TEMAS LITÚRGICOS

Liturgia da Palavra: um diálogo com Deus

 

 

 

P. Pedro Boléo Tomé

 

 

Ainda recordo o entusiasmo, nos meus tempos de estudante de teologia, pela descoberta de que a liturgia da Palavra constitui um verdadeiro diálogo entre Deus e a assembleia celebrante. No seu manual «En el corazón de la Liturgia» o Prof. Félix Arocena apresentava casos em que se tornava patente este caráter dialógico. Deus Pai a falar no Antigo Testamento (primeira leitura) e a evidência como o salmo se tornava uma resposta nossa, inspirada sim, mas humana e tornada atual no momento celebrativo. Recordo ter lido com voracidade as páginas do seu manual, eletrizado com esta realidade. Tantos anos a assistir à Missa! Tantas horas a «ouvir» as leituras, ou a «responder» simplesmente ao salmo e, só naquele momento, percebia a evidência: é um diálogo! Deus fala-nos, nós respondemos e Ele continua a falar-nos, e nós assentimos e Ele fala-nos de novo. Sim, trata-se de um diálogo. Uma leitura em que Deus fala, a nossa resposta com o salmo e de novo outra leitura, e levantamo-nos porque, eis que chega Cristo para nos falar, e é pronunciado o Evangelho, e nós aclamamo-lo, e é-nos explicado e aplicado à vida e nós fazemos nossa esta palavra divina com o silêncio e com os cânticos e a ela aderimos pela profissão de fé.[1]

Um diálogo que se deu na História e que se torna presente e atual quando, na liturgia, a Palavra é pronunciada. O Antigo Testamento é compreendido à luz do Novo Testamento e este adquire relevo, profundidade com a leitura daquele. E, precisamente quando compreendemos melhor a história da Salvação e o desígnio de salvação de Deus por nós, vislumbramos a mão de Deus no «hoje».[2]

Mais surpreendido fiquei quando reparei que se trata de algo bem conhecido. A IGMR descreve a Liturgia da Palavra como verdadeiro diálogo entre Deus e o povo: «nas leituras, comentadas pela homilia, Deus fala ao seu povo (SC 33), revela-lhes o mistério da redenção e salvação e oferece-lhe o alimento espiritual. Pela sua palavra, o próprio Cristo está presente no meio dos fiéis (SC 7)».[3]

 Efetivamente, o Catecismo da Igreja Católica afirma que «toda a ação litúrgica, especialmente a celebração da Eucaristia e dos sacramentos, é um encontro entre Cristo e a Igreja».[4] E, não se fica por aqui, pois fala mesmo desse diálogo litúrgico: «toda a celebração sacramental é um encontro dos filhos de Deus com o seu Pai, em Cristo e no Espírito Santo, e tal encontro expressa-se como um diálogo, através de ações e palavras».[5]

Ainda há pouco, mostrava a um grupo de jovens um vídeo catequético realizado pela «Outside da Box» e pela diocese de Wheeling-Charlston (Pensilvânia), em que, de forma original e divertida, se ajuda um rapaz que assiste à Eucaristia a «dar-se conta» do que se está a realizar sacramentalmente. [6] No momento em que se pronuncia o evangelho ele é transportado até à estrada entre Jerusalém e Emaús e, ali, distingue Jesus com dois dos seus discípulos.[7] Embrenha-se na narração e, de repente, reaparece na sua igreja na Pensilvânia. Surpreendido, exclama: «Jesus está na minha igreja!». Ao que o seu Anjo da Guarda responde com ironia: «Chocante, não?».

 Trata-se de um momento cómico do filme, mas idealizado para fazer pensar aquele que ri. Sim, Jesus está na minha igreja, não só sobre o altar depois da consagração, mas também quando me fala na liturgia da Palavra.

Uma pessoa amiga comentava-me uma formação litúrgica que tinha feito na sua paróquia. O formador explicara que na Eucaristia existem duas mesas: a mesa do Pão e a da Palavra. E referia que todos temos imenso cuidado com o Pão eucarístico, para que não caia nenhum pedaço. O que está muito bem! Mas questionava-se: e porque não temos o mesmo cuidado com os pedaços que deixamos cair da mesa da Palavra?

Aquela pessoa terminava dizendo: - «Aquilo ajudou-me. Nunca tinha pensado nisso! E agora, tenho-me esforçado para ver se não deixo cair tantos pedaços

Perante tudo isto que se afirmou, parece claro que a «liturgia da Palavra não é uma aula ou um momento de meditação, mas uma conversa de Deus connosco e de nós com Deus».[8] É um encontro com o Deus vivo que quer fazer parte da minha vida.

Efetivamente, a liturgia tem a capacidade de tornar presentes e atuais as palavras passadas, porque Cristo está vivo e continua a fala-nos e serve-se precisamente da Palavra. Assim o refere Bento XVI na exortação pós-sinodal Sacramentum caritatis: «a palavra que anunciamos e ouvimos é o Verbo feito carne (Jo 1, 14) e possui uma referência intrínseca à pessoa de Cristo e à modalidade sacramental da sua permanência: Cristo não fala no passado, mas no nosso presente, tal como Ele está presente na ação litúrgica».[9]

Daí a importância do Evangelho do dia e das restantes leituras. Jesus, torna-se presente na liturgia e fala-nos. Mais, fala a toda a Igreja. Que maravilha que em toda a Igreja se leiam as mesmas leituras! Isso une-nos neste diálogo com Céu. Foi uma ideia que me ficou marcada da minha formação para o sacerdócio: a importância e o valor que deveríamos dar à Palavra pronunciada na liturgia. E sugeriam-nos que, a ser possível, a utilizássemos nas pregações (retiros, recoleções, etc.). Que esse fosse o ponto de partida: «que diz hoje Jesus à sua Igreja?»

É provável que tenhamos muitas experiências deste encontro com Jesus na liturgia da Palavra e de Cristo nos falar hoje, para as nossas circunstâncias concretas e atuais, com as palavras que pronunciou há 2000 atrás. Recordo o caso de uma pessoa que passava por um momento de especial angústia e procurou um amigo com o qual desabafou e a quem pediu auxílio. Este, depois de a ouvir e consolar, deu-lhe alguns conselhos. Entre eles, recomendou-lhe que assistisse com mais regularidade à Santa Missa. Certo dia, durante a liturgia da Palavra, deparou-se com uma passagem muito conhecida, mas, pela primeira vez, viu um possível significado que nunca antes tinha vislumbrado e que era como que a resposta para o estado daquela alma em trevas. Pensou: «espero que hoje vá à Missa!» Foi grande a sua alegria quando, ao final da tarde, recebeu uma mensagem dizendo: «Viste o que se diz na Missa hoje? As leituras pareciam ter sido escritas para mim! Já as li tantas vezes e nunca as tinha lido assim». Jesus tinha-lhe dado um sentido e uma consolação para aquela terrível provação. Uma mensagem que dizia com palavras suas o que o Missal romano afirma: «a Palavra de Deus, exposta continuamente na liturgia, é sempre viva e eficaz pelo poder do Espírito Santo, e manifesta o amor operante do Pai».[10]

 

 

 



[1] Cfr. IGMR 55

[2] Cfr. MISSAL ROMANO, Ordenamento das leituras da Missa, n. 5.

[3] IGRM n. 55.

[4] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA n. 1097.

[5] Ibíd. n. 1153.

[6] OUTSIDE DA BOX, The road to Emaus. 2013.

[7] Cfr. Lc 24, 13-35.

[8] SILVESTRE, J.J., La Santa Misa, el rito de la celebración eucarística, RIALP, 2015, p. 91.

[9] BENTO XVI, Sacramentum caritatis, n. 45

[10] MISSAL ROMANO, Ordenamento das leituras da Missa, n. 4.


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