TEMAS LITÚRGICOS

COMO VIVEM OS CRISTÃOS A PASSAGEM DO TEMPO?

Algumas notas sobre o ano litúrgico que começa e volta a começar (II)

 

 

 

 

 

Alfonso Berlanga

Universidad de Navarra Facultad de Teología

 

 

Chega o Advento, tempo de gozo e de espera contemplativa. O Ano Litúrgico volta a reiniciar-se, subindo a espiral com uma nova volta. O tempo litúrgico ficou suspenso com a Solenidade de Cristo, Rei do Universo e Rei do tempo.[1] E, em poucas horas, a Igreja recomeça o seu modo particular de viver o tempo, adiantando-se ao novo ano civil e quase atropelando o equador do ano académico-escolar.

O Advento, na sua configuração atual, prossegue o Redentor na carne glorificada do Filho do homem (Parusia), e agora dispõe-se a contemplá-lo na carne do Emanuel (Natal). Porém, nem sempre foi assim.

 

Um olhar para a História

Os testemunhos mais antigos procedem da Hispânia e, um pouco depois, das Gálias. Neles mencionam-se uns dias de preparação para o Natal e para a Epifania (finais dos sec. IV-V). Tempo adequado para exercer a caridade com os peregrinos, os pobres e as viúvas, e para viver um jejum pré-natalício. Anos mais tarde este toque penitencial matiza-se com a espiritualidade promovida por Pedro Crisólogo, na cidade de Ravena, que prefere acentuar a dimensão contemplativa e espiritual do mistério do Natal. Na segunda metade do século VI o advento chega a Roma. A sua duração variava segundo os lugares: desde as 4 semanas em Roma, conforme a proposta do Papa Gregório Magno (590-604), até às 5 ou 6 semanas em Espanha, Milão e Gálias, ou as 2 semanas em Bizâncio. E é então que o Advento começa a revestir-se de uma perspetiva escatológica, de preparação para a segunda vinda (Parusia).

 

As Normas Universais sobre o Ano Litúrgico (2017) aclaram assim o seu sentido:

«O tempo d Advento tem uma dupla índole: é o tempo de preparação para as solenidades do Natal, nas quais se comemora a primeira vinda do Filho de Deus aos homens e é, simultaneamente, o tempo em que, por esta recordação, se dirigem as mentes para a espera da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos (n. 39)».

Convém que os batizados encarnem aqueles sentimentos do povo escolhido enquanto esperou o Messias, e atualizem o anseio cristão pelo regresso do seu Senhor. Isto exige uma pedagogia progressiva e uma certa margem de tempo, perfeitamente divididos em dois períodos característicos: aquele que se estende depois das primeiras vésperas do Domingo I do Advento até ao dia 16 de dezembro inclusive (expectação escatológica), e o segundo que vai desde o dia 17 até às vésperas de Natal (expectação do nascimento do Messias).

 

Compreender o Advento desde a Igreja em oração

A riqueza espiritual do Advento torna-se palpável na voz da Igreja-Esposa (Missal e Liturgia das Horas) que quere ser o eco orante da Palavra de Deus proclamada nas suas celebrações (Lecionário).

Para potenciar a espera messiânica definitiva, a liturgia no seu Lecionário dá voz a certos personagens que a encarnaram e proclamaram: Isaías, profeta do anseio pela chegada do Messias; João Batista, modelo do itinerário para chegar ao Emanuel; e Maria, aurora que anuncia a iminente chegada do Esperado do povo hebreu e das nações. O Lecionário ferial apresenta as profecias de Isaías (1ª leitura) e o seu cumprimento nos textos do Evangelho: um esquema de profecia-cumprimento coerente com a Revelação e pedagogicamente acertado. A figura do Batista realça-se a partir da quinta-feira da II semana, uma vez que ele indica a presença do Messias. Junto às figuras do profeta e do Batista encontra-se Maria, a virgem prudente que aguarda a promessa de Israel: as leituras bíblicas dos dias feriais compreendidos entre o dia 17 e 24 destacam o seu protagonismo e o prefácio II recorda a espera “com inefável amor de mãe”.

O eco mariano destes dias ressoa como um cântico discreto: Maria é a cheia de graça, a bendita entre as mulheres, Virgem e Esposa de José, Escrava do Senhor. É a nova Eva que restabelece o desígnio de Deus com a sua obediência. É a filha de Sião, representante do antigo e do novo Israel. Virgem fecunda do “faça-se”, virgem da escuta e do acolhimento: antecipa, porque acolhe, o Marana-tha (Vem, Senhor Jesus!). Nela o povo cristão encontra uma presença materna e serena e um exemplo de atitude espiritual. Neste sentido, a solenidade da Imaculada – embora não seja própria do Advento – não representa uma rutura, mas uma parte do mistério: Maria é o fruto eminente da vinda redentora de Cristo, protótipo da humanidade redimida e “começo da Igreja, sua bela esposa, sem mancha nem ruga” (Prefácio da solenidade). Todos os títulos marianos arrojam luz e esperança para as súplicas da Igreja peregrina.

O Missal matiza em cada um dos quatro domingos do Advento o tom espiritual de cada semana na sua oração coleta: oscila-se entre o desejo de sair ao encontro de Cristo glorioso com as boas obras (Domingos I e II), até à espera jubilosa do seu nascimento (Domingo III), para terminar com a contemplação unitária da sua vida, orientada desde o começo para o mistério pascal (Domingo IV).

O Ofício Divino, por seu lado, conta agora com as invocações nas preces de Laudes e Vésperas em que ressoam em tons variados o Marana-tha (Vem, Senhor Jesus!). A seleção de textos bíblicos, a leitura continuada de Isaías, assim como os textos patrísticos, suscitam uma espiritualidade característica “que transporta aos diferentes momentos do dia o louvor e a ação de graças, assim como a recordação dos mistérios da salvação, as súplicas e o saborear antecipado da glória celeste, que se nos oferece no mistério eucarístico” (Ordenação Geral da Liturgia das Horas, n. 12). As sete antífonas do Magnificat nas ferias prévias ao Natal têm uma estrutura comum, formada por um título cristológico seguido da invocação “vem!” e de uma petição que ajuda a entender o sentido da Encarnação do Verbo. A Igreja retoma também aqui o esquema da oração judaica (a beraká), onde à glorificação de Deus se segue a súplica:

Ó Adonai, Chefe da casa de Israel, que no Sinai destes a Lei a Moisés: vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço (dia 18).

Ó Chave da casa de David, que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir: vinde libertar os que vivem nas trevas do cativeiro e nas sombras da morte (dia 20).

Ó Rei das nações e Pedra angular da Igreja, vinde salvar o homem que formastes do pó da terra (dia 22).

 

Os sinais litúrgicos anunciam, ocultam e preparam

A assembleia durante este tempo omite o canto do Glória. Este silêncio não busca um fim penitencial, mas pedagógico. Calamo-nos à espera da aclamação angélica na noite de Natal. O roxo das vestes litúrgicas reforça esse mesmo significado.

Com os sinais litúrgicos próprios do tempo treinamos os nossos sentidos para o assombro perante os planos divinos. Deus Pai volta a sair ao encontro do homem através do seu Filho; as promessas cumpridas avivam o desejo de Deus entre os batizados e chama-os com o sinal dado aos pastores: um Messias - menino entre as palhas.

As distintas presenças de Cristo na liturgia da Igreja (SC 7) e a espera escatológica têm o seu fundamento na irrupção de Deus na história humana (a Encarnação), nas promessas de Jesus e no seu cumprimento eucarístico. Por isso, são respeitáveis – acima de certas sensibilidades ou preferências pessoais – as manifestações artísticas ou da devoção popular que encontramos noutras culturas ou lugares: o Menino Jesus dormindo sobre uma cruz ou com os elementos da paixão, o Crucificado vivo na cruz e coroado (a maiestas Christi), ou a fé – que procede de alguns Padres – da presença de Anjos adorando junto ao tabernáculo, precisamente porque estão na presença real-sacramental do Ressuscitado. Os acontecimentos históricos ficam livres da cronologia para serem celebrados e vividos hoje pelos batizados… e pelos homens de boa vontade.

 



[1] O texto foi retocado a partir do original: A. Berlanga – A. Ivorra, El año litúrgico, fuente de espiritualidad, Cuadernos Phase 249, Centre de Pastoral Litúrgica, Barcelona 2019.


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