DIREITO E PASTORAL

A JUSTIÇA

EM S. TOMÁS DE AQUINO

 

 

Miguel Falcão

 

 

Definição de justiça como virtude

S. Tomás, seguindo a Aristóteles [1], considera a justiça uma virtude e trata dela no seu tratado sobre as virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. À justiça, reserva o maior espaço [2].

Analisando a definição comum na sua época, tomada da juris-prudência romana clássica, segundo a qual a justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o seu direito [3], S. Tomás prefere a de Aristó-teles, para quem a justiça é o hábito pelo qual se escolhe o que é justo [4].

Segundo o Aquinate, como a virtude é um hábito e princípio de actos bons e as virtudes são especificadas pelos sus actos, a justiça é o hábito e princípio de actos justos. E o que são actos justos? Embora se debruce sobre eles mais tarde, aceita seguir o proposto pela jurisprudência romana: dar a cada um o seu direito [5].

Assim, S. Tomás propõe para definição de justiça o hábito segundo o qual se dá, com vontade constante e perpétua, a cada um o seu direito[6]. Entende-se: o que é seu, o que lhe pertence, o que lhe é devido.

 

 

Actos justos

Seguidamente, S. Tomás debruça-se sobre actos justos. Vê neles três elementos essenciais: o devido, a alteridade e uma igualdade proporcional.

Ao tratar da justiça e misericórdia de Deus, a propósito de uma objecção S. Tomás reconhece que “acto de justiça é dar o devido[7].

Pelo seu lado, para Cícero, “justiça é a razão pela qual se mantém a sociedade humana e a vida comum” [8]. Dito de outro modo: a justiça é imprescindível para a vida pacífica em sociedade. Para isso, a justiça inclina a ser rectas (conformes com a razão) as relações entre as pessoas ou entre as pessoas e a sociedade, para uma convivência pacífica: é a alteridade [9].

Por outro lado, S. Ambrósio afirma que “justiça é a que dá a cada um o que lhe pertence, não reclama o alheio, e menospreza o interesse próprio para salvaguardar o interesse comum” [10]. Para haver justiça, na relação entre as pessoas ou entre as pessoas e a sociedade, deve existir uma certa igualdade, uma igualdade proporcional. O que é devido segundo essa igualdade proporcional diz-se que lhe pertence, que é seu; portanto, o acto próprio da justiça é dar a cada um o que é seu [11].

 

Divisão da justiça

Segundo os termos das relações de justiça, S. Tomás distingue entre uma justiça geral e uma justiça particular. A primeira – também chamada legal, porque é expressa habitualmente pelas leis – ordena as relações entre as pessoas e a sociedade [12]; a segunda, entre as pessoas entre si [13].

A justiça geral é mais excelente que a justiça particular, pois o bem comum tem preeminência sobre o bem particular [14].

Num caso e no outro, segundo o Aquinate, as relações ordenadas pela justiça são as coisas e as acções exteriores, não as relações interiores, como pensamentos, sentimentos ou desejos [15].

Note-se que aqui não se fala das relações entre a sociedade e as pessoas. Mas S. Tomás considera que a justiça particular ordena as relações com as pessoas, quer por parte de outras pessoas, quer por parte da sociedade: no primeiro caso é a justiça comutativa, no segundo caso, a justiça distributiva. São duas espécies de justiça particular [16].

Ele também trata destas duas espécies na questão Sobre a justiça e a misericórdia de Deus, quando se pergunta: Em Deus há justiça? [17].

“Há duas espécies de justiça. Uma consiste em dar e receber mutuamente, como comprar e vender (…). Aristóteles chama-lhe justiça comutativa (…). Esta justiça não corresponde a Deus, porque «Quem lhe deu primeiro para que Ele tenha de devolver?» (Rom 11, 35). A outra consiste na distribuição e é chamada justiça distributiva, pela qual o chefe dá a cada um segundo a sua dignidade. (…) Como diz o Pseudo-Dionísio, assim Deus dá a cada um o que lhe corresponde segundo a sua dignidade, e conserva cada natureza na sua própria ordem e virtude” [18].

Portanto, segundo S. Tomás há três espécies de justiça: entre as pessoas entre si (justiça comutativa), entre a sociedade e as pessoas (justiça distributiva) e entre as pessoas e a sociedade (justiça geral ou legal).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, Livro V: Sobre a justiça.

[2] Summa Theologica, II-IIae, qq. 57-122.

[3] ULPIANO: Iustitia est constans et perpetua voluntas jus suum unicuique tribuens (Digesto, I, 1, 10) – citado em S. Th., II-IIae, q. 58, a. 1, ad 1.

[4] ARISTÓTELES, Ética a Nicómaco, Livro V, cap. 5, n. 17 – citado em S. Th., II-IIae, q. 58, a. 1.

[5] “Cum enim omnis virtus sit habitus qui est principium boni actus, necesse est quod virtus definiatur per actum bonum circa propriam materiam virtutis. Est autem iustitia circa ea quae ad alterum sunt sicut circa propriam materiam, ut infra (a. 2 et 8) patebit. Et ideo actus iustitiae per comparationem ad propriam materiam et obiectum tangitur cum dicitur, ius suum unicuique tribuens, quia, ut Isidorus dicit, in libro Etymol., iustus dicitur quia ius custodit” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 1).

[6] “Iustitia est habitus secundum quem aliquis constanti et perpetua voluntate ius suum unicuique tribuit” (ibidem).

[7] “Praeterea, actus iustitiae est reddere debitum” (S. Th., I, q. 21, objectio 3).

[8] “Sed contra est quod Tullius dicit, in I de Offic. (c. 7), quod iustitiae ea ratio est qua societas hominum inter ipsos, et vitae communitas continetur. Sed hoc importat respectum ad alterum. Ergo iustitia est solum circa ea quae sunt ad alterum” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 2, sed contra).

[9] “Cum autem iustitia de sui ratione importet quandam rectitudinem ordinis, dupliciter accipi potest. Uno modo, secundum quod importat ordinem rectum in ipso actu hominis. Et secundum hoc iustitia ponitur virtus quaedam, sive sit particularis iustitia, quae ordinat actum hominis secundum rectitudinem in comparatione ad alium singularem hominem; sive sit iustitia legalis, quae ordinat secundum rectitudinem actum hominis in comparatione ad bonum commune multitudinis; ut patet in V Ethic.” (S. Th., I-IIae, q. 113, a.1) – invocado em S. Th., II-IIae, q. 58, a. 2).

[10] “Sed contra est quod Ambrosius dicit, in I De Offic.[De officiis ministrorum, I, c. 24, n. 115], iustitia est quae unicuique quod suum est tribuit, alienum non vindicat, utilitatem propriam negligit ut communem aequitatem custodiat” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 11, sed contra).

[11] “Respondeo dicendum quod, sicut dictum est, materia iustitiae est operatio exterior secundum quod ipsa, vel res qua per eam utimur, proportionatur alteri personae, ad quam per iustitiam ordinamur. Hoc autem dicitur esse suum uniuscuiusque personae quod ei secundum proportionis aequalitatem debetur. Et ideo proprius actus iustitiae nihil est aliud quam reddere unicuique quod suum est” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 11).

[12] “Respondeo dicendum quod iustitia, sicut dictum est (a. 2), ordinat hominem in comparatione ad alium. Quod quidem potest esse dupliciter. Uno modo, ad alium singulariter consideratum. Alio modo, ad alium in communi, secundum scilicet quod ille qui servit alicui communitati servit omnibus hominibus qui sub communitate illa continentur. Ad utrumque igitur se potest habere iustitia secundum propriam rationem. Manifestum est autem quod omnes qui sub communitate aliqua continentur comparantur ad communitatem sicut partes ad totum. Pars autem id quod est totius est, unde et quodlibet bonum partis est ordinabile in bonum totius. (…) Et quantum ad hoc iustitia dicitur virtus generalis. Et quia ad legem pertinet ordinare in bonum commune, ut supra (I-IIae, q. 90, a. 2) habitum est, inde est quod talis iustitia, praedicto modo generalis, dicitur iustitia legalis, quia scilicet per eam homo concordat legi ordinanti actus omnium virtutum in bonum commune” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 5).

[13] Respondeo dicendum quod, sicut dictum est, iustitia legalis non est essentialiter omnis virtus, sed oportet praeter iustitiam legalem, quae ordinat hominem immediate ad bonum commune, esse alias virtutes quae immediate ordinant hominem circa particularia bona. Quae quidem possunt esse vel ad seipsum, vel ad alteram singularem personam. Sicut ergo praeter iustitiam legalem oportet esse aliquas virtutes particulares quae ordinant hominem in seipso, puta temperantiam et fortitudinem; ita etiam praeter iustitiam legalem oportet esse particularem quandam iustitiam, quae ordinet hominem circa ea quae sunt ad alteram singularem personam” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 7).

[14] “Respondeo dicendum quod si loquamur de iustitia legali, manifestum est quod ipsa est praeclarior inter omnes virtutes morales, inquantum bonum commune praeeminet bono singulari unius personae” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 12).

[15] “Respondeo dicendum quod omnia quaecumque rectificari possunt per rationem sunt materia virtutis moralis, quae definitur per rationem rectam, ut patet per philosophum, in II Ethic. Possunt autem per rationem rectificari et interiores animae passiones, et exteriores actiones, et res exteriores quae in usum hominis veniunt, sed tamen per exteriores actiones et per exteriores res, quibus sibi invicem homines communicare possunt, attenditur ordinatio unius hominis ad alium; secundum autem interiores passiones consideratur rectificatio hominis in seipso. Et ideo, cum iustitia ordinetur ad alterum, non est circa totam materiam virtutis moralis, sed solum circa exteriores actiones et res secundum quandam rationem obiecti specialem, prout scilicet secundum eas unus homo alteri coordinatur” (S. Th., II-IIae, q. 58, a. 8).

Convinha, no entanto, aprofundar este ponto, pois, à primeira vista, parece que há actos interiores (por ex., pensar mal, querer mal, invejar) que são injustos, mesmo que não tenham repercussões externas, porque são abrangidos pelo princípio “não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”.

[16] “Respondeo dicendum quod, sicut dictum est (q. 58, a. 7), iustitia particularis ordinatur ad aliquam privatam personam, quae comparatur ad communitatem sicut pars ad totum. Potest autem ad aliquam partem duplex ordo attendi. Unus quidem partis ad partem, cui similis est ordo unius privatae personae ad aliam. Et hunc ordinem dirigit commutativa iustitia, quae consistit in his quae mutuo fiunt inter duas personas ad invicem. Alius ordo attenditur totius ad partes, et huic ordini assimilatur ordo eius quod est commune ad singulas personas. Quem quidem ordinem dirigit iustitia distributiva, quae est distributiva communium secundum proportionalitatem. Et ideo duae sunt iustitiae species, scilicet commutativa et distributiva” (S. Th., II-IIae, q. 61, a. 1).

[17] “Utrum in Deo sit iustitia” (S. Th., I, q. 21, a.1, tit.).

[18]Respondeo dicendum quod duplex est species iustitiae. Una, quae consistit in mutua datione et acceptione, ut puta quae consistit in emptione et venditione, et aliis huiusmodi communicationibus vel commutationibus. Et haec dicitur Philosopho, in V Ethic. (c. 4, n. 1), iustitia commutativa, vel directiva commutationum sive communicationum. Et haec non competit Deo, quia, ut dicit Apostolus, Rom. XI, quis prior dedit illi, et retribuetur ei? Alia, quae consistit in distribuendo, et dicitur distributiva iustitia, secundum quam aliquis gubernator vel dispensator dat unicuique secundum suam dignitatem. Sicut igitur ordo congruus familiae, vel cuiuscumque multitudinis gubernatae, demonstrat huiusmodi iustitiam in gubernante; ita ordo universi, qui apparet tam in rebus naturalibus quam in rebus voluntariis, demonstrat Dei iustitiam. Unde dicit Dionysius, VIII, cap. De Div. Nom., oportet videre in hoc veram Dei esse iustitiam, quod omnibus tribuit propria, secundum uniuscuiusque existentium dignitatem; et uniuscuiusque naturam in proprio salvat ordine et virtute” (S. Th., I, q. 21, a.1).

 


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