CAUSAS DOS SANTOS

SANTOS E SUAS RELÍQUIAS

 

 

 

 

 

 

Cardeal Ângelo Amato

Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos

 

 

Dois documentos de 2017 incidem directamente nas actividades desenvolvidas pela Congregação para as Causas dos Santos: o Motu próprio “Maiorem hac dilectionem” (11-VII-2017) que reconhece a "oferta da vida" como novo caminho para a beatificação e canonização e a Instrução "As relíquias na Igreja: autenticidade e conservação" (8-XII-2017).

O Cardeal Angelo Amato falou sobre estes temas em entrevista concedida ao L’Osservatore Romano, publicada em Vatican News (5-I-2018).

 

 

̶ O Motu proprio  «Maiorem hac dilectionem» sobre a “oferta da vida” introduziu uma importante novidade no procedimento tradicional da Congregação. Já existem frutos destas mudanças no processo das causas de canonização?

Cardeal Amato: Talvez fosse conveniente precisar o conteúdo da “oferta da vida”, de que fala o documento. Para a actual legislação, antes do Motu proprio, os caminhos para a beatificação de um servo de Deus eram, salvo raras excepções, substancialmente dois: baseado na heroicidade das virtudes ou baseado no martírio. Agora acrescenta-se um terceiro caso, que diz respeito aos cristãos que, seguindo mais de perto as pegadas e os ensinamentos do Senhor Jesus, oferecem voluntaria e livremente a vida pelos outros, perseverando até à morte neste propósito. Até agora não existem causas de beatificação pautadas nesta modalidade.

̶ A que se deve isto?

Cardeal Amato: Penso que ainda se deve assimilar bem este terceiro caminho que, mesmo claramente diferente da heroicidade das virtudes e do martírio, contempla modalidades precisas de actuação. O Motu proprio, de facto, elenca cinco critérios que qualificam a “oferta da vida”. O primeiro e o mais importante requer a heróica aceitação propter caritatem de uma morte certa e em breve espaço de tempo. Não se trata, porém, de martírio, porque o martírio contempla o odium fidei por parte dos perseguidores. Obviamente, o Servo de Deus deve ter vivido de modo extraordinário as virtudes cristãs.

̶   Poderia citar algum exemplo?

Cardeal Amato: Poderiam entrar nesta modalidade – depois de um exame cuidadoso de cada caso – aqueles, por exemplo, que durante uma peste, contraem a doença assistindo por caridade os doentes e sucumbem contagiados pelo mesmo mal. Mesmo não sendo martírio, porque não existe um perseguidor que odeia a fé cristã, aqui estamos diante da oferta da própria vida usque ad mortem. Entrariam neste caso também aqueles cristãos – como bispos, párocos, missionários, médicos, educadores, militares, pais e mães de família – que se oferecem espontaneamente por um ato de caridade pessoal ou social de tal forma arriscado, que permite prever o sacrifício da vida como certo. Um exemplo poderia ser representado por aquelas mulheres grávidas cristãs que, para não prejudicar a criança que trazem no ventre, refutam os cuidados necessários para a saúde delas, iniciando assim uma morte prematura e certa. Heróico é também o gesto de um jovem, que assume livremente e por caridade cristã o lugar de um condenado à morte, pai de família com filhos pequenos. Entraria nesta modalidade também o caso de um capelão militar que, em vez de buscar salvar-se, continua a assistir o moribundo sob o fogo inimigo, até ser morto. Como se vê, os exemplos podem ser muitos e são analisados e documentados com extrema atenção.

̶  No passado, houve casos deste tipo?

Cardeal Amato: Certamente, mas foram tratados no âmbito das duas vias tradicionais. Por exemplo, Luiz Gonzaga (1568-1591) obteve dos seus superiores religiosos a permissão para dedicar-se à assistência dos doentes em Roma, sendo contagiado até morrer. Damião de Veuster (1840-1889), missionário nas Ilhas Hawai, ofereceu-se como voluntário para assistir os leprosos na Ilha de Molokai, onde contraiu o mal. Também a sua causa seguiu o caminho das virtudes. O mesmo se pode dizer de Gianna Beretta Molla (1922-1962), mãe de família e médica. Na terceira gravidez submete-se a uma difícil operação. O único pedido aos médicos foi: “Salvai a minha criatura”.  Uma semana após o parto morreu vítima do seu sacrifício para salvar a filha. Concluindo, o Motu proprio de Julho passado introduz oficialmente nos procedimentos das causas de beatificação um novo modelo de santidade canonizável, o do seguimento de Cristo na imitação de seu supremo acto de amor, como recita o Evangelho de João: “Ninguém tem maior amor do que quem dá a vida pelos próprios amigos”.

̶ Sabemos que a Instrução sobre as relíquias de 17 de Dezembro foi elaborada durante um longo período. A partir de que exigências ela nasceu?

Cardeal Amato: Da urgência de clareza sobre o significado, o valor, a autenticidade e a conservação das relíquias.

̶  O que são as relíquias e porque são veneradas na Igreja?

Cardeal Amato: Segundo a bilenária tradição cristã, as imagens e as relíquias dos Santos são tidas em grande consideração na Igreja. O motivo da sua veneração reside no facto de que o corpo dos Beatos e dos Santos foi na terra o templo vivo do Espírito Santo e o instrumento de sua santidade”.

̶  Existem diferentes espécies de relíquias?

Cardeal Amato: As relíquias subdividem-se em relíquias insignes e relíquias não insignes. São consideradas relíquias insignes o corpo inteiro dos Beatos e dos Santos ou parte notável do seu corpo ou todo o volume das cinzas derivado de sua cremação. Para assegurar a sua veneração e evitar eventuais abusos, elas devem ser  preservadas em urnas apropriadas, seladas e colocadas em locais que garantam a sua segurança e favoreçam o seu culto.

̶  O que se entende por relíquias não insignes?

Cardeal Amato: Trata-se de pequenos fragmentos dos corpos dos Beatos e dos Santos ou também de objectos que estiveram em contacto directo com eles. Também as relíquias não insignes, custodiadas em relicários selados, são objecto de honra e veneração.

̶  Quais são os aspectos particulares do documento?

Cardeal Amato: A Instrução é de grande utilidade para os bispos e os eparcas, porque oferece normas precisas relativas ao reconhecimento dos restos mortais dos Beatos e dos Santos, o traslado deles de um local a outro ou a uma eventual peregrinação de uma cidade ou nação para outra. Para todas estas operações, além da permissão das autoridades eclesiásticas e civis implicadas, é indispensável o consentimento da Congregação das Causas dos Santos.

 


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