TEMAS LITÚRGICOS

Sursum corda. Corações ao alto

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

Numa visita a Barcelona, organizada por um grupo de estudantes universitários, tive a oportunidade de entrar na Igreja de Santa Maria do Mar, um templo gótico de rara beleza dedicado a 15 de agosto de 1384. Entre esses jovens alguns não eram praticantes e, inclusive, havia outros que se dizem não crentes. Dei por mim a apreciar a beleza do presbitério desta Igreja monumental rodeado, precisamente, por alguns destes rapazes. Extasiado com aquela beleza e entusiasmado com a linguagem da arquitetura, comecei a explicar-lhes o porquê de tudo aquilo.

- Reparem para onde vos foge o olhar: para o alto.

Rodeando o altar, compondo um semicírculo, dez esbeltas colunas octogonais subiam em direção ao céu. O olhar perde-se. São altíssimas![1] Bem lá no cimo, ao nível das janelas, das colunas nasciam uns arcos que, vistos de baixos, pareciam a continuação das mesmas. E todas se uniam num ponto. O ponto central do presbitério.

- Já viram o que se encontra exatamente por baixo daquele ponto?

Os olhares desceram até se colocarem sobre o altar.

- Vejam o que o arquiteto nos quer transmitir: que quando o sacerdote, no altar, diz as palavras que o Senhor nos mandou repetir na última Ceia, o Céu une-se à terra.

O olhar daqueles jovens percorreu de alto a baixo a distância entre o altar e o altíssimo ponto no teto da igreja.

- Estão a ver? A verticalidade da construção transmite-nos claramente esta mensagem: vimos aqui para sermos elevados até ao Céu.

Recordei, então, o que dizia o Concílio Vaticano II sobre este tema: «Na liturgia da terra, participamos, saboreando-a de antemão, na liturgia celeste, celebrada na cidade santa de Jerusalém (…)»[2]

Diante daquele altar e sob o efeito daquelas colunas sólidas e belas, que nos pareciam fazer ascender até ao céu, relatei-lhes o diálogo entre o sacerdote e os fiéis no início da Oração eucarística, precisamente, o «ponto central e culminante de toda a celebração»[3].

- O Senhor esteja convosco! - Ele está no meio de nós!

- Corações ao alto! – O nosso coração está em Deus!

 Que fácil era imaginar as incontáveis celebrações ao longo dos séculos em que, ao som de «Sursum corda»[4], os olhos e os corações subiam em direção ao Céu!

Efetivamente, neste momento da celebração, não só as palavras, mas também os gestos do sacerdote ajudam a essa união com o Céu. Por isso, ao dizer «corações ao alto», os braços que já estavam abertos em gesto sacerdotal elevam-se, como que convidando os nossos corações a subirem e participarem da liturgia celeste.

Porquê este gesto e este diálogo tão solenes? «Quando se conclui o rito da apresentação do pão e do vinho, tem início a Oração eucarística, que qualifica a celebração da Missa e constitui o seu momento central, que leva à sagrada Comunhão».[5]

A Oração eucarística é uma oração de ação de graças e de consagração. Por isso, o convite do sacerdote aos fiéis a elevarem os corações na oração e na ação de graças é uma chamada a que se associem à oblação que ele, em nome de toda a comunidade, dirige a Deus Pai por Jesus Cristo no Espírito Santo.[6]

«Toda a comunidade une, então, as suas vozes àquele louvor incessante que a Igreja celeste – os anjos e todos os santos – cantam ao Deus três vezes Santo».[7]

Como não recordar, de novo, a linguagem artística com que os cristãos plasmaram a nossa fé? Refiro-me, desta vez, ao interior das grandiosas e magnificentes cúpulas barrocas, com o Céu primorosamente representado nos seus frescos. Multidões de Anjos e de Santos, com um especial destaque para Maria Santíssima, representando a corte celestial e, bem no cimo, presidindo gloriosamente, a Santíssima Trindade.

Já a epístola aos hebreus nos dizia referindo-se à liturgia: «vós aproximastes-vos da montanha de Sião, e da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste e da multidão de muitos milhares de anjos, da assembleia dos primogénitos, que estão inscritos nos céus, e de Deus (…), e de Jesus, mediador da nova aliança, e do sangue purificador, que fala melhor que o de Abel».[8]

Assim acontece na Missa e o Prefácio torna-o explicito afirmando concretamente essa união: «Por isso, com os anjos e santos, proclamamos a vossa glória, cantando a uma só voz».[9]

E que cantamos? Precisamente o que Isaías ouviu cantar quando lhe foi mostrado o Céu: «No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas do seu manto enchiam o tempo. Os serafins mantinham-se junto dele (…). As suas vozes revezavam-se e diziam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo! A terra inteira proclama a sua glória!”».[10] Unimo-nos, pois, à corte celestial e cantamos aquilo que nos foi revelado como sendo a oração dos Anjos. [11]

 

Alegra-nos saber que este cântico já era usado na liturgia do serviço da Sinagoga. Denominava-se Kedushah, isto é, «Santificação», santificação do nome de Deus. «Não seria surpreendente que do uso judeu tenha passado à oração dos cristãos dos primeiros tempos, uma vez que na própria oração dominical pediam eles todos os dias a Deus que seja «santificado» na terra o seu nome do mesmo modo que o é nos céus pelos anjos».[12]

Nas suas catequeses sobre a Missa, o Papa Francisco anima a cantar o Santo: «É bom cantá-lo. Toda a assembleia une a própria voz àquela dos Anjos e dos Santos para louvar e glorificar a Deus».[13] E D. Manuel Clemente na sua carta pastoral afirma: «Se, no início da Oração Eucarística, cantarmos “Santo, Santo, Santo…” com sentimento e melodia correspondentes à profunda reverência com que o profeta tal ouviu diante de Deus, estaremos mais preparados para o memorial da morte e ressurreição de Cristo, que a seguir se faz».[14]

Sim, mais preparados para ir… para o «Céu na terra».

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] O templo é, como habitual nas igrejas góticas, muito mais alto do que largo.

[2] SC, n. 8.

[3] IGMR, n. 78

[4] «Corações ao alto»

[5] FRANCISCO, Audiência de 7 de março de 2018.

[6] Cfr. IGMR, n.78.

[7] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1352.

[8] Heb 12, 22-24.

[9] Prefácio dos Domingos do Tempo Comum X, Nossa Senhora, Mártires, Santos II, etc. «O desenvolvimento da liturgia terrestre é como um reflexo visível, um símbolo eficaz da liturgia dos anjos. Esta unidade dos dois cultos, está expressa na própria liturgia do Prefácio, onde convida a comunidade eclesial a unir-se aos Tronos e às Dominações, aos Querubins e aos Serafins, para cantar o hino seráfico, o Triságio». DANIÉLOU, Les anges er leur mission, p. 86 in: G. HUBER, O meu anjo caminhará à tua frente, p. 180.

[10] Is 6, 2-3.

[11] «Esquece-se com demasiada frequência que os anjos, que contemplam sem cessar a face de Deus, são os adoradores por excelência. São mestres de liturgia»: G. HUBER, O meu anjo caminhará à tua frente, p. 179.

[12] C. VAGGAGINI, El sentido teológico de la liturgia, p. 334, in: G. HUBER, O meu anjo caminhará à tua frente, p. 182.

[13] FRANCISCO, Audiência de 7 de março de 2018.

[14] M. CLEMENTE, Carta aos diocesanos de Lisboa, no início do ano pastoral 2018-2019, 1.IX.2018


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