ENTREVISTA

O NOVO PARADIGMA DO PAPA FRANCISCO

 

 

 

Cardeal Pietro Parolin

Secretário de Estado da Santa Sé

 

 

A viagem apostólica ao Chile e Peru, o Sínodo sobre os jovens, o Encontro mundial das famílias em Dublin e, ainda, o debate no mundo católico sobre a “Amoris laetitia” e a reforma da Cúria Romana. São os temas candentes da entrevista do Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, concedida em exclusiva ao Vatican News (11-I-2018).

O purpurado detém-se, particularmente, sobre as grandes expectativas que a Igreja tem em relação aos jovens, no ano que terá a realização do Sínodo dedicado à juventude, em Outubro próximo, precedido de um pré-Sínodo em Março.

Oferecemos aos nossos leitores a entrevista tomada de Vatican News.

 

 

Card. Parolin: Certamente, este ano – o ano 2018 – será caracterizado por uma especial concentração da atenção da Igreja em todos os seus níveis sobre os jovens, por conseguinte, sobre as suas expectativas, as suas aspirações, os desafios que devem enfrentar e também sobre as esperanças que trazem consigo, bem como sobre as fraquezas e os medos. Portanto, será um ano importante: o Papa já indicou isso também nos recentes discursos durante este período natalício. Creio que a coisa mais inovadora desta abordagem é a busca de uma nova relação da Igreja com os jovens, marcada por um paradigma de responsabilidade isento de todo e qualquer paternalismo. A Igreja quer entrar verdadeiramente em diálogo com a realidade juvenil, quer entender os jovens e quer ajudá-los. Ao mesmo tempo, gostaria de referir-me ao famoso discurso que John Kennedy fez quando da sua posse, no longínquo 1961, quando disse: “Vocês não devem perguntar o que o país pode fazer por vocês, mas perguntar o que vocês podem fazer, devem fazer pelo país”. Creio que seja esta, afinal de contas, também a abordagem inovadora, ou seja, a Igreja pergunta aos jovens; o Papa, a Igreja perguntam aos jovens o que podem fazer pela Igreja, que contribuição podem dar ao Evangelho, para a difusão do Evangelho, hoje! E creio que os jovens saberão responder a esse convite com a sua generosidade e também com o seu entusiasmo.

 

Vatican News: Naturalmente, os jovens evocam a família. No próximo mês de agosto, em Dublin, na Irlanda, vai-se realizar o Encontro mundial das famílias: um evento importante que tem lugar dois anos após a publicação de Amoris laetitia. Que balanço pode ser feito sobre a recepção deste documento e por que, a seu ver, suscitou um debate tão intenso no mundo católico?

Card. Parolin: Evidentemente, a Igreja, após a celebração dos dois Sínodos e a publicação da Exortação apostólica Amoris laetitia, colocou-se nessa direção. E com certeza também a celebração do Encontro mundial das famílias em Dublin será – penso – uma etapa importante porque é também o primeiro, afinal de contas, após a publicação do documento. Uma etapa de reflexão, uma etapa de aprofundamento e uma etapa também para levar adiante este processo de aplicação das indicações de Amoris laetitia. Também aí usaria, talvez, o mesmo termo utilizado antes, ou seja, de que afinal de contas Amoris laetitia nasceu de um novo paradigma que o Papa Francisco está levando adiante com sabedoria, com prudência e também com paciência. Provavelmente, as dificuldades que surgiram e que ainda existem na Igreja, além de alguns aspectos do conteúdo, tenham a sua razão de ser propriamente nessa mudança de atitude que o Papa nos pede. Uma mudança de paradigma, inerente ao próprio texto, que nos é solicitada: esse espírito novo, essa nova abordagem! Evidentemente, toda a mudança comporta sempre dificuldades – isso já era previsto – e estas devem ser enfrentadas com afinco, para encontrar respostas que se tornem momentos de ulterior crescimento, de ulterior aprofundamento. Também aí creio que Amoris laetitia, além de ser um abraço que a Igreja faz à família e aos seus problemas no mundo de hoje, possa ajudar realmente a incarnar o Evangelho no seio da família – que já é um Evangelho: o Evangelho da família –; é, ao mesmo tempo, também um pedido de ajuda às famílias a fim de que colaborem e contribuam para o crescimento da Igreja.

 

Vatican News: Em março próximo celebraremos o quinto aniversário da eleição do Papa Francisco. Um dos pontos fortes do Pontificado, como bem sabemos, é o processo de reforma da Cúria, e não só. A seu ver, como se poderá desenvolver esse processo no futuro próximo?

Card. Parolin: Evidentemente, já foram dados passos, notáveis passos avante. Já no ano passado, o Papa no discurso à Cúria elencava de certo modo todas as medidas adotadas, após estudo sobretudo por parte do Conselho dos cardeais do C9. Porém, parece-me que no discurso – e é algo que retorna constantemente no Magistério do Papa Francisco, quando se fala da Cúria – não se trata tanto de insistir nas reformas estruturais, com a promulgação de novas leis, de novas normas, nomeações e assim por diante; mas, sobretudo, no espírito profundo que deve animar toda e qualquer reforma da Cúria, e é a dimensão fundamental da vida cristã, ou seja, a conversão. Portanto, fazer de modo que a Cúria – sempre mais e melhor, livrando-se também daquelas sombras que possam ser de obstáculo para este empenho e esta missão – possa tornar-se realmente um auxílio ao Papa para anunciar o Evangelho, para testemunhar o Evangelho, para evangelizar o mundo de hoje. Insistiria mais uma vez sobre isso, embora se trate de um olhar de fundo, e não desça na concretização das reformas singularmente consideradas ou de cada mudança, que, porém, já houve e que continuarão. Estão em andamento outros aprofundamentos concernentes a restantes organismos da Cúria romana. Porém, essa é a perspectiva fundamental na qual nos devemos colocar e à qual o Papa continuamente nos chama, e gostaria de evidenciar isso.

 

Vatican News: O ano 2018 que está a começar será certamente também um ano de viagens apostólicas para o Papa Francisco. Dentro de poucos dias o Papa retornara à América Latina. A seu ver, qual o significado mais importante da visita ao Chile e Peru?

Card. Parolin: É sempre o encontro com as Igrejas, é sempre o encontro com a comunidade cristã. O Papa vai como pastor universal da Igreja para encontrar Igrejas locais; naturalmente, Igrejas que são particularmente vivas, particularmente ativas como a Igreja no Chile, como a Igreja no Peru, e que, por outro lado, se encontram também enfrentando numerosos desafios diante da realidade do mundo de hoje. Os desafios são muitos! Aceno dois, particularmente, que o Papa tem muito a peito. O primeiro é o desafio da população indígena; dos indígenas: e aqui refiro-me também ao Sínodo sobre a Amazónia, que foi convocado pelo Papa recentemente e que se realizará em 2019. Portanto, qual é o papel, qual é a contribuição dessas populações no seio de cada país, das suas sociedades, e para dar uma contribuição também a essas sociedades. Além disso, um tema muito sentido pelo Papa e sobre o qual tem abundado com palavras inclusive muito incisivas é o da corrupção, que impede o desenvolvimento e que impede também a superação da pobreza e da miséria. Creio que não será uma viagem simples, mas será realmente uma viagem muito interessante.

 

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial