TEMAS LITÚRGICOS

Meu e vosso sacrifício

 

 

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

Há um diálogo litúrgico de grande beleza e profundidade, mas que temo ser pouco compreendido pelos fiéis. Mais, pode mesmo ser uma parte da Missa algo confusa e que, inclusive, chega a raiar o sem-sentido. Trata-se do diálogo final da apresentação dos dons em que «o sacerdote convida os fiéis a orar juntamente consigo e recita a oração sobre as oblatas»[1].

Que diz o sacerdote?

«Orai irmãos para que o meu e vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai todo-poderoso».

O povo levanta-se e responde:

«Receba o Senhor, por tuas mãos, este sacrifício, para a glória do Seu Nome, para nosso bem e de toda a Santa Igreja».

 

Sacrifício

A primeira coisa que me saltou à vista foi a palavra «sacrifício» que aparece duas vezes, uma nos lábios do sacerdote e, depois, logo a seguir, nos lábios dos fiéis. Dar-se-ão conta os fiéis e sacerdote daquilo que estão a dizer? Serão conscientes de que estão na iminência de se unirem ao sacrifício de Cristo que se vai tornar presente sobre o altar?

Pensando nisso recordei uma explicação da Santa Missa a um grupo de jovens. Para tal servi-me de um pequeno vídeo. Via-se a entrada de Zacarias e Isabel no templo, o rosto iluminado de felicidade pela grande honra que tocara ao cabeça de família. Vai oferecer o incenso ao Senhor no «santo», lugar reservado aos sacerdotes.[2] A câmara focava-os, e percebia-se a solenidade do momento e a alegria inerente, mas mostrava também, em segundo plano, todo o ambiente e azáfama do Templo de Jerusalém. Procurei que aqueles jovens se fixassem nesses pormenores. Que viram então? Os animais sacrificados pelos sacerdotes e todo o trabalho levado a cabo pelos solícitos levitas.[3] Recordo então o esgar de umas jovens e o grito de repugnância que pronunciaram. Sorri. Apontei para o quadro onde, de um lado representara os sacrifícios da antiga Lei, abolidos, mas preparação necessária e, portanto, relacionada com o presente; e, do outro, o novo sacrifício, o de Cristo, tornado presente em cada Missa. Sorri para aquelas raparigas e, depois, para todo o grupo e recordo dizer-lhes algo como:

- Não ficam agradecidos a Jesus por ter «inventado» a Eucaristia? É que se trata de um sacrifício, o de Jesus, mas a forma é incruenta, ou seja, sem derramamento de sangue, sem dor, sem essas coisas que vos causam repugnância.

Se abrimos o livro do Levítico encontramos, logo ao início, a classificação dos vários tipos de sacrifícios a oferecer a Deus: Holocaustos, oblações, sacrifícios de comunhão e sacrifícios de expiação. Todos eles foram abolidos e substituídos pelo único sacrifício, o de Cristo.[4] Porém, se olhamos para o sacrifício de Jesus na Cruz e para a sua perpetuação na Eucaristia, vemos que a novidade deste sacrifício está em continuidade com o antigo culto. A que me refiro? Que na Eucaristia encontramos concentrado no mesmo e único sacrifício os quatro tipos de sacrifícios prescritos pelo livro do Levítico.

O Holocausto era um sacrifício em que a vítima se oferecia por completo a Deus. Não O vemos na entrega de Cristo? Se pensarmos na ressurreição e na ascensão aos Céus podemos até vislumbrar esse holocausto, essa «oferenda consumida, de suave aroma em honra do Senhor»[5].

A oblação era um rito no qual se ofereciam produtos provenientes do cultivo da terra. Tratava-se de um sacrifício de tipo agrícola no qual se queima uma parte da farinha oferecida e amassada com azeite. Não me parece difícil que os discípulos, ao verem Jesus tomar o pão e pronunciar sobre ele a bênção, se sentissem cómodos pela parecença com este ritual ao qual estavam tão acostumados.

O sacrifício de comunhão ou sacrifícios pacíficos. Ofereciam-se para cumprimento de algum voto ou em ação de graças, daí que se chamassem também «eucarísticos». Ofereciam-se também como rito de reconciliação com Deus. Era semelhante ao do holocausto com a diferença de que o animal não era queimado todo, sendo o resto repartido entre o sacerdote e os oferentes que tinham de o comer em lugar sagrado. Como não pensar na atual comunhão?

Por fim, saber que se ofereciam sacrifícios pelos pecados faz-nos pensar no propósito da entrega de Cristo na Cruz e na sua atualização através da Eucaristia. Jesus morre pelos nossos pecados e a Missa oferece-se, entre outras intenções, mas muito especialmente, pelos nossos pecados.

 

Meu e vosso

Depois, pensei na expressão «meu e vosso sacrifício» (meum ac vestrum sacrifícium). Como não pensar, uma vez mais, nos antigos sacrifícios que os judeus ofereciam no deserto diante da Tenda da reunião ou aqueles que, mais tarde, ofereceriam no Templo? Recordo uma representação didática do santuário em que se vê o recinto delimitado pelas colunas de bronze elevadas, com lençóis de linho que as uniam e isolavam o átrio do resto do acampamento, a tenda da reunião com o altar diante da entrada e a pia de bronze para as abluções[6]. Dentro do tabernáculo, no «santo», o candelabro de sete braços, a «mesa dos pães», o altar do incenso e, por fim, o «santo dos santos» onde estava a arca da Aliança. [7] Porém, à entrada do recinto, representava-se um sacerdote a receber um israelita. Este trazia-lhe um animal para ser sacrificado sobre o altar. É o seu sacrifício, no entanto, ele não o pode oferecer sacrificialmente. É o sacerdote que tem o munus de o sacrificar. Por isso, para ficar claro que o sacerdote sacrificava em nome dessa pessoa, ela devia colocar a mão sobre o animal. Era um gesto que sublinhava que aquele sacrifício era o daquela pessoa concreta.[8]

No entanto, segundo a Lei, o sacerdote não estava isento de oferecer sacrifícios. Aliás, estava bem estipulado como e quando o deveria fazer. Mas, nesse caso, era o próprio sacerdote que o sacrificava. Nessa altura, fazia-o em nome próprio.[9]

Também na Missa o sacerdote deve oferecer da sua parte e por si. Oferece o seu sacrifício e o sacrifício dos fiéis (o da Igreja universal).[10] Os gestos litúrgicos sublinham esta atitude. O diálogo é feito, não com os braços abertos em gesto sacerdotal, mas começa por ter as mãos juntas e abre-as num convite fraterno à oração em conjunto, voltando a juntá-las no final. Tal como no início da Missa, durante o ato penitencial, em que o ministro pediu perdão pelos seus pecados juntamente com os fiéis. Nas duas ocasiões o diálogo é feito com as mãos juntas, em atitude de oração pessoal.

 Note-se que o sacerdote acabou de rezar inclinado e de fazer uma ablução de purificação em que pediu humildemente ao Senhor que o purificasse. É bonito ver como ele é, agora, arroupado pela oração dos fiéis:

 «Receba o Senhor, por tuas mãos, este sacrifício, para a glória do Seu Nome, para o nosso bem e de toda a Santa Igreja».

Segundo estas palavras, os fiéis sublinham que os dons que trouxeram (as suas ofertas materiais e espirituais de que falámos nos artigos anteriores) se unirão ao sacrifício de Cristo mediante a ação ministerial do sacerdote com o qual dialogam. Por isso, pedem ao Senhor que o sacrifício de Cristo, ao qual se unem, e que as mãos desse ministro entregam, seja aceite por Deus. E fazem-no com coração universal, com alma sacerdotal. Não o oferecem apenas pelas suas intenções particulares, mas para «nosso bem e de toda a Santa Igreja».

Que belo e profundo diálogo! E que pouco compreendido ele é com frequência! Recordo um sacerdote que, alguma vez, chegando a este momento, aproximava o microfone dos lábios, fazia uma pausa em que procurava o povo com o olhar e depois, devagar, em voz forte e cadenciada, pronunciando bem as sílabas, ajudava os fiéis a responder evitando o que ele chamava, utilizando uma expressão brasileira, o «estampido da boiada». Referia-se àquela resposta confusa e indistinta dos fiéis semelhante ao marulhar de águas caudalosas, indecifrável para quem ouve e, muitas vezes, também para quem a diz.

Só então, terminado este breve diálogo, o ministro, com os braços abertos em gesto sacerdotal, pronuncia, em nome da Igreja, a oração sobre as oblatas. Esta faz a ligação entre os dons oferecidos e o sacrifício de Cristo que se vai tornar presente no altar através da oração eucarística já na iminência de começar.

 

 



[1] IGRM n.77

[2] Cfr. Lc 1, 9-10. Cfr. Ex 30, 7.

[3] O filme parecia seguir fielmente a descrição de Crónicas II, neste caso os sacrifícios pascais: «Os sacerdotes colocaram-se nos seus postos e os levitas distribuiram-se segundo os seus turnos, seguindo o mandato do Rei. Imolaram os cordeiros pascais. Com o sangue correndo das mãos, os sacerdotes fizeram a aspersão, enquanto os levitas esfolavam as vítimas» (II Cronicas 35, 10-12).

[4] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1362-1372.

[5] Lev 1, 9.

[6] Estava colocada entre a tenda da reunião e o altar, para as purificações constants dos sacerdotes, conforme se indica em Ex 30, 17-21.

[7] Cfr. Ex 25,1 – 31,18.

[8] Cfr. Lev 1, 2. E, no caso de um sacrifício de expiação, aquele animal era imolado pelos seus pecados. Daí que, por vezes, se diga que os israelitas passavam ritualmente os pecados para o animal que era imolado.

[9] Cfr. Lev 4, 3

[10] Cfr. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1368.


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