TEMAS LITÚRGICOS

COMO VIVEM OS CRISTÃOS A PASSAGEM DO TEMPO?

Algumas notas sobre o ano litúrgico que começa e volta a começar

 

 

 

 

 

Alfonso Berlanga

Universidad de Navarra Facultad de Teología

 

 

 

O tempora, o mores! Neste adágio latino, tornado célebre por Cícero, condensa-se uma bela reflexão sobre a temporalidade. O tempo expressa uma relação do mundo físico com o homem, único ser capaz de dizer: «eu, hoje, ontem e amanhã». Os homens vivem metidos no meio das coisas e, ao mesmo tempo, são livres de recordar e projetar. Esta relação dialógica entre a duração e a permanência tem um eixo de coordenadas delimitado pelo astro do dia e o da noite. Os anos, os dias e as horas dependem do movimento do nosso planeta: é o tempo cósmico, composto pelos ciclos das estações. Estes processos repetitivos podem, não obstante, ser vividos dramaticamente pelo homem, que os transforma em processos rotineiros e inexoráveis. É o tempo que os gregos traduziam como chrónos.

 

A tradição judaico-cristã aceita o carácter cíclico do universo criado, onde há tempo para tudo: «tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado, tempo para matar e tempo para sarar…» (Eclesisastes, 3, 2-3). No entanto, a Bíblia surpreende-se diante das intervenções de Deus (magnalia Dei) na história dos homens. Yahvé salva e protege, faz alianças e promete a sua proteção futura desde que o povo eleito responda com fidelidade. O relato da história sagrada conhece que tais intervenções divinas em momentos oportunos são – de novo em grego – kairós (em plural kairoi): a libertação do Egipto, a passagem do mar vermelho ou a entrada e posse da terra prometida de Canaã. São acontecimentos cheios de sentido que corrigem o rumo do devir histórico e que são lidos como história da salvação. O homem bíblico vive livremente e com admiração o tempo cósmico na presença de um Deus que é Senhor do tempo e que assegura o seu provir. Como ser histórico, social e com corpo, o judeu e mais tarde o cristão, tem necessidade de recordar essas intervenções divinas e assim continuar a esperar confiadamente, no meio dos avatares (o tempora!). Esta recordação passa de geração em geração ligada a uns dias que se convertem em festas (aniversários) e que necessitam de uma expressão ritual que as converta em costume (o mores!).

 

O povo de Israel teve um calendário lunar, com anos de 354 dias, distribuídos em doze meses de 28 ou 29 dias, intervalados pelas festas religiosas. O astro luminoso da noite, com as suas quatro fases, marcava o ritmo de cadência semanal, cujo valor não só era cósmico, mas também santo. Com efeito, sobre a semana recaía o resplandor divino porque segundo narra o Genesis, uma vez terminada a criação da terra e a sua ornamentação, ao sétimo dia Yahvé descansou (Gn 2,1-2).

 

Os cristãos também participam desta forma de viver a passagem do tempo. Levam a sério a magnífica intervenção de Deus na História (a Encarnação do Verbo) e a inauguração de um tempo novo (a Ressurreição de Cristo). Esta passagem de Deus pela nossa história (Páscoa) tem, portanto, uma dimensão descendente (do seio da Trindade para nós) e ascendente (de viver entre nós volta ao seio da Trindade com a sua humanidade glorificada). Estas duas páscoas constituem os dois polos do ano vividos pelos cristãos: duas páscoas que a Igreja continua a viver com uma celebração prolongada nas duas únicas oitavas do Ano litúrgico.

 O texto que se segue apresenta o final do Tempo Comum com a Solenidade de Cristo Rei e o começo do novo ano com o anúncio do Advento pela mão da Igreja em oração. A perspetiva é litúrgica: cada festa e cada tempo propõem, com tonalidades distintas, a fé da Igreja, para que os fiéis a celebrem e vivam.[1]

 

Na história abriu-se desde então um arco de tensão que espera fechar-se plenamente com a vinda gloriosa de Cristo juiz, no final dos tempos. Entretanto, a Igreja, novo povo de Deus, alimenta a sua esperança em cada intervalo de tempo (dia, semana, mês, ano) com a vivência das celebrações litúrgicas que lhe permitem celebrar o seu Senhor. Mas, esta recordação é um tanto especial. Assim o afirmava Pio XII: o ano litúrgico «não é uma recordação fria e inerte de coisas que pertencem a tempos passados, nem uma recordação simples e nua de uma idade pretérita (…): é o próprio Cristo que continua na sua Igreja e que prossegue aquele caminho de imensa misericórdia que iniciou nesta vida mortal (…), com o bondadosíssimo fim de que as almas dos homens se ponham em contato com os seus mistérios e por eles, de certo modo, possam viver»  (Encíclica Mediator Dei, n. 205). Isto é possível porque a vida de Cristo não ficou ancorada no passado, mas tornou-se perene na humanidade do Verbo: todos os episódios que Ele viveu como perfeito Deus e perfeito homem (mysteria carnis Christi) permanecem para sempre e iluminam o nosso caminhar. O ano litúrgico sacramentaliza esses mistérios, isto é, evoca-os e representa-os com os seus símbolos para o seu corpo eclesial, a Igreja, Esposa fiel que aguarda o seu regresso.

 

Por isso, se queremos representar graficamente o ano litúrgico não deveríamos representar uma esfera ou um círculo, fragmentados nas cores próprias de cada tempo: o ano litúrgico será mais uma espiral ascendente e giratória, cujo centro é o mistério de Cristo na vida da Igreja: um mistério esperado, nascido, circuncidado, manifestado aos gentis, ungido, transfigurado, morto, ressuscitado, ascendido. A Igreja quer viver deste mistério, recordado no seu anúncio e na sua Palavra, desejado na sua oração, imitado na sua vida, porque se tornou tangível na mediação das suas ações litúrgicas. S. Leão Magno expressa-o com força: «o (…) que era visível no nosso Salvador passou aos seus mistérios (celebrações sacramentais)» (Sermão 74, 2).

 

Cristo Rei

 

No dia 11 de dezembro de 1925, aniversário redondo do Concílio de Niceia sobre a divindade de Cristo (325), Pio XI introduziu no calendário universal a solenidade de Cristo Rei. A sensibilidade do pontífice por este título cristológico era evidente na sua encíclica Quas primas. Nela manifestava a sua pena diante do perigo de edificar uma sociedade à margem de Deus. Ao laicismo imperante somava-se a difícil convivência humana, convulsionada pelas diferentes revoluções políticas nas diversas partes do mundo (bolchevique, os fascismos e ditaduras na Europa, as revoltas no México…).

 

Situada inicialmente no último domingo de outubro, esta festa era uma chamada de atenção e um recurso ao poder de Jesus Cristo. Foi também o Papa quem a dotou de Missa e Ofício. Uma vez mais a fé celebrada (lex orandi) ajudaria os fiéis a renovar a fé crida (lex credendi) e impulsioná-los-ia a instaurar nas suas circunstâncias a fé vivida (lex vivendi).

 

A reforma do Vaticano II trasladou a festa para o último domingo do Ano Litúrgico, colocando-a num sítio estratégico. Vinha sublinhar que o tom apocalíptico do Lecionário nas últimas semanas não terminava numa destruição, mas numa restauração completa – ou recapitulação em palavras de S. Paulo (Ef 1,3-10) – do reino de Deus. Esta mudança de perspetiva trouxe consigo alguns retoques na eucologia, onde a coleta agora pedia a libertação da verdadeira escravidão, a do pecado, condição prévia à chegada do reino. As leituras vigentes avivam a nossa fé perante Cristo, como Filho do Homem, verdadeiro título messiânico da literatura apocalíptica (Dan 7,13-14: 1ª leitura); É o Alfa e o Ómega, o que há de vir, o todo-poderoso (Ap 1,5-8: 2ª leitura); é rei, como Ele mesmo reafirmou diante do seu acusador Pilatos (Jo 18,33-37: Evangelho).

 

Estes novos matizes podem apreciar-se também na Liturgia das Horas: há uma mudança significativa na Lectio altera: abandona-se o texto da encíclica de Pio XI, antes citada, e introduz-se um comentário de Orígenes à oração de Jesus: «venha a nós o Teu reino». Nesta mesma linha, as preces matutinas e vespertinas assumem o mesmo responsório e dirigem sempre a Cristo as nossas súplicas. Cristo de novo aclamado pela sua Igreja como rei, pastor, mestre e salvador (Laudes), e como juiz, príncipe da paz, primogénito dos mortos e, de novo, salvador (Vésperas). O Tempo Comum, nas súplicas de Laudes e Vésperas, invoca também a Cristo com confiança, como fez ao início no Domingo I. Com um claro paralelismo a solenidade de Cristo Rei fecha este ciclo do Ano Litúrgico à espera de que Ele volte. Maranatha: e não se faz esperar o alegre anúncio do Advento.  

 

 

 

 

 



[1] O texto foi retocado a partir do original: A. Berlanga – A. Ivorra, El año litúrgico, fuente de espiritualidad, Cuadernos Phase 249, Centre de Pastoral Litúrgica, Barcelona 2019.


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