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O NATAL DA PAZ

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

 

 

Quando os Anjos anunciaram a Paz na Terra referiam-se à paz do homem com Deus, isto é, ao perdão dos pecados e à presença sacramental de Jesus Cristo no mundo, fonte de novas, excelentes e definitivas graças para a Humanidade. Não vieram anunciar o fim das guerras e que a partir de então os homens e as nações se abraçariam fraternalmente. Nem sequer entre os «homens de boa vontade», no sentido vulgar da expressão, ou no sentido profundo de agraciados por Deus. Com quanta «boa vontade» se cometem crimes horrendos! Entre os próprios cristãos ou por sermos cristãos. - «Virá tempo em que todo aquele que vos matar julgará prestar culto a Deus», avisou-nos mesmo o Senhor (Jo 16, 2).

As lutas continuaram e não se vê o seu fim próximo ou distante. Ao contrário, com a aproximação mútua dos povos e o desenvolvimento tecnológico, as guerras multiplicaram-se e aumentaram de violência, até merecerem do Papa Francisco o nome de «guerra mundial aos bocados». Se na Europa nunca houve tão longo período de paz entre as suas nações – bendito seja Deus! –, há lutas sangrentas por esse mundo fora e aumentaram as tensões entre as grandes potências, como nunca se viu.

Muitos homens sábios se têm dedicado a analisar o «fenómeno», mas sem apresentarem caminhos práticos de pacificação, até porque as deslocações forçadas das populações, vão modificando o mapa mundial de um mês para outro. Só a caridade cristã é capaz de saltar os muros que nos separam.

Os apelos do Papa Francisco à «amizade social», em «Fratelli Tutti», por muito idealistas que soem, são o único caminho de pacificação - possível - neste mundo globalizado, que nos torna «vizinhos, mas não amigos».

Se bem que não faltem generosos esforços de pacificação, temos de reconhecer que não possuímos ainda soluções políticas para a paz das nações, mais dificultada ainda pelo entrosamento das populações em fuga da miséria e da violência. Quem espera alcançá-la pela diminuição populacional, além de agravar a «cultura da morte» que nos invadiu, está muito enganado. Retrair a população para reduzir o problema significa eliminar os fracos e indefesos para os que gozam do mundo. Uma guerra surda, covarde, vergonhosa.

 

Como é possível tanta crueldade? Que é o mesmo que perguntar quando é capaz o homem de esmagar o próximo, e até os mais inocentes e fracos, e os próprios filhos, sem consciência de culpa? Suponho que só o pânico produz tais efeitos. Vivemos em pânico: tudo nos assusta, desde o clima e as pestes às bombas nucleares.

Por outro lado, a falta de senso. Temos de ser humildes: reconheçamos, antes de mais, que não sabemos o que fazer. O nosso grande problema não é só o pânico, a cupidez e a maldade, mas também a estupidez. Defeito, aliás, só próprio de seres inteligentes, mas com a razão afectada desde a queda do Paraíso.

Esquecer esta consequência do pecado original, como diz o Catecismo da Igreja Católica, «conduz a graves erros no domínio da educação, da política, da acção social e dos costumes» (nº 407). Pelo contrário, reconhecer a nossa debilidade mental – que qualquer História Universal atesta – é compreender-nos melhor e, em vez de revoltas e violências, buscar medidas razoáveis que minorem tantas fraquezas.

Basta um exemplo corriqueiro: quando deixaremos de recorrer à longa tortura das prisões? Não sabemos. Ou quando reduziremos a tortura burocrática das incontáveis taxas e dos mil decretos? E a rigidez das leis implacáveis, da Justiça cega? Não sabemos.  Quando acabará a pobreza radical de milhares de cidadãos? E o comércio da droga?... Já agora, e o Covid? Não sabemos.

Não, não sabemos. Ninguém o deseja, mas faltam remédios. Os governantes fariam festa se lhes apontassem soluções certas e práticas…  Isto é: não se trata, sempre e fundamentalmente, da má vontade, que existe, sem dúvida, mas sobretudo da incapacidade de ordenar o planeta e suas gentes em boa harmonia duradoura.

Talvez esta consideração nos ajude a estimar cada vez mais a paciência, a longanimidade, a compreensão, o perdão – do presente e do passado – e a gratidão e o respeito por tão grandes benefícios de todo o género que herdamos de inúmeras gerações e continuamos a receber de milhões de companheiros de trabalho. E daí, em vez de protestos, maior empenho de contribuir para o bem de todos – «tutti fratelli» –, que valem o Sangue de Cristo. Quando nos desgostem, ofendam ou prejudiquem, não queiramos ser mais exigentes do que Deus, que nos ama tanto e não desiste de nenhum até à hora da morte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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