TEMAS LITÚRGICOS

A Ressurreição de Jesus na Eucaristia:

O ambão

 

 

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Certo dia visitei uma pequena capela que estava quase terminada. Ainda não tinha sido colocado o ambão, mas via-se bem onde ia ficar. A capela era toda revestida de madeira. Havia apenas dois elementos que não o eram: o altar e o ambão. Explicaram-me que o arquiteto desejava que o ambão fosse da mesma pedra que o altar, mas pelas dimensões da capela ou por outras razões estéticas não foi possível. Porém, insistiu que a base do ambão fosse diferente do resto do chão. Que fosse de pedra, da mesma pedra que o altar, para lhe dar unidade. Entendi a razão da unidade entre o altar e o ambão, as duas mesas da Eucaristia: a do Pão e a da Palavra; porém, percebi que havia algo mais e perguntei. Explicaram-me que essa pedra sobre a qual se iriam proclamar as Escrituras e o Evangelho simbolizava a pedra do sepulcro. Confesso que não compreendi o porquê desse simbolismo. Quem me explicava recordou-me que foi de lá que o Anjo anunciou a Ressurreição. Porém, à minha memória apenas vinha o relato de Lucas em que dois homens com vestes resplandecentes falam às mulheres quando elas estão dentro do sepulcro.[1] E Marcos fala de um jovem sentado do lado direito, dentro do sepulcro. Mas, efetivamente, Mateus relata algo mais:

«E eis que se deu um grande terramoto, porque um anjo do Senhor desceu do Céu e, aproximando-se, removeu a pedra e sentou-se sobre ela.

O seu aspeto era como um relâmpago e o seu vestido branco como a neve.

Com o temor que tiveram dele, aterram-se os guardas, e ficaram como mortos.

Mas o anjo, tomando a palavra, disse às mulheres: «Vós não temais, porque sei que procurais Jesus, que foi crucificado:

Não está aqui, pois ressuscitou como tinha dito.

Vinde ver o lugar onde o Senhor estava depositado.

Ide já dizer aos Seus discípulos que Ele ressuscitou; e eis que vai adiante de vós para a Galileia; lá O vereis. Eis que eu vo-lo disse».[2]

Eis que o Anjo, que está sobre a pedra do sepulcro, anuncia a Ressurreição de Jesus. Ou seja, está elevado e dali faz o anúncio pascal. Só muito mais tarde é que compreendi melhor esta simbologia que liga a pedra do sepulcro com o ambão e teve de ver com dois episódios.

O primeiro passou-se em Roma. Visitava com um grupo de universitários a Igreja de Santa Maria da Paz, onde está sepultado S. Josemaria. Um daqueles jovens perguntou-me por que razão os dois ambões têm uma águia voltada para nós (o livro assenta sobre o seu dorso e asas). Tive de fazer uma pausa e pensar um pouco e, entretanto, alguém sugeriu:

- Será uma pomba a simbolizar o Espírito Santo?

Mas não. Era uma águia, não havia dúvida. Porquê?

- Talvez seja por estarmos em Roma. A águia simboliza as legiões… - sugeriu outro.

- Não será antes S. João? – disse um terceiro.

Sim, podia simbolizar S. João, mas, então, e os outros três evangelistas? S. João é até o quarto evangelista, porquê este destaque? Recordei que já tinha visto outros ambões com esta simbologia e em igrejas de outros países. Tinha de haver uma explicação. E, efetivamente, ela existe. S. João foi o primeiro dos Apóstolos que viu o sepulcro vazio.[3] Avisado por Maria Madalena corre com Pedro para o sepulcro, mas, ao ser mais novo, corre mais depressa e chega antes. Espreita e vê o sepulcro vazio e as ligaduras, mas não entra. Ali começa tudo. Tudo o que se anuncia e se medita na Eucaristia: que Jesus Cristo está vivo!

Ambão vem da palavra latina «ambo» que, por sua vez, vem do grego «anabaino» que significa «subir». Designa, pois, um lugar elevado para a proclamação da Palavra.[4] «Na liturgia (…) Deus fala ao seu povo e Cristo anuncia ainda o seu evangelho»[5]. A Introdução Geral ao Missal Romano afirma que dignidade de tal anúncio requer que haja na igreja um lugar adequado para a sua proclamação e para o qual, durante a liturgia da palavra, convirja espontaneamente a atenção dos fiéis. Mas, não fica por aqui, vai mais longe. Requer a exclusividade do ambão para o anúncio pascal. Daí que unicamente sejam proferidas do ambão as leituras, o salmo responsorial e o precónio pascal. [6]  Achei interessante que se sublinhe este último. É apenas proclamado uma única vez no ano. Porém, o ambão serve exatamente para isso. Tal como aconteceu naquela manhã em que Jesus ressuscitou. O primeiro pregão pascal foi proclamado pelo Anjo do Senhor sobre a pedra removida do túmulo.[7]

Arocena, no seu manual de introdução à Teologia Litúrgica, explica com detalhe a ligação entre S. João e o anúncio da ressurreição e recorda que a história da arquitetura do ambão esteve sempre ligada ao sepulcro. Daí que este tomasse a forma sepulcral.

Este autor fá-lo também recorrendo a alguns ambões históricos e emblemáticos, como o de Sant’ Agnello (sec. VI) em Ravena e o da Basílica de S. Sofia em Constantinopla.

«Do ambão só se proclama a Palavra de Deus, a única que não foi inventada por nós e que nos é transmitida não por iniciativa particular, mas por mediação da Igreja segundo o sopro do Espírito. Em consequência, o ambão será de per si elevado e único, como único é o sepulcro da ressurreição. A basílica da Anástasis em Jerusalém nunca teve ambão. Ali, a proclamação realiza-se a partir da entrada aberta para o sepulcro vazio. Diante desse hic (aqui), perante a fisicidade daquele lugar, qualquer simbolismo resultaria impróprio, excedente».[8]

Fiz algumas pesquisas na internet e vi fotografias incríveis. Ambões de várias toneladas, que chegavam a ter seis metros de largura e três de altura. Alguns continham uma porta em baixo, lembrando a entrada do sepulcro e, bem no alto, tal como podemos imaginar o Anjo de Mateus, o sítio de onde o diácono proclama o Pregão Pascal e o Evangelho, a Boa Nova: Jesus Ressuscitou!

Ao ver as fotografias impressionantes destes ambões históricos recordei a queixa de umas jovens que referi no último artigo. Não queriam ir ao Calvário quando iam à Missa… Tentei explicar-lhes que essa ida ao Calvário só podia ser feita à luz da Ressurreição e tentei sublinhar vários elementos que o salientam: o tom da celebração, a alegria, a beleza dos cânticos, a luz das velas que nos recorda o triunfo sobre as trevas, etc. Porém, inconscientemente, concordei que talvez se tivessem carregado as tintas no que diz respeito ao memorial da Cruz, deixando mais ofuscada a ressurreição. Porém, ao olhar para esses ambões gigantescos que recordavam claramente o sepulcro, ao imaginar o diácono a subir àquela pedra para anunciar a Ressurreição de Jesus, pareceu-me que tudo se equilibrava. Antes de irmos para o altar aquecemos o coração com esta radical novidade: Cristo vive! Então, podemos viver de novo a sua entrega ao Pai, unir-nos a ela e, depois, recebê-lo fisicamente no nosso coração (sepultá-lo), para, finalmente, o fazer ressuscitar de novo, desta vez, em nós, na nossa vida.



[1] Lc 24, 4

[2] Cfr. Mt 28, 2

[3] Cfr. Jo 20, 4-5

[4] J. ALDAZÁBAL, Dicionário elementar de Liturgia, p. 26.

[5] SC 33

[6] IGMR nº 309

[7] A título de exceção diz-se que também se poderão fazer do ambão a homilia e proporem-se as intenções da oração universal (cfr. IGMR nº 309)

[8] F. AROCENA, Teología Litúrgica, una introducción, p. 193.


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