TEMAS LITÚRGICOS

Banquete celestial

 

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

No último artigo servi-me de uma imagem poderosa da arquitetura. O efeito que provocou em mim a observação de umas imponentes colunas góticas que rodeavam o altar e se uniam bem lá no alto num único ponto, precisamente, sobre o altar. Servi-me dessa imagem para falar do efeito da liturgia eucarística: participando da celebração nesse altar, somos elevados para o alto e unimo-nos à liturgia celeste.

Analisando uma foto que tirei quando visitei essa Igreja, reparei no medalhão talhado em pedra que ocupava aquele ponto lá no cimo, sobre o altar, onde se uniam as dez colunas. Que representava? O calvário. A cruz com o crucificado e, de cada lado, duas figuras que depreendi serem Santa Maria e São João. A mensagem é bem clara. Através da celebração do sacrifício da Missa torna-se presente o sacrifício de Cristo na Cruz.[1]

Porém, não podemos esquecer que a eucaristia é também o «banquete sagrado da comunhão do corpo e sangue do Senhor».[2] Por isso, «o altar representa dois aspetos dum mesmo mistério: o altar do sacrifício e a mesa do Senhor».[3]

Se ao longo destes artigos tenho frisado o aspeto sacrifical como algo desconhecido para muitos fiéis e pouco falado pelos sacerdotes ao referirem-se à Eucaristia é interessante verificar que houve épocas em que se deu precisamente o contrário. Assim o refere o cardeal Saraiva Martins no seu manual sobre a Eucaristia, recordando o que sucedeu na altura da Reforma. Perante as afirmações dos reformadores que negavam a natureza sacrificial da Eucaristia enfatizou-se esta, ao ponto de quase se reduzir a um memorial: «a Eucaristia era assim entendida e designada somente como sacrifício»[4].

É fundamental encontrar um ponto médio e não esquecer nenhuma das duas dimensões.

Que bela, que íntima, que festiva foi a forma de Jesus tornar presente, fazer memória, do seu sacrifício e da sua ressurreição! Através de uma refeição! Impressiona mais ainda ver que a foi preparando desde muito cedo. Aquele anseio de Jesus na última ceia, «desejei ardentemente celebrar esta páscoa convosco»[5], já vinha de antes, de muito antes. É um desejo expresso de forma abundante no Antigo Testamento. Como não ver esse desejo de Deus no Código Deuteronómico, quando se manda que os israelitas peregrinem ao santuário para fazerem ali, não somente os seus sacrifícios e oblações, mas algo mais, as suas festas sagradas, comendo e bebendo na presença de Deus?

«Ali fareis os vossos sagrados banquetes na presença do Senhor, vosso Deus, e gozareis, vós e as vossas famílias, de todos os bens que as vossas mãos produzirem, com a bênção do Senhor, vosso Deus».[6]

É comovedor ver o desejo do Criador de participar nos banquetes dos homens e de os abençoar. Banquetes que se tornam sagrados pela Sua presença.

Esse desejo e esse mandamento mantêm-se agora. O «Fazei isto em memória de mim»[7] ecoa pelos séculos e fala-nos do desejo de Jesus de se tornar presente, de celebrar esta páscoa connosco e de nos abençoar. Não admira que, muitas vezes, sintamos a Missa como uma festa. Ela é realmente o «banquete pascal em que se recebe Cristo»[8].

E como não recordar a ratificação da Aliança por Moisés mediante uma refeição cultual, descrita no capítulo 24 do livro do Êxodo? O paralelo com o que Jesus irá fazer na última Ceia e no sacrifício da cruz, instaurando a Nova Aliança, é surpreendente. Em ambas encontramos sacrifício e banquete.

Moisés realiza o sacrifício, recolhe o sangue, asperge o povo enquanto diz «Eis o sangue da Aliança», ratifica a Aliança e, então, no final, sobe juntamente com os setenta anciãos. Subiram «viram a Deus e comeram e beberam»[9]. A Aliança não termina com a morte dos animais sacrificados e a aspersão do sangue. Ela termina com uma refeição celestial.[10] Os intervenientes são chamados a subir, a ver Deus e a comer na sua presença:

«Moisés e Arão, Nadab e Abiú e os setenta anciãos de Israel subiram. Viram o Deus de Israel e debaixo dos seus pés como que uma obra de pedra de safira, que se parecia com o céu, quando está sereno (…). E eles viram a Deus e comeram e beberam».[11]

Que quer dizer esta visão?

«O espetáculo supera a brilhantez e a riqueza dos grandes palácios e templos orientais. Mais ainda, todos eles participam com Deus da mesma mesa: a descrição recorda um banquete régio, no qual os comensais são tratados com a dignidade do anfitrião».[12]

Não admira que esta passagem seja vista como um acontecimento transcendental e uma verdadeira prefiguração do sacrifício de Cristo onde este inaugurará a Nova Aliança.

 

Banquete celestial

Entre os nove nomes que o Catecismo da Igreja Católica apresenta ao tratar do sacramento da Eucaristia o segundo é:

«Ceia do Senhor, porque se trata da ceia que o Senhor comeu com os discípulos na véspera da sua paixão e da antecipação do banquete nupcial do Cordeiro na Jerusalém celeste».[13]

A Missa é banquete e banquete celestial, pignus futurae gloriae, como diziam os antigos, penhor da eterna glória.

A este propósito nunca mais me esqueci de uma pequena confidência que me fez uma senhora, já aposentada, que tinha por costume participar na Eucaristia todos os dias. Contou-me que, certa vez, já tinha descido as escadas e ia a sair do prédio quando caiu em si e decidiu voltar para casa. Deu um jeito ao cabelo, arranjou-se um pouco melhor e vestiu algo mais cuidado. Nesse momento fez uma pausa. Eu não estava a entender nada. Explicou:

- «É que estou a ler aquele novo livro do Scott Hahn: A Festa do Cordeiro».

 Efetivamente, o livro soava-me, mas ainda não o tinha lido. Então, explicou-me como o autor fazia a ligação entre a Missa, o livro do Apocalipse e a liturgia celeste. Voltou ao seu episódio curioso e concluiu o motivo daquela atitude invulgar:

- «É que eu descobri que quando vou para a Missa… eu vou para o Céu!».

O certo é que este pequeno testemunho, contado com simplicidade e humildade (e alguns risos por parte da protagonista) me fez procurar esse livro e lê-lo cheio de interesse.

«Não vamos para o Céu só quando morrermos. Vamos para o Céu quando vamos à Missa. Não é apenas um símbolo, uma metáfora, uma parábola, ou uma figura retórica. É algo real. No século IV, Sto. Atanásio escreveu: «Meus queridos irmãos, não vimos a um banquete temporal, mas a um festim eterno, celeste. Não o vislumbramos através de sombras; aproximamo-nos dele na realidade».[14]

Neste sentido, veio à minha memória, um outro diálogo, muito mais antigo. Tratou-se de uma crítica ao elenco dos santos que se nomeiam na Oração Eucarística I em duas listas diferentes, uma antes da consagração e, a outra, depois da consagração. Para aquela pessoa aquelas listas não tinham qualquer sentido e era como ler a lista telefónica na parte mais importante da Eucaristia. Fiquei sem saber o que lhe responder. Talvez por isso nunca mais o tenha esquecido. O certo é que, ao dar-me conta desta dimensão celestial da Missa e, mais ainda, de participação no baquete eterno penso ter percebido a razão para que se tenham formado essas listas de santos. Elas são para nos motivarem a desejar esse banquete. Mais, ajudam-nos a tomar parte dele neste momento. Recordemos que aqueles santos são os doze apóstolos e os santos da devoção romana, aqueles a quem os fiéis mais rezavam. Não se trata de uma lista qualquer. É a lista dos «convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro».[15] Não nos motiva saber quem vai estar presente numa festa para qual somos convidados? Assim, tal como aos romanos os motivava escutar o nome de Lino, Cleto, Clemente, Sixto, Cosme e Damião, a nós motivam-nos, talvez, outros santos e poderemos aproveitar esse momento para os recordar e unir-nos a eles, porque, recordemos, já estamos na sua presença!

Mas, na verdade, nada disto nos soa a estranho, porque muitas vezes o ouvimos na liturgia e nos ensinamentos da Igreja. Efetivamente, diz o Concílio Vaticano II:

«Pela Liturgia da terra participamos, por antecipação, na Liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos encaminhamos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo; com toda a milícia do exército celestial, cantamos ao Senhor um hino de glória; veneramos a memória dos Santos, esperando tomar parte na sua companhia; e aguardamos, como Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até que Ele Se manifeste como nossa vida e nós nos manifestemos com Ele na glória».[16]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA nn. 1362-1367

[2] Ibid. n. 1382

[3] Ibid. n. 1283

[4] S. MARTINS, Eucaristia, p. 235

[5] Lc 22, 15

[6] Dt 12, 5-8

[7] Lc 22, 19

[8] SC 47

[9] Ex 24, 11

[10] PITRE B., Jesus and the jewish roots of the eucharist, p. 30

[11] Ex 24, 9-11

[12] SAGRADA BÍBLIA, EUNSA, Vol 1, 1997, comentário a Ex 24, 1-18

[13] CATECISMO DA IGREJ CATÓLICA, n. 1329

[14] SCOTT HAHN, A Festa do Cordeiro, p. 120

[15] Ap 19, 9

[16] SC 8.


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