A  abrir

A NOSSA RESSURREIÇÃO

 

 

 

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Porque não havemos de pensar na nossa ressurreição, se vamos ressuscitar? Como será? S. Paulo não estranha a pergunta; e até lhe responde: seremos tão diferentes como é a planta do seu germe (cf. 1 Cor 35-53). Tão diferentes como o homem é do seu feto. Os mesmos, mas desenvolvidos até à perfeição definitiva; e mais do que isso: glorificados. A partir daqui a imaginação já é totalmente incapaz de seguir a Revelação, sabendo nós embora, pela fé, que seremos dotados de tão altas capacidades como é superior o espírito à matéria.

Sabemos, porém, que não mudará a nossa natureza nem a nossa identidade. Nem sequer o nome, que «é nome de eternidade»; assim o diz o Catecismo (2159). Cada homem é ele mesmo para sempre, distinto de todos os demais e com nome individual; senão, como poderia amar e ser amado?

A pergunta sobre a nossa ressurreição não é fútil; é inevitável. E ao mesmo tempo excessivamente ambiciosa. Mas desistir dela, não podemos. Quem não sonhará com o seu futuro?

E que será da Terra, dos astros, do mundo, da matéria, dos animais, das plantas? Se o corpo ressuscita, por certo a matéria não será aniquilada, como o não foram o Santíssimo Corpo de Jesus nem o Imaculado Corpo de Maria. Temos confirmação expressa na Sagrada Escritura: haverá «um novo Céu e uma nova Terra», garante-nos S. Pedro (2 Ped 3, 13). Aliás, o homem é corpo e alma. Sem corpo, a alma, que tudo recebeu - conhecimentos e paixões – através dos sentidos, se agora é feliz no Céu, é-o também pela esperança da sua futura integridade, a reunião definitiva com o seu corpo. Ou somos capazes sequer de desejar, por toda a eternidade, uma pura felicidade espiritual? Nesse caso, seríamos mesmo «nós»? Quando no Credo confessamos crer na «ressurreição da carne», queremos dizer «do homem inteiro».

O feto não seria capaz de imaginar a vida fora do ventre materno, nem desejaria sair dele, tal como nos repugna a nós a morte; e, no entanto, aspiramos intensamente à paz que o mundo não dá (cf. Jo 14, 27). Aspiramos à felicidade autêntica e sabemos perfeitamente que não a conseguiremos aqui. Quem se contenta com o seu «sucesso na vida», mente. Mente a si mesmo. Chama felicidade a miúdas satisfações e a comparações ridículas com outros menos miseráveis, e projecta-se apenas na mera lembrança que dele retiverem os próximos defuntos. Vaidade pueril! Aqui só é feliz quem sabe, e porque sabe, que o vai ser; não quem se considera tal. Todas as bem-aventuranças o dizem: é bem-aventurado aquele que o há-de ser no Reino de Deus; não aquele que renuncia ao que o coração lhe pede e só anseia ficar por algum tempo na vaga memória de pobres mortais. Quem não espera a sua ressurreição não sabe porque vive nem para que vive.

 

 

 

 

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial