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AS  VOCAÇÕES

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

 

Perguntou alguém a S. Josemaria como se distingue a vocação de um entusiasmo fugaz. - «Por isso mesmo que dizes!». Um entusiasmo fugaz é fugaz. Passa rapidamente; e, uma vez passado, deixa de nos inquietar. Mas, se persiste, ainda que o queiramos esquecer; se teima em inquietar-nos, apesar de o rejeitarmos, é preciso enfrentá-lo, esclarecê-lo, resolvê-lo. É um chamamento do Espírito Santo.

Mas o Espírito Santo não podia ser mais explícito? Não é Seu costume. E mesmo quando o faz, deixa sempre a alma em liberdade de aceitar ou repudiar o chamamento, ou de corresponder-Lhe mais ou menos. Quer que o queiramos; quer que nos apaixonemos; não que nos resignemos, arrastando-o como um fardo irrecusável.

Nuns casos será óbvio; noutros não. O esclarecimento pode levar tempo, obrigar a procuras; e sempre convém pedir conselho a quem nos dermos a conhecer e nos mereça confiança espiritual. Não se trata de «fazer experiências», embora possa acontecer – e aconteceu – na vida de muitos santos. Entretanto, a nossa vocação é procurá-la.

Nota característica de qualquer vocação é a de prescindirmos da «nossa realização», inclusive na vocação matrimonial, que é uma entrega, não uma conquista; e até a vocação profissional, que é um serviço, não uma «carreira». As autênticas vocações divinas caracterizam-se por descentrar-nos de nós mesmos e colocar-nos à disposição de Deus, da Igreja, das almas todas, por determinado caminho espiritual e apostólico.

Daí, o seu sentido de aventura, que conta desde o início com obstáculos, interiores e externos; e com o apoio da graça para superá-los.

Por isso, a juventude costuma ser um tempo especialmente favorável à correspondência à graça vocacional: por ser a altura das grandes decisões, pela falta de compromissos anteriores que prendam os jovens; pelo seu inconformismo com o mundo em que entram, e os seus sonhos de «intervenção»: pela sua generosidade que ainda não esfriou com «desilusões»…

Quererá dizer: porque os jovens são ingénuos? Não; mas porque são críticos, e têm razão. Não se conformam com a infelicidade alheia; dói-lhes, são «misericordiosos», «choram»; têm «fome e sede de justiça»; são «pobres», livres, pois ainda não possuem nada de seu; e, se não os depravaram, «são puros de coração»; e anseiam por instaurar a paz de Cristo num mundo de ódios, rivalidades, guerras…

Mas Deus não cessa de nos chamar até ao fim desta vida, confirmando-nos, animando-nos e corrigindo a nossa correspondência. Quem não se impressiona com as Sete Cartas do Apocalipse? O Espírito Santo bate ao coração do homem em qualquer idade: quantos O «sentiram» na maturidade ou na senectude! Após uma vida heroica, mediana ou desgraçada. Não desiste, pois todos somos filhos seus, todos chamados à Casa do Pai. Em qualquer idade e circunstância havemos de perguntar como S. Paulo: - «Senhor, que queres que eu faça?» E, por mais desviada que haja sido a nossa existência, Ele dir-nos-á. Basta sermos sinceros, humildes - e consultar o GPS da nossa consciência bem formada, que nos indica sempre a meta pelo melhor percurso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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