TEMAS LITÚRGICOS

A LITURGIA CATÓLICA

Do Concílio de Jerusalém ao édito de Milão[1]:

 

 

 

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

 

 

Segundo Dom Bernard Botte, O.S.B., Director honorário do Instituto Superior de Liturgia de Paris e Mestre honorário de Liturgia da Faculdade de Teologia da Universidade de Lovaina, “a história da liturgia pode dividir-se em duas partes bem distintas, delimitadas pelo Concílio de Trento (1545-1563). Antes do concílio de Trento, a liturgia evoluiu muito paralelamente no Oriente e no Ocidente. Depois do Concílio de Trento, a liturgia latina, submetida diretamente à autoridade da Sé Apostólica, torna-se objecto de reformas que a sua unificação e centralização tornam não só possíveis, mas ainda necessárias; pelo contrário, as liturgias do Oriente são cuidadosamente preservadas na pureza e integridade do seu património espiritual”[2].

O mesmo conceituado liturgista beneditino, considera quatro principais períodos ou etapas do desenvolvimento da liturgia católica nestes mil e quinhentos primeiros anos da sua história. A saber: o período da improvisação litúrgica (séculos I – IV); o período da criação dos formulários (séculos IV – VII); o período de compilação (séculos VIII – XII); e, por último, o período de fixação das liturgias (séculos XIII – XVI). 

É sabido que as datações históricas nem sempre são consensuais, certamente porque não há períodos estanques no fluir da história e, por isso, as datas escolhidas como marcos para o início e fim de cada um destes períodos são discutíveis. Contudo, por uma questão de sistematização da matéria e para a sua mais fácil exposição, é certamente oportuno dividir este tão dilatado espaço de tempo em vários períodos, tendo contudo sempre presente que estas fronteiras são relativas e meramente indicativas. Por outro lado, também é verdade que o movimento litúrgico não se deu uniformemente em toda a Cristandade do mesmo modo, pelo que a opção por esta datação obedece a critérios de preferência geográfica que também são discutíveis.

Feita esta necessária ressalva, passo agora a descrever e comentar brevemente cada um dos referidos períodos da história da liturgia católica pré-tridentina.

 

Do Concílio de Jerusalém ao édito de Milão.

 

Um escritor quase tão popular como pouco versado em questões de teologia católica, José Rodrigues dos Santos, disse, numa ocasião que, ao contrário do que a Igreja católica ensina, Jesus Cristo não era católico, mas judeu. Confesso que, quando lhe ouvi tão supina atoarda, não soube se devia chorar ou rir. Na dúvida, devo ter rezado por ele e por todos os bem-aventurados ignorantes que não só não sabem nada como também não sabem que não sabem coisa nenhuma. De facto, um sinal claro de grande sabedoria é, precisamente, reconhecer os limites da própria ignorância, como os magos que, vindos do Oriente, ao chegarem a Jerusalém perguntaram aos sacerdotes onde devia nascer, segundo a Sagrada Escritura, o Messias, cuja estrela aqueles misteriosos sábios tinham visto no Oriente.

Jesus Cristo não nasceu apátrida, nem agnóstico: nasceu num país determinado, com uma cultura bem definida e com uma religião muito concreta: a judaica. Pertencia ao povo da promessa e era até, por seu pai adotivo José e talvez também por sua Mãe, Maria, descendente do Rei David. Ao nascer, cumpriram-se todas as prescrições legais, segundo os usos e costumes judaicos. Com doze anos, peregrinou a Jerusalém com seus pais, como era também costume nas famílias judaicas piedosas. Sempre observou o sábado e também celebrou a Páscoa judaica, nomeadamente quando, na véspera da Sua paixão e morte, instituiu os sacramentos da Eucaristia e da Ordem.

É provável que os próprios apóstolos não soubessem algo que, para nós, é evidente: com Jesus Cristo inaugurou-se uma nova religião. Para eles, pelo contrário, o que hoje chamamos Cristianismo mais não era do que o cumprimento e a perfeição do culto judaico, realizado pelo esperado Messias. Só a recusa das autoridades religiosas judaicas em aceitar Cristo, muito embora muitos judeus o tenham feito a título individual, obrigou a cortar o cordão umbilical. Pode-se, portanto, afirmar que o Concílio de Jerusalém, celebrado aproximadamente no ano 50 da nossa era, assinala o nascimento institucional do Cristianismo, como culto autónomo e separado da tradição judaica. A partir desta data, os cristãos deixam de frequentar a sinagoga e o templo de Jerusalém, que vinte anos depois será, aliás, destruído pelos romanos, significando-se deste modo trágico o fim da antiga religião, substituída com vantagem pelo novo sacerdócio cristão.

A passagem do velho culto para a nova religião não se fez sem traumas e, por isso, é sabido que a comunidade cristã procedente do judaísmo não via com bons olhos que os cristãos oriundos do paganismo, genericamente apelidados de gentios, não fossem obrigados à circuncisão e aos demais ritos judaicos. O próprio São Pedro, embora ciente da universalidade, ou catolicidade, da Igreja, cedeu nalgum momento à pressão dos judaizantes, tendo por esse motivo merecido uma repreensão pública de São Paulo, o apóstolo dos gentios.

O Concílio de Jerusalém discutiu a questão que, na prática, muitos cristãos não conseguiam resolver e que poder-se-ia formular nos seguintes termos: a fé em Cristo aboliu as antigas tradições judaicas ou, pelo contrário, os cristãos devem também observar todos os preceitos da Lei? Enquanto os judaizantes entendiam que ser cristão era apenas uma modalidade do judaísmo e, portanto, pressupunha todos os ensinamentos da Lei e dos profetas, outros defendiam que tudo isso tinha deixado de estar em vigor, na medida que era apenas preparatório da nova aliança, agora estabelecida em Cristo Nosso Senhor, como quem desfaz um rascunho depois de publicado o texto definitivo, ou retira os andaimes que ajudaram a construir o novo edifício. A questão não era meramente teórica: se o cristão está obrigado também às práticas judaicas, não basta que seja baptizado, pois deveria ser também circuncidado; não seria suficiente que participasse no culto cristão dominical pois, enquanto judeu, deveria também santificar o sábado, participando no correspondente serviço religioso, na sinagoga etc.

Como é sabido, o Concílio de Jerusalém decidiu a independência do Cristianismo, entendendo que, ao se ser cristão, já se está a cumprir com tudo o que a Lei e os profetas exigiam, porque Nosso Senhor Jesus Cristo sublimou a antiga promessa na nova aliança do seu sangue. Inaugurando também uma nova liturgia, ou seja, um novo culto. Mas, como o próprio Mestre tinha, até ao fim, observado as praxes litúrgicas dos judeus, é evidente que a primitiva liturgia cristã não podia divergir muito das suas origens judaicas, por sinal nunca desmentidas e até confirmadas na leitura conjunta da Lei e dos profetas, a que na Igreja católica se acrescentaram os textos canónicos dos quatro Evangelhos, do livro dos Actos dos Apóstolos, das epístolas de Paulo, Pedro, João, Tiago e Judas e do Apocalipse, num novo volume a que se deu o nome de Novo Testamento, por oposição ao Antigo, também reconhecido como palavra de Deus.

Segundo Dom Bernard Botte, “ao princípio não havia outro livro litúrgico, para além da Bíblia. A Igreja herdou da tradição judaica a leitura do Antigo Testamento nas assembleias, e juntou-lhe a do Novo Testamento. Os salmos e os cânticos bíblicos foram o livro de canto da comunidade. Houve quem pretendesse ter encontrado nos escritos apostólicos vestígios de cânticos em uso nas igrejas, mas é necessário agir prudentemente neste domínio e não tomar por realidade histórica uma realidade discutível”.[3]

É verdade que os Evangelhos, bem como a primeira carta de Paulo aos Coríntios, referem a fórmula da consagração eucarística, mas não seguem um cânone uniforme, pelo que não é possível saber, com absoluta certeza, as palavras empregues por Cristo na última Ceia, quando consagrou o pão e o vinho, transubstanciando-os no seu Corpo e Sangue, dando aos apóstolos o mandato de o fazerem em Sua memória. Por este motivo, não há uniformidade nas orações do celebrante da missa, nem nas fórmulas litúrgicas: mesmo o estudo comparativo dos diferentes ritos não conduz a um tipo único e originário, que possa ser tido como o usado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Também no que respeita aos sacramentos, há diferenças significativas nos rituais destes primeiros tempos. Na administração do baptismo, os ritos de tipo siríaco prescrevem a imersão, ao mesmo tempo que o celebrante profere a fórmula sacramental: “N é baptizado …”. O rito alexandrino, pelo contrário, utiliza a expressão que é também, actualmente, a do rito romano: “Eu te baptizo …”. Já no antigo rito romano se fazia a profissão de fé pela tríplice pergunta sobre o dogma trinitário: Crês em Deus Pai [...], em Deus Filho [...] e em Deus Espírito Santo?”. Note-se que a estrutura explicitamente trinitária da fórmula baptismal foi expressamente referida por Mateus, a propósito do mandato apostólico universal de a todos pregar a Palavra e, aos que nela crerem, baptizar em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Contudo, nos Actos dos Apóstolos, não só se mencionam baptismos feitos em nome de Jesus, como também se refere que alguns cristãos, embora tivessem recebido o baptismo, desconheciam a existência da Terceira Pessoa divina, o Espírito Santo.

A este propósito, é curioso o testemunho de São Justino, ao dizer que o celebrante “dá graças como pode”. Se dar graças é, como parece ser, uma expressão sinónima da celebração eucarística, há então que concluir, de acordo com o que já foi dito, que na altura não existia um canon eucarístico, nem nenhuma oração oficial para a celebração da Santa Missa. Mesmo que todos os celebrantes repetissem, também a seu modo, as palavras da dupla consagração do pão e do vinho, repetindo, tanto quanto possível, as palavras proferidas pelo Senhor na última Ceia, havia contudo uma grande liberdade no que respeita às orações e leituras que antecediam e que sucediam a essa prece eucarística.

Em relação a este primeiro período da história da liturgia católica, certamente muito conturbado pelas perseguições externas e pelas dificuldades internas, há que reconhecer que nunca houve uma ‘liturgia apostólica’ única que, com o passar do tempo, se fosse diversificando, como alguns supuseram. Houve, certamente, tradições orais em relação aos principais mistérios da fé, mas que não estavam fixadas de uma maneira uniforme. Desta liberdade resultou uma grande diversidade nos usos disciplinares e litúrgicos, que os antigos historiadores e os Padres da Igreja referirão com apreço, na medida em que esta unanimidade no essencial e diversidade no acidental expressa a unidade da Igreja na conservação do depósito da fé.

É neste sentido também que a Tradição apostólica, obra que a crítica moderna atribui a Santo Hipólito de Roma, reconhece o princípio da improvisação litúrgica e, por isso, os textos que o autor da Tradição apresenta para a Eucaristia e para as ordenações são sugestões, como os sinais de trânsito para os condutores romanos e não só, mas não fórmulas impostas.

Não obstante o seu carácter não vinculativo, estes formulários tiveram grande êxito porque, devidamente adaptados, foram aprovados por diversas compilações dos séculos IV e V.

Para além da Tradição apostólica, atribuída a Hipólito de Roma, também são fontes da liturgia cristã nestes primeiros três séculos da sua história a Didascália siríaca, bem como as obras de Tertuliano e de São Cipriano de Cartago, e ainda os sermões de Orígenes e as cartas de São Dinis de Alexandria. Graças também às investigações arqueológicas, é possível conhecer como eram os primitivos templos cristãos, bem como o modo como se celebravam os principais mistérios da fé.

Com o édito de Milão, do ano 313, termina a primeira etapa da história da liturgia cristã. A partir desta data, nos princípios do século IV, os cristãos deixaram de ser sistematicamente perseguidos pelas autoridades romanas, como até então tinham sido, muito embora as perseguições não fossem algo constante.

Graças a Constantino, a Igreja deixa de ser uma instituição clandestina e, portanto, a partir desta data poderá contar com edifícios dedicados especificamente ao culto, permitem-se as peregrinações aos túmulos dos mártires e aos Lugares Santos, ainda não ocupados pelos muçulmanos, como relata a monja Egéria, descrevendo também as liturgias cristãs em que participou, por ocasião da sua viagem a Jerusalém, com o intuito de venerar o Santo Sepulcro e, provavelmente, de trazer para o seu convento, seguramente na Galiza, algumas relíquias. Como é sabido, nessa altura a importância das sedes episcopais media-se em boa parte pelo valor sagrado das relíquias que aí se pudessem venerar: foi graças à presumível presença do corpo sagrado do apóstolo São Tiago que o Campus Stellae, ou campo da estrela, ganhou especial notoriedade durante toda a Idade Média. O roubo, pelo arcebispo de Santiago, coadjuvado por alguns cónegos, de relíquias da Sé bracarense, obedeceu também ao propósito de engrandecer a sede metropolitana compostelana, em detrimento da sede arquiepiscopal bracarense, que se intitulava primaz das Espanhas.

 

 



[1] Continuação do texto que publicámos no número anterior. Trata-se de uma conferência proferida pelo Autor, no Curso promovido pela Universidade Católica, em Lisboa, sobre A Liturgia como Lugar de encontro, a convite do capelão da UCP P. Miguel Cabedo e Vasconcelos.

[2] A. G. Martimort, A Igreja em oração, Introdução à Liturgia, Edições Ora & Labora, Mosteiro de Singeverga e Desclée & Cie., 3ª ed., Barcelos 1965, pág. 40.

[3] A. G. Martimort, A Igreja em oração, cit., págs. 40-41.


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