TEMAS LITÚRGICOS

Quaresma:

o nome, a penitência e a recordação do batismo

 

 

 

Pedro Boléo Tomé

 

 

O Tempo da Quaresma é um dos tempos fortes da Liturgia e recebe da parte dos fiéis uma adesão especial. Prova disso é o facto de vermos as igrejas encherem-se na quarta-feira de cinzas, nalguns casos com números superiores aos da celebração dominical.

Esse interesse desperta questões. Uma delas, que é recorrente, é sobre o porquê do nome Quaresma e quando é que esta termina. Normalmente, a primeira questão já está respondida. O problema é que suscita a segunda. Isto é, Quaresma parece vir de quadragessima, quarenta dias. De facto, o simbolismo é tão forte que qualquer fiel se recorda dos quarenta dias que Jesus jejuou no deserto, mas também dos quarenta dias de caminhada de Elias pelo deserto até ao monte de Deus Horeb, e dos quarenta dias de dilúvio ou dos quarenta dias de Moisés no Monte Sinai, etc.

Enfim, bastaria contar quarenta dias a partir da quarta-feira de cinzas e chegar-se-ia ao Sábado Santo. Porém, se os contarmos, damo-nos conta de que chegamos ao Domingo de Ramos. Daí que alguns fiéis me perguntassem se a Semana Santa constitui um tempo litúrgico específico. Outros, por outro lado, repararam no fato de que, se descontarmos os domingos, voltamos a ter conta certa, isto é, vamos ter um número de quarenta dias de jejum e penitência desde a Quarta-feira de cinzas até ao Sábado Santo.

Depois de tantas contas e de considerações tão argutas, é um pouco decepcionante citar-lhes com simplicidade o nº 28 das Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário em que se esclarece que «O Tempo da Quaresma decorre desde a Quarta-feira de Cinzas até à Missa da Ceia do Senhor exclusive». Ou seja, nenhuma das contas apresentadas antes bate certo. A Quaresma não tem quarenta dias, mas sim quarenta e quatro. Como explicar, então, o nome de Quaresma?

A Quaresma romana conheceu diferentes formas. Desde muito cedo que a comunidade cristã sentiu necessidade de se preparar para a grande festa da Páscoa. Terá começado por um jejum na Sexta-Feira Santa e Sábado Santo, de carácter escatológico e festivo, não ascético.[1] Depois, esta preparação foi progressivamente aumentando para uma semana, mais tarde, para três semanas e chegaria mesmo a ter cinco, seis e sete semanas.

Porém, é no século IV que vai surgir o nome de Quaresma. Nesse momento ela tem a duração de seis semanas e adquiriu um carácter essencialmente ascético. E, dentro dela, dá-se a reconciliação dos penitentes. Esta exigia um longo período de penitência que terminava na manhã de quinta-feira santa, altura em que se fazia a reconciliação dos penitentes.

Assim, se contarmos desde o domingo da primeira semana da Quaresma até Quinta-feira Santa, temos quarenta dias. Daí que se tenha chamado quadragessima. Segundo alguns autores, foi precisamente a reconciliação dos penitentes uma das causas mais fortes para o desenvolvimento deste tempo litúrgico. Daí que pareça lógico a generalização do nome Quaresma, ainda que, como vimos, variasse o tempo de duração da mesma. Efetivamente, nos finais do séc. V alargou-se o tempo de preparação para Páscoa para a quarta-feira anterior ao primeiro domingo da Quaresma, dia em que se impunham as cinzas aos penitentes (e, mais tarde, aos outros fiéis). Era o caput quadragessimae, a cabeça da quaresma, dia em que os penitentes entram num rigoroso retiro espiritual até à Quinta-feira Santa.[2]

 

A preparação da Páscoa através da recordação do batismo e da prática da penitência

 

Todos os sacerdotes serão conscientes da força que este tempo tem nos fiéis e como os interpela. Recordava o caso daquele jovem que pedia com ênfase que rezasse para que aproveitasse bem aquela Quaresma. Sentia que era a oportunidade especial que o Senhor lhe concedia e não a queria desperdiçar. Ou aquela outra pessoa que exclamava: «Estou desejosa de que chegue a Quaresma!». É caso para admiração, sem dúvida. Mas, vistas bem as coisas, é reconfortante ver semelhantes disposições nos fiéis.

Porém, dar-se-ão estes conta de que, para além da dimensão penitencial, este tempo litúrgico é uma ocasião privilegiada para que cada um renove em si mesmo a graça do Batismo? Na realidade, desde muito cedo que a Páscoa esteve associada ao batismo dos catecúmenos e, por isso, a Quaresma era a reta final dessa longa caminhada. Porém, com o progressivo desaparecimento do catecumenado, esta dimensão foi-se desvanecendo.[3] Daí que o Concílio Vaticano II fizesse este apelo:

«Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspetos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Batismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal. Por isso:

a)    utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal e retomem-se, se parecer oportuno, elementos da antiga tradição; (…)»[4]

Assim o procurou fazer a reforma litúrgica. Foi reinstituído o catecumenado e, com ele, as comunidades onde há catecúmenos serão lembradas desta dimensão batismal da Quaresma. Porém, quando não existem catecúmenos pode ser bom que o sacerdote se preocupe em realçar os elementos batismais presentes neste tempo litúrgico.

Recorde-se, por exemplo, que no Ano A o lecionário dominical percorre um itinerário batismal. Efetivamente, nos domingos III, IV e V foram restabelecidos o Evangelho da Samaritana, do cego de nascença e da ressurreição de Lázaro, respetivamente. Tratava-se dos evangelhos utilizados no I, II e III escrutínios.[5] Com eles recorda-se a água viva presente no batismo, a iluminação que este sacramento outorga e a nova vida em Cristo. Assim o resume Abad Ibáñez:

«O domingo III é o «domingo da água»; o domingo IV o «domingo da luz»; e o domingo V, «o domingo da vida nova». Ao evocar os mistérios da água, da luz e da ressurreição e vida, os catecúmenos tomam consciência dos sacramentos que vão receber na Vigília Pascal e os batizados redescobrem as implicações e exigências batismais, preparando-se para uma renovação dos seus compromissos batismais. Estes domingos levam, pois, os catecúmenos e os fiéis, a um encontro pessoal com Cristo, como aconteceu à samaritana, ao cego de nascença e a Lázaro ressuscitado».[6]

 

 

 



[1]

[2] Cfr. ABAD, J.A, La celebración del Misterio cristiano, 1996, p. 519.

[3] Cfr. BERGAMINI, A, Quaresma, em SARTORE, D e TRIACCA, A. M., Dicionário de Liturgia, 1984, p. 983.

[4] SC 109

[5] Daí que se recomende fazer os escrutínios nestes domingos e utilizar os evangelhos do ano A mesmo quando se está no ano B ou C (Cfr. Leccionário do Missal Romano, Preliminares, n.97)

[6] ABAD, J.A, La celebración del Misterio cristiano, 1996, p. 524


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