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A  RESSURREIÇÃO,  JÁ!

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Estamos feitos para a felicidade, para a contínua alegria, cuja maior expressão é o amor correspondido. Quaisquer outras alegrias – de orgulho, vingança, satisfação, poder – são amargas ou passageiras. Contudo, mesmo no amor correspondido, e até nos seus mais felizes momentos, dói-nos a sua fatal caducidade e a infelicidade de tanta gente, próxima ou distante, pois ninguém é completamente feliz sem a felicidade alheia. Isto é: a felicidade que almejamos não é possível aqui! A única felicidade possível neste mundo é a esperança certa de virmos a possuí-la um dia. Só a certeza de que Deus nos ama, nos perdoa, nos espera e nos unirá para sempre, permite falarmos aqui de felicidade.

Esta é a alegria da Ressurreição, que eleva a nossa mais ambiciosa noção de felicidade a um grau indizível: a de que, não só alcançaremos a perfeita felicidade a que aspiramos, mas entraremos e viveremos na própria felicidade divina: «Entra no gozo do teu Senhor!» (Mt 25, 23).

E reconheceremos então que, afinal, ao que aspirávamos era a essa meta «impossível»: não a «nossa» felicidade, mas a d’Ele! Como, aliás, já o amor humano nos revela: quando amamos alguém, o amor próprio desaparece. É o que o distingue da concupiscência, da embriaguez das paixonetas, da mera filantropia. O bem pessoal converte-se no bem da pessoa que se ama: «Converte-se o amador na coisa amada». «Verteu-se» Deus no homem, por seu infinito Amor, e por graça do Amor divino, converter-nos-emos nós à Glória de Deus.

Dar glória a Deus não será então um ousado e esforçado empenho, como aqui por vezes o sentimos, mas sim uma libérrima atracção, muito mais arrebatadora do que a consagrada naquela quadra popular: «Eu queria ver o meu bem / trinta dias cada mês / sete dias por semana / e cada instante uma vez!»

Como afirmava há tempos alguém, o primeiro acto da liberdade não é a escolha, mas o amor. Só a liberdade permite sermos diferentes, sermos «pessoas», um «eu» e um «tu», capazes de estabelecer com cada um dos outros uma relação única, «pessoal», como a de Deus com cada um de nós, esperando a nossa livre correspondência.

«In petram inaccessam mihi deduc me!» (S 61) Senhor, conduz-me ao que me é inacessível! – brada o salmista. E Nosso Senhor assim faz, ainda antes do encontro definitivo, no Céu. Porque a Ressurreição do Senhor é mais do que uma promessa da nossa; é, desde já, uma realidade nesta vida: na presença física de Cristo Ressuscitado em oferta ao Pai na Santa Missa e na vizinhança familiar do Sacrário. Uma união adiantada por Ele e com Ele no seio da Santíssima Trindade, que em nós habita.

Quando os santos falam da «loucura divina» da Eucaristia querem significar apenas que loucos somos nós, ao medirmos pelas nossas limitações o amor de Deus, quando o que é próprio do Criador é exceder a criatura. Nada mais racional do que o Evangelho, a Boa Nova anunciada pela Igreja. Nada mais irracional do que limitar o Amor infinito.

 

 

 

 

 

 


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