A PALAVRA DO PAPA

CONFISSÃO SACRAMENTAL

E DISCERNIMENTO VOCACIONAL *

 

Queridos irmãos, bom dia!

 

Saúdo-vos a todos cordialmente, começando pelo Cardeal Mauro Piacenza, a quem agradeço as suas palavras. Saúdo toda a família da Penitenciaria Apostólica e os participantes no Curso sobre o Foro interno, que este ano, em vista do próximo Sínodo sobre os jovens, escolheu a relação entre Confissão sacramental e discernimento vocacional. Trata-se de um tema muito oportuno, que merece algumas reflexões que desejo compartilhar convosco.

Vós, confessores, especialmente vós futuros confessores, tendes a vantagem – por assim dizer – de ser jovens e, portanto, de poder viver o sacramento da Reconciliação como “jovens entre os jovens”; e, não raramente, a proximidade da idade favorece o diálogo também sacramental, por uma natural afinidade de linguagem. Isso pode constituir uma facilidade e é uma circunstância a ser vivida adequadamente, para a edificação de autênticas personalidades cristãs. No entanto, é uma condição não sem limites e até de riscos, porque estais no início do vosso ministério e, portanto, deveis ainda adquirir toda aquela bagagem de experiência que um “confessor consumado” tem, após décadas de ouvir os penitentes.

 

O confessor, instrumento de Cristo

 

Como viver, então, essa circunstância? Que atenções se deve ter ao escutar confissões sacramentais, sobretudo de jovens, também em vista de um eventual discernimento vocacional?

Em primeiro lugar, diria que é sempre necessário redescobrir, como afirma São Tomás de Aquino, a dimensão instrumental do nosso ministério. O sacerdote confessor não é a fonte da Misericórdia nem da Graça; é certamente o instrumento indispensável, mas sempre apenas instrumento! E quando o sacerdote se apodera disto, impede que Deus actue nos corações. Esta consciência deve favorecer uma vigilância cuidadosa sobre o risco de se tornar o “dono das consciências”, sobretudo na relação com os jovens, cuja personalidade ainda está em formação e, portanto, muito mais facilmente influenciável. Recordar que é, e deve ser, só instrumentos da Reconciliação é o primeiro requisito para assumir uma atitude de humilde escuta do Espírito Santo, que garante um autêntico esforço de discernimento. Ser instrumento não é uma diminuição do ministério, mas, pelo contrário, é a sua plena realização, pois, na medida em que desaparece o sacerdote e aparece mais claramente Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, realiza-se a nossa vocação de “servos inúteis”.

Em segundo lugar, é necessário saber escutar as perguntas, antes de dar as respostas. Dar respostas, sem se preocupar em escutar as perguntas dos jovens e, quando necessário, sem ter procurado suscitar perguntas genuínas, seria uma atitude errada. O confessor é chamado a ser um homem de escuta: escuta humana do penitente e escuta divina do Espírito Santo. Escutando verdadeiramente o irmão no colóquio sacramental, escutamos o próprio Jesus, pobre e humilde; escutando o Espírito Santo, colocamo-nos em obediência atenta, tornamo-nos ouvintes da Palavra e, portanto, oferecemos o maior serviço aos nossos jovens penitentes: pomo-los em contacto com o próprio Jesus.

 

O discernimento vocacional

 

Quando estes dois elementos ocorrem, o colóquio sacramental pode realmente abrir-se àquele caminho prudente e orante que é o discernimento vocacional. Todo o jovem deveria poder ouvir a voz de Deus, quer na sua consciência, quer através da escuta da Palavra. E neste caminho é importante que seja apoiado pelo acompanhamento sábio do confessor, que às vezes também pode tornar-se – a pedido dos próprios jovens e nunca autopropondo-se – pai espiritual. O discernimento vocacional é antes de mais uma leitura dos sinais, que o próprio Deus já colocou na vida do jovem, através das suas qualidades e inclinações pessoais, através de encontros realizados, e através da oração: uma oração prolongada, na qual se repetem, com simplicidade, as palavras de Samuel: “Fala, Senhor, porque o teu servo te escuta” (1 Sam 3,9).

O colóquio da Confissão sacramental torna-se, assim, uma ocasião privilegiada de encontro, para ambos, penitente e confessor, se colocarem à escuta da vontade de Deus, descobrindo qual possa ser o Seu projecto, independentemente da forma da vocação. Com efeito, a vocação não coincide, nem pode nunca coincidir, com uma forma! Isso levaria ao formalismo! A vocação é a própria relação com Jesus: relação vital e imprescindível.

Correspondem à realidade as categorias com as quais se define o confessor: “médico e juiz”, “pastor e pai”, “mestre e educador”. Mas, especialmente para os mais jovens, o confessor é chamado a ser sobretudo uma testemunha. Testemunha no sentido de “mártir”, chamado a com-padecer pelos pecados dos irmãos, como o Senhor Jesus; e, depois, testemunha da misericórdia, desse coração do Evangelho que é o abraço do Pai ao filho pródigo que regressa a casa. O confessor-testemunha torna mais eficaz a experiência da misericórdia, abrindo aos fiéis um horizonte novo e grande, que só Deus pode dar ao homem.

Queridos jovens sacerdotes, futuros sacerdotes e queridos Penitenciários, sede testemunhas da misericórdia, sede humildes escutas dos jovens e da vontade de Deus para eles, sede sempre respeitadores da consciência e da liberdade de quem se aproxima do confessionário, porque o próprio Deus ama a sua liberdade. E confiai os penitentes Àquela que é o Refúgio dos pecadores e Mãe da misericórdia. 

 

 

 

 



* Discurso aos participantes no Curso sobre o Foro interno, organizado pela Penitenciaria Apostólica (9-III-2018, tomado do site www.vatican.va.

Título, subtítulos e tradução do italiano da Redacção da CL.


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