PAPA FRANCISCO

PROBLEMAS ACTUAIS DA IGREJA:

COMO OS VÊ O PAPA

 

 

 

No passado domingo 17 de Junho, o Papa Francisco concedeu uma ampla entrevista a Philip Pullella, da agência de notícias “Reuters”. A entrevista foi publicada em Vatican News (secção portuguesa).

Relações com a China, papel das mulheres na Igreja, abusos sexuais no Chile, atitude do presidente Trump, problema da imigração na Europa, reforma da Cúria romana, futuro da Igreja – foram temas abordados pelo Papa, que mostram como o Papa Francisco vê os problemas actuais da Igreja e como procura solucioná-los.

 

 

Relações com a China

 

Reuters: Em que ponto estão as relações de reaproximação com a China?

Papa Francisco: “Estamos num bom ponto, mas as relações com a China seguem por três caminhos diferentes. Antes de mais, o caminho oficial: a delegação chinesa vem a Roma, temos a reunião, e depois a delegação vaticana vai à China. Há boas relações e conseguimos fazer muitas coisas positivas. Este é o diálogo oficial.

“Depois, há um segundo diálogo, de todos e com todos. «Sou primo do ministro fulano que mandou dizer que…», e sempre há uma resposta. «Sim, está bem, vamos para a frente». Existem estes canais abertos periféricos que são, digamos assim, humanos e não queremos interrompê-los. Pode-se ver a boa vontade quer por parte da Santa Sé quer por parte do governo chinês.

“O terceiro, que para mim é o mais importante no diálogo de reaproximação com a China, é cultural. Há sacerdotes que trabalham nas universidades chinesas. E também há a cultura, como a exposição que fizemos no Vaticano e na China: é o caminho tradicional, o dos grandes, como Matteo Ricci.

“Agrada-me pensar nas relações com a China assim, um diálogo multifacetado, não limitar-se apenas ao oficial diplomático, porque os outros dois caminhos enriquecem muito. Creio que vai bem assim. Na sua pergunta, o senhor falou de dois passos em frente e um para trás, mas eu digo que os chineses merecem o Prémio Nobel da paciência, porque são bons, sabem esperar, o tempo é deles e têm séculos de cultura… é um povo sábio, muito sábio. Eu respeito muito a China”.

Reuters: Como é que o Papa responde a preocupações como as do cardeal Zen?

Papa Francisco: “O cardeal Zen leccionava Teologia nos seminários patrióticos. Creio que está meio assustado. A idade também influencia um pouco. É uma boa pessoa. Veio falar comigo, recebi-o, mas está um pouco assustado. O diálogo é um risco, mas prefiro o risco à derrota certa de não dialogar. No que se refere ao tempo, alguns dizem que são os tempos chineses. Eu digo que são os tempos de Deus, para a frente, tranquilos”.

 

Papel das mulheres na Igreja

 

Reuters: Falemos das mulheres. O Papa disse que as mulheres são essenciais para o futuro da Igreja. As mulheres pedem mais cargos de responsabilidade na Cúria?

Papa Francisco: “Concordo que devem ser mais. Para colocar uma mulher como vice-directora da Sala de Imprensa, tive que lutar. Entre os candidatos que estou a entrevistar para o cargo de Prefeito da Secretaria para a Comunicação, havia também uma mulher, mas ela não podia por ter outros compromissos. São poucas, é preciso colocar mais mulheres. Agora nomeei duas mulheres para o cargo de subsecretárias do Dicastério para os Leigos, Família e Vida. Neste sentido é preciso ir para a frente, de acordo com a qualidade. Não tenho nenhum problema em nomear chefe de um dicastério uma mulher, se o dicastério não tem jurisdição. Por exemplo, o do Clero tem jurisdição, deve ser um bispo, mas os dicastérios sem jurisdição são muitos. Até ao da Economia, eu não teria problema em nomear uma mulher competente. Estamos atrasados, concordo, mas temos que ir para a frente”.

Reuters: Leiga ou religiosa? Ou ambas?

Papa Francisco: “Tanto faz, não importa. Mulheres. Também nos Conselhos [Pontifícios] deve haver mulheres. Tenho a experiência de Buenos Aires. Primeiro fazia uma reunião com os conselheiros padres sobre um tema que era preciso resolver, mas depois debatia o mesmo tema com um grupo misto e o resultado era muito melhor. As mulheres têm outra capacidade de entender as coisas, outra visão. Há também a experiência que tive aqui nos cárceres. Visitei muitos cárceres, e os cárceres que estão sob a direcção de uma mulher parecem melhores. Lembro-me que uma vez fui a uma prisão, uma daquelas prisões não muito grandes, mas bem protegida, e a directora era uma mulher, de sessenta anos, mais ou menos. Depois da Missa, houve um refresco. Ela dizia: «Você faz isso, e a música, a tarantella…». Era uma mãe. Quem estava triste ali dentro, ia ter com ela. As mulheres sabem como resolver bem os conflitos. Nestas coisas, as mulheres são melhores. Creio que haveria de ser assim também na Cúria, se houvesse mais mulheres, mesmo que alguém tenha dito que se criticaria mais os outros. Mas eu não creio, porque os homens também criticam”.

Reuters: Como responde a uma mulher que realmente sente um forte desejo de ser sacerdote?

Papa Francisco: “Existe a tentação de «funcionalizar» a reflexão sobre as mulheres na Igreja, que devem fazer isto, que devem ser aquilo. Não, a dimensão da mulher vai para além da função. É algo maior. Voltemos a Hans Urs Von Balthasar, que concebe a Igreja com dois princípios: o princípio petrino que é masculino e o princípio mariano que é feminino; e não há Igreja sem mulheres. A Igreja é mulher, esposa de Cristo, é mulher dogmaticamente e sobre isso devemos aprofundar e trabalhar e não ficarmos tranquilos porque «funcionalizamos» as mulheres. Sim, devemos dar uma função, mas isso é pouco, devemos ir mais além. Com a ordem sagrada não é possível, porque dogmaticamente não funciona, e João Paulo II foi claro e fechou a porta e eu não retorno sobre isto. Era uma coisa séria, não um capricho. Mas não devemos reduzir a presença da mulher na Igreja à «funcionalidade». Não, é algo que o homem não pode fazer. O homem não pode ser a esposa de Cristo. É a mulher, a Igreja, a esposa de Cristo. No Cenáculo, Maria parece ser mais importante do que os Apóstolos. Devemos trabalhar sobre isso e não cair, digo com respeito, numa atitude feminista. No final, seria um machismo de saia. Não devemos cair nisso. Na Igreja existem diferentes funções, e também as mulheres podem ser chefes de um Dicastério. Isto é uma função, mas deve ser mais que a função. É outra dimensão de unidade, de acolhimento e de esposa. A Igreja é esposa”.

 

Abusos sexuais no Chile

 

Reuters: Falemos sobre a situação de abusos sexuais na Igreja, que recentemente vieram à tona com o escândalo no Chile.

Papa Francisco: “Eu não queria falar sobre isso agora, mas tenho que dizer. Procurem as estatísticas. A grande maioria dos abusos ocorre no âmbito familiar e nos bairros, com os vizinhos, depois nas academias, nas piscinas, nas escolas… E também na Igreja: alguém podia dizer que… padres são poucos, mas mesmo que fosse um só, seria trágico, porque aquele padre tem o dever de levar a pessoa a Deus e destruiu-lhe o caminho para chegar a Deus. Nisto, não me importam as estatísticas, é um drama geral para o qual a sociedade deve olhar mais ainda e também ver a maneira como lida com esse problema.

“Falemos da Igreja. Sabemos que, ao princípio, se transferiam as pessoas daqui para lá, porque não havia consciência da gravidade disto. Mas a Igreja despertou e a lição que aprendi não é original. São João Paulo II tinha aprendido com os cardeais dos Estados Unidos no caso de Boston. Bento XVI aprendeu com os bispos da Irlanda. Eu tive que tomar uma decisão. Como foi no caso do Chile? Eu estudei as coisas, as denúncias com as informações que havia aqui ajudaram-me e procedi em consequência.

“O problema do pe. Karadima é muito complexo, porque ali mistura-se a elite chilena com situações sociopolíticas. As famílias entregavam-lhe os filhos porque pensavam que a doutrina era segura e não se sabia o que acontecia ali dentro. Karadima é um doente grave. Há 4 Bispos que saíram dos 40 que ele preparou no seminário e, quando eu transferi Barros, de ordinário militar a Bispo de Osorno, tudo estoirou. Fiz com que fosse estudado o caso Barros e não aparecia nada de consistente nas informações que havia no Vaticano.

“Regressei da viagem ao Chile um pouco inquieto, «isto não se entende», pensei. Aqui há algo para além da propaganda ou tomada de posição anticlerical. Pensando e pensando, pedi conselho e decidi enviar numa visita canónica Mons. Scicluna, que voltou com um relatório de 2.300 páginas de declarações de 64 pessoas. Estoirou uma coisa que não se entendia e, quando vi isso, decidi convocar os bispos. Era a única coisa a ser feita. Com boa vontade, escrevi uma carta de 12-13 páginas somente para eles. Na reunião, expliquei-lhes durante meia hora, e depois convidei-os a rezar durante um dia, e no outro dia começou a reunião. No final eles disseram: «queremos que o Papa se sinta livre, apresentamos as renúncias». Foi um gesto generoso, muito, porque perceberam que as coisas escritas na nota que lhes dei eram sérias. Era uma carta privada, mas depois saiu no Chile. Eles pediram-me para escrever uma carta ao povo chileno e eu fiz. Depois comecei a investigar, caso por caso, e aceitei três renúncias, incluindo duas por limite de idade, mas com problemas muito sérios nas dioceses. Eu perguntei-me «o que aconteceu no Chile?», pois de mais de 70% da população que apoiava a Igreja caiu para menos de 40%. É um fenómeno difícil de entender. Pensa-se que ali existe algo de elitismo oculto, mas é uma opinião. Certamente, é obra do espírito do mal”.

Reuters: O Papa pretende aceitar outras renúncias dos bispos no Chile?

Papa Francisco: “Talvez alguma mais. Tenho ainda de aceitar as renúncias de dois que superaram os limites de idade. Mas talvez há outro do qual aceitarei a renúncia. Num caso, pedi que as acusações lhe fossem dadas para que pudesse defender-se; depois veremos”.

 

Atitude do presidente Trump

 

Reuters: Como julga a atitude do presidente Trump, em particular as suas decisões de retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre mudança climática e recuar nas relações com Cuba?

Papa Francisco: “Em relação a Cuba, fiquei triste, porque fora um bom passo para a frente, mas não quero julgar, porque para ele tomar uma decisão desse género deve ter tido algum motivo.

“A decisão do presidente Trump sobre Paris também me entristeceu, porque o futuro da humanidade está em jogo. Mas ele às vezes dá a entender que repensará e eu espero que repense bem os acordos de Paris.

“Em relação à minha posição sobre outras coisas, uno-me ao episcopado [do país] e vou atrás dele. Não para lavar as mãos, mas porque não conheço bem as coisas. O episcopado sabe e eu vou atrás das declarações do episcopado”.

Reuters: O que pensa da situação actual, em que nos últimos meses cerca de 2.000 menores foram separados das famílias, dos pais, na fronteira com o México?

Papa Francisco: “Eu apoio o episcopado. Que fique claro que nestas coisas eu respeito o episcopado”.

Reuters: O Papa sempre se preocupou com a imigração e a separação das famílias…

Papa Francisco: “Sim. É por isso que apoio o episcopado, que trabalhou muito. Mas nos tempos de Obama, celebrei a Missa em Ciudad Juárez, na fronteira, e do outro lado concelebraram 50 bispos, e havia muitas pessoas no estádio. Ali, já havia o problema, não é apenas de Trump, mas também dos governos precedentes”.

 

O problema da imigração na Europa

 

Reuters: O navio «Aquarius» chegou a Espanha com 629 imigrantes, porque a Itália recusou que desembarcassem lá. Todo este episódio faz pensar que a Europa está a desmoronar-se na questão da imigração. O ministro do Interior italiano criticou o Papa no passado, dizendo-lhe para colocar os imigrantes no Vaticano. Qual é a solução para o problema da migração?

Papa Francisco: “Não é fácil, mas os populismos não são solução. Vejamos a história. A Europa foi formada pela imigração. Vejamos a actualidade. Na Europa há um grande inverno demográfico. Ficará vazia. A história actual é que há pessoas que chegam em busca de ajuda. Penso que não devemos rejeitar as pessoas que chegam, devemos receber, ajudar e organizar, acompanhar e, em seguida, ver onde colocá-las, mas em toda a Europa. A Itália e a Grécia foram corajosas e generosas ao acolher essas pessoas. No Médio Oriente, também foi corajosa a Turquia, o Líbano, a Jordânia. A certo ponto, façamos todos, não? As pessoas fogem da guerra ou da fome. Voltamos à fome. Na África, por que há fome? Porque no nosso inconsciente colectivo existe um lema que diz que a África deve ser explorada. Muitas vezes quando se vai à África é para explorá-la. Falei sobre isso com Merkel e ela concorda que temos que investir na África, mas investir de maneira organizada, dando fontes de trabalho, não ir para explorá-la. Quando um país dá a independência a um país africano, dá do solo para cima, mas o subsolo não é independente. Depois reclama porque os africanos famintos vêm para cá, há injustiças lá! A Europa deve fazer um trabalho de educação e investimento na África, para evitar a imigração na raiz. Alguns governos estão a pensar bem. Depois, é preciso acomodá-los conforme é possível, mas criar psicose não é remédio. E também há um problema. Nós mandamos de volta as pessoas que vêm. Essas pessoas terminam nas prisões dos traficantes”.

Reuters: Então o populismo não resolve?

Papa Francisco: “O populismo não resolve, o que resolve é o acolhimento, estudo, acomodação, prudência, porque a prudência é uma virtude de governo e o governo deve chegar a um acordo. Eu posso receber um certo número e acomodá-los. Existe o tráfico de escravos ali, os governos devem entender isso. Não é fácil o acolhimento, educação, integração na medida do possível, e não se pode procurar uma solução única. A primeira solução é investir no lugar quando não há guerra”.

 

Reforma da Cúria romana

 

Reuters: A reforma da Cúria é suficiente?

Papa Francisco: “Penso que podemos agrupar todos na reforma da Cúria, porque é algo amplo. Mas houve também outras coisas, como por exemplo a reforma do direito matrimonial e os dois Motu Proprio. Isso foi uma coisa histórica, porque havia coisas antigas. Também historicamente feitas para um conflito, como a dupla sentença”.

Reuters: Ainda existem algumas doenças na Cúria?

Papa Francisco: “As doenças existem e existirão, porque são doenças, podemos dizer, normais nestes casos. Devemos lutar. Quando eu fiz o elenco de todas e depois fiz também o elenco dos remédios, era para dizer para estarem atentos a fim de não caírem, mas são tentações normais. Isso sempre continuará. Penso que a sabedoria está em conhecê-las, para não cair”.

Reuters: Mas há também santos na Cúria, como o Papa disse…

Papa Francisco: “Muitos, muitos, muitos. Muitos, até mesmo alguns que estão aposentados e continuam a trabalhar. Esses fiéis curiais, antigos e também jovens”.

Reuters: Qual é a sua visão para o futuro da Igreja?

Papa Francisco: “A Igreja vai para a frente. Os povos estão abertos, mas são pecadores, somos todos pecadores; mas quando vemos os sinais da presença de Deus, pensamos nas obras de misericórdia. As pessoas abrem-se, porque buscam a salvação, buscam a imortalidade, buscam o encontro com Deus. O futuro da Igreja está aí. O futuro da Igreja está a caminho, a caminho. É verdade, está também na adoração, na oração, nos templos, mas sair, sair. O Apocalipse diz que o Senhor está à porta e chama. Sim, chama para que nós lhe abramos. Mas hoje acho que o Senhor muitas vezes bate à porta para que nós lhe abramos, para deixá-lo sair. Porque nós temos muitas vezes um Cristo fechado. Uma Igreja que sai, sim, poderia sofrer acidentes, mas uma Igreja fechada fica doente. Sair, sair com a mensagem: este é o futuro”.

 

 

 

 


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