TEMAS LITÚRGICOS

Páscoa Judia e Páscoa cristã

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

Há uns anos pediram-me que desse uma conferência sobre o tema «A Páscoa judia e a Páscoa cristã». Quem o pedia tinha escutado uma especialista na matéria e falou com grande admiração da palestra a que assistira. Enfim, procurei não dar braço fraco e esforcei-me por estudar o tema o melhor que pude e o certo é que, se bem recordei muitas coisas que havia estudado na universidade, também descobri muitas coisas novas e deslumbrantes que ajudam a entender muito a Eucaristia e a Liturgia. Recentemente, descobri as conferências e o livro do Dr. Brant Pitre sobre as raízes judaicas da Eucaristia e pude aprofundar ainda mais e pasmar-me com a riqueza de simbolismos e a profunda ligação que existe entre a Páscoa Judia e a Páscoa Cristã.

Na Vigília Pascal, a vigília das vigílias, lemos a narração da Páscoa Judia. A sua instituição e as prescrições de Deus a seu respeito. Sabemos que a nossa Páscoa tem as suas raízes nessa Páscoa. Mas em que sentido? Só como anúncio? Permaneceu algum ritual? Algum elemento litúrgico da antiga Páscoa passou para a nova Páscoa?

Podemos identificar seis características na Páscoa judia instituída no capítulo 12 do livro do Êxodo:

1.     Trata-se de um ritual sacrificial de um cordeiro que deve ser sem defeito.

2.     Deve ser realizado na tarde do dia 14 de Nissan.

3.     Quem realiza o sacrifício é o pai de família.[1]

4.     O sangue do cordeiro devia ser recolhido e, com um hissopo, aspergir os umbrais das portas.

5.     Mandato de comer a carne do cordeiro

6.     Celebração memorial: trata-se de uma celebração que deve ser repetida todos os anos, de geração em geração.[2]

Porém, como é que era vivida a Páscoa no tempo de Jesus? Mantiveram-se as mesmas características ou houve alterações?

Efetivamente, mantém-se o sacrifício do cordeiro na tarde do dia 14 de Nissan, no entanto, já não é feito pelo pai de família, mas sim no Templo e pelos sacerdotes. O sangue deixa de ser rociado nos umbrais das portas e passa a ser derramado no altar do Templo. Após o sacrifício, o cordeiro era levado para casa e aí preparado e depois comido na ceia pascal. O livro de Deuteronómio estabelece a forma como a Páscoa devia ser celebrada uma vez conquistada a Terra Prometida: deverá ser feita «somente no lugar que o Senhor teu Deus, tiver escolhido para aí habitar o seu nome»[3], isto é, na Cidade Santa, em Jerusalém. Assim, se desde o início a Páscoa era um banquete sacrificial, na época de Jesus o elemento sacrificial vai ser especialmente enfatizado.

Brant Pitre salienta um aspeto que poderá, à primeira vista, parecer acessório, mas que, para um cristão que celebra a Páscoa de Jesus, pode outorgar luz à morte sacrificial do Senhor como Cordeiro de Deus. Refiro-me à forma como eram imolados os cordeiros no Templo. Tanto a Mishnáh, como um diálogo de S. Justino, descrevem o procedimento com pormenor dizendo que, para preparar a vítima se espetava um pau pelos ombros e depois outro entre a boca e o rabo. Ou seja, lembrava uma crucifixão. Pitre refere que, se de facto estes dados históricos são certos (e não parece haver motivos para o negar), Jesus e os seus discípulos terão visto milhares de cordeiros «crucificados» no Templo. Com isto em mente podemos imaginar melhor o efeito que provocará nos discípulos quando Jesus fizer a ligação entre a sua morte e o seu sofrimento com o sacrifício do cordeiro pascal.[4] 

O capítulo 12 do Êxodo estabelece como será feita a primeira Páscoa e refere que se celebrará todos os anos. Porém, no tempo de Jesus, os rabinos vão mais longe: ensinam que essa celebração é uma participação nessa primeira páscoa e não apenas uma recordação. Por exemplo, de acordo com a Mishnáh, o filho mais novo deveria perguntar ao pai: «Porque é que esta noite é diferente das outras noites?». O Pai recordava então a aliança com Abraão, o êxodo do Egipto com muitos pormenores, mas deveria fazê-lo na primeira pessoa, incluindo-se a si e aos presentes, vendo-se presente tanto na escravidão e na miséria como na salvação. Embora tivessem passado muitos séculos ele deveria falar como se ele próprio tivesse experimentado esses acontecimentos.

«Em cada geração cada um tem o dever de se considerar como se ele mesmo tivesse saído do Egipto… porque o Santo – bendito seja Ele – não libertou apenas os nossos pais, mas também nos libertou a nós juntamente com eles… portanto é nosso dever dar graças, prestar homenagem, louvar, celebrar, glorificar, exaltar, magnificar, louvar Aquele que fez a nós e aos nossos pais todos estes prodígios, que nos retirou da escravatura para a liberdade, da submissão para a redenção, da dor para a alegria, do luto para a festa, das trevas para a esplendida luz. Digamos, portanto, diante d’Ele: Aleluia»[5]

Ao analisar os textos rabínicos antigos Pitre descobre ainda um terceiro elemento que nos pode ajudar a penetrar no mistério da Última Ceia. Trata-se da consciência que havia no tempo de Jesus de que a redenção operada pelo Messias se deveria dar na mesma noite em que o povo tinha sido salvo da escravidão do Egipto.

«Naquela noite eles foram redimidos e nessa noite eles serão redimidos»[6].

«Naquela mesma noite sabei que vos hei de redimir»[7].

Ou seja, a Páscoa era um memorial, mas também um olhar para a frente, para a salvação da qual a primeira Páscoa era apenas anúncio. A noite da Páscoa, era, pois, uma noite de vigília[8]. A primeira Páscoa foi a noite de vigília pela passagem do Anjo exterminador. Posteriormente, essa vigília seria a da chegada do Messias e da redenção que ele traria consigo. A esta expectativa se referia S. Jerónimo quando diz: «é uma tradição dos judeus que o Messias há de vir à meia-noite tal como no Egipto quando a Páscoa foi celebrada (pela primeira vez)»[9].

À luz destas considerações podemos olhar para a última Ceia do Senhor e identificar uma série de aspetos que nos permitem entender melhor o mistério Pascal e a sua celebração na Eucaristia. Está claro que Jesus institui uma nova Páscoa. Ele é o Messias esperado, o cordeiro de Deus que vai derramar o seu sangue para a Redenção dos homens.

Vejamos as semelhanças e as diferenças entre a Páscoa que os judeus celebravam (e, portanto, que Jesus celebrou toda a sua vida) e a Páscoa que celebrou na noite de quinta-feira-santa:

Jesus, tal como todos os judeus na sua época, celebra a Páscoa numa noite de lua cheia, em Jerusalém, segue o costume das taças de vinho (pelo menos as primeiras) e do canto dos hinos. Porém, em vez de se falar na Aliança com Abraão e do êxodo do Egipto, Jesus fala de uma Nova Aliança. Por outro lado, toda a liturgia pascal girava à volta do cordeiro (o sacrifício realizado no Templo pelos sacerdotes; o sangue derramado no altar; o corpo era trazido e preparado; o pai explicava o significado da refeição). Agora, tudo gira à volta do Corpo e Sangue de Cristo.

No fundo, que faz Jesus na Última Ceia? Se olharmos para ela com os olhos dos judeus da altura parece claro: Jesus apresenta-se como o novo Cordeiro Pascal; esta é a Páscoa do Messias; E o seu sacrifício vai ser o novo sacrifício.

Por último, está a indicação de se comer o cordeiro. Efetivamente, para cumprir o ritual pascal não bastava sacrificar o cordeiro. Era necessário comer a sua carne. Porém, Jesus manda comer a sua carne e beber o seu sangue. Ora a Lei proibia expressamente que se bebesse o sangue dos animais.[10] E a explicação era que «a vida da carne está no sangue». O sangue era fonte de vida. Não se bebia o sangue dos animais para não se despertar uma vida animal. Mas, na Nova Aliança, com o novo sacrifício e, sobretudo, com o novo cordeiro, as circunstâncias mudam radicalmente. Este cordeiro vem do Céu e tem vida divina. Por isso, o seu sangue, fonte de vida, gera vida divina. Assim, na Nova Aliança, Deus ordena que bebamos o sangue divino para que se gere em nós essa vida do Alto.

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Durante a estadia no Egipto ainda não tinha sido instituído o sacerdócio levítico. Só o será durante a travessia do deserto quando o povo se revolta contra Deus e peca adorando um bezerro de ouro. A tribo de Levi, ao colocar-se do lado de Moisés e participar na purificação do acampamento, irá receber a bênção de servir o Senhor como intermediários entre Deus e o Povo (Ex 32, 25-28). Até esse momento podemos falar de um sacerdócio natural, de um povo sacerdotal, de um reino de sacerdotes (Cfr. Ex 19, 6).

[2] As ervas amargas simbolizavam a amargura da escravidão, os pães sem fermento recordavam o pão da miséria do tempo da escravidão, bem como a pressa com que os israelitas deixaram o Egipto, sem terem tempo de deixar fermentar o pão.

[3] Dt 16, 6.

[4] PITRE B., Jesus and the jewish roots of the eucharist, p. 63-64.

[5] Haggadah 34, 40, in SARAIVA MARTINS, Eucaristia, p. 23.

[6] Melkita on Exodus 12:42; in PITRE B., Jesus and the jewish roots of the eucharist, p. 66.

[7] Exodus Rabbah 18:11; in Ibid.

[8] Ex 12,42

[9] S. JERÓNIMO, Comentário sobre Mateus 4.

[10] Cfr. Lv 17, 11.


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