TEMAS LITÚRGICOS

A LITURGIA CATÓLICA

Do Édito de Milão ao Concílio de trento[1]:

 

 

 

 

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

 

 

 

Período da criação dos formulários (meados do século IV – fins do século VII).

 

Já se referiu o êxito que certos formulários obtiveram na primitiva Cristandade, pondo termo à etapa inicial, em que predominou a improvisação litúrgica. À medida em que o uso de composições escritas se generaliza, também aumenta a exigência relativa ao seu rigor doutrinal: no final do século IV, Santo Agostinho de Hipona queixa-se de que certos bispos servem-se de orações compostas por autores incompetentes e até heréticos. Sente-se, portanto, a necessidade de uma disciplina mais estrita e alguns concílios africanos interditam o uso de fórmulas que não tenham sido aprovadas por um sínodo.

Tenha-se em conta que, com o Édito de Milão, a Igreja que até então não tinha podido reunir concílios ecuménicos nem sínodos provinciais, vê finalmente reconhecido o seu direito de associação e pode reunir-se em assembleia. Muitos destes concílios visavam sobretudo a resolução de questões teológicas, como Niceia, o primeiro de Constantinopla e Éfeso. Mas, depois de reafirmada a doutrina católica sobre a questão disputada, os padres conciliares, por regra, definiam o novo cânone, que implicava também uma reforma litúrgica, nomeadamente pela introdução do princípio adoptado na profissão de fé.

A este propósito, recorde-se a relação entre a lex credendi e a lex orandi: deve-se rezar em função do que se crê e como se crê. Não é a mesma coisa dizer que o Filho é da mesma natureza que o Pai, ou que lhe é consubstancial; como também a expressão Mãe de Deus, reconhecida em Éfeso à Virgem Maria, não expressa apenas uma especial devoção dos cristãos à mãe do seu divino Redentor, mas principalmente que Maria, sendo Mãe de Jesus Cristo, que é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, é, neste sentido, Mãe de Deus, não o sendo do Pai, nem do Espírito Santo, nem muito menos da Santíssima Trindade, mas apenas da segunda pessoa divina, o Verbo, na medida em que encarnou em alguém que, por esse motivo é perfeito homem, pela sua ascendência materna, e perfeito Deus, pela sua filiação divina.

Neste sentido, a reforma litúrgica é centralizada e reflexa do poder eclesial, quer nas sedes episcopais e metropolitanas, quer a nível central. O progressivo reconhecimento do poder central do Bispo de Roma que, enquanto Papa, tem jurisdição sobre a Igreja universal, favoreceu a reforma litúrgica e a unificação das diversas tradições litúrgicas locais.

Santo Ambrósio de Milão, a finais do século IV, mais concretamente no ano 390, cita excertos da oração eucarística romana de então, que são antecedentes do posterior cânon romano, que é a antiga versão da oração eucarística número um do actual Missal Romano. Por parte dos papas deste período da história da Igreja, regista-se também um crescente empenho reformista: se as grandes linhas da liturgia romana são fixadas por São Gregório Magno (590-604), também os seus sucessores na cátedra petrina, nomeadamente São Leão, Gelásio I e Vigílio, assumem um papel relevante na reforma litúrgica.

Não obstante o restabelecimento da autoridade papal e o seu papel unificador e uniformizador da liturgia, persistem as tradições litúrgicas ligadas às mais antigas Igrejas patriarcais, como são, a par da romana, as que têm a sua sede em Alexandria e Antioquia. Através dos escritos de Teodoro de Mopsuéstia e de alguns padres da Igreja do século IV, como São Basílio, São João Crisóstomo e São Cirilo de Jerusalém, chegaram até à actualidade os registos relativos à celebração da Eucaristia e à administração do Baptismo no patriarcado de Antioquia. Estes ritos já se celebravam de uma forma uniforme em Constantinopla, como se deduz de um manuscrito do século VIII que se conserva na Biblioteca Vaticana (códice Barberini grego 336).

Segundo Dom Bernard Botte, “o período de maior produção pode situar-se entre meados do século IV e cerca do ano 650, ou finais do século VII. Houve, durante estes três séculos, uma actividade intensa de que as nossas actuais compilações nos dão apenas uma ideia imperfeita”.

Ainda em relação a este período da história da Igreja e da sua liturgia, tenha-se em conta a ocupação da Europa, nomeadamente da península ibérica, pelo Islão, impedindo qualquer desenvolvimento da sua liturgia durante todo o tempo que durou a ocupação islâmica. Segundo alguns autores, a liturgia hispânica já estaria constituída no seu conjunto a finais do século VII.

 

Período de compilação (séculos VIII – XII)

 

Depois do século VII não se pode dizer que cessa completamente a actividade criadora de formulários litúrgicos, mas abranda significativamente: mais do que criar novas orações, tende-se sobretudo a reformar as já existentes. Surgem também, neste período, as primeiras compilações de textos litúrgicos.

O rito romano difundiu-se na Gália e na Germânia, onde foi instaurado pelo imperador Carlos Magno, mas não no seu estado puro, porque já se lhe tinham introduzido alguns elementos espúreos. Também na Gália se faz notar a influência da liturgia romana: na segunda metade do século VIII, encontram-se sacramentários compostos a partir do modelo gelasiano e gregoriano do sacramentário romano, a que foram acrescentadas orações e ritos de origem galicana.

Se é verdade que a liturgia romana, ao ser exportada para outros territórios, conheceu algumas alterações devidas aos usos e costumes locais, também é certo que essas mudanças locais também influíram no desenvolvimento da própria liturgia romana que, portanto, foi influenciadora de outras liturgias, mas também por elas influenciada. No século XI, a liturgia romana já apresenta elementos inovadores de origem galicana e germânica, sob um fundo romano mais arcaico.

Tantos os sacramentários como os pontificais são muito diversos de Igreja para Igreja, mas, numa tentativa de alguma sistematização, é possível ordená-los por tipos, famílias, regiões ou influências.

O intercâmbio litúrgico não acontece apenas na Igreja latina, no ocidente, mas também no Oriente onde, até finais do primeiro milénio, grosso modo, se mantém a unidade da Igreja. Verifica-se, por exemplo, que a anáfora, ou oração eucarística, de Antioquia, é usada em Alexandria: a anáfora alexandrina de São Basílio, a anáfora de São Gregório e as anáforas bizantinas traduzidas em arménio.

Esta diversidade litúrgica e intercâmbio de formulários não cessará, nem sequer quando se verificar o grande cisma do Oriente, que dividirá a Cristandade em dois grandes grupos: o latino, ou católico, unido a Pedro; e o oriental, maioritariamente ortodoxo e sob a jurisdição dos grandes patriarcas de Constantinopla, Antioquia, Alexandria, Jerusalém, etc. Também se conservam pequenas comunidades católicas, de rito oriental, no Médio Oriente, que conservarão a unidade com Pedro, ou seja, Roma, mantendo também a sua liturgia oriental, mas católica.

Como escreve A. G. Martimort, “Seria falso conceber as Igrejas, mesmo separadas pela sua confissão de fé, como completamente isoladas umas das outras”, até porque, como reconhece este autor, “a actividade dos tradutores é particularmente importante no Oriente” (pág. 45).

Portanto, em jeito de resumo, pode-se dizer que a evolução das liturgias é feita, neste período, mais por importações e adaptações do que por criação original. A actividade criadora é escassa e fica praticamente restringida a matérias de secundária importância litúrgica: orações particulares para o uso do celebrante ou dos fiéis, prosas ou sequências, ofícios de devoção, etc.

Uma outra nota, esta de singular importância teológica, distingue este período pré-tridentino: o aparecimento dos primeiros tratados litúrgicos. Ou seja, depois de séculos de prática litúrgica, começam a aparecer os primeiros ensaios teóricos sobre o culto, à luz da revelação sobrenatural. Ao contrário das catequeses patrísticas, que eram sermões populares, estes primeiros tratados litúrgicos são sobretudo obras didácticas elaboradas a partir das compilações livrescas então existentes. Neste sentido, é de observar que mais do que a liturgia vivida ou a sua autêntica e genuína significação, estas obras propõem, muitas vezes, explicações alegóricas, de algum interesse espiritual mas de reduzido valor teológico. 

 

Período de fixação das liturgias (séculos XIII – XIV)

 

No dizer de Dom Bernard Botte, “pode-se dizer que o trabalho de criação original, seguido do de compilação e de adaptação, terminou no século XIII e que as liturgias tomaram desde então a forma que conservaram até hoje”,

É interessante esta constatação histórica, que nos permite reconhecer na liturgia moderna uma presença que remonta às primeiras gerações cristãs. De facto, as alterações entretanto verificadas seriam, sobretudo, de nível secundário ou acidental, porque a forma moderna da liturgia actual seria, na sua substância e essência, a mesma que já os cristãos do primeiro milénio usavam para a celebração eucarística e para a administração dos sacramentos.

É deste tempo, de já madura Cristandade, a composição, um pouco por todo o orbe cristão, dos “Ordinários”, que descrevem minuciosamente a ordem dos ofícios para todo o ano litúrgico.

Tem especial importância, como não podia deixar de ser, o papel da Cúria romana e de alguns Papas em especial. O Pontifical de Inocêncio III (1198-1216) resulta da obra reformadora deste grande pontífice romano e muito rapidamente se espalha por toda a Igreja romana. A finais do século XIII, este ritual é substituído pelo que, provavelmente em 1294, Guilherme Durando, Bispo de Mende, publica e conhece também uma extraordinária difusão no Ocidente.

É também deste tempo a elaboração de muitos cerimoniários, que são rituais específicos para determinadas celebrações litúrgicas mais complexas. Entre estes cite-se, em primeiro lugar, pela primazia que compete à sede romana, o cerimoniário da capela papal, que está na origem do Cerimonial da Igreja Romana, que codifica tudo o que respeita às celebrações pontificais presididas pelo Santo Padre e que foi editado já nas vésperas do Concílio de Trento, no princípio do século XVI. Está na origem do moderno Caeremoniale episcoporum, que é uma referência obrigatória em relação a certas celebrações litúrgicas.

Acrescente-se, por último, o papel desenvolvido por algumas ordens religiosas neste âmbito litúrgico. Com efeito, as grandes ordens monásticas estabelecem os seus próprios usos e costumes litúrgicos. Por sua vez, é importante o papel desempenhado pelos frades menores na fixação e difusão do Missal, Breviário e Ritual romanos, na sua forma moderna.

 

 

 

 

 

 



[1] Conclusão do texto que publicámos nos números anteriores. Trata-se de uma conferência proferida pelo Autor, no Curso promovido pela Universidade Católica, em Lisboa, sobre A Liturgia como Lugar de encontro, a convite do capelão da UCP P. Miguel Cabedo e Vasconcelos.


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