se referir ao aparecimento ou manifestação de uma divindade ou de alguma intervenção poderosa sua. Não é de admirar que no Oriente se tenha utilizado este termo para se referir à festa do Natal do Senhor, a sua «aparição» na carne.

Porém, os dados mais antigos no Oriente não são a celebração do Natal, mas sim do Batismo. Efetivamente, no século II há notícia de uma festa, no dia 6 de janeiro, em que se celebrava o batismo do Senhor e à qual, só mais tarde, se acrescentou uma vigília em que se celebrava o nascimento. Porquê a celebração daquele mistério? Talvez por os egípcios realizarem celebrações cultuais nas águas.[5]

Uma vez que na Epifania se queria celebrar a manifestação de Deus aos homens, ou «aparição» de Deus na carne, como dissemos, compreendemos que a ela estejam inicialmente associadas não só a celebração da adoração dos Magos, com a aparição da estrela, mas também a do Batismo de Jesus (onde os Céus se abrem e manifestam quem Ele é) e também as Bodas de Caná (onde Jesus «manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram n’Ele»[6]).

Paulatinamente, a data de 25 de dezembro vai sendo aceite no Oriente como a do nascimento de Jesus e a de 6 de janeiro reserva-se para essas três celebrações.

No ocidente a festa da epifania vai ser recebida quando a do Natal já está estabelecida. Assim, ela volta-se unicamente para a celebração da revelação de Jesus ao mundo pagão, com o seu protótipo na vinda dos magos a Belém para adorar o Redentor recém-nascido.

O tema teológico da Luz, associada à vinda do Messias, que já tinha aparecido nos textos do Natal vai voltar com especial intensidade nas festas da Epifania e também, embora já no Tempo Comum, na da Apresentação de Jesus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Num vídeo de 19/12/2018 o Pe. Paulo Ricardo diz ter sido encontrada uma referência de S. Hipólito muito anterior, mais de um século antes (por volta do ano 204), que fala da celebração do Natal a dia 25 de dezembro (para tal cita o livro de Nicola Bux de 2009: "Gesù il Salvatore: Tempi e luoghi della sua venuta nella storia").

[2] SÃO LEÃO MAGNO, 9º discurso do Natal (XXIX), I.

[3] SANTO AGOSTINHO, Sermo 198, PL 39, 1997.

[4] Cfr. PREFÁCIO DO NATAL II: «(…) Gerado desde toda a eternidade, começou a existir no tempo, para renovar em Si a natureza decaída, restaurar o universo e…».

[5] Em Alexandria celebrava-se à volta do dia 6 de janeiro a festa de Nascimento do deus egípcio Ra-Amon, nessas datas havia também as festas alexandrinas de Dionísios, a consagração de Osíris nas águas do Nilo (há várias teorias entre os peritos que veem na escolha desta data uma forma de cristianizar estas celebrações)

[6] Jo 2, 11


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial