S. BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES

Novo santo português

 

 

 

Na mesma Catedral de Santa Maria de Braga, reedificada e sagrada com toda a solenidade em 28 de agosto de 989, naquele mesmo espaço onde reuniu o primeiro Sínodo, mal chegado à Roma portuguesa, onde tantas vezes celebrou, pregou e rezou, foi proclamada a santidade heróica de S. Bartolomeu dos Mártires, pela sua canonização.

Dois cardeais, duas dezenas de Bispos, o Presidente da República Portuguesa, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, muitos sacerdotes e uma grande multidão de fiéis, participaram no solene pontifical presidido pelo Cardeal Angelo Becciu, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.

Para maior alegria de todos, o Cardeal Becciu dirigiu-se à assembleia num português perfeito.

 

Esboço biográfico

 

Bartolomeu Fernandes nasceu em Lisboa, a 3 de maio de 1514, de uma família abastada e profundamente cristã. O pai chamava-se Domingos Fernandes e a mãe, Maria Correia. Mais tarde, Bartolomeu, por sugestão dos pais, acrescentará o apelido de “dos Mártires” em homenagem à sua paróquia onde deu os primeiros passos no caminho da fé.

Aos catorze anos entrou para a Ordem Dominicana e desde logo manifestou a sua capacidade intelectual e gosto pela vida de piedade. Tomou o hábito dominicano que, mesmo como Arcebispo, conservaria, em 11 de novembro de 1528 e logo em 15 de novembro de 1529, com quinze anos, fez a profissão religiosa.

Foi Mestre Pregador da Ordem e Preceptor de D. António Prior do Crato, futuro pretendente ao trono, na crise dinástica de final do século XVI.

Eleito Superior do Convento de Benfica foi, pela Rainha Dona Catarina, mãe do rei D. Sebastião, indicado para o Arcebispado Bracarense, por sugestão do Provincial dos Dominicanos e confessor da Rainha, Frei Luís de Granada. Iria suceder a D. Frei Baltasar Limpo, falecido em 1558.

Depois de ter declinado o convite por duas vezes, viu-se forçado a assumir esta missão, em virtude do voto de obediência ao seu Provincial.

Mesmo depois de ter aceite o Arcebispado, encerrou-se em Azeitão, preparando-se para a nova missão.

Entretanto, chegou a Lisboa a bula de confirmação de Paulo III, no mês de Agosto de 1559, a qual tinha sido passada Roma a 27 de janeiro de 1559.

Recebido o documento papal, logo em de 3 de setembro seguinte foi sagrado o novo arcebispo no convento de S. Domingos, em Lisboa, onde também recebeu o pálio de arcebispo, no dia 8, das mãos do arcebispo de Lisboa, D. Fernando Vasconcelos de Meneses. Seguiu imediatamente para Braga, onde chegou a 4 de outubro. Começando logo uma vida pastoral intensa, sem descurar o estudo e a contemplação.

Procurou sanar a grande ignorância em que viviam o clero e os fiéis, instituindo em vários lugares da Diocese, a começar pelo Paço Arquiepiscopal, o estudo de casos de consciência. Escreveu para os párocos um Homiliário-Catecismo para que lessem ao público o texto lá preparado para cada domingo ou festa.

Tomou parte no Concílio de Trento, tendo chegado a esta cidade em 18 de maio de 1561, depois de ter viajado incógnito e obscuro sacerdote, nem sempre bem recebido nos conventos a cuja porta solicitava hospedagem. Uma vez no Concílio, brilhou pelo seu zelo e eloquência ao pedir a reforma da Igreja.

Aproveitando para o bem o prestígio que desenvolvera à volta do seu nome, levantou humildemente a voz para clamar: «Os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais precisam duma ilustríssima e reverendíssima reforma». E algum tempo depois: «Vossas senhorias são as fontes donde todos os prelados bebem; necessário é portanto que a água seja limpa e pura.»

S. Bartolomeu dos Mártires escreveu muitas obras em latim e deixou várias manuscritas. Escreveu em português: Catecismo da Doutrina Cristã, com algumas praticas espirituais em as festas principais e alguns domingos do ano, para os leitores e curas do seu bispado lerem á estação nas paróquias em que não houver pregação. Publicado na cidade de Braga em 1564, logo conheceu diversas edições: Coimbra, 1574; Lisboa, 1594; Évora, 1603; Lisboa, 1617, 1628, 1656, 1674, 1684, 1765, 1785; houve também edições em Salamanca, 1602; Madrid, 1564, e em latim, Roma, 1735.

Escreveu ainda em português: Tratado de praticas devotas; Práticas espirituais; Epítome das vidas dos pontífices; Compêndio geral das histórias de Espanha; Relação dos reis de Portugal, etc.

À sua grande amizade com S. Carlos Borromeu, Arcebispo de Milão, ficamos a dever a publicação do livro que preparou no estudo e meditação sobre a missão do Bispo: Stimulus Pastorum – O estímulo dos Pastores. O eminente purpurado terá insistido com S. Bartolomeu para que um livro tão útil não ficasse escondido na gaveta.

Regressado a Braga, fundou imediatamente o Seminário diocesano, arrostando com grandes oposições e dificuldades para realizar este projeto. Ficou implantado na extremidade do quintal dos Arcebispos, de modo que podia visitá-lo frequentemente, atravessando o jardim episcopal.

Num tempo em que a Diocese abarcava, além da província do Minho, com as dioceses de Braga e Viana do Castelo, os territórios de Vila Real e parte de Bragança, percorreu mais de uma vez a extensa diocese, enfrentando dificuldades inauditas nas deslocações, nas intempéries e nos obstáculos que lhe levantavam.

Quando Portugal perdeu a independência, em 1580, passando a ser governado pelo rei de Espanha, Filipe II, tomou parte nas cortes de Tomar, em abril de 1581, ocupando o lugar que lhe estava reservado e pediu a resignação do Arcebispado. Aproveitou a ocasião para pedir ao rei que apoiasse junto do Papa Gregório XIII a sua renúncia ao Arcebispado e daquele lugar escreveu ao Santo Padre, dirigindo-lhe esta petição.

Logo em dezembro de 1581, foi nomeado Arcebispo de Braga D. João Afonso de Meneses.

Entretanto, D. Frei Bartolomeu foi para Viana do Castelo em visita pastoral. Ali foi procurado pelos emissários do novo Arcebispo os quais foram notificá-lo de que o seu sucessor tomara posse do Arcebispado em 22 de fevereiro de 1582. 

Retirou-se para o Convento de S. Domingos, na cidade Princesa do Lima e dali saía para confessar e pregar, como humilde sacerdote, até que o Senhor o chamou à Sua glória, em 16 de julho de 1590.

Terminava assim a sua carreira na terra aquele que o povo se acostumou a designar pelo nome de Arcebispo santo, deixando atrás de si um clarão luminoso de santidade cuja fama foi aumentando até á sua canonização. 

 

O Bispo dos pobres e aflitos

 

Arcebispo e Senhor de Braga, Primaz das Espanhas e, portanto. com elevada posição no contexto social da época, S. Bartolomeu preferiu ser o servidor dos pobres, procurando remediar as suas carências inadiáveis.

Quando se sentava á mesa para tomar a austera refeição que lhe serviam, dividia ao meio, antes de a provar, a comida que tinha no prato, reservando metade para os pobres.

Despojava-se do mais necessário, como roupas e outros bens, para socorrer as urgências dos mais carenciados.

Não é estranho a esta preferência o seu carinho aos pescadores de Viana do Castelo, gente, como os seus irmãos de profissão, sempre em risco de vida e ganhando o pão de cada dia num trabalho duro e mal remunerado.

Desde sempre lhe manifestaram uma profunda devoção. O que se conta pode muito bem ser verdade. Debatiam-se os pescadores aflitos com a tempestade que punha em risco as suas vidas, nas águas do oceano, em frente de Viana, quando, da janela da sua cela no Convento de S. Domingos o Arcebispo Santo se apercebeu da situação dolorosa e lhes lançou uma bênção. Imediatamente o mar acalmou e eles puderam voltar a terra sãos e salvos.

Deus quis sublinhar este carisma de S. Bartolomeu, de valer aos aflitos, no milagre que abriu as portas à sua Beatificação, celebrada na Praça de S. Pedro, em Roma, no domingo 4 de novembro de 2001.

 Uma mãe aflita entrega a filha em casa, desenganada da sua cura pelas últimas análises clínicas e entra no Sanatório Infantil do Caramulo para rezar. Aproveitando a presença de um dominicano do confessionário, confessa-se, comunga e reza ao Venerável Frei Bartolomeu a pedir a cura da filha de sete meses de idade. Logo que pode, regressa a casa com o coração angustiado e recebe como resposta uma cura instantânea da filha.

 

Homem de oração

 

D. Frei Bartolomeu dos Mártires soube aliar uma vida intensa de atividade pastoral à oração contemplativa.

Ele sabia perfeitamente que estaria mais próximo das pessoas confiadas ao seu cuidado pastoral na medida em que estivesse mais perto de Deus e alimentava a sua intensa vida pastoral na contemplação.

 Uma atividade pastoral tão intensa e sobrenatural só era possível radicada numa vida contemplativa. As duas realidades são inseparáveis.

A reforma da Igreja e seus pastores que pedia em Trento era, mais do que a mudança de métodos de pastoreação, uma renovação interior.

 

Pedem agora os Bispos portugueses, em reunião plenária da Conferência Episcopal, que S. Bartolomeu dos Mártires seja proclamado Doutor da Igreja.

Na verdade, ele brilhou pelos seus escritos e o Espírito Santo fez-lhe compreender desde o primeiro momento da sua vida pastoral que a ignorância religiosa – como afirmou um santo dos nossos dias – é o maior inimigo de Deus no mundo.

Dar doutrina, por escrito e de vida voz, foi a sua preocupação de sempre, com a certeza de que o único meio de levar as pessoas à santidade é dar-lhes boa doutrina.

 

Fernando Silva


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