Quarta-Feira de Cinzas

6 de Março de 2019

 

 

Na Missa deste dia benzem-se e impõem-se as cinzas, feitas dos ramos de oliveira (ou de outras árvores), benzidos no Domingo de Ramos do ano anterior.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Acolhe Deus de bondade, F. da Silva, NRMS 13

cf. Sab 11, 24-25.27

Antífona de entrada: De todos Vos compadeceis, Senhor, e amais tudo quanto fizestes; perdoais aos pecadores arrependidos, porque sois o Senhor nosso Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O mundo divertiu-se intensamente com o carnaval que ontem terminou.

Hoje a Igreja convida-nos a iniciarmos uma caminhada de penitência e oração que durará quarenta dias até à Páscoa.

Se vivermos santamente este tempo de conversão, acompanhando Jesus na Sua paixão e morte, certamente sentiremos uma felicidade imensa com a Sua ressurreição gloriosa.

 

Omite-se o acto penitencial, porque é substituído pela imposição das cinzas.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Senhor, a graça de começar com santo jejum este tempo da Quaresma, para que, no combate contra o espírito do mal, sejamos fortalecidos com o auxílio da temperança. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O apelo do Profeta Joel no Antigo Testamento à conversão continua actual. Ouçamos com toda a atenção a Palavra que Deus, através dele, nos transmite.

 

Joel 2, 12-18

12Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. 13Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. 14Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? 15Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. 16Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. 17Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». 18O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.

 

Começa a Quaresma com um forte apelo à conversão e de esperança no perdão do Senhor, extraído do final da primeira parte do livro do profeta Joel (1, 2 – 2, 17). Num estilo solene e apocalíptico, fala de uma invasão de gafanhotos medonhos, mas sem ficar claro se fala em sentido próprio ou figurado. Se a obra é anterior ao exílio de Babilónia, aludiria a invasões de exércitos inimigos; se é posterior, tratar-se-ia de alguma praga agrícola. Joel não se detém a denunciar os pecados concretos do povo, como é costume dos grandes profetas. Diante da enorme calamidade apresentada como castigo divino, o profeta apela para uma sincera conversão, a começar pela dos sacerdotes (1, 13).

12-13 «Convertei-vos a Mm de todo o coração». Não é suficiente uma manifestação exterior de dor; rasgar as vestes (v. 13) era um típico gesto de grande dor ou indignação, entre os judeus; rasgavam violentamente a túnica exterior, do pescoço até à cintura (cf. Gn 37, 29; Mt 26, 65). O coração não significa, na linguagem bíblica, apenas a afectividade, mas toda a interioridade da pessoa, todas as suas virtualidades, a sua inteligência e a sua vontade. Deus também nos convida a nós, mais fortemente neste tempo da Quaresma, a voltarmo-nos para Ele de todo o coração, isto é, com todas as veras da nossa alma, e a rasgar o nosso coração, a dilacerá-lo pela contrição, que é essa profunda mágoa de ter ofendido ao Senhor, infinitamente bom. Mas esta dor não é dor angustiante e desesperada, porque é cheia de esperança no perdão, pois Ele é clemente e compassivo… rico de bondade.

«É clemente e compassivo, paciente e misericordioso». A Vulgata e a Neovulgata têm «benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ». «Compassivo», isto é, dotado de piedade e ternura, de compreensão e disposição para perdoar: o termo hebraico «rahum» é derivado de «réhem» (ventre materno), o que sugere que Deus tem entranhas de mãe, sentimentos e coração de mãe para connosco. Assim, o seu amor não acaba quando nos portamos mal com Ele; então tem pena de nós, compreende e facilita a reconciliação. Por seu lado, a expressão «misericordioso» (à letra, «de muita misericórdia») deixa ver que a misericórdia do Senhor («hésed») não é uma bondade qualquer, é a bondade de Quem se mantém fiel a Si próprio (cf. Ez 36, 22); daqui a frequente hendíadis da S. E.: «amor e fidelidade» («hésed v-émet», um amor que é fidelidade). Este atributo divino tem na sua origem bíblica um matiz jurídico: a fidelidade de Deus à Aliança; uma fidelidade tal que, após o pecado, se mantém, embora já não dentro do mero âmbito legal dum pacto bilateral. Com efeito, mesmo quando o homem rompe a Aliança, Deus continua a manter-se fiel a Si próprio, ao seu amor gratuito, ao seu dom inicial (cf. Rom 11, 29). O amor de Deus é mais forte do que o nosso desamor, as nossas traições e pecados: «jamais algum pecado do mundo poderá superar este Amor» (João Paulo II em Fátima: 13.05.82; cf. Enc. Dives in misericordia).

14 «Vai reconsiderar». A expressão é um antropomorfismo com que se fala de Deus à maneira humana, mas de facto Deus não pode reconsiderar e mudar; se, em face da nossa penitência, Deus já não nos castiga e atende às nossas súplicas, a mudança apenas se dá em nós, não em Deus que, sempre tudo tem presente e tudo dispõe, contando com as nossas mudanças. O Profeta fala de Deus à maneira humana, ao dizer também que «Ele se encheu de zelo pela sua terra» (v. 18), em face do apelo feito ao brio do Senhor, numa súplica tão humilde como ousada da parte dos seus «ministros» (v. 17).

 

Salmo Responsorial    Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)

 

Monição: O Senhor deixou-nos o Sacramento da Reconciliação. Agradeçamos-Lhe, pedindo perdão das nossas culpas.

 

Refrão:     Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Ou:           Tende compaixão de nós, Senhor,

                porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.

 

Porque eu reconheço os meus pecados

e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.

 

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença

e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

 

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação

e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios

e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Durante a Quaresma viveremos o tempo favorável, oferecido pelo Senhor para meditarmos na nossa salvação.

 

2 Coríntios 5, 20 – 6, 2

20Irmãos: Nós somos embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus. 21A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus. 6,1Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. 2Porque Ele diz: «No tempo favorável, Eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio». Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação.

 

S. Paulo, ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5, 14-15).

20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S. Paulo, consciente de que «é Deus quem vos exorta por nosso intermédio»; os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores de Cristo», não apenas «ao seu serviço», mas actuando «em vez de Cristo e por autoridade de Cristo»; o próprio texto original grego parece dá-lo a entender com a preposição hyper (em favor de), usada com o sentido do antí (em vez de: cf. Jo 11, 50; Gal 3, 13; etc.).

21 «Deus identificou-o com o pecado» (à letra, Deus fê-lo pecado), uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (a raça humana), a fim de os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3, 13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstractos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino).

6, 2 «Este é o tempo favorável». S. Paulo cita aqui Isaías 49, 8, onde se classifica assim o momento em que aprouve à misericórdia divina libertar os israelitas do cativeiro. O Apóstolo diz que «agora» é que é o tempo realmente favorável, o tempo em que Jesus Cristo nos redimiu do cativeiro do pecado (cf. Gal 4, 4-5). A expressão paulina é ainda mais expressiva e rica do que a da versão grega de Isaías (LXX): agora é que é o momento singularmente oportuno, em que apraz à misericórdia divina operar a nossa salvação. Não há dúvida que a Liturgia pretende fazer uma acomodação deste texto ao tempo santo da Quaresma.

 

Aclamação ao Evangelho        cf. Sl 94, 8ab

 

Monição: O jejum, a oração e a esmola são para nós caminho de purificação e perfeição.

 

Cântico: M. Simões, NRMS 1 (I)

 

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,

não fecheis os vossos corações.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 6, 1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 1«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus. 2Assim, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita, 4para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 5Quando rezardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de orar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa. 16Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que os homens não percebam que jejuas, mas apenas o teu Pai, que está presente em segredo; e teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa».

 

Os versículos da leitura são tirados do Sermão da Montanha de S. Mateus; por focarem práticas tipicamente judaicas, estes não têm paralelos nos outros evangelistas, que se dirigem a cristãos na sua maioria vindos dos gentios.

1 «As vossas boas obras» letra, a vossa justiça), isto é, os actos tradicionais da boa piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum. Jesus de modo algum os suprime ou diminui o seu valor, pelo facto de serem actos de piedade pessoal individual, mas exige que todos estes actos se façam sempre com rectidão de intenção, isto é, com uma sincera piedade, com o fim de agradar a Deus, e não por ostentação, ou para se receber o aplauso humano.

6 «Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto». Segundo estas palavras de Jesus, desde crianças, fomos ensinados a rezar não apenas comunitariamente, mas também, a sós: «no teu quarto». O Senhor ensina aqui a necessidade da oração individual (o que não quer dizer individualista). Deus chama os homens à salvação, fazendo-os entrar dentro do Povo de Deus, a sua Igreja, mas chama-os um a um (nominatim: Jo 10, 3); daqui que são imprescindíveis tanto a oração púbica, que manifesta o carácter de família e povo que somos em Cristo, como a oração a sós, que manifesta a resposta pessoal e intransferível de cada um de nós ao seu Pai celeste. Por sua vez, Jesus não se limitou a pregar a necessidade da oração individual, pois Ele próprio deu este mesmo exemplo (cf. Mt 14, 23; Mc 1, 35; Lc 5, 16; 6, 12; 9, 18; 11, 1.28-29), que foi seguido pelos Apóstolos (cf. Act 10, 9-16). Também a experiência pessoal de todos os santos e dos que tomam a sério a fé cristã nos diz que é imprescindível este tipo de oração, que consiste em se recolher para, a sós, falar com Deus, frequentemente. A esta oração recolhida e íntima nos convida hoje o Senhor e a Liturgia nesta Quaresma, que agora começa.

 

Sugestões para a homilia

 

O Senhor convida-nos

Para vivermos santamente a Quaresma

A caminho da Páscoa da Ressurreição

 

O Senhor convida-nos

Na vida, hoje em dia, há muita agitação e ansiedade.

As pessoas acordam com o pensamento no trabalho que terão de realizar com responsabilidade e profissionalismo.

As crianças e os jovens vão para a escola onde aprenderão os conhecimentos necessários à sua instrução e formação.

Os doentes anseiam pela cura para recuperarem a saúde e poderem novamente trabalhar e viver felizes na família e na sociedade.

Os idosos revivem recordações que desejam transmitir às gerações mais novas.

As pessoas que se consagraram ao Senhor no serviço dedicado aos irmãos vão ao encontro dos cristãos perseguidos, dos refugiados, dos pobres, dos marginalizados, dos que são vítimas da violência ou da guerra...

Todos nós, porém, devemos fazer uma paragem para vermos se estamos a cumprir a missão que o Senhor nos confiou.

A Quaresma que hoje se inicia é o tempo favorável para meditarmos nas realidades sobrenaturais ( Segunda Leitura ).

 

Para vivermos santamente a Quaresma

A Primeira Leitura e o Evangelho desta Missa apontam-nos o caminho a seguir.

O Senhor convida-nos, na Via Sacra, a acompanhá-l’O na Sua paixão e morte por nosso amor.

O Senhor convida-nos à penitência com a abstinência e o jejum.

O Senhor convida-nos a receber o Sacramento da Reconciliação.

O Senhor convida-nos à Santa Missa, recebendo-O na Sagrada Comunhão.

O Senhor convida-nos a santificar o dia com a Liturgia das Horas.

O Senhor convida-nos a aceitarmos o pedido da Sua e nossa Mãe para a recitação diária do Rosário.

O Senhor convida-nos a transformar toda a nossa vida em oração.

 

A caminho da Páscoa da Ressurreição

Jesus veio ao mundo para nos salvar. Ensinou-nos com a Palavra e a Vida. Provou a Sua divindade com os milagres realizados.

Os homens ingratos condenaram-n’O injustamente à morte para acabarem com Ele e com a Doutrina que nos deixou.

Os soldados vigiaram o sepulcro para que ninguém levasse o Seu corpo e dissesse que Ele voltou a viver.

Mas- oh milagre dos milagres- Jesus ressuscitou glorioso na manhã do Domingo de Páscoa!

Que alegria para todos os que O amavam! Jesus cumpriu o prometido, ressuscitando ao terceiro dia.

Ele também nos levará, após a morte, para junto de Si no Céu a fim de com Ele vivermos felizes por toda a eternidade!

Nunca nos separemos d’Ele pelo pecado. Pratiquemos sempre o bem. Ofereçamos-Lhe a vida como Ele a ofereceu por nós. Afastemos a agitação e ansiedade. Nunca percamos a esperança.

Cada um de nós peça muitas vezes: « Criai em mim, ó Deus, um coração puro » ( Salmo responsorial ).

Vivamos felizes e sem nada temer porque Maria Santíssima, nossa querida Mãe, nos acompanha agora e sempre!

 

Fala o Santo Padre

 

«Que a Quaresma seja um tempo de benéfica «poda» da falsidade, da mundanidade e da indiferença:

para não pensarmos que tudo está bem se eu estou bem»

 

No início do caminho quaresmal, a Palavra de Deus dirige à Igreja e a cada um de nós dois convites.

O primeiro é o de são Paulo: «Reconciliai-vos com Deus!» (2 Cor 5, 20). Não é simplesmente um bom conselho paternal, nem sequer apenas uma sugestão; trata-se de uma verdadeira súplica em nome de Cristo: «Em nome de Cristo, vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!» (ibidem). Por que motivo um apelo tão solene e urgente? Porque Cristo sabe quanto somos frágeis e pecadores, conhece a debilidade do nosso coração; vê-o ferido pelo mal que cometemos e padecemos; sabe quanta necessidade temos do perdão, sabe que temos necessidade de nos sentirmos amados para fazer o bem. Sozinhos, não somos capazes: por isso, o Apóstolo não nos pede para fazer algo, mas para nos reconciliarmos com Deus, para lhe permitir que nos perdoe, com confiança, porque «Deus é maior do que o nosso coração» (1 Jo 3, 20). Ele vence o pecado e tira-nos das misérias, quando lhas confiamos. Depende de nós, se nos reconhecemos necessitados de misericórdia: é o primeiro passo do caminho cristão; trata-se de entrar através da porta aberta que é Cristo, onde Ele mesmo, o Salvador, nos espera e nos oferece uma vida nova e jubilosa.

Pode haver alguns obstáculos, que fecham as portas do coração. Há a tentação de blindar as portas, ou seja, de conviver com o próprio pecado, minimizando-o, justificando-se sempre, pensando que não somos piores do que os outros; mas assim fecham-se as trancas da alma e permanecemos fechados dentro, prisioneiros do mal. Outro obstáculo é a vergonha de abrir a porta secreta do coração. Na realidade, a vergonha é um bom sintoma, porque indica que desejamos separar-nos do mal; no entanto, nunca deve transformar-se em receio ou medo. E existe uma terceira insídia, a de nos afastarmos da porta: isto acontece quando nos escondemos nas nossas misérias, quando cogitamos continuamente, unindo entre si os aspectos negativos, a ponto de nos afundarmos nos meandros mais obscuros da alma. Então, tornamo-nos até familiares com a tristeza que não queremos, desanimamos e tornamo-nos mais frágeis diante das tentações. Isto acontece porque permanecemos sozinhos connosco mesmos, fechando-nos e evitando a luz; entretanto, só a graça do Senhor nos liberta. Então, deixemo-nos reconciliar, ouçamos Jesus que, a quantos se sentem cansados e oprimidos, diz «vinde a mim» (Mt 11, 28). Não permaneçamos em nós mesmos, mas vamos ter com Ele! Ali há alívio e paz. [...]

Há um segundo convite de Deus que, por intermédio do profeta Joel, diz: «Voltai a mim com todo o vosso coração» (2, 12). Se devemos voltar, é porque nos afastamos. É o mistério do pecado: afastamo-nos de Deus, dos outros, de nós mesmos. Não é difícil dar-nos conta disto: todos nós vemos como temos dificuldade de confiar verdadeiramente e sem medo em Deus; como é árduo amar o próximo, em vez de pensar mal dele; quanto nos custa agir para o nosso verdadeiro bem, enquanto somos atraídos e seduzidos por muitas realidades materiais, que esvaecem e no final nos empobrecem. Ao lado desta história de pecado, Jesus inaugurou uma história de salvação. O Evangelho que inaugura a Quaresma convida-nos a ser os seus protagonistas, abrangendo três recursos, três remédios que curam do pecado (cf. Mt 6, 1-6.16-18).

Em primeiro lugar, a oração, expressão de abertura e de confiança no Senhor: é o encontro pessoal com Ele, que abrevia as distâncias criadas pelo pecado. Rezar significa dizer: «Não sou auto-suficiente, tenho necessidade de ti, Tu és a minha vida e a minha salvação». Em segundo lugar, a caridade, para superar a estraneidade em relação aos outros. Com efeito, o verdadeiro amor não é um gesto exterior, não é oferecer algo de modo paternalista para sossegar a consciência, mas acolher quantos têm necessidade do nosso tempo, da nossa amizade e da nossa ajuda. É viver o serviço, vencendo a tentação de nos satisfazermos. Em terceiro lugar, o jejum, a penitência, para nos libertarmos das dependências daquilo que passa e para procurarmos ser mais sensíveis e misericordiosos. Trata-se de um convite à simplicidade e à partilha: tirar algo da nossa mesa e dos nossos bens, para voltar a encontrar o verdadeiro bem da liberdade.

«Voltai a mim — diz o Senhor — com todo o vosso coração»: não somente com alguns gestos externos, mas do fundo de nós mesmos. Com efeito, Jesus chama-nos a viver a oração, a caridade e a penitência com coerência e autenticidade, superando a hipocrisia. Que a Quaresma seja um tempo de benéfica «poda» da falsidade, da mundanidade e da indiferença: para não pensarmos que tudo está bem se eu estou bem; para compreendemos que o que conta não é a aprovação, a busca do sucesso ou do consenso, mas a purificação do coração e da vida; para voltarmos a encontrar a identidade cristã, ou seja o amor que serve, não o egoísmo que se serve. Coloquemo-nos a caminho juntos, como Igreja, recebendo as Cinzas — também nós voltaremos a ser cinzas — mantendo fixo o olhar no Crucificado. Amando-nos, Ele convida-nos a deixar-nos reconciliar com Deus e a voltarmos a Ele, para nos reencontrarmos a nós mesmos.

 Papa Francisco, Homilia, Basílica Vaticana, 10 de Fevereiro de 2016

 

Bênção das cinzas

 

Depois da homilia, o sacerdote, de pé, diz com as mãos juntas:

 

Irmãos caríssimos: Oremos fervorosamente a Deus nosso Pai, para que Se digne abençoar com a abundância da sua graça estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, em sinal de penitência.

 

E depois de alguns momentos de oração em silêncio, diz uma das orações seguintes:

 

Senhor nosso Deus, que Vos compadeceis daquele que se humilha e perdoais àquele que se arrepende, ouvi misericordiosamente as nossas preces e derramai a vossa bênção sobre os vossos servos que vão receber estas cinzas, para que, fiéis à observância quaresmal, mereçam chegar, de coração purificado, à celebração do mistério pascal do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

ou

 

Deus de infinita bondade, que não desejais a morte do pecador mas a sua conversão, ouvi misericordiosamente as nossas súplicas e dignai-Vos abençoar estas cinzas que vamos impor sobre as nossas cabeças, para que, reconhecendo que somos pó da terra e à terra havemos de voltar, alcancemos, pelo fervor da observância quaresmal, o perdão dos pecados e uma vida nova à imagem do vosso Filho ressuscitado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

O sacerdote asperge as cinzas com água benta, sem dizer nada.

 

Imposição das cinzas

 

Em seguida, o sacerdote impõe as cinzas a todos os presentes que se aproximam dele, dizendo a cada um:

 

Mc 1, 15

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

 

Ou

cf. Gen 3, 19

Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar.

 

Entretanto, canta-se um cântico apropriado, por exemplo:

 

cf. Joel 2, 13

Antífona: Mudemos as nossas vestes pela cinza e o cilício. Jejuemos e choremos diante do Senhor, porque Deus é infinitamente misericordioso e perdoa os nossos pecados.

 

ou

cf. Joel 2, 17; Est 13, 17

Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, para que possa cantar sempre os vossos louvores.

 

ou

Salmo 50, 3

Lavai-me de toda a iniquidade, Senhor.

 

Pode repetir-se esta antífona depois de cada versículo ou estrofe do salmo 50. Compadecei-Vos de mim, ó Deus.

 

Responsório

cf. Bar 3, 2; Salmo 78, 9

V. Renovemos a nossa vida,

reparemos o mal que fizemos,

para que não nos surpreenda o dia da morte

e nos falte o tempo para nos convertermos.

R. Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

V. Ajudai-nos, Senhor, para glória do vosso nome;

perdoai as nossas culpas e salvai-nos.

R. Ouvi-nos, Senhor, e tende compaixão de nós,

porque somos pecadores.

 

Terminada a imposição das cinzas, o sacerdote lava as mãos. O rito conclui-se com a oração universal ou oração dos fiéis. Não se diz o Credo.

 

Oração Universal

 

Irmãos, oremos a Deus Omnipotente

e imploremos a Sua misericórdia,

dizendo confiadamente:

Escutai, Senhor, a nossa oração.

 

1.     Pela Santa Igreja Católica,

para que os cristãos, unidos na caridade,

trabalhem por um mundo melhor,

oremos, irmãos.

 

2.     Pelos povos que sofrem os horrores da guerra,

para que, através da justiça, do diálogo e da tolerância,

alcancem o dom inestimável da paz,

oremos, irmãos.

 

3.     Pelas famílias onde não há amor,

para que, através da oração e do perdão,

alcancem de novo a felicidade e alegria,

oremos, irmãos.

 

4.     Pelas nossas próprias intenções,

para que o Senhor, omnipotente e misericordioso,

nos cumule de bênçãos e graças,

oremos, irmãos.   

 

5.     Pelos doentes e por todos os que sofrem,

para que, na Cruz redentora de Cristo,

encontrem alívio e consolação,

oremos, irmãos.

 

6.     Pelos nossos familiares e amigos falecidos,

para que, purificados das suas faltas, entrem no Céu

onde pedirão pela nossa própria salvação,

oremos, irmãos.

 

Senhor nosso Deus e nosso Pai,

dignai-Vos atender estas súplicas

e, por intercessão da Virgem Santa Maria,

concedei-nos o que for melhor para nós.

Por N. S. J. C. Vosso Filho que é Deus Convosco

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Perdoa ao teu povo, Az. Oliveira, NRMS 105

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, este sacrifício, com o qual iniciamos solenemente a Quaresma, e fazei que, pela penitência e pela caridade, nos afastemos do caminho do mal, a fim de que, livres de todo o pecado, nos preparemos para celebrar fervorosamente a paixão de Cristo, Vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio da Quaresma III p. 463 ou IV p. 464 [598-710]

 

Santo: F. da Silva, NRMS 38

 

Monição da Comunhão

 

Por vezes sentimos dificuldade em nos mantermos fiéis ao Senhor. Na Sagrada Comunhão alcançamos forças para nunca desanimarmos no caminho da santidade.

 

Cântico da Comunhão: Lembra-te de mim, Senhor, F. Silva, NRMS 69

Salmo 1, 2-3

Antífona da comunhão: Aquele que medita dia e noite na lei do Senhor dará fruto a seu tempo.

 

Oração depois da comunhão: Senhor, fazei que este sacramento nos leve a praticar o verdadeiro jejum que seja agradável a vossos olhos e sirva de remédio aos nossos males. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A Virgem Santa Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, vai ajudar-nos a vivermos santamente o tempo da quaresma, como preparação para a Solenidade da Páscoa. O Senhor que ressuscitou glorioso também nos ressuscitará para com Ele vivermos felizes para sempre.

 

Cântico final: Vós me salvaste, Senhor, M. Simões, NRMS 16

 

A bênção e imposição das cinzas pode fazer-se também fora da Missa. Nesse caso, convém que preceda uma liturgia da palavra, utilizando a antífona de entrada, a oração colecta, as leituras e seus cânticos, como na Missa. Depois da homilia, procede-se à bênção e imposição das cinzas. O rito conclui com a oração universal.

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO DA QUARESMA

 

CINZAS

 

5ª Feira, 7-III: O caminho da vida e o caminho da morte.

Deut 30, 15-20 / Lc 9, 22-25

Pois quem quiser salvar a própria vida há-de perdê-la, mas quem perder a vida por minha causa, há-de salvá-la.

Diante de nós temos dois caminhos: um que conduz à vida e outro que leva à perdição (LT). Jesus, pegando na sua Cruz com muito amor, a caminho do Calvário, pede-nos que sigamos o mesmo caminho que Ele (EV).

Quem segue o caminho do Senhor terá abundantes frutos: É como a árvore plantada à beira das águas (SR). Para isso, teremos que nos converter: Arrependei-vos, diz o Senhor (AE), tendo o desejo e o propósito de mudar de vida, abandonando o caminho do pecado, pedindo perdão pelas más acções que cometemos.

 

6ª Feira, 8-III: As várias formas de penitência da Quaresma.

Is 58, 1-9 / Mt 9, 14-25

Por que motivo nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?

Jesus responde que o mais importante é estar junto dEle (EV). Buscai o bem, para que vivais, e o Senhor estará convosco (AE) E isso consegue-se especialmente através da oração: Clama em altos brados sem cessar (LT). E também do arrependimento: Não é do sacrifício que Vos agradais... sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido (SR).

A penitência deve também estar acompanhada pela caridade (LT). Procuremos viver, por exemplo, as obras de misericórdia. Como consequência, haverá mais luz na nossa vida e o Senhor curará as nossas feridas (LT).

 

Sábado, 9-III: Cristo, restaurador das «brechas».

Is 58, 9-14 / Lc 5, 27- 32

Hão-de chamar-te 'reparador das brechas', 'restaurador dos caminhos para as áreas habitadas'.

Por um lado, Jesus é o 'Caminho': Ensinai-me, Senhor, o vosso caminho, para que eu ande na vossa presença (SR).

Por outro lado, Ele é o Médico divino (EV) e não quer a morte do pecador, mas a sua conversão: Arrependei-vos! (AE). Temos duas propostas: a primeira, o cuidado do dia do Senhor, programando as viagens, os negócios e empreendimentos que levamos a cabo; e a segunda, a prontidão em cumprir os pedidos do Senhor: Ele (Mateus), deixando tudo, levantou-se e seguiu Jesus (EV).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:   Aurélio Araújo Ribeiro

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Homilias Feriais:           Nuno Romão

Sugestão Musical:        Duarte Nuno Rocha

 


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