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O ESQUECIMENTO DIVINO

 

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

«José, filho de David, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa» (Mt 1, 20). Pobre José! Que aflição a sua, até que Deus o esclarece! Porque não lhe disse antes? Porque o deixou sofrer tanto? Não se queixa.

«Levanta-te! Toma o Menino e sua Mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise» (id. 2, 13). Não hesita. «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel» (id. ibid., 20). Obedece. Para a Judeia? Não convém. «Avisado por Deus, em sonhos» (id. ibid. 23) retira-se para Nazaré.

José: o homem de quem Deus «se esquece» e mantém perplexo até â última hora. O homem em que Deus tem absoluta confiança.

 

João Baptista, que cumpre a sua missão e que Deus «deixa esquecido» na prisão, à mercê dos caprichos de Herodes.

Maria, à espera incerta de uma espada que lhe trespassará o coração.

Jesus, crucificado: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mt 27, 46), o salmo da confiança no Pai e da vitória final.

 

Não há maior louvor do que o «esquecimento divino», a sua confiança na nossa fidelidade, aconteça o que acontecer. Saber que conta connosco em quaisquer circunstâncias, sejam êxitos ou fracassos pastorais, simpatias ou impopularidade.

Quando recebemos o sacramento da Ordem, só um êxito nos interessa: desaparecer, ser em cada momento o que for preciso, o que Deus quiser, o que o Bispo mandar, o que os fiéis precisarem, o que qualquer alma necessitar de nós. Com ordem de justiça e caridade, é certo; com iniciativa e prioridades; com as particulares capacidades inatas ou adquiridas, mas sempre ao serviço dos outros. E com a paradoxal galhardia de não obedecer a ninguém, e só a Deus: «Não os servindo (…) como para agradar os homens, mas como servos de Cristo, que fazem de bom coração a vontade de Deus, servindo-os com boa vontade, como se servísseis ao Senhor e não aos homens» (Ef 6, 6-8).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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