SÍNODO DOS BISPOS

SÍNODO ESPECIAL SOBRE A AMAZÓNIA

 

 

 

 

A Assembleia do Sínodo especial sobre a Amazónia encerrou oficialmente os seus trabalhos no dia 27 de outubro, com uma solene concelebração presidida pelo Santo Padre.

Com o título Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia integral, este Conselho consultivo do Papa tinha iniciado os seus trabalhos no dia 6 de outubro e propunha-se continuar, aplicar e desenvolver a doutrina da Encíclica programa do Papa Francisco Laudato Si, sobre “O cuidado da Casa Comum.”

 

O documento de trabalho do Sínodo 2019 alertou para a “falta de demarcação dos territórios indígenas e a falta de reconhecimento do seu direito à terra”, bem como a “rápida perda da biodiversidade”, pela extinção de espécies da flora e da fauna.

A crise da região amazónica está a chegar ao ponto de não retorno e a Amazónia é agora um dramático novo assunto na ordem do dia. Os problemas gerais respeitantes à vida humana e ao ambiente natural desta região são indiscutíveis. Ambos – vida humana e ambiente – estão a sofrer uma séria e talvez irreversível destruição”

Nos inícios de 2018, o Papa Francisco dirigiu-se aos povos da Amazónia em Puerto Maldonado, no Peru, com estas palavras, considerando que “nunca os povos originários amazónicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios como o estão agora”

Na homilia da Missa de abertura do Sínodo, o Santo Padre começou por lembrar o que acontece com o fogo do amor de Deus, para logo denunciar falsos zelos:

“O fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome (cf. Ex 3, 2). É fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora. Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo.

Contudo quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos. O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazónia, não é o do Evangelho.

O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros. Pelo contrário, o fogo devorador alastra quando se quer fazer triunfar apenas as próprias ideias, formar o próprio grupo, queimar as diferenças para homogeneizar tudo e todos.”

Antes, tinha advertido os participantes do Sínodo:

“O fogo que reacende o dom é o Espírito Santo, dador dos dons. Por isso, São Paulo continua: «Guarda, pelo Espírito Santo que habita em nós, o precioso bem que te foi confiado» (2 Tm 1, 14). E antes escrevera: «Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de prudência» (1, 7).

Não um espírito de timidez, mas de prudência. Alguém pode pensar que a prudência seja a virtude «alfândega», que, para não errar, faz parar tudo. Mas não! A prudência é virtude cristã, é virtude de vida; mais, é a virtude do governo. E Deus deu-nos este espírito de prudência. Em oposição à timidez, Paulo coloca a prudência. Que é, então, esta prudência do Espírito?

Como ensina o Catecismo, a prudência «não se confunde com a timidez ou o medo», mas «é a virtude que dispõe a razão prática para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e para escolher os justos meios de o atingir» (n. 1806). A prudência não é indecisão, não é um comportamento defensivo.

É a virtude do Pastor que, para servir com sabedoria, sabe discernir, sensível à novidade do Espírito. Então, reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazónia, para que não se apague o fogo da missão.”

Foi publicado um documento final, aprovado na véspera do encerramento, e prometida para breve uma exortação pós-sinodal do Papa Francisco.

Este documento apela à criação de estruturas “sinodais” nas regiões da Amazónia, propondo um “fundo amazónico” para o sustento da evangelização, bem como a criação de universidades próprias e um “organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as Igrejas da região”.

Três assuntos deste Sínodo, pela sua novidade, se tornaram particularmente controversos na comunicação social e na Igreja:

 

1. A ordenação de homens casados: “Muitas comunidades eclesiais do território amazónico têm enormes dificuldades para aceder à Eucaristia. Às vezes passam não só meses, mas até vários anos sem que um sacerdote possa regressar a uma comunidade para celebrar a Eucaristia, oferecer o sacramento da reconciliação ou ungir os enfermos da comunidade.

Apreciamos o celibato como um dom de Deus (Sacerdotalis Caelibatus, 1) na medida em que este dom permite ao discípulo missionário, ordenado presbítero, dedicar-se plenamente ao serviço do Povo Santo de Deus. Estimula a caridade pastoral e rezamos para que haja muitas vocações que vivam o sacerdócio célibe. Sabemos que esta disciplina “não é exigida pela própria natureza do sacerdócio” (PO 16), embora tenha muitas razões de conveniência com o mesmo. Na sua encíclica sobre o celibato sacerdotal, S. Paulo VI manteve esta lei e expôs motivações teológicas, espirituais e pastorais que a sustentam.

Em 1992, a Exortação Apostólica pós-sinodal de S. João Paulo II sobre a formação sacerdotal confirmou esta tradição na Igreja latina (cf. PDV 29). Considerando que a legítima diversidade não prejudica a comunhão e a unidade da Igreja, antes a manifesta e serve (cf. LG 13; OE 6), o que dá testemunho da pluralidade de ritos e disciplinas existentes, propomos que se estabeleçam critérios e disposições de parte da autoridade competente, no contexto da Lumen Gentium 26, para ordenar sacerdotes homens idóneos e reconhecidos da comunidade, que tenham um diaconado permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, podendo ter família legitimamente constituída e estável, para sustentar a vida da comunidade cristã mediante a pregação da Palavra e a celebração dos Sacramentos nas zonas mais remotas da região amazónica. A este respeito, alguns pronunciaram-se por uma abordagem universal do tema. (n. 111)

 

2. O diaconado feminine permanente. “Nas muitas consultas realizadas no espaço amazónico, reconheceu-se e sublinhou-se o papel fundamental das mulheres religiosas e leigas na Igreja da Amazónia e nas suas comunidades, dados os múltiplos serviços que elas oferecem. Num elevado número das mencionadas consultas, pediu-se o diaconado permanente para a mulher. Por esta razão, o tema esteve também muito presente no Sínodo. Já em 2016, o Papa Francisco tinha criado una Comissão de Estudo sobre o Diaconado das Mulheres que, como comissão, chegou a um resultado parcial sobre como era a realidade do diaconado das mulheres nos primeiros séculos da Igreja e as suas implicações hoje. Portanto, nos gostaríamos que se compartilhassem as nossas experiências e reflexões com a Comissão e esperamos os seus resultados.” (n. 103).

 

3.  Novo rito amazónico:  Na Igreja Católica há 23 Ritos diferentes, sinal claro duma tradição que desde os primeiros séculos tentou inculturar os conteúdos da fé e a sua celebração através de uma linguagem o mais coerente possível com o mistério que se quer expressar. Todas estas tradições têm a sua origem na função da missão da Igreja: «As Igrejas de uma mesma área geográfica e cultural chegaram a celebrar o Mistério de Cristo através de expressões particulares, culturalmente tipificadas: na tradição do “depósito de la fe” (2 Tm 1,14), no simbolismo litúrgico, na organização da comunhão fraterna, no entendimento teológico dos mistérios, e em tipos de santidade.» (Catecismo de la Iglesia Católica 1202; cf. también 1200-1206). (n.º 117)

O novo organismo da Igreja na Amazónía deve constituir uma comissão competente para estudar e dialogar, de acordo com os usos e costumes dos povos ancestrais, a elaboração de um rito amazónico, que exprima o património litúrgico, teológico, disciplinário e espiritual amazónico, com especial referência ao que a Lumen Gentium afirma para as Igrejas orientais (cf. LG 23). Isto se somaria aos ritos já presentes na Igreja, enriquecendo a obra de evangelização, a capacidade de expressar a fé numa cultura própria e o sentido de descentralização e de colegialidade que pode expressar a catolicidade da Igreja. Também poderia estudar e propor como enriquecer ritos eclesiais com o modo em que estes povos cuidam do seu território e se relacionam com as suas águas. (n. 119).

 

Esta matéria está no centro dos pontos 117 (27 votos contra e 140 favoráveis) e 119 (29 contra e 140 a favor), que apontam para a criação de um rito amazónico, recordando que a Igreja Católica tem 23 ritos diferentes, procurando “inculturar os conteúdos da fé e da sua celebração”.

O Sínodo dos Bispos criado por S. Paulo VI, pelo Motu proprio Apostolica solicitudo de 14.II.1969, pode ser definido, em termos gerais, como uma assembleia consultiva de representantes dos episcopados católicos, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa ajudar o Papa no governo da Igreja.

 

Esta assembleia de Bispos foi anunciada pelo Papa a 15 de outubro de 2017, para refletir sobre o tema ‘Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral’.

A região pan-amazónica tem uma extensão de 7,8 milhões de km2, incluindo áreas do Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa; dos seus cerca de 33 milhões de habitantes, 3 milhões são indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos.

Um mundo de interesses – alguns deles inconfessáveis – move-se à volta do tema Amazónia, pelo que não surpreende toda a agitação das águas que se verificou à volta deste acontecimento eclesial.

Como acontece nas grandes inundações, é preciso esperar que as águas voltem calmamente ao leito e se deposite no fundo tudo o que veio à superfície, para podermos ver através das águas cristalinas o dom de Deus que foi este Sínodo.

Uma verdade permanece intocável: A grande floresta da Amazónia, mais do que um reservatório de madeiras, minerais e outros produtos do sub-solo, é um valioso pulmão da terra que não temos o direito de malbaratar, correndo o perigo de comprometermos a qualidade de vida dos que hão-de vir depois de nós.

Aguardamos agora, com normal interesse e curiosidade a Exortação pós-Sinodal do Papa Francisco, para descobrirmos ainda melhor a riqueza e oportunidade deste ultimo Sínodo dos Bispos.

 

Fernando Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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