TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A SALVAÇÃO EM CRISTO

 

 

 

 

† Mons. Luis Ladaria, S.I

† Mons. Giacomo Morandi

 

 

Com data de 22 de Fevereiro de 2018, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou, com a aprovação do Papa Francisco, a Carta “Placuit Deo” sobre alguns aspectos da salvação cristã.

Posteriormente, na Conferência de Imprensa de 1-III-2018, intervieram na apresentação da Carta o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, arcebispo Luis Ladaria, S.J., e o Secretário da mesma Congregação, arcebispo Giacomo Morandi, o primeiro sobre a parte antropológica e cristológica e o segundo sobre a parte eclesiológica.

Damos a seguir o texto das duas intervenções, como comentário autorizado da Carta. Tomado do site www.vatican.va, a tradução do italiano é da Redacção da CL.  

 

 

Intervenção de Mons. Luis Ladaria, S.I.

 

Depois da publicação de Dominus Iesus (2000), vários teólogos pediram à Congregação para a Doutrina da Fé que aprofundasse alguns aspectos já enunciados naquela Declaração, sugerindo um novo documento sobre a salvação cristã. Efectivamente, depois de ter aprofundado cuidadosamente esta importante questão, em colaboração com os Consultores da Congregação, é apresentada hoje a Carta Placuit Deo sobre alguns aspectos da salvação cristã.

A publicação desta Carta, dirigida aos Bispos da Igreja Católica e, em geral, a todos os fiéis, foi decidida pela Sessão Plenária da Congregação, realizada de 23 a 26 de Janeiro de 2018, e aprovada em 16 de Fevereiro de 2018 pelo Santo Padre que pediu que fosse publicada quanto antes. O documento pretende «destacar, na linha da grande tradição da fé e com especial referência ao ensinamento do Papa Francisco, alguns aspectos da salvação cristã que possam ser hoje difíceis de compreender por causa das recentes transformações culturais» (Cap. I, n. 1).

Quais são essas transformações culturais que ofuscam a confissão da fé cristã, a qual proclama Jesus como único e universal Salvador? O Santo Padre Francisco, no seu Magistério ordinário, com frequência faz referência a duas tendências que se assemelham, em alguns aspectos, a duas antigas heresias, o pelagianismo e o gnosticismo, embora seja grande a diferença entre o conteúdo histórico secularizado de hoje e o dos primeiros séculos cristãos.

Em particular, «nos nossos tempos prolifera um neo-pelagianismo em que o indivíduo, radicalmente autónomo, pretende salvar-se a si mesmo, sem reconhecer que ele depende, no mais profundo do seu ser, de Deus e dos outros. A salvação é então confiada às forças do indivíduo, ou a estruturas puramente humanas, incapazes de acolher a novidade do Espírito de Deus» (Cap. II, n. 3). Por outro lado, «um certo neo-gnosticismo apresenta uma salvação meramente interior, encerrada no subjectivismo. Pretende-se, assim, libertar a pessoa do corpo e do mundo material, onde já não descobrem vestígios da mão providente do Criador, mas apenas vêem uma realidade sem sentido, manipulável segundo os interesses do homem» (ib.).

A presente Carta pretende abordar essas tendências reducionistas que ameaçam hoje o Cristianismo e reafirmar que a salvação, segundo o desígnio da Aliança do Pai, consiste na nossa união com Cristo (cf. Cap. II, n. 4).

 

Gostaria agora de me deter brevemente sobre a parte antropológica e cristológica da Carta (cf. Cap. III-IV), deixando para o Secretário a tarefa de explicar a parte eclesiológica (cf. Cap. V-VI).

Hoje, a salvação ainda interessa ao homem? Sim, a nossa experiência, com efeito, ensina-nos que todo o homem está à procura da própria realização e felicidade. Com muita frequência esta aspiração coincide com a procura da saúde física, do bem-estar económico, da paz interior, de uma convivência pacífica. A este desejo positivo do bem, junta-se a luta contra todo o tipo de mal: a ignorância, a fragilidade, a doença, a morte (cf. Cap. III, n. 5).

Em relação a estas aspirações, a fé em Cristo ensina-nos – rejeitando toda a pretensão de auto-realização neo-pelagiana através da posse, do poder, da ciência ou da técnica – que nada de criado pode satisfazer totalmente o homem, porque Deus nos destinou à comunhão com Ele e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansa n’Ele, como escreve Santo Agostinho (cf. n. 6). O Santo Padre chama a estas tendências “neo-pelagianas” porque têm em comum com o pelagianismo o esquecimento da obra de Deus em nós.

Além disso, é necessário recordar que a origem do mal não se encontra, como ensinavam as antigas doutrinas gnósticas e hoje de certo modo são repropostas, no mundo material e corpóreo. «A fé proclama que o mundo inteiro é bom ... e que o mal que mais prejudica o homem é o que provém do seu coração» (n.7). A separação de Deus, por causa do pecado, leva à perda da harmonia entre os homens e dos homens com o mundo, introduzindo o domínio da desagregação e da morte. «Em consequência, a salvação que a fé nos anuncia não diz respeito apenas à nossa interioridade, mas ao nosso ser integral. É toda a pessoa, com efeito, em corpo e alma, que foi criada pelo amor de Deus à sua imagem e semelhança, e é chamada a viver em comunhão com Ele» (n.7). Segundo a fé cristã, não só a alma, mas também o corpo anseia pela salvação.

Para compreender mais a fundo a grande novidade de Cristo Salvador, ignorando essas tendências brevemente recordadas, é necessário recordar o modo como Jesus é Salvador: «Ele não se limitou a mostrar-nos o caminho para encontrar Deus, um caminho que poderíamos depois percorrer por nossa conta, obedecendo às suas palavras e imitando o seu exemplo. Em vez disso, Cristo, para nos abrir a porta da libertação, tornou-se Ele próprio o caminho» (Cap. IV, n. 11).

Jesus, o Filho incarnado do Pai, é o único Salvador. Ele «testemunha a primazia absoluta da acção gratuita de Deus» (n.9), mostrando a falta de fundamento da perspectiva neo-pelagiana individualista, porque a graça sempre precede, embora exigindo, a acção humana. Ao mesmo tempo, «através do agir plenamente humano do seu Filho, o Pai quis regenerar o nosso agir, de modo que, assimilados a Cristo, possamos realizar “as boas obras, que Deus preparou para nelas caminharmos” (Ef 2, 10)» (n. 9).

Também é claro que a salvação que Jesus trouxe não acontece de modo somente interior, de forma intimista e sentimental, como queria a visão neo-gnóstica. Com efeito, como o Filho se fez carne (cf. Jo 1,14), fazendo parte da família humana, “Ele uniu-se, de certo modo, a todo o homem” (Const. Past Gaudium et spes, n. 22) e estabeleceu uma nova ordem de relações com Deus, com o seu Pai e com todos os homens. Precisamente, no relacionamento com Deus e com os irmãos, encontra o homem a sua plena realização.

Espera-se que esta Carta possa ajudar os fiéis para que tomem mais consciência da sua dignidade como “filhos de Deus” (Rom 8, 16). A salvação não pode reduzir-se simplesmente a uma mensagem, a uma práxis, a uma gnose ou a um sentimento interior. Como escreveu Bento XVI: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas sim o encontro com um evento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e, com isso, a direcção decisiva” (n. 8; Encíclica Deus caritas est, n. 1).

 

Intervenção de Mons. Giacomo Morandi

 

Gostaria de apresentar brevemente a parte eclesiológica que encontramos nos capítulos V-VI da nossa Carta e que constitui um corolário do que foi dito anteriormente. Segundo a fé cristã, de facto, a salvação consiste em estar em comunhão com Cristo graças ao dom do seu Espírito, para poder unir-se ao Pai como filhos no Filho e tornar-se um só corpo no “primogénito entre muitos irmãos” (Rom 8, 29). Com efeito, o Senhor Jesus «é, ao mesmo tempo, o Salvador e a Salvação» (Cap. IV, n. 11).

Por outras palavras, devemos perguntar-nos: onde e como podemos receber esta salvação? «O lugar onde recebemos a salvação trazida por Jesus é a Igreja, comunidade daqueles que, tendo sido incorporados à nova ordem de relações inaugurada por Cristo, podem receber a plenitude do Espírito de Cristo (cf. Rom 8, 9). Compreender esta mediação salvífica da Igreja é uma ajuda essencial e indispensável para superar qualquer tendência reducionista» (n. 12).

Como nos recorda a Constituição dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, a Igreja é “o sacramento universal da salvação” (n. 48), é em Cristo “sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (n. 1). A Igreja não é somente e acima de tudo uma instituição humana. Ela está inseparavelmente unida a Cristo – como o corpo à Cabeça e a esposa ao Esposo. Ela, como novo povo que Deus convoca para si, é o lugar onde todos os homens de todos os tempos podem encontrar o Salvador e a Salvação. «A salvação que Deus nos oferece, de facto, não é alcançada apenas com as forças individuais, como quereria o neo-pelagianismo, mas através das relações que nascem do Filho de Deus incarnado e que formam a comunhão da Igreja» (Cap. V, n. 12). Por outro lado, uma vez que a graça que Cristo nos dá não é, como pretende a visão neo-gnóstica, uma salvação meramente interior, mas que nos introduz nas relações concretas que Ele mesmo viveu; incorpora-nos na Igreja que é uma comunidade ao mesmo tempo visível e invisível, na qual, quando nos aproximamos dos irmãos, especialmente daqueles que são mais necessitados, tocamos realmente a carne de Jesus. A salvação, por mediação da Igreja, consiste, portanto, «na incorporação numa comunhão de pessoas, que participa na comunhão da Trindade (n.12).

A visão individualista neo-pelagiana e a visão meramente interior neo-gnóstica contradizem abertamente também a economia dos sacramentos, por meio dos quais Deus quis salvar toda pessoa humana. «A participação, na Igreja, na nova ordem de relações inaugurada por Jesus realiza-se por meio dos sacramentos, entre eles o Baptismo que é a porta, e a Eucaristia que é a fonte e a culminação. Vê-se, assim, por um lado, a inconsistência das pretensões de auto-salvação, que contam apenas com as forças humanas. Pelo contrário, a fé confessa que somos salvos por meio do Baptismo, o qual imprime em nós o carácter indelével de pertencer a Cristo e à Igreja, donde deriva a transformação do nosso modo concreto de viver as relações com Deus, com os homens e com a criação (cf. Mt 28, 19). Assim, purificados do pecado original e de todo o pecado, somos chamados a uma nova vida em conformidade com Cristo (cf. Rom 6, 4)» (n. 13).

A economia dos sacramentos opõe-se também às tendências neo- gnósticas que propõem uma salvação meramente interior, entendida como libertação do corpo e das relações concretas em que vive a pessoa. Pelo contrário, «a verdadeira salvação, longe de ser libertação do corpo, inclui também a sua santificação (cf. Rom 12, 1). O corpo humano foi modelado por Deus, o qual inscreveu nele uma linguagem que convida a pessoa humana a reconhecer os dons do Criador e a viver em comunhão com os irmãos. O Salvador restabeleceu e renovou, com a sua Encarnação e o seu mistério pascal, esta linguagem originária e comunicou-a na economia corporal dos sacramentos. Graças aos sacramentos, os cristãos podem viver em fidelidade à carne de Cristo e, consequentemente, em fidelidade à ordem concreta de relações que Ele nos deu» (n. 14).

Quem encontrou Jesus Salvador é sempre missionário e vive de uma grande esperança. Por isso, a breve conclusão da Carta menciona a dimensão missionária e escatológica da vida cristã.

Enviada por Deus a todos os povos, a Igreja esforça-se por anunciar o Evangelho, a verdadeira Boa Nova da Salvação, a todos os homens. Conecta este anúncio com a disponibilidade de estabelecer um diálogo sincero e construtivo com os crentes de outras religiões, confiando em que Deus pode conduzir para a salvação em Cristo “todos os homens de boa vontade, em cujo coração a graça opera invisivelmente” (Gaudium et spes, 22).

Ao dedicar-se com todas as suas forças à evangelização, a Igreja invoca a vinda definitiva do Salvador, uma vez que “é na esperança, que fomos salvos” (Rom 8, 24). Contemplando este horizonte escatológico, sabemos que «a salvação do homem só será realizada quando, depois de ter vencido o último inimigo, a morte (cf. 1 Cor 15, 26), participarmos plenamente na glória de Jesus ressuscitado, que levará à plenitude a nossa relação com Deus, com os irmãos e com toda a criação. A salvação integral, da alma e do corpo, é o destino final ao qual Deus chama todos os homens. Fundados na fé, sustentados pela esperança, operantes na caridade, seguindo o exemplo de Maria, a Mãe do Salvador e a primeira dos que foram salvos, estamos certos de que “nossa cidadania está nos céus, de onde esperamos como Salvador o Senhor Jesus Cristo, o qual transfigurará o nosso miserável corpo, conformando-o com o seu corpo glorioso, em virtude do poder que Ele tem de submeter a si todas as coisas” (Filip 3, 20-21)» (n. 15).

 

 


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