PASTORAL

A RESPEITO DOS CUIDADOS PALIATIVOS

 

 

 

 

Cardeal Pietro Parolin

Secretário de Estado do Vaticano

 

 

Nos dias 28 de Fevereiro e 1 de Março, realizou-se em Roma um Congresso Internacional sobre o tema: “Cuidados paliativos: em todos os lugares e para todos. Cuidados paliativos em todas as regiões. Cuidados paliativos em todas as religiões ou crenças”, organizado pela Pontifícia Academia para a Vida.

Durante o Congresso, foram abordadas várias questões importantes, como a contribuição dos cuidados paliativos para a medicina, saúde e sociedade, a difusão dos cuidados paliativos, o impacto das diversas confissões religiosas e perspectivas espirituais sobre o cuidado dos moribundos, as implicações políticas e económicas dos cuidados paliativos.

Publicamos a seguir a carta que o Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin enviou, em nome do Papa Francisco, ao Presidente da Pontifícia Academia para a Vida, Mons. Vincenzo Paglia, lida na ocasião da abertura do Congresso.

Segundo o Cardeal, os cuidados paliativos “indicam uma redescoberta da vocação mais profunda da medicina, que consiste antes de tudo em «cuidar»: a sua tarefa é «cuidar» sempre, mesmo se nem sempre é possível «curar»”.

 

 

Excelência Reverendíssima

 

Em nome do Santo Padre Francisco e no meu próprio, dirijo uma cordial saudação a Vossa Excelência, aos organizadores e aos participantes no Congresso sobre os Cuidados Paliativos. Trata-se de assuntos que dizem respeito aos momentos finais da nossa vida terrena e que põem o ser humano em confronto com um limite que parece insuperável para a liberdade, suscitando por vezes rebelião e angústia. Por isso, na sociedade de hoje procura-se de muitas maneiras evitá-lo e removê-lo, deixando de escutar a inspirada indicação do Salmo: «Ensina-nos a contar os nossos dias e adquiriremos um coração sábio» (89, 12). Privamo-nos assim da riqueza que se esconde precisamente na finitude e de uma ocasião para amadurecer uma maneira mais sensata de viver, a nível quer pessoal quer social.

Os cuidados paliativos, pelo contrário, não partilham desta renúncia à sabedoria da finitude, e aqui está mais um motivo da importância destas temáticas. Com efeito, esses cuidados indicam uma redescoberta da vocação mais profunda da medicina, que consiste antes de tudo em cuidar: a sua tarefa é cuidar sempre, mesmo se nem sempre é possível curar. Certamente a acção médica baseia-se no empenho incansável de adquirir novos conhecimentos e de debelar um número cada vez maior de doenças. Mas os cuidados paliativos confirmam, no âmbito da prática clínica, a consciência de que o limite requer não só ser combatido e adiado, mas também reconhecido e aceite. E isto significa não abandonar as pessoas doentes, mas, pelo contrário, estar ao seu lado e acompanhá-las na difícil provação que se torna presente no termo da vida. Quando todos os recursos do “fazer” parecem esgotados, precisamente então emerge o aspecto mais importante nas relações humanas, que é o de “estar[ser]”: estar presente, estar próximo, ser acolhedor. Isto exige também que se compartilhe a impotência de quem chega ao extremo da vida. Então, o limite pode mudar de significado: já não lugar de separação e de solidão, mas ocasião de encontro e de comunhão. A própria morte é introduzida num horizonte simbólico em cujo interior pode manifestar-se, não tanto como o termo contra o qual a vida embate e sucumbe, mas como o cumprimento de uma existência gratuitamente recebida e amorosamente compartilhada.

Com efeito, a lógica dos cuidados evoca aquela dimensão de mútua dependência do amor que certamente emerge com particular evidência nos momentos de doença e de sofrimento, sobretudo no termo da vida, mas que na realidade atravessa todas as relações humanas e até constitui a sua característica mais específica. «A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama os outros cumpriu a Lei» (Rom 13, 8): assim nos admoesta e nos conforta o Apóstolo. Parece então razoável construir uma ponte entre aquele cuidado recebido desde o início da vida e que permitiu que ela desabrochasse em todo o arco do seu desenvolvimento, e o cuidado a prestar responsavelmente aos outros, no suceder-se das gerações até abranger a inteira família humana. Por este caminho pode acender-se a centelha que relaciona a experiência da amorosa partilha da vida humana, até à sua misteriosa despedida, com o anúncio evangélico que vê a todos como filhos do mesmo Pai e reconhece em cada um a Sua imagem inviolável. Este vínculo precioso é responsável por uma dignidade, humana e teologal, que não deixa de manter-se, nem sequer com a perda da saúde, do papel social e do controle do próprio corpo. É então que os cuidados paliativos mostram o seu valor, não só pela prática médica – porque, mesmo quando age com eficácia realizando curas por vezes espectaculares, não se esquece desta atitude de fundo que está na base de qualquer relação de cuidados –, mas também mais em geral por toda a convivência humana.

O vosso programa destes dias põe bem em evidência a multiplicidade de dimensões que entram em jogo na prática dos cuidados paliativos. Uma tarefa que mobiliza muitas competências, científicas e organizativas, de relacionamento e de comunicação, incluindo o acompanhamento espiritual e a oração. Além das diversas figuras profissionais, deve-se sublinhar a importância da família para este percurso. Ela desempenha um papel único como lugar no qual a solidariedade entre as gerações se apresenta como constitutivo da comunicação da vida e a ajuda recíproca experimenta-se também nos momentos de sofrimento ou de doença. E, precisamente por isso, nas fases finais da vida, a rede familiar, por muito frágil e desagregada que possa ser no mundo de hoje, constitui contudo sempre um elemento fundamental. Certamente podemos aprender muito sobre este ponto das culturas nas quais a coesão familiar, também nos momentos de dificuldade, é tida em grande consideração.

Um argumento muito actual, para os cuidados paliativos, é o da terapia da dor. Já o Papa Pio XII tinha legitimado com clareza, distinguindo-a da eutanásia, a administração de analgésicos para aliviar dores insuportáveis que não têm outro modo de serem tratadas, mesmo quando, na fase de morte iminente, sejam causa de um encurtamento da vida (cf. Acta Apostolicae Sedis, XLIX [1957], 129-147). Hoje, depois de muitos anos de pesquisa, o encurtamento da vida já não é um efeito colateral frequente, mas a mesma questão volta a propor-se com fármacos novos, que agem sobre o estado de consciência e tornam possíveis diversas formas de sedação. O critério ético não muda, mas o empenho destes procedimentos requer sempre um discernimento atento e muita prudência. Com efeito, eles são bastante exigentes quer para os doentes, quer para os familiares, quer para quem dá assistência: com a sedação, sobretudo quando prolongada e profunda, é anulada aquela dimensão relacional e comunicativa que vimos ser crucial no acompanhamento dos cuidados paliativos. Por conseguinte, ela é sempre, pelo menos em parte, insuficiente, motivo pelo qual deve ser considerada como remédio extremo, depois de ter examinado e esclarecido com atenção as indicações.

A complexidade e a delicadeza dos temas presentes nos cuidados paliativos pedem que se continue a reflexão e se difunda a sua prática a fim de facilitar o acesso a eles: uma tarefa na qual os crentes podem encontrar companheiros de caminho em muitas pessoas de boa vontade. E é significativo que nesta perspectiva estejam presentes no vosso encontro representantes de diversas religiões e culturas, num esforço de aprofundamento e num compromisso partilhado. Também na formação dos agentes da saúde, de quem tem responsabilidades públicas e na inteira sociedade é importante que estes esforços sejam levados por diante juntos.

Ao recomendar que rezeis pelo seu ministério, o Santo Padre envia de todo o coração a Vossa Excelência e a todos os participantes no congresso a Bênção Apostólica. Uno os meus votos pessoais e confirmo-me com sentimentos de distinto obséquio.

 

Vaticano, 27 de Fevereiro de 2018.

 

 

 


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