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A TRANSFIGURAÇÃO

 

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Imobilizado na sua caseira de inválido, rosário nas mãos, procurava meditar cada mistério luminoso, como já costumava contemplar os dos outros terços.

Primeiro mistério: o Baptismo de Jesus. Ah, o nosso Baptismo, o Santo Baptismo! A vida sobrenatural, a filiação divina, a união com Cristo!... A Comunhão dos Santos! A Igreja, nossa Mãe! O Céu à vista.

Segundo, as Bodas de Caná. Outro sacramento: o Matrimónio! Precisamente o «seu» sacramento! O seu caminho na Terra, a sua entrega a Deus ao serviço da família, e seu «primeiro negócio» nesta vida… O amor humano elevado e elevando-o ao Amor infinito e eterno.

Terceiro mistério, o Anúncio da Salvação e o apelo à conversão: o sacramento da Penitência! O perdão sem limites, tornado festa do Pai! A divina amnésia de todos os meus pecados e a restauração de todo o bem que, até sem reparar, fiz a alguém!

- Vamos pela via sacramental, descobriu com muito gosto. Continuemos.

Quarto mistério: a Transfiguração. Ora, a Transfiguração, que sacramento sugere? Mas desta vez nada lhe ocorria…

Adiante! Passemos ao último: a instituição do admirável sacramento da Sagrada Eucaristia, Sacrifício e Sacramento dos Sacramentos! «Centro e raiz» da santificação! Jesus, Verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, tão verdadeiro que não pode suportar a nossa separação; que prometeu nunca nos deixar sós, apesar da nossa rudeza, da nossa frieza e, desgraçadamente, da nossa malvadez! Quem mereceria tal Amigo? E tão estreita intimidade com o próprio Deus?

 

Só lhe faltava o mistério anterior: a Transfiguração… Mas por fim, descobriu: o Sacerdócio!

De facto, o que é o sacerdócio, senão a nossa transfiguração em Cristo? Se qualquer cristão pode exclamar com S. Paulo «já não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim», que dizer do sacerdote? O sacerdote, que declara, com toda a verdade e eficácia, «Isto é o meu Corpo», «Este é o cálice do meu Sangue», «Eu te absolvo»!...

Sacerdote: foste completamente absorvido por Cristo! O teu currículo não vale nada; é uma ridícula sombra na grandeza recebida pela tua Ordenação. A tua história é a História Sagrada. A tua biografia é o Evangelho.

Transfigurado em Cristo, esquece-te de ti; pensa em ti apenas para agradecer, prostrado, o perdão, a vocação, a tua missão e as graças divinas.

 

 

 

 


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