Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

08 de Dezembro de 2018

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Ditosa Virgem cheia de Graça, J. Santos, NRMS 75

 

Is 61, 10

Antífona de entrada: Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu com o manto da justiça, como esposa adornada com suas jóias.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Em pleno coração do Advento, celebramos a solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Esta celebração não interrompe nem nos distrai do tempo que estamos a viver. Maria é o sinal da proximidade de Deus que nos vem salvar. Viveu connosco mais intensamente esta espera da vinda de Jesus, nos nove meses em que o seu corpo imaculado foi sacrário de Deus.

Ela é o sinal e a promessa da vitória que nos está prometida ma luta contra o poder das trevas, porque a sua vitória sobre a serpente está prometida por Deus.

 

Acto penitencial

 

Todas as vezes que pecamos ou arrastamos os outros para longe de Deus, pelo pecado, vezes, não combatemos ao lado de Maria.

Manifestemos ao Senhor o nosso arrependimento, com um generoso desejo de emenda de vida.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

Confessemos os nossos pecados...

Senhor, tende piedade de nós!...

Glória a Deus nas alturas!

 

Oração colecta: Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparastes para o vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes de toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Depois da queda dos nossos primeiros pais, o Senhor vem ao seu encontro como medico divino, para os ajudar a tomar consciência do que tinha acontecido e lhes prometer a Redenção.

Maria Imaculada aparece aqui misteriosamente revelada na figura da Mulher que esmagará a cabeça da serpente infernal, para que A invoquemos cheios de confiança filial.

 

Génesis 3, 9-15.20

9Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». 10Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». 11Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». 12Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor 13Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». 14Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. 15Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar». 20O homem deu à mulher o nome de «Eva», porque ela foi a mãe de todos os viventes.

 

A leitura é extraída do segundo bloco do livro do Génesis, que vai do v. 4b do capítulo 2 até ao fim do capítulo 4, que os estudiosos atribuem à chamada «tradição javista», onde se encontra a narrativa da criação do homem e da mulher, do pecado dos primeiros pais com as suas consequências e da continuidade da vida humana marcada pelo pecado. É evidente que esta narrativa não é um relato jornalístico, pois tudo é descrito numa linguagem simbólica, muito expressiva e densa; a narrativa coloca o leitor perante realidades transcendentes que dizem respeito ao «ser humano» – o adam –, o homem de todos os tempos. O autor sagrado, que deu forma definitiva e inspirada ao Pentateuco, quis dar-nos um panorama coerente da história da salvação – que arranca da eleição divina e se concretiza na aliança e nas promessas de salvação – desenvolvendo-se por etapas correspondentes a um maravilhoso projecto divino, a que não escapa o enigma das origens.

Se perdêssemos de vista este plano divino, que conhecemos pela Revelação, a curiosidade científica poderia levar-nos a ficar atolados nos aspectos arqueológicos e episódicos, como poderia suceder a alguém que, para estudar um monumento antigo, se ficasse no estudo das pedras e na análise dos materiais de construção; por mais científica que fosse a sua análise, ficaria sem se aperceber da harmonia do conjunto, do significado histórico desse monumento e da sua verdade mais profunda. A doutrina da Igreja sobre o pecado original, de que Maria foi isenta por singular privilégio, não se fundamenta na narrativa do Génesis; muito menos se pode partir do estudo das fontes do Génesis para negar a existência desse pecado (uma ridícula ingenuidade, além do mais); a doutrina da fé encontra a sua sólida base na obra redentora de Cristo e nos ensinamentos do Novo Testamento, nomeadamente de S. Paulo; no entanto, a fé projecta grande luz sobre esta narrativa simbólica das origens.

10 «Tive medo porque estava nu; e então escondi-me». Deste modo se descreve, com fina psicologia, o sentimento de culpabilidade e de vergonha que não podia deixar de ser estranho ao primeiro pecado e igualmente ao pecado de todo aquele que não empederniu a sua consciência; esta, que antes de pecar era o aviso de Deus, toma-se depois uma premente censura. Este dar conta da própria nudez parece também indicar, por um lado, a enorme frustração de quem, ao pecar, em vão tinha tentado «ser igual a Deus» e, por outro lado, sugere o descontrolo das tendências instintivas (a concupiscência): depois do primeiro pecado, sentem-se dominados por movimentos e apetites contrários à razão, que tentam esconder (v. 7).

Não resistimos a citar algumas palavras da profunda reflexão antropológica de João Paulo II, nas audiências gerais de Maio de 1980: «Por meio destas palavras (v. 10) desvela-se certa fractura constitutiva no interior da pessoa humana, quase uma ruptura da original unidade espiritual e somática do homem. Este dá-se conta pela primeira vez de que o seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais duma específica humilhação comunicada pelo corpo. (...) O corpo não está sujeito ao espírito como no estado da inocência original, tem em si um foco constante de resistência ao espírito e ameaça de algum modo a unidade do homem pessoa. (...) A concupiscência, em particular a concupiscência do corpo, é ameaça específica à estrutura da auto-posse e do autodomínio, por meio do qual se forma a pessoa humana».

14 «Hás-de rastejar e comer do pó da terra». Na narrativa, a sentença é dada primeiro contra a serpente, a primeira a fazer mal. Ninguém pense que o autor quer insinuar que dantes as cobras tinham patas: a sentença é proferida contra o demónio tentador; a expressão designa uma profunda humilhação (cf. Salm 71(72), 9; Is 49, 23; Miq 7, 17), infligida contra o demónio, que é o sentenciado, não as serpentes (cf. Apoc 12, em especial os vv. 9 e 17).

15 «Esta te esmagará a cabeça». Todo o versículo constitui o chamado Proto-Evangelho, o primeiro anúncio da boa nova da salvação que se lê na Bíblia. Não se limita esta passagem a anunciar o estado de guerra permanente entre as potências diabólicas – «a tua descendência» – e toda a Humanidade – «a descendência dela». É sobretudo uma vitória que se anuncia. Note-se que essa vitória é expressada não tanto pelo verbo, que no original hebraico é o mesmo para as duas partes em luta (xuf – na Nova Vulgata conterere), mas sim pela parte do corpo atingida nessa luta: a serpente será atingida na cabeça (ferida mortal, daí a tradução «esmagará»), ao passo que a descendência será apenas atingida no calcanhar (ferida leve, daí a tradução «atingirás»).

Mas, pergunta-se, a quem é que designa o pronome «esta» (v. 15)? Segundo o original hebraico, podia ser a descendência da mulher. A verdade, porém, é que esta descendência pecadora fica incapacitada para, por si, vencer o demónio e o pecado em que se precipitara. Assim, o tradutor grego da Septuaginta (inspirado?) referiu o dito pronome ao Messias (traduzindo-o na forma masculina, designando um indivíduo, autós, em vez da forma neutra (designando uma colectividade), autó, referindo este pronome a descendência, (que em grego se diz com a palavra neutra, sperma); esta tradução visava pôr em evidência que quem vence o pecado e o demónio é Ele, o Messias. A tradição cristã, e com ela a tradução da Vetus Latina seguida pela Vulgata, ao traduzir o pronome pelo feminino, ipsa, aplicou este texto à Virgem Maria, explicitando um sentido (chamado eminente), que entreviu nesta passagem (se quisesse designar a descendência – semen – teria empregado o neutro ipsum, e não ipsa).

Eis como se costuma explicar o sentido mariano da passagem: a vitória é prometida à descendência de Eva, mas quem faz possível essa vitória é Jesus Cristo, com a sua obra redentora. Assim, unidos a Cristo, todos somos vencedores, mas Maria é a vencedora de um modo eminente, porque Mãe do Redentor e Mãe de toda a comunidade dos redimidos, a Igreja. O próprio contexto facilita esta referência a Maria: é que, contra tudo o que era de esperar, a profecia aparece dita a Eva, e não a Adão. Segundo o ensino da Igreja (cf. Bula «Ineffablis Deus» do Beato Pio IX), esta vitória de Maria sobre o demónio, inclui a perfeita isenção de toda a espécie de mancha do pecado, incluindo o original.

 

Salmo Responsorial     Sl 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. Ia)

 

Monição: Maria Imaculada, eleita para Mãe do redentor, é a maior das maravilhas de entre todos os seres que o Senhor criou.

O Espírito Santo convida-nos a entoar um cântico de louvor ao Altíssimo, por nos ter dado este tesouro de inefável valor que, para mais, é também nossa Mãe.

 

Refrão:        Cantai ao Senhor um cântico novo:

o Senhor fez maravilhas.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

 

Segunda Leitura

 

Efésios 1, 3-6.11-12

3Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. 4N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. 5Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, 6para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. 11Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, 12para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo.

 

Este início da epístola aos Efésios de que é extraída a leitura tem o aspecto de um hino litúrgico e é uma das mais ricas sínteses doutrinais paulinas.

3 «Em Cristo». Toda a graça – «bênçãos espirituais» – que Deus concede ao homem, após o pecado original, incluindo a Imaculada Conceição da Virgem Maria, é concedida pela mediação de Cristo e através da união com Ele.

4-5 «Santos». «Filhos». O objectivo desta eleição eterna de Deus é «sermos santos», isto é, destacados do profano e pecaminoso para servir ao culto e glória divina: «diante d’Ele», isto é, na presença de Deus; estamos chamados a estar sempre diante de Deus para O glorificar a partir de tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos, como ensina o Concílio Vaticano II: «Todos os cristãos são, pois, chamados e devem tender à santidade e perfeição do próprio estado» (LG 42). A santidade está em sermos «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4; Rom 12, 1), sendo filhos de Deus e vivendo como tais, imitando a Cristo, o Filho de Deus por natureza (cf. Rom 8, 15-29; Gal 4, 5-7; 1 Jo 3, 1-3). E o modelo humano mais perfeito de santidade é Maria.

A expressão «santos e irrepreensíveis» faz pensar nas vítimas oferecidas a Deus no Antigo Testamento (cf. Lv 20, 20-22), insinuando-se assim o carácter oblativo e sacrificial de toda a vida do cristão (cf. 1 Pe 2, 5), bem como a perfeição que devemos pôr em tudo o que fazemos, demais que não se trata duma pureza meramente exterior e ritual, mas de um culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23), «na sua presença» (de Deus) «que examina os rins e o coração» (Salm 7, 10), isto é, que perscruta o que há de mais íntimo no homem, a sua consciência, afectos e intenções.

 

Aclamação ao Evangelho          Lc 1, 28

 

Monição: Com as palavras do Arcanjo S, Gabriel, glorifiquemos Maria Imaculada e aclamemos o Evangelho da nossa Salvação.

Que Ele nos ajude a acolher com amor e reverência e a levar à vida a Palavra de Deus que vai ser proclamada.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação ao Evangelho-1, F. Silva, NRMS 50-51

 

Avé-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,

bendita sois Vós entre as mulheres.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

A cena da Anunciação, narrada com toda a simplicidade, tem uma singular densidade, pois encerra o mistério mais assombroso da História da Salvação, a Incarnação do Filho eterno de Deus. Assim, a surpresa do leitor transforma-se em encanto e deslumbramento. O próprio paralelismo dos relatos lucanos do nascimento de João e de Jesus, revestem-se dum contraste deveras significativo: à majestade do Templo e grandiosidade de Jerusalém contrapõe-se a singeleza duma casa numa desconhecida e menosprezada aldeia de Galileia; ao afã dum casal estéril por ter um filho, opõe-se a pureza duma virgem que renunciara à glória de ser mãe; à dúvida de Zacarias, a fé obediente de Maria!

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo do grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêem na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria messiânica da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria, correspondendo a: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Nova Vulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois n’Ela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, como Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo, que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício redaccional, e também o «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos, mas renunciando a consumar a união; nem todos os estudiosos, porém, assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia da Difusora Bíblica): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem um fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Nova Vulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois aquilo que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este sintagma, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus, que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus (M. Orsatti).

Apraz-nos citar aqui as palavras de S. João Damasceno sobre Nª Senhora: «Ela é descanso para os que trabalham, consolação dos que choram, remédio para os doentes, porto de refúgio para as tempestades, perdão para os pecadores, doce alívio dos tristes, socorro dos que rezam».

 

Sugestões para a homilia

 

• Maria Imaculada, promessa de bênção

A tragédia do pecado

Um engano dramático

Maria, sinal da bondade de Deus

• Deus revela-nos a Imaculada

A Cheia de graça

O convite de Deus

A resposta de Maria

 

1.  Maria Imaculada, promessa de bênção

 

a) A tragédia do pecado. «Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me”. Disse Deus: “Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?”»

O pecado dos nossos primeiros pais – chamamos-lhe pecado original, porque aconteceu nas origens – teve graves consequências para Adão e para os seus descentes que somos todos nós.

O pecado é desobediência. Todo o pecado, grave ou leve, implica uma desobediência à vontade de Deus, em recusar-se a fazer a Sua vontade santíssima. O Senhor quis que esta verdade ficasse explícita no texto do Génesis: «Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o [...]» Perguntou-lho também diretamente, para ouvir a sua confissão da culpa: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?»

A desobediência concretiza-se em não fazer o que Deus quer ou em fazer o que Deus não quer. Há pecados por omissão e por comissão. Aqui, Adão e Eva fizeram o que Deus tinha proibido.

Medo de Deus. Pela graça santificante, Adão e Eva tinham sido constituídos filhos de Deus. A filiação divina é a nossa maior riqueza e dá origem a o amor e confiança entre nós e Deus. Ele não quer ser temido, mas amado.

Ao perder a filiação divina, toda a confiança e harmonia que eram próprias da nossa condição, se perdeu, para reinar o medo de Deus. «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, [...] tive medo e escondi-me».

Nudez completa.  Adão toma consciência de que estão os dois nus.  «como estava nu,» Pode não se referir à nudez física ou, pelo menos, não exclusivamente a ela, mas, sobretudo, à nudez espiritual. O pecado despojou-os de toda a riqueza da graça santificante com todas as consequências: a filiação divina, os dons preternaturais…

Quebra da comunhão. Adão acolheu Eva com palmas de júbilo, quando ela lhe foi apresentada por Deus. Agora acusa-a de ter a culpa desta situação desgraçada. Rompeu-se a comunhão entre os dois.

Todas as guerras e desavenças entre as pessoas têm origem no primeiro pecado dos nossos primeiros pais.

Reconhecimento da culpa. Sem este passo de humildade, reconhecendo o mal feito, a conversão não se dá. Por isso, com divina delicadeza, o Senhor ajuda Adão e Eva e tomarem consciência da gravidade do que tinha acontecido.

Perda do Céu. Depois do pecado, Adão e Eva foram expulsos do Éden e um anjo com uma espada de fogo guardava a entrada. (Cfr Génesis 3:22,23).

 

b) Um engano dramático. «O Senhor Deus perguntou à mulher: “Que fizeste?” E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi”.»

Deus começa a inquirir o que se passou, a começar por Adão e a terminar na sentença contra o demónio, figurado na serpente.

À pergunta do Senhor, Eva confessa que foi enganada pelo demónio, pois lhe prometeu que seriam como deuses, conhecendo o bem e o mal, se transgredissem a ordem dada pelo Senhor: «A serpente enganou-me e eu comi».

A desconfiança de Deus. Eva começa por desconfiar de Deus. Afinal, “Ele não é tão amigo como parece, porque me impede de ser feliz!”

O filho pródigo também se deixou enganar. Achava que o pai, com as suas leis familiares, o impedia de ser inteiramente feliz. Quis, por isso, construir por conta própria a sua felicidade.

O resultado foi ver-se reduzido ao maior vexame a que pode ser submetido um judeu: guardador de porcos, o animal imundo que não podiam tocar nem muito menos comer.

Tinha uma fome insuportável e queria participar na refeição destes animais, mas nem isso lhe era permitido.

Todo o pecado começa como uma desconfiança de Deus. A Inimigo leva-nos a pensar que cada mandamento da Lei de Deus é um muro levantado entre nós e a felicidade total.

A mentira do pecado. Adão e Eva foram enganados, e o filho pródigo também. Não há felicidade verdadeira quando estamos de costas voltadas para Deus.

Ao promotor do pecado no mundo – o demónio – Jesus chama no Evangelho “o Pai da Mentira” e S. João Evangelista diz que ele é mentiroso.

É um Inimigo com quem não se deve dialogar porque, esperto como é, e com inteligência muito superior à nossa, acaba por nos levar ao engano.

 

c) Maria, sinal da bondade de Deus. «Disse então o Senhor Deus à serpente: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”.»

Maria aparece no Génesis, num momento dramático da história dos homens, como sinal da misericórdia de Deus. Ele não vem ao encontro dos nossos primeiros pais para repreender e castigar, mas para oferecer um generoso perdão.

Na profecia. No Génesis, Maria é apresentada como a vencedora do Dragão. Esmagar a cabeça é, na linguagem bíblica, reduzir o Inimigo à suprema humilhação.

Em Isaías, a profecia da Virgem que conceberá e dará à luz aparece como um sinal de esperança para o rei Acaz.

No Evangelho. Em Caná da Galileia vem salvar os recém-casados de uma situação embaraçosa, alcançando de Jesus a transformação da água em vinho. Jesus explica-lhe que ainda não chegara a hora de começar a revelar-Se claramente pelos milagres, mas, em atenção ao que a Mãe pedia, fez o milagre.

Na história da Igreja. Nossa Senhora manifesta-se invariavelmente em momentos aflitivos para a vida da Igreja: Antes da batalha de Lepanto, a Europa e a Igreja estão num beco sem saída, porque

Quando a Imaculada aparece em Lurdes, quatro anos depois da definição dogmática desta verdade de fé, a França e, como ela, a Europa e o mundo cristão sofrem um assalto do Inimigo, com o racionalismo. Nele se proclama a superioridade da razão sobre a fé. O homem está orgulhoso da sua inteligência. Maria vem ajudar-nos a retomar os caminhos da humildade e da fé.

As aparições de Fátima acontecem quando o marxismo dialético, seguido pela Rússia, uma das grandes potências do mundo, ameaçava tornar cada nação numa prisão à escala das suas fronteiras, ao mesmo tempo que se convidava o homem a construir um paraíso na terra, certo de que não havia a esperar uma eternidade feliz. Com três humildes crianças, Maria derruba os muros que escravizavam e faz da Cova da Iria o seu lugar de encontro com muitas pessoas atribuladas, para lhes valer.

Repetimos com S. João II, num diálogo com um Bispo: “Mas Ela vencerá!”

 

2. Deus revela-nos a Imaculada

 

a) A Cheia de graça. «Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela

S. Lucas evangelista começa por nos dizer que o nome da Virgem da Anunciação “era Maria”.

Não a trata por este nome o Arcanjo S. Gabriel, mas saúda-A com o nome de “Cheia de Graça”. Como se fora o seu nome próprio.

Imaculada Conceição. Em toda a história da Salvação, quando Deus chama alguém a uma nova missão, assumindo uma nova personalidade, muda-lhe o nome. Abrão passa a chamar-se Abraão, quando é chamado a ser “pai dos crentes.” Jesus muda o nome de Simão para Pedro, quando o chama a ser o Chefe visível da Igreja.

Mas há uma outra riqueza no tratamento do Arcanjo: “Cheia de Graça” proclama uma verdade consoladora que ele quer recordar à Virgem de Nazaré: Maria é a Imaculada Conceição, porque nunca esteve privada da graça santificante, desde o primeiro momento da sua existência. Não pode ter mais graça do que a que tem, porque nunca esteve privada dela.

Mãe de Deus. Ao mesmo tempo, na sequência do diálogo, explica-lhe a razão deste privilégio singular de ter sido preservada da mácula original e cheia e graça desde a sua conceição: Deus escolheu-A para Mãe do Redentor.

Como teria permitido Jesus, Seu Filho virginal, que Ele, Sua Mãe, pudesse ter estado submetida ao seu maior inimigo que é o Demónio?

Deus quis assim. Pode dizer-se que no mistério da Imaculada, os fiéis partiram da fé para encontrar uma explicação teológica. Em plena Idade Média, o Beato João Duns Scoto, sacerdote franciscano da Escócia (1286-1308) assim raciocinava: Deus podia ter criado Maria Imaculada; convinha que o fizesse, para que não estivesse nem um só instante submetido ao império do demónio; portanto, fê-lo.

E, desde então, os fiéis nunca cessaram de proclamar a Imaculada Conceição de Maria, até que a Igreja proclamou esta verdade como fazendo parte do depósito da fé.

 

b) O convite de Deus. «Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”.»

Não temas. Maria não tem medo de Deus, como Adão e Eva que se esconderam, à Sua aproximação.

Manifesta-se, porém, o dom do temor de Deus, a intuição da Sua infinita majestade que desperta na alma sentimentos adoração e humildade.

Estas mesmas palavras foram ditas por Jesus no Cenáculo, no dia de Páscoa, quando apareceu glorioso aos apóstolos e discípulos.

Maria repete esta mesma recomendação aos Pastorinhos de Fátima, não porque lhes infundisse qualquer receio, mas para os deixar à vontade neste encontro com o sobrenatural.

O mistério da Incarnação. O Arcanjo manifesta à Virgem de Nazaré que foi escolhida pelo Altíssimo para ser verdadeira Mãe de Jesus. Conceber e dar à luz são as duas grandes missões de uma mãe.

Pelas palavras do Anjo, Nossa Senhora compreende que Deus a escolheu para ser a Mãe do Messias prometido aos Patriarcas e Profetas e por Quem todos suspiram. S. Gabriel vai lembrando frases que são outras tantas promessas ao longo do Antigo Testamento: «Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”.»

Na linguagem bíblica, ser chamado é o mesmo que ser de verdade. O Filho de Maria é Filho de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que assume a nossa natureza humana da carne de Maria e, por isso, também verdadeiro homem.

A procura da vontade de Deus. Imaginamos Nossa Senhora neste momento único da sua vida terrena em silencio, profundamente recolhida, procurando medir toda a profundidade e altura das palavras de Deus que o Mensageiro celeste lhe transmite. Deseja apenas assumir responsavelmente o convite que o Senhor lhe dirige, para responder com generosidade.

Não são momentos de dúvida os que vive agora, mas de aprofundamento do grande mistério lhe foi confiado. Maria já aceitou plenamente o que Deus quer, mas precisa de saber como há-de realizar a sua vontade.

 

c) A resposta de Maria. «Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?». O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. [...]” Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”.»

O Céu e a terra param, à espera do consentimento de Maria. Deus manifesta-nos os Seus maravilhosos planos, mas respeita divinamente a nossa liberdade pessoal.

Qual a vontade de Deus? Maria quer saber com precisão o que Deus quer d’Ela. É inocente, mas não ingénua. Ela sabe perfeitamente que há dois caminhos para a mulher um dos quais deve escolher: virgem e mãe.

As palavras que vai proferir deixam entrever que Ela, guiada pelo Espírito Santo, tinha já assumido uma decisão: permanecer virgem toda a sua vida. Se não existisse anteriormente este compromisso com Deus, a sua pergunta não faria qualquer sentido.

Tudo aponta para que Maria, noiva de José, tenha aliciado o futuro marido para um matrimónio virginal e que ele terá aceitado com alegria este projeto de amor.

Esta decisão é admirável no tempo da sua vida terrena, porque a virgindade por amor do Reino dos Céus eram um caminho desconhecido. Toda a mulher aspirava a constituir família e a receber, depois, o dom dos filhos.

Virgem ou Mãe? A pergunta que faz pode resumir-se nisto: Deus quer que eu permaneça virgem ou seja mãe. Naturalmente, estes dois caminhos eram e são incompatíveis. Ela não tem preferências nem apegos. Quer apenas fazer em tudo e sempre a vontade de Deus e espera apenas uma resposta para o fazer.

O Arcanjo S. Gabriel dá-lhe uma resposta única em toda a história da salvação: Maria será Mãe sem deixar de ser Virgem. Não conceberá pela entrega a um homem, mas pela força do Espírito Santo.

Faça-se! Maria não perde um momento deste encontro ditoso Logo que sabe qual é a vontade de Deus a seu respeito, responde com generosidade: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra

A entrega plena de Maria à vontade de Deus é a resposta mais perfeita que pode dar ao privilégio singular da sua Imaculada Conceição.

De algum modo, em cada Missa celebrada, jesus; Deus e Homem, torna-Se presente sobre o altar, pela transubstanciação.

Que Maria Imaculada nos ensine e ajude a acolher Jesus na Sagrada Comunhão com a mesma fé, generosidade e amor com que Ela o acolheu no momento da Anunciação.

 

Fala o Santo Padre

 

«A Imaculada Conceição significa que Maria foi a primeira a ser salva pela misericórdia infinita do Pai,

como primícia da salvação que Deus quer conceder a cada homem e mulher, em Cristo.»

Hoje, a solenidade da Imaculada leva-nos a contemplar Nossa Senhora que, graças a um privilégio singular, foi preservada do pecado original desde a sua concepção. Não obstante tenha vivido no mundo marcado pelo pecado, não foi atingida por ele: Maria é nossa irmã no sofrimento, mas não no mal nem no pecado. Aliás, nela o mal foi derrotado antes ainda de a ter tocado, porque Deus a encheu de graça (cf. Lc 1, 28). A Imaculada Conceição significa que Maria foi a primeira a ser salva pela misericórdia infinita do Pai, como primícia da salvação que Deus quer conceder a cada homem e mulher, em Cristo. Por isso, a Imaculada tornou-se ícone sublime da misericórdia divina que venceu o pecado […].

Na concepção imaculada de Maria somos convidados a reconhecer a autora do mundo novo, transformado pela obra salvífica do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A aurora da nova criação levada a cabo pela misericórdia divina. Por isso a Virgem Maria, nunca contagiada pelo pecado e sempre repleta de Deus, é mãe de uma nova humanidade. É mãe do mundo criado de novo.

Celebrar esta festividade exige dois elementos. Primeiro: receber plenamente Deus e a sua graça misericordiosa na nossa vida. Segundo: tornar-nos, por nossa vez, artífices de misericórdia mediante um caminho evangélico. Então, a solenidade da Imaculada torna-se a festa de todos nós se, com o nosso «sim» quotidiano, conseguirmos vencer o nosso egoísmo e tornar mais jubilosa a vida dos nossos irmãos, dando-lhes esperança, enxugando algumas lágrimas e conferindo um pouco de alegria. À imitação de Maria, somos chamados a tornar-nos portadores de Cristo e testemunhas do seu amor, considerando antes de tudo aqueles que são os privilegiados aos olhos de Jesus. São aqueles que Ele mesmo nos indicou: «Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e acolhestes-me, nu e vestistes-me, enfermo e visitastes-me, estava na prisão e viestes ter comigo» (Mt 25, 35-36).

A hodierna solenidade da Imaculada Conceição tem uma mensagem específica para nos comunicar: ela recorda-nos que na nossa vida tudo é dom, tudo é misericórdia. A Virgem Santa, primícias de quantos foram salvos, modelo da Igreja, esposa santa e imaculada, amada pelo Senhor, nos ajude a descobrir de novo, cada vez mais, a misericórdia divina como sinal distintivo do cristão. Não se pode entender um cristão verdadeiro que não seja misericordioso, do mesmo modo que não se pode compreender Deus sem a sua misericórdia. Eis a palavra-síntese do Evangelho: misericórdia. Trata-se da característica fundamental da Face de Cristo: aquele Rosto que nós reconhecemos nos vários aspectos da sua existência: quando vai ao encontro de todos, quando cura os doentes, quando se senta à mesa com os pecadores e sobretudo quando, pregado na cruz, perdoa; é ali que vemos o semblante da misericórdia divina. Não tenhamos medo: deixemo-nos abraçar pela misericórdia de Deus que nos espera e que perdoa tudo. Nada é mais dócil do que a sua misericórdia. Deixemo-nos acariciar por Deus: o Senhor é deveras bom, Ele perdoa tudo!

Por intercessão de Maria Imaculada, a misericórdia tome posse dos nossos corações e transforme a nossa vida inteira.

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro, 8 de Dezembro de 2015

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos em Maria Santíssima:

Bendigamos a Deus, que, por Maria,

nos enviou do Céu a Sua maior bênção

que fora prometida, desde o princípio,

a nossos pais e aos seus descendentes,

e, por intercessão da Virgem Imaculada,

Mãe de Deus, nossa Mãe e nossa Padroeira,

peçamos (cantando) com alegria:

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

1. Pela santa Igreja, esposa de Cristo, presente em toda a terra,

    para que não se deixe enganar pelo Demónio e seja, santa,

    oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

2. Pelo Papa, nosso Bom Pastor, com o Colégio dos Bispos,

    para que Deus lhes conceda a graça de serem sempre fieis,

    oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

3. Pelos fiéis cristãos do mundo inteiro que são perseguidos,

    para que encontrem na Virgem Imaculada o refúgio seguro,

    oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

4. Pelos jovens das nossas famílias que preparam a sua vida,

    para que o próximo Sínodo dos Bispos os ilumine e ajude,   

    oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

5. Pelas mulheres que estão prestes a dar à luz um filho,

    para que saibam acolher e agradecer a Deus o dom da vida,

    oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

6. Por todos as pessoas da nossa família e relações falecidas,

    para que Deus, por mediação da Imaculada as acolha no Céu,

    oremos, por intercessão de Maria.

 

    Interceda por nós a Virgem Imaculada.

 

Ó Deus e nosso Pai, Criador do Universo

que convocastes e reunistes estes vossos filhos

para celebrarem os louvores da Virgem Imaculada,

fazei que, olhando para Ela, aprendam a imitá-l’A

e a progredir na santidade pessoal e no apostolado.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Imitando Maria Imaculada no mistério da Anunciação, depois e termos acolhido a Palavra de Deus, façamos um esforço para a transformar em vida.

Preparemo-nos para acolher em nosso coração o Filho de Maria concebido por obras do Espírito Santo em seu seio virginal.

Com o pão e o vinho que levamos ao altar, o Senhor Jesus, pelo ministério do sacerdote, vai transubstanciar o pão e o vinho que ofertamos no altar no Seu corpo e Sangue.

 

Cântico do ofertório: Cantai um Cântico Novo, J. Santos, NRMS 10

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai, Senhor, o sacrifício de salvação que Vos oferecemos na solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria e, assim como acreditamos que, por vossa graça, ela foi isenta de toda a mancha, sejamos nós, por sua intercessão, livres de toda a culpa. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

O mistério de Maria e da Igreja

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, e louvar-Vos, bendizer-Vos e glorificar-Vos na Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Vós a preservastes de toda a mancha do pecado original, para que, enriquecida com a plenitude da vossa graça, fosse a digna Mãe do vosso Filho. Nela destes início à santa Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade. Dela, Virgem puríssima, devia nascer o vosso Filho, Cordeiro inocente que tira o pecado do mundo. Vós a destinastes, acima de todas as criaturas, a fim de ser, para o vosso povo, advogada da graça e modelo de santidade.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: «Da Missa de Festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

Em Caná da Galileia, Maria ensina-nos a construir a verdadeira paz, quando recomenda aos serventes de mesa: Fazei tudo o que Ele vos dizer.

Na verdade, o melhor caminho para a paz é procurar em cada momento fazer a vontade do Senhor.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Que Maria Imaculada disponha o nosso coração para recebermos com a menor indignidade possível o Corpo e Sangue do Senhor na Sagrada Comunhão.

Que Ela nos ensine a dizer, neste momento de inigualável felicidade, como Ela na manhã da Anunciação: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».

 

Cântico da Comunhão: É Celebrada a Vossa Glória, F. Santos, NCT nº50

 

Antífona da comunhão: Grandes coisas se dizem de vós, ó Virgem Maria, porque de vós nasceu o sol da justiça, Cristo nosso Deus.

 

 

Oração depois da comunhão: O sacramento que recebemos, Senhor, cure em nós as feridas daquele pecado, do qual, por singular privilégio, preservastes a Virgem Santa Maria, na sua Imaculada Conceição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

O melhor modo de honrarmos e glorificarmos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria é lutar contra o pecado na nossa vida.

Peçamos-lhe, nos momentos de luta espiritual que nos ajude a vencer a serpente infernal que nos quer arrastar para longe de Deus.

 

Cântico final: Gloriosa Rainha do Mundo, C. Silva, NRMS 75

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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