TEMAS LITÚRGICOS

Purificar-se para o sacrifício

 

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

Um dia, depois de uma confissão, uma senhora perguntou-me, timidamente:

- «Posso fazer-lhe uma pergunta?»

Procurei que estivesse à vontade e ela, hesitando, acabou por dizer:

- «O que é que o sacerdote diz em segredo no final do ofertório?»

Sorri, pois pensava que seria uma dúvida moral ou doutrinal complexa. Recitei, então, a oração em voz alta:

«De coração humilhado e contrito sejamos recebidos por Vós, Senhor. Assim o nosso sacrifício seja agradável a vossos olhos».

- «Oh, que bonito!»

Ficou uns instantes a saboreá-la e, depois, insistiu:

- «E porque não podemos nós ouvi-la?»

Nunca tinha pensado nisso. Referi-lhe que as orações estão disponíveis no Missal e que as poderia seguir. Sugeri que o simples fato de ver o sacerdote nessa atitude de humildade, inclinado sobre as oferendas, rezando em voz baixa essas orações e, depois, lavando as suas mãos antes de as emprestar a Cristo na Oração Eucarística, será, certamente, algo que a interpelará. Aliás, se não a tivesse interpelado, não estaria a fazer-me aquela pergunta.

J. Silvestre trata este tema no seu livro «La Santa Misa». Refere que a oração citada se inspira na oração pronunciada pelos três jovens na fornalha ardente, como relata o profeta Daniel[1]. Surge no sec. IX em França e será, posteriormente, incorporada à liturgia romana (encontramo-la no Missal de S. Pio V (1570) e, atualmente, no Missal romano).

Porquê esta oração neste momento? E porquê, depois, o lavabo?

A Igreja acaba de preparar os dons para o sacrifício. Está tudo pronto. A Oração Eucarística está iminente. O sacerdote vai esvaziar-se de si para que Cristo se torne presente e atue pessoalmente através dele. É lógico que sinta a voz do alto, como Moisés a ouviu, «Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra sagrada».[2]

O autor citado aponta que esta oração se situa antes da grande Oração Eucarística, «que deve ser recitada fielmente e em que as intenções pessoais são mais dificilmente expressáveis».[3] Assim, a oração que estamos a considerar «permite ao celebrante pôr de relevo os seus sentimentos» e dispor o seu coração.

Embora a oração seja dita em voz baixa ela é dita em plural, parecendo indicar que o celebrante a pronuncia em nome próprio e do povo. «Não nos parece razão suficiente para a qualificar de oração unicamente pessoal o fato de que se pronuncie em segredo pelo sacerdote, uma vez que as próprias orações de apresentação dos dons se podem pronunciar em voz alta ou em segredo e em nenhum momento se consideram como pessoais».[4]

Efetivamente, o silêncio e o gesto de profunda inclinação do sacerdote, como dizia há pouco, interpelam os fiéis. Manifestam a necessidade de penitência e, de alguma forma, ajudam a que os fiéis se deem conta do que está prestes a iniciar-se e a atitude que devemos ter: humildade e reverência. Atitudes que revelam a própria substância de qualquer liturgia.

Neste mesmo sentido, no termo da preparação dos dons, surge um outro pequeno rito cheio de simbolismo: o lavabo.

- «O meu pároco diz que já tem as mãos lavadas! Que as lava antes da Missa, por isso, não precisa de as lavar durante a celebração».

Não estranhei o comentário deste acólito, nem me admirei quando, ao celebrar nalguma Igreja, não me deram oportunidade de realizar esse rito. Certa vez, tive mesmo de tranquilizar o ajudante, pois não encontrava nada com que realizar o lavabo e estava atrapalhado. Tranquilizei-o, mas, no final da celebração, falei-lhe da beleza desse rito e do seu simbolismo. Recordei a objeção do tal pároco e de outros que pensam como ele sobre o facto de não terem as mãos sujas e procurei dar-lhe resposta. Na altura, não sabia que o próprio S. Cirilo de Jerusalém respondera à mesma objeção nos seguintes termos: «Vistes como o diácono derramava a água para as abluções ao sacerdote e aos outros presbíteros que rodeiam o altar de Deus. De modo algum derramava a água devido à sujidade corporal. Não se trata disso. Porque, ao entrar na igreja, não tínhamos nenhuma mancha corporal. Esta ablução é símbolo de que convém que nos limpemos de todos os pecados e iniquidades. As mãos são símbolo das nossas ações. Ao lavá-las, pomos de manifesto explicitamente qual deve ser a integridade e pureza das nossas obras. Não ouvistes o bem-aventurado David descobrindo-nos este mistério e dizendo: “lavarei entre os inocentes as minhas mãos e rodearei o teu altar, Senhor”? [5] Lavar as mãos é sinal de estar livre de pecado».[6] 

E é este o significado do lavabo no entender da instrução Geral do Missal Romano: «este rito manifesta o desejo de purificação interior».[7] É certo que não se trata de um rito muito antigo na liturgia romana, pois só aparece no séc. XV e, segundo alguns historiadores, por motivos práticos: lavar as mãos depois de as sujar na recolha das diversas ofertas trazidas pelos fiéis. [8] Porém, no Oriente ela surge já desde o século IV, como a citação de S. Cirilo de Jerusalém deixou de manifesto.

Durante o lavabo, existe também uma oração que se recita em segredo. Quais são as palavras que a liturgia coloca na boca do sacerdote durante essa ablução?

 «Lavai-me Senhor da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado».

Recordei, de novo, o comentário daquela senhora:

- «Que bonito! E nós não as podemos ouvir?»

Sem dúvida! Conhecendo-as, poderemos segui-las com o coração, unir-nos a elas e fazê-las nossas.

«”Irrompe de novo a recordação da nossa miséria e o desejo de que tudo o que vai ao Senhor esteja limpo e purificado: lavarei as minhas mãos, amo o decoro da tua casa”.[9] Todos deveríamos fazer muito nossos estes sentimentos de sincera humildade. Quem somos para que Cristo tenha querido associar-nos tão intimamente com Ele?»[10]

 

 



[1] Cfr. Dan 3, 19-40

[2] Ex 3, 5

[3] SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p.140.

[4] Ibíd.

[5] Salmo 25, 6

[6] S. CIRILO DE JERUSALÉM, Catequese mistagógica V, 2, in SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p.142. Este autor cita também Teodoro de Mopsuestia que dá uma explicação semelhante, frisando que os sacerdotes ao fazerem o rito do lavabo recordam a si próprios e a toda a comunidade que devem apresentar-se «com uma consciência pura quando se faz a oblação» (Ibíd.).

[7] IGMR, n. 76.

[8] Cfr. LUSTIGER, J-M. A Missa, Editorial A. O., 2003, p. 108.

[9] S. JOSEMARIA, Cristo que passa, n. 89.

[10] J. ECHEVARRÍA, Vivir la Santa Misa, Rialp 2010, p.89.


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